“Existe uma relação bidirecional entre obesidade e várias perturbações mentais”
A pessoa com obesidade apresenta maior risco de vir a sofrer de alguma perturbação mental, por causa do estigma associado à doença, como realça a psiquiatra e psicoterapeuta Inês Neves Caldas. Especializada em doenças do comportamento alimentar, alerta que o sofrimento psicológico dos doentes pode ser confundido com “falta de motivação”.

Qual o impacto da obesidade na saúde mental e quais as perturbações psiquiátricas mais comuns em doentes com obesidade?
Antes de mais, acho importante esclarecer que a obesidade não é uma perturbação psiquiátrica. É uma condição médica complexa que, no entanto, tem um impacto profundo na saúde mental. Sabe-se hoje que existe uma relação bidirecional entre obesidade e várias perturbações mentais: por um lado, a obesidade aumenta o risco de desenvolver depressão, perturbações de ansiedade e perturbações do comportamento alimentar (em especial a perturbação de ingestão alimentar compulsiva), por outro, essas mesmas perturbações podem contribuir para o aumento de peso e para a dificuldade em perdê-lo, criando um ciclo difícil de quebrar.
Para além dos fatores biológicos, o estigma associado ao peso tem um papel determinante. As pessoas com obesidade enfrentam frequentemente discriminação e comentários negativos, e muitas acabam por internalizar esses preconceitos, vendo-se a si próprias como “preguiçosas” ou “sem força de vontade”. Essa autocrítica agrava o sofrimento psicológico e reduz a autoestima.
Que tipo de cuidados são necessários quando se prescrevem medicamentos a estes doentes, já que alguns fármacos podem contribuir, nalgumas pessoas, para o aumento de peso?
Sempre que existam medicamentos com eficácia semelhante, mas com menor risco de se associarem ao aumento de peso, deve dar-se preferência a estes. Felizmente, hoje existem várias alternativas seguras e eficazes e o risco de aumento de peso não deve ser um impedimento ao tratamento. A decisão terapêutica deve ser partilhada com a pessoa, explicando os potenciais efeitos dos fármacos sobre o peso e discutindo alternativas sempre que possível. Paralelamente, é benéfico recomendar estratégias de estilo de vida saudável, como a prática regular de atividade física, que podem ajudar não só a reduzir o risco de aumento de peso, mas também a melhorar os sintomas da perturbação mental.
“É fundamental trabalhar também a regulação emocional, ajudando a pessoa a reconhecer o que sente e a desenvolver outras estratégias para lidar com essas emoções”
O tratamento em si também tem em conta a ‘fome emocional’?
A chamada ‘fome emocional’ refere-se ao ato de comer em resposta a emoções desagradáveis, como tristeza, ansiedade ou tédio, e não por verdadeira fome física. Envolve, sobretudo, alimentos muito saborosos, como doces ou fast food. Por si só, não é necessariamente um problema; o que preocupa é quando comer se torna a única forma de lidar com as emoções.
Nem todas as pessoas com obesidade apresentam este padrão, mas sabe-se que a ‘fome emocional’ é mais frequente neste grupo. Por isso, quando se identifica este comportamento, o tratamento não deve centrar-se apenas na alimentação ou na perda de peso. É fundamental trabalhar também a regulação emocional, ajudando a pessoa a reconhecer o que sente e a desenvolver outras estratégias para lidar com essas emoções.
Na sua opinião, a Psiquiatria é reconhecida como uma mais-valia para as equipas multidisciplinares de obesidade ou ainda é preciso haver melhorias neste âmbito?
A Psiquiatria é, de facto, uma mais-valia nas equipas multidisciplinares que tratam a obesidade. O envolvimento de psiquiatras e psicólogos é fundamental, dado o impacto que a saúde mental tem na obesidade, e vice-versa. Como já referi, é comum encontrar perturbações como depressão, ansiedade ou perturbações do comportamento alimentar neste contexto. Uma abordagem integrada permite compreender melhor cada caso, promover a adesão ao tratamento e reduzir o estigma associado ao peso.
Apesar dos progressos, na minha opinião, ainda há muito a melhorar. Em muitos contextos, a Psiquiatria ainda não está plenamente integrada nestas equipas, e o sofrimento psicológico pode passar despercebido ou ser confundido com “falta de motivação”. Também nem sempre é feito o despiste adequado de perturbações psiquiátricas que podem agravar o quadro, como a depressão ou a perturbação de ingestão alimentar compulsiva.
O ideal seria reforçar a colaboração entre especialidades e implementar estratégias que considerem todas as vertentes da saúde da pessoa.
Maria João Garcia
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