27 Out, 2026

“Queremos colocar o doente no centro da discussão e escolher a tecnologia mais adequada a cada caso”

A centralidade do doente, a inovação tecnológica e a importância do pensamento crítico são alguns dos eixos do XIX Simpósio da Associação Portuguesa de Urologia (APU). Em entrevista, Pedro Nunes, presidente da APU, explica as opções que orientaram a construção do programa científico, destaca a aposta na participação dos internos e sublinha a necessidade de aproximar a Urologia da população, promovendo a literacia em saúde e a procura atempada de cuidados.

“Queremos colocar o doente no centro da discussão e escolher a tecnologia mais adequada a cada caso”

O XIX Simpósio da Associação Portuguesa de Urologia (APU) realiza-se sob o lema “Urologia Centrada no Doente”. O que motivou a escolha deste tema?
O Simpósio da Associação Portuguesa de Urologia é um dos eventos major da nossa associação e realiza-se alternadamente com o Congresso, ou seja, num ano temos o Congresso e, no seguinte, o Simpósio. Embora sejam dois eventos de grande dimensão, que procuram congregar os urologistas nacionais, têm características diferentes.

O evento é organizado pelo Conselho Diretivo da APU e desenvolve-se habitualmente em torno de um tema central, enquanto o Congresso é organizado por uma instituição, um hospital ou um serviço de Urologia, abordando geralmente temas mais gerais.

Este ano, depois de alguma reflexão, decidimos organizar o programa do Simpósio em torno da “Urologia Centrada no Doente”, acompanhando uma tendência atual da Urologia e da Medicina em geral.

Hoje em dia, ouvimos falar muito de novas tecnologias, de novos medicamentos e de inteligência artificial aplicada à Urologia e à Medicina em geral. Neste contexto, o contacto com o doente e a individualização dos cuidados parecem, por vezes, ficar em segundo plano, embora não seja necessariamente isso que acontece.

Por isso, decidimos inverter um pouco a perspetiva e centrar a discussão em casos concretos, procurando perceber qual é a tecnologia mais adequada para tratar cada doente, qual a melhor forma de estudar o seu problema e qual a abordagem mais indicada. Não queremos partir de uma determinada técnica, seja a cirurgia laparoscópica, robótica ou endoscópica, e procurar doentes que se adequem a cada uma das técnicas. Queremos fazer precisamente o contrário: partir das necessidades do doente e escolher a melhor solução.

 

O programa científico percorre praticamente todas as grandes áreas da Urologia, conjugando atualização científica, inovação tecnológica e discussão de casos clínicos. Quais foram as principais preocupações que orientaram a sua construção?
Procurámos abranger as diferentes áreas da Urologia, desde a Oncologia à Litíase, passando pelas novas tecnologias, cirurgia reconstrutiva e Urologia funcional, partindo sempre de problemas concretos e de doentes concretos.

Nesse sentido, muitas das nossas mesas terão como ponto de partida casos clínicos, alguns reais e outros adaptados à nossa realidade, convidando os colegas a debater as melhores abordagens para cada situação.

Também introduzimos algumas alterações no formato do Simpósio. Teremos duas grandes salas, uma das quais destinada à apresentação de trabalhos científicos, comunicações orais e vídeos submetidos pelos nossos associados. Recebemos um número muito elevado de trabalhos, de grande qualidade, o que nos obrigou a fazer uma seleção criteriosa.

Nesta sala decorrerá também um fórum cirúrgico, com apresentação de vídeos de intervenções realizadas em casos concretos, promovendo uma discussão interativa entre os participantes e os apresentadores. Na sala plenária decorrerão as sessões principais e os simpósios da indústria farmacêutica.

O objetivo é tornar o encontro mais dinâmico e participativo, permitindo que os colegas discutam diferentes abordagens e partilhem experiências.

 

A organização do Simpósio vai além da componente científica, procurando também envolver os doentes e a população em geral. Que iniciativas estão previstas nesse âmbito?
Temos um programa que considero muito atrativo e estamos a registar um elevado número de inscrições. Esperamos reunir a comunidade urológica em peso na Figueira da Foz, mas queremos também levar a mensagem do Simpósio para fora da comunidade médica. Vamos contar com a participação de uma associação de doentes da próstata e desenvolver iniciativas dirigidas à população em geral.

Nesse sentido, teremos um programa de rádio, a Prova Oral, que será emitido na quinta-feira, a partir das 19 horas. Será uma oportunidade para conversar com a população sobre os principais problemas abordados pela Urologia moderna, sensibilizando para algumas das patologias mais frequentes ou mais graves e para os sinais de alarme que devem motivar a procura de cuidados médicos, seja junto do médico de família, seja na Urologia. Pensamos, com isto, atingir uma faixa importante da população e tentar tornar o Simpósio mais atrativo para a comunidade em geral.

