O Carcinoma Urotelial é um tumor raro, que corresponde a menos de 10% das neoplasias do trato genito-urinário. A maioria ocorre em bexiga (mais de 90%). Falámos com o Prof. Dr. Vítor Sousa, Professor Auxiliar de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e Assistente Graduado de Anatomia Patológica no Serviço de Anatomia Patológica do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Quais os principais sintomas provocados pelo Carcinoma Urotelial, a que as pessoas devem estar atentas?

Os sinais e sintomas mais frequentes, no contexto do Cancro da Bexiga, são a hematúria (presença de sangue na urina), dor ou ardor miccional (ao urinar), urinar com mais frequência, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga e, em alguns doentes, dor na região hipogástrica ou lombar. Nalguns casos, a doença evolui sem sintomas ou sinais.

Quais os grupos etários e populacionais mais afetados?

O Cancro da Bexiga afeta frequentemente os homens, com uma incidência 3 vezes maior que no sexo feminino, sendo que esta  diferença de incidência entre homens e mulheres pode ser explicada, pelo menos em parte, por diferenças na exposição a fatores de risco.

A idade média de diagnóstico situa-se entre os 65 e 70 anos de idade. Contudo, este carcinoma pode ser diagnosticado numa ampla distribuição de idades.

O Carcinoma Urotelial é o 5º cancro mais comum no mundo ocidental. Quantos casos surgem em Portugal por ano?

Segundo os dados do registo do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (2014), a incidência de Cancro da Bexiga era de 17,6 por 100.000 habitantes, sendo que esse valor sobe significativamente no género masculino, para uma incidência de 29 por 100.000 habitantes. Em 2018, a incidência de Cancro da Bexiga, na Europa ocidental, foi de 22,5 casos por 100.000 habitantes e, no sul da Europa, de 26,5 por 100.000 habitantes.

Quais são as causas para o aparecimento deste cancro? Há formas de prevenir o seu aparecimento?

Os factores de risco para Cancro da Bexiga incluem o consumo de tabaco e exposições ambientais ou ocupacionais a diversas substâncias químicas, tais como as aminas aromáticas. Alguns casos podem estar ainda associados a infeções parasitárias (Schistosoma) ou a exposição a radiação. Há casos em que existe uma predisposição/tendência familiar para o desenvolvimento deste tipo de patologia.

Como é feito o diagnóstico? Qual é percentagem de casos diagnosticados já numa fase avançada?

O diagnóstico é feito mediante avaliação clínica e com recurso a diversos exames, como a cistoscopia (endoscopia para observar a bexiga) e a ecografia vesical (da bexiga), sendo que pode ser necessário recorrer a TAC e RMN. A citologia urinária (estudo de células descamadas na urina) para pesquisa de células neoplásicas é uma importante ferramenta de diagnóstico, tal como o estudo anátomo patológico em biópsias ou peças cirúrgicas.

Relativamente aos casos diagnosticados com Cancro da Bexiga, em cerca de 70 a 80% das vezes o diagnóstico é realizado em fase inicial não invasiva ou sem invasão da túnica muscular da bexiga, e, por conseguinte, cerca de 20 a 30% dos doentes são diagnosticados em estadios mais avançados.

Quais os tratamentos disponíveis? A maioria dos casos pode ser tratada com apenas com cirurgia para remoção do tumor, preservando a bexiga?

Atualmente, estão disponíveis várias modalidades terapêuticas que variam de acordo com vários fatores, tal como o tipo de tumor, o seu grau e estadio, entre outros. Como a maioria dos doentes com Cancro da Bexiga apresenta Carcinomas Uroteliais Não Músculo Invasivos, nestes casos, o tratamento consiste na remoção da neoplasia por Ressecção Trans-Uretral (RTU), preservando assim a bexiga (maioria dos doentes).

Pode ser ainda necessário complementar esta intervenção cirúrgica com tratamento intravesical adjuvante, com imunoterapia (BCG intravesical) ou com quimioterapia intravesical. Nos Carcinomas Uroteliais Músculo Invasivos estadios II ou III, as modalidades terapêuticas incluem a Cistectomia Radical (remoção da bexiga) e a quimioterapia neoadjuvante ou esquemas de quimioradiação. Já nos casos mais avançados ou com metástases, as modalidades terapêuticas incluem quimioterapia, imunoterapia ou terapias dirigidas a alvos moleculares.

Qual a sobrevida a 5 anos? Qual a percentagem de doentes que acabam por enfrentar recidivas?

A sobrevida por Cancro da Bexiga varia de acordo com muitos fatores, entre os quais o tipo de cancro e o estadio aquando do diagnóstico. Para os Carcinomas Não Músculo Invasivos, a sobrevida aos 5 anos pode variar de 70% a cerca de 100%. No caso dos Carcinomas Músculo Invasivos, a taxa de sobrevida aos 5 anos é de cerca de 60% para doença localizada e inferior a 10% para doença metastizada.

A taxa de recidiva é relativamente alta, sendo que cerca de 50% dos doentes com Cancro da Bexiga Não Músculo Invasivo têm recidivas e cerca de 20-25% têm progressão para Cancro da Bexiga com invasão da túnica muscular.

TC/SO

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