Dia Mundial do Coração. Pequenos hábitos, grandes mudanças
Professora Associada de Nutrição na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa Nutricionista com especialidade em Nutrição Clínica no Grupo Luz Saúde

Dia Mundial do Coração. Pequenos hábitos, grandes mudanças

As mudanças de hábitos que conseguem persistir são as que realmente parecem ter impacto na prevenção. Mudar comportamentos por um ou 2 meses é o mesmo que nada. Enuncio cinco pequenos hábitos que devem constar em qualquer padrão alimentar que vise prevenção de doença cardiovascular/evento cardiovascular (DCV).

1 – Escolher o azeite extra virgem como gordura de eleição, mesmo para barrar o pão e não só para cozinhar. É sem qualquer dúvida a gordura que mais benefícios confere neste contexto clínico. É, no entanto, importante referir que, como qualquer gordura, o azeite apresenta um valor calórico associado e a dose tem de ser controlada, caso contrário vai originar de forma gradual excesso de peso.

2 – Ingerir regularmente pelo menos cinco porções de frutos e legumes. Ter sopa no início da refeição ajuda a este alcance, que para além de micronutrientes importantes leva a um maior consumo de fibra, que também é benéfica para a prevenção de DCV e eventos cardíacos. A sobremesa doce ou o iogurte, em vez da fruta, no final da refeição são ambas más escolhas.

3- Não incluir no seu dia a dia o sal como tempero, habitue-se o palato a ervas e especiarias, que parecem ter propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

4 – O quarto hábito será potenciar o consumo de peixe e reduzir o de carne, em especial os enchidos e a carne processada. Estes são ricos em gordura e em sal, ambos potenciadores dos fatores de risco como dislipidemia ou hipertensão.

5 – E, por fim, escolher a água em vez do vinho ou refrigerantes. Com aromas, sem aromas, fria, gelada ou morna… o que interessa é que beba.

Resumindo: escolher só azeite, verificar se consumiu 5 porções de frutas e vegetais (na sopa ou a acompanhar o prato), potenciar o peixe da dieta, excluir o sal de adição e os produtos salgados na dieta e, por fim, a água ser sempre a bebida de eleição.

Existem vários fatores que podem contribuir para a resistência de mudança de hábitos, mas o principal é a urgência. Na vida agitada que vivemos, atualmente, é exigida uma rapidez em tudo o que fazemos. Não queremos/podemos esperar muito tempo para nada. E na comida passa-se o mesmo. Queremos soluções rápidas. E embora não sendo sinónimo de pouco saudável, a verdade é que as refeições pré-confecionadas e o fast food estão recheadas de açúcar, gordura saturada e trans e sal.

Para além disso, os resultados das mudanças de estilo de vida só ocorrem se os hábitos forem persistentes e duradouros e, mais uma vez, aqui queremos urgência de resultados.

Espera-se sempre resultados rápidos, “se não for rápido é porque não tem efeito”… E nisso não há dúvida, a resposta dada pela toma de um medicamento é sempre mais célere do que os resultados vindos de uma mudança de estilos.

Não desvalorizando como é óbvio o papel da terapêutica farmacológica, que é inquestionável, esta urgência de resultados rápidos leva-nos a mais medicamentos em vez de se investir na mudança consistente de estilos de vida.

Parece ser uma mudança impossível, mas não é. Neste contexto , há bons exemplos de médicos (muitas vezes mais jovens e mais sensíveis ao papel dos estilos de vida) que utilizam na sua consulta escalas muito rápidas que os doentes podem preencher na sala de espera. Desta forma conseguem orientações muito concretas sobre alguns hábitos.

A escala que avalia a adesão à dieta mediterrânica , por exemplo, tem apenas 14 perguntas de resposta ‘Sim’ ou ‘Não’. O doente preenche-a em 3 minutos e o médico fica com a noção da quantidade diária de gordura, pastelaria, álcool… Com base nesses dados, o médico identifica os comportamentos menos corretos e evita chavões como: “deve perder peso”,deve consumir cozidos e grelhados”… missivas zero efetivas.

Estes chavões dão ao médico a falsa sensação que abordou o tópico na consulta, mas a efetividade é zero. É desejável que o médico tenha noções básicas de Nutrição (é isso que se espera de um médico que lida com doenças crónicas) e que as consiga transpor para o doente com exemplos práticos e reais.

Por exemplo, o doente que bebe um bom copo de sumo natural, saberá ele que está a consumir aproximadamente o equivalente a 3 pacotes de açúcar ou quando pede diariamente um refrigerante para o seu lanche saberá ele que está naquele instante a ingerir o equivalente a um copo com 6 pacotes de açúcar? E o gelado no final da refeição que pode equivaler a 2 pacotes de manteiga (aqueles do restaurante) e 4 pacotes de açúcar?

Os médicos têm muito pouco tempo para abordar todas estas questões, mas utilizando técnicas práticas que cheguem ao doente, vão tornar a sua intervenção mais efetiva, o que a médio-longo prazo trará melhores hábitos e com isso menos vindas ao médico.

 

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