As Urgências são a pedra no sapatinho
Diretor do Serviço de Medicina Interna do Centro Hospitalar Universitário do Porto/ Presidente Cessante da SPMI

As Urgências são a pedra no sapatinho

Era bom que o escrutínio fundamental da atuação do Ministro da Saúde ou da nova Direção Executiva do SNS, não se centrasse apenas nas Urgências Hospitalares. Mas, por altura das festas do final do ano, as Urgências enchem as notícias, num matraquilhar constante dos tempos de espera, comparando as cores da Triagem de Manchester entre os Hospitais do País. Ninguém fica incólume, e até os CA dos Hospitais olham o seu lugar no ranking e pressionam os seus profissionais, que já não sabem o que mais fazer àquela avalanche de doentes.

A Urgência é apenas uma pequena parte dos cuidados de saúde, que, sendo importante, não deve fazer com que esqueçamos outras coisas bem mais relevantes na política de saúde duma população, como são a auditoria aos resultados das terapêuticas ou os anos de vida saudável após os 65 anos de idade. Neste particular, os Portugueses têm metade dos 15 anos saudáveis dos Suecos. De facto, penso que a Urgência na Saúde deveria ser comparável ao árbitro no futebol, que se considera ter feito um bom trabalho quando não se fala dele. O estado das Urgências é sempre o reflexo imediato e visível de todo o sistema de saúde. É como o sinal na pele de um doente, que traduz uma grave maleita interna.

A demora do atendimento dos doentes no SU é inaceitável. À custa de tanto ouvirmos a cor amarela a ter esperas superiores a 12 horas, começamos a achar que não é mau ter só cinco. E, não posso esquecer aquele doente de pulseira amarela à espera de ser observado há seis horas, que, depois de o retriar e considerar que a situação podia esperar até uma semana, lhe propus recorrer ao Centro de Saúde, me respondeu:” Ó Doutor, não me importo de esperar mais três ou quatro horas. Não tenho nada que fazer, e aqui sempre vejo o movimento…” É claro que este doente pertencia ao grupo dos cerca de 40% de recursos ao SU, cuja entrada devia ser literalmente vedada, mas que não há coragem política para o assumir. Estes, podem e devem esperar.

O que nos deve preocupar são os doentes que permanecem muitas horas e dias no SU, depois de terem sido observados pelo Médico. O SU não é lugar para estudar ninguém ou procurar um diagnóstico difícil. Deve estar preparado para rapidamente excluir um diagnóstico atentatório da vida, dar início à terapêutica de uma patologia evidente ou decidir por uma avaliação mais fina no internamento. O doente internado no espaço físico da urgência está em risco. Mudam os profissionais de saúde ao ritmo de cada turno e é conhecido como a maior causa de erro a transmissão incompleta da informação clínica entre os médicos.

Então, porque não sobem os doentes para a enfermaria? É altura de assumir que Portugal tem um número insuficiente de camas hospitalares médicas, que só não resultou numa catástrofe na pandemia, porque os Serviços Cirúrgicos pararam e foram ocupados pelos doentes médicos não Covid. As nossas camas hospitalares por 100.000 habitantes, são bem inferiores à média europeia, sendo quase metade da Alemanha, apesar de sermos o 4.º País mais envelhecido do mundo! Mas, pasme-se, com este evidente défice de camas, damo-nos ao luxo de ter cerca de 25% (1250) das camas disponíveis nos Serviços de Medicina Interna do País, ocupadas por doentes com alta clínica a aguardarem vaga na RNCCI ou em Lar da Segurança Social.

Outro problema grave provocado pela focagem excessiva das notícias e dos políticos que vão atrás, na Urgência, é o dos Serviços perderem a noção real da sua missão principal e se reduzirem ao cumprimento zeloso das escalas. Esses Serviços não têm futuro. No princípio alguns profissionais poderão ver a vantagem económica de fazerem o horário semanal em dois dias. Mas não demorará muito a que se deem conta do vazio em que o Serviço se tornou.

Aplauda-se as medidas de alargamento dos horários dos Centros de Saúde para atendimento da doença aguda ligeira a moderada. É uma obrigação dos CSP, pelo que apenas se espera que possa ultrapassar a quadra natalícia e ficar todo o ano. É preciso ver se esses atendimentos se refletem na diminuição da procura desses doentes de baixa gravidade aos hospitais. Se isso não acontecer, então terá de haver uma decisão política clara na definição de um circuito obrigatório de atendimento da doença aguda.

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