20 Jun, 2024

Famílias têm de fazer “escolhas impossíveis” quando têm parente internado por razões sociais, diz APAH

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) afirmou que as famílias têm de “fazer escolhas impossíveis” quando têm um familiar internado inapropriadamente, acabando, por vezes, por optar pela “única saída”, que é deixá-lo no hospital.

“Isto é uma situação que nos angustia tremendamente”, disse Xavier Barreto na comissão parlamentar de Saúde, onde foi ouvido na passada quarta-feira sobre o 8.º Barómetro de Internamentos Sociais.

Xavier Barreto respondia a questões levantadas pelo deputado Mário Amorim Lopes sobre o abandono de doentes nos hospitais pelas famílias. “Existem situações de abandono, e naturalmente têm que ser endereçadas, mas recusamos desde o início esta ideia de que os internamentos sociais se devem essencialmente a um desinvestimento das famílias nos seus familiares”, defendeu.

Xavier Barreto disse que não é isso que os profissionais vêm no dia-a-dia, mas sim “uma angústia tremenda” das famílias que queriam ter condições para levar o seu familiar para casa e não conseguem. “Quase sempre o quadro é o mesmo. São pessoas idosas, (…) muitas vezes com problemas de rendimentos, e as famílias têm de fazer escolhas impossíveis”, lamentou.

Segundo o presidente da APAH, há pessoas que têm de decidir se deixam de trabalhar e ficam sem dinheiro para pagar a renda e para tratar dos seus filhos, ou acolhem o pai ou a mãe em casa. Também tentam a reposta “mais difícil”, que é institucionalizar o doente, e como não conseguem “optam pela única saída que tem que é deixar a pessoa no hospital”, ilustrou.

Xavier Barreto alertou também para o problema dos cuidadores informais, que se estima serem mais de um milhão em Portugal, mas que apenas cerca de 14 mil pessoas têm esse estatuto reconhecido e, destes, menos de metade recebe apoio financeiro”, cerca de 350 euros por mês, o que considerou ser “absolutamente insuficiente”.

Segundo o barómetro, o Serviço Nacional de Saúde tinha, a 20 de março, 2.164 camas ocupadas com internamentos sociais, mais 11% face ao mesmo período de 2023, com um custo de mais de 68 milhões de euros para o Estado.

Para Xavier Barreto, são números “muito preocupantes” que se devem à falta de “uma melhor resposta noutro nível de cuidados”, nomeadamente em estruturas residenciais para idosos (ERPI) e na Rede Nacional de Cuidados Continuados (RNCCI).

O responsável salientou que esta situação tem “um impacto enorme” nos hospitais, fazendo aumentar as listas de espera. “Falamos muitas vezes em dezenas de doentes que aguardam nos serviços de urgência para serem internados, por exemplo. Isto é muito frequente durante os períodos mais críticos, particularmente durante o inverno, e acontece porque muitos doentes estão à espera de uma destas camas que estão ocupadas com doentes que não deviam lá estar”, disse.

Xavier Barreto adiantou que os internamentos sociais também têm consequências para os doentes que estão internados inapropriadamente, como as infeções hospitalares. “Destes 2.164 doentes, podemos estimar que provavelmente 10% deles (216) vão ter uma infeção hospitalar, e muito provavelmente alguns deles já não saem do hospital (…). Isto é gravíssimo”, afirmou, sublinhando que são doentes que são internados por uma condição clínica que seria facilmente resolvida, como uma fratura.

Adiantou que a média de dias de internamento apurada no inquérito é de 175 dias, mas há doentes que ficam um ano no hospital à espera de uma resposta de uma cama de retaguarda, seja num lar ou na RNCCI.

“Acho que nos deve alarmar a todos, além do impacto orçamental muito significativo”, frisou, considerando que esta situação deve levar a uma reflexão sobre onde o dinheiro é mais bem empregue, se nos internamentos inapropriados, ou se num reforço de outro tipo de respostas para estes doentes.

LUSA

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