Médica Interna de MGF

Como travar esta Epidemia?

Tenho a percepção incómoda de que esta epidemia tem refletido uma enorme crise na Humanidade. Nos últimos dias tenho assistido a debates acesos em relação à necessidade de rastrearmos toda a população procurando todos os SARS-CoV2 positivos, sendo aparentemente apoiada por muitos como a única forma verdadeiramente eficaz de combatermos a disseminação desta doença. Deixa-me profundamente consternada que um resultado num papel assuma uma força que suplante as recomendações de um governo e as recomendações de todos aqueles que se têm mantido firmes na linha da frente. O dom da palavra perdeu-se e isso revela uma humanidade igualmente perdida e desnorteada. Na medicina moderna, a fossilização da liturgia do ato médico é assustadora e altamente redutora para todos os que a praticam. 

As medidas de isolamento repetem-se a cada minuto nos órgãos de comunicação social e ainda assim se vêm pessoas na rua! Se a proximidade mo permitisse gostava de poder dizer ao ouvido a todos com os quais me cruzo no caminho para mais um dia de “luta” que aquele desnecessário “passeizinho” ou aquela prescindível “confraternizaçãozinha” poderá culminar com um necessário “suportezinho ventilatório” ou, caso este já não exista, com uma triste e irreversível “viagenzinha de ida sem regresso”. 

Queridos coabitantes do meu País a isto chama-se desrespeito absoluto pelos órgãos de soberania! A isto chama-se completo desconhecimento do que é o dever cívico! A isto chama-se desrespeito por todos os profissionais que por “verdadeiro amor à camisola” (porque nenhum valor vale a nossa vida) continuam, de forma aparentemente parva (aos vossos invisíveis olhos) a tentar travar aquilo que quase ninguém acredita poder ter um fim. 

Querido Dr. Mário Centeno, se não se importar de despender alguns milhões de euros para comprar testes para toda a população ficar-lhe-ia muitíssimo agradecida, já que nos nossos 10 milhões uma importante parte, sobretudo os assintomáticos, continua a olhar para esta situação de uma forma perfeitamente leviana, e ao que tudo indica será o Major Cotonete o melhor comandante para esta “operação militar”. Pergunto a todos os que firmemente se posicionam na defesa desta tese se não deveríamos, na fase que atravessamos, preocuparmo-nos um pouco em munir os nossos subordinados soldados, entendam-se todos os profissionais de saúde, com material de proteção pessoal que nos permita continuar no campo de batalha até ao fim e sem “baixas”! 

Infelizmente não há vacina nem tratamento para a desumanidade! E se a desumanidade se transformar num vírus espero que em momento algum os profissionais de saúde se deixem infetar, caso contrário todos os que nesta fase orgulhosamente se passeiam nas ruas sem qualquer pensamento no próximo terão, infelizmente, de ver uma atitude semelhante por parte do próximo que cerebralmente omitiram do vosso pensamento de forma negligente nesta fase. Nunca se esqueçam que, numa fase em que vos pedimos o mínimo e de forma petulante nem este nos concedem nunca nos poderão exigir, quando de nós precisarem no futuro, o máximo! Nunca se esqueçam que esta tempestade só vai passar com a ajuda de todos nós! 

Woody Allen escreveu “mais do que em qualquer outra época, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva ao desespero absoluto. O outro, à total extinção. Vamos 

rezar para que tenhamos a sabedoria de saber escolher.” Acredito que ter de ficar em casa rapidamente se transforme num desespero absoluto! Gostava que convictamente pensassem que o caminho alternativo nos poderá conduzir à extinção! 

Não sei o que nos espera mas sei o que me preocupa: é que na nova medicina seduzida pela teconologia dos testes e dos exames vamos deslizando para uma medicina em que curamos com computadores e onde miseravelmente a “casca conta mais que o miolo”.

 

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