12 Jan, 2026

Dois terços das pessoas com cancro já não morrem da doença

“Todos os anos aumenta muito o número de cancros, mas as pessoas que morrem por cancro não têm aumentado. Isto significa que melhoramos, todos os anos, a taxa de controlo”, explicou o patologista Sobrinho Simões.

Dois terços das pessoas com cancro já não morrem da doença

Dois terços das pessoas que desenvolvem cancro já não morrem da doença, mas não existe nem existirá uma vacina contra o cancro, pelo que a aposta deve continuar a ser feita no rastreio, na prevenção, no controlo e na informação, afirmou o investigador Manuel Sobrinho Simões.

Em declarações à agência Lusa, a propósito da quinta edição do ciclo “Tratar o Cancro por Tu”, o diretor do IPATIMUP – Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto sublinhou que, apesar do aumento anual do número de casos de cancro em todo o mundo, a mortalidade não tem acompanhado essa tendência.

“Todos os anos aumenta muito o número de cancros, mas as pessoas que morrem por cancro não têm aumentado. Isto significa que melhoramos, todos os anos, a taxa de controlo”, explicou o patologista, distinguindo entre cura e controlo da doença. “Não podemos falar em cura, mas falamos em controlo, e isso é muito importante.”

Sobrinho Simões rejeitou a ideia de uma futura “cura do cancro” ou de uma vacina universal, sublinhando que cada doente e cada tipo de cancro têm características próprias. “O que vai aparecer são cada vez mais situações que conseguimos controlar. Não é a mesma coisa do que uma vacina”, afirmou.

O investigador defendeu ainda que o esforço da comunidade científica passa por tornar os cidadãos mais conscientes da doença e do papel que podem desempenhar, nomeadamente através de mudanças no estilo de vida, como a alimentação, com o objetivo de transformar o cancro, sempre que possível, numa doença crónica.

Apesar de a palavra cancro continuar a ter “uma ressonância muito assustadora” em Portugal, Sobrinho Simões destacou os progressos em áreas concretas, como o cancro da mama, onde cerca de 70% das pessoas já não morrem da doença.

No âmbito do ciclo, pretende-se esclarecer que muitas doenças designadas genericamente por cancro podem ser tratadas, curadas ou controladas ao longo do tempo. Ainda assim, o investigador alertou que apenas cerca de 40% dos casos podem ser antecipados através do rastreio, embora também nos restantes 60% se registem avanços significativos no controlo da doença.

Sublinhou igualmente que a maioria dos cancros não é hereditária. “É uma doença genética, porque envolve alterações genéticas nas células, mas em 90% dos casos essas alterações não são herdadas dos pais”, explicou, apontando o tabaco como exemplo de um fator de risco que induz mutações genéticas, mas não transmissíveis.

Com 24 sessões já realizadas, que envolveram mais de 3.500 participantes em 15 cidades, o IPATIMUP dá agora início a uma nova edição de “Tratar o Cancro por Tu”, centrada na prevenção, deteção precoce e tratamento do cancro. O ciclo arranca na terça-feira, em Matosinhos, e prolonga-se até 12 de março, passando ainda pela Guarda, Évora, Viana do Castelo, Guimarães e Angra do Heroísmo.

A sessão inaugural conta com a presença da diretora da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC), Elisabete Weiderpass, que alerta para os desafios que a Europa continua a enfrentar no surgimento de novos casos. Segundo a responsável, falar com os cidadãos “com clareza, empatia e verdade” é essencial para quebrar tabus e reforçar a prevenção e o controlo da doença.

SO/LUSA

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