20 Out, 2020

Eliminação da Hepatite C. “É preciso um plano concreto, com verbas atribuídas”

Em entrevista, o gastrenterologista diz que Portugal está mais atrasado do que outros países europeus na eliminação do VHC e defende que é preciso "retomar o esforço".

Qual a importância da consulta descentralizada no INMouraria?

É trazer os cuidados que dispensamos no hospital até um local onde os doentes se sentem confortáveis. Conseguimos aqui fazer tudo o que se faz a nível hospitalar (temos médicos, equipamentos, técnicas) e os doentes deixam de ter de se deslocar ao hospital, que é um ambiente hostil para esta população vulnerável.

É uma população que tem muitas dificuldades em aderir aos cuidados de saúde, por vários motivos: desapoio familiar, integração social, etc. Há uma série de barreiras burocráticas que são impostas (marcações de consultas, aguardar vez na sala de espera, aguardar pelos exames).

Até que ponto iniciativas como esta são fundamentais na eliminação da doença?

É de todo impossível pensar em eliminar a Hepatite C sem medidas fora da caixa, que vão de encontro às necessidades da população. Sabendo nós que o grosso dos infetados está nas populações mais excluídas, temos de encontrar estratégias de lhes fazer chegar os cuidados e a medicação. Não podemos ficar à espera que venham ter connosco.

[A eliminação] terá de ser feita com somatórios de micro-eliminações, com cuidados dirigidos à população e rastreios.

Defende um rastreio generalizado em Portugal?

Não, porque não temos dados que nos indiquem que é economicamente viável. A relação custo-benefício pode não suportar isso. Sabemos que a população infetada tem, maioritariamente, mais de 50 anos e é do sexo masculino, o que está relacionado com o uso de droga nos 80 e 90. Poderemos limitarmo-nos ao rastreio nesta população e aí já encontraremos uma prevalência de infeção seguramente maior e com boa relação custo-benefício.

Espera encontrar nesta consulta um grande número de pessoas já com doença avançada?

Espero encontrar, tal como os doentes que temos visto nos últimos anos nos hospitais, 20 a 25% dos casos com cirrose. Se tratarmos nessa fase, conseguimos travar a progressão da doença, reduzir o risco de tumor no fígado. É preferível tratar um doente com cirrose do que não tratar.

O tratamento de todos estes doentes não é só bom para os próprios mas também para a sociedade. Numa perspetiva económica, temos bem calculados os custos que advêm da doença avançada. Por isso, este é um investimento para pouparmos recursos daqui a 10 ou 20 anos.

Acredita na eliminação da Hepatite em Portugal até 2030?

Acredito mas creio que estamos mais atrasados em relação a outros países europeus. Até 2030 penso que iremos conseguir mas há modelos que mostram que seria possível fazer a eliminação até 2025.

Tivemos um arranque muito rápido e tem havido um cansaço económico e não só. Há que retomar o esforço e isso não se faz com medidas avulsas. Precisamos de um plano. Falta um plano. Existem boas intenções mas é necessário um plano concreto, com verbas atribuídas, com metas.

SO/LUSA

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