Alterações climáticas e doenças cardiovasculares: o que o médico de família precisa de saber
Médico de Família. USF 7 Castelos, ULS Loures Odivelas. Colaborador do grupo de estudos One Health da APMGF

Alterações climáticas e doenças cardiovasculares: o que o médico de família precisa de saber

As alterações climáticas constituem atualmente um importante fator de risco cardiovascular. O aumento das temperaturas, as ondas de calor e a degradação da qualidade do ar têm um impacto direto na morbilidade e mortalidade, embora muitas vezes invisível na prática clínica. Em Portugal, entre 2011 e 2021, cerca de 22% das mortes por doença isquémica cardíaca e 23% por acidente vascular cerebral foram atribuíveis à exposição a partículas finas (PM2.5), responsáveis por centenas de milhares de anos de vida perdidos.1,2 A poluição atmosférica é, assim, mais do que um problema ambiental — é uma causa silenciosa de doença.

As partículas finas penetram profundamente nos pulmões e alcançam a circulação sanguínea, desencadeando inflamação sistémica, stress oxidativo, disfunção endotelial e arritmias — mecanismos bem documentados em revisões sobre o impacto da qualidade do ar na saúde cardiovascular. Paralelamente, as temperaturas extremas — tanto elevadas como baixas — aumentam o risco de eventos cardiovasculares agudos, nomeadamente enfarte do miocárdio e AVC, ao promoverem alterações hemodinâmicas, inflamatórias e da viscosidade sanguínea.

A abordagem One Health — que reconhece a interligação entre saúde humana, animal e ambiental — reforça a necessidade de compreender as doenças crónicas sob uma nova lente. A qualidade do ar interior, frequentemente negligenciada, constituiu também um fator relevante: a combustão doméstica, a ventilação deficiente e a exposição ocupacional contribuem para o agravamento de fatores de risco cardiovasculares.3,4

O relatório Portugal Lancet Countdown on Health and Climate Change 20255 destaca a urgência de adaptar o sistema de saúde aos impactos climáticos. Para o médico de família, isso implica incluir a exposição ambiental na anamnese, reforçar o controlo dos fatores de risco, aconselhar comportamentos adequados perante períodos de poluição e extremos térmicos, e promover estilos de vida sustentáveis.6

Mais do que um desafio ambiental, trata-se de uma questão de saúde pública. Pela proximidade com as comunidades, o médico de família deve assumir-se como agente de mudança — na prática clínica, na educação e na defesa de políticas que reduzam emissões e protejam o futuro cardiovascular da população.

Referências:

  • Corda MO, Charalampous P, Haagsma JA, Assunção R, Martins C. Mortality burden of cardiovascular disease attributable to ambient PM2.5 exposure in Portugal, 2011 to 2021. BMC Public Health. 2024;24:1188. doi:10.1186/s12889-024-18572-0
  • Abdul-Rahman T, Roy P, Blake Bliss ZS, Mohammad A, Corriero AC, Patel NT, et al. The impact of air quality on cardiovascular health: A state of the art review. Curr Probl Cardiol. 2024;49:102174. doi:10.1016/j.cpcardiol.2023.102174
  • Correia G, Calheiros D, Rosa N, Rodrigues L, Cunha S, Santiago LM, et al. Indoor air quality and airborne transmission under the One Health lens: A scoping review. One Health. 2025;21:101160.
  • Peters A, Schneider A. Cardiovascular risks of climate change. Nat Cardiovasc Res. 2020;1(1):1–3.
  • Romanello M, Walawender M, Hsu S-C, et al. The 2025 report of the Lancet Countdown on health and climate change. Lancet. 2025 Oct 29. doi:10.1016/S0140-6736(25)01919-1
  • Caldeira D, Franco F, Bravo Baptista S, Cabral S, Cachulo MC, Dores H, et al. Air pollution and cardiovascular diseases: A position paper. Rev Port Cardiol. 2022;41(8):709–17.

 

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