No último dia, teremos também uma iniciativa de sensibilização para as doenças da próstata, nas ruas da Figueira da Foz, associando a atividade física à divulgação de informação sobre alguns temas da Urologia, como os problemas de incontinência urinária e as neoplasias.

Acreditamos que estas iniciativas poderão contribuir para aproximar a Urologia da população e esperamos que tenham uma adesão significativa.

 

Apesar de se tratar de um encontro científico dirigido essencialmente a médicos, existe uma preocupação evidente com a sensibilização da população. Considera que esta aproximação é cada vez mais importante?
Sim, esse é um dos nossos objetivos. Queremos envolver as associações de doentes e transmitir à população uma mensagem que, muitas vezes, discutimos apenas entre nós, médicos.

A Medicina é cada vez mais antecipatória, preventiva e individualizada, e gostaríamos de sensibilizar a população para esta realidade. É importante que as pessoas compreendam o valor da prevenção, conheçam os sinais de alarme e procurem cuidados médicos atempadamente.

 

Entre os cursos pré-Simpósio, destaca-se o “Quando o médico é o doente”. O que levou a APU a incluir esta temática e em que consiste esta formação?
A sobrecarga de trabalho dos médicos é um problema que também nos preocupa, assim como as condições em que exercem a profissão, a motivação e as elevadas taxas de depressão, de burnout e de cansaço que se verificam na classe médica.

Estas questões levaram-nos a refletir sobre a necessidade de abordar o tema. Por isso, convidámos uma colega psiquiatra, que exerce a sua atividade principal no Hospital da Figueira da Foz, para dinamizar um curso com cerca de duas horas de duração.

Pretendemos discutir em que circunstâncias o próprio médico, neste caso o urologista, deve reconhecer em si sinais de alarme e procurar ajuda.

Mais uma vez, estamos a falar de Urologia centrada no doente, que, neste caso, pode ser o próprio médico. Queremos contribuir para a prevenção destas situações e para a reflexão sobre as condições de trabalho e de motivação, que muitas vezes não são as desejáveis na nossa profissão.

A APU tem vindo a investir na literacia em saúde dirigida à população. Apesar dos progressos registados, considera que ainda persistem preconceitos ou desconhecimento que podem atrasar a procura de cuidados e o diagnóstico das doenças urológicas?
Sim, penso que isso continua a acontecer, embora o trabalho que temos desenvolvido ao longo dos anos esteja a dar frutos.

Notamos que existe hoje uma maior abertura por parte da população e que a procura de cuidados médicos é mais atempada. Ainda assim, a Urologia aborda frequentemente temas sensíveis, que, no caso dos homens, podem estar relacionados com a masculinidade e a sexualidade.

Estas questões continuam, por vezes, a gerar receios e a afastar os doentes dos cuidados médicos, atrasando a procura de ajuda. Por isso, é um ponto de honra para nós continuar a trabalhar na divulgação de informação e no incentivo à procura atempada de cuidados de saúde.

 

Enquanto presidente da APU, como encara o desafio de organizar um Simpósio com um programa tão abrangente e que envolve um número tão elevado de especialistas?
É um desafio importante, mas temos a felicidade de contar com um Conselho Diretivo muito dinâmico, com muitas ideias e vontade de inovar. Pretendemos dar continuidade ao trabalho que já vinha a ser desenvolvido, introduzindo um maior dinamismo e tornando os nossos encontros científicos mais interativos.

Convidámos muitos palestrantes novos e teremos mais de 100 intervenientes, de diferentes faixas etárias. Queremos incentivar os colegas mais jovens a apresentar trabalhos e a discutir temas científicos perante os seus pares, contando também com o apoio e a experiência de profissionais com um percurso mais longo.

Procurámos abranger toda a Urologia, desde as áreas mais modernas e preventivas até aos aspetos mais tradicionais da prática clínica, como o contacto com o doente e a semiologia clínica, que são pontos que considero fundamentais e que devem estar sempre presentes na atividade dos urologistas.

Este foi um Simpósio preparado ao longo de vários meses, com um cuidado particular na seleção dos temas, dos casos clínicos e dos formatos de interação.

 

O programa contempla também uma reflexão sobre o pensamento crítico em Medicina, com a participação de José Maria Pimentel. Que importância atribui a esta discussão num contexto de crescente utilização de novas tecnologias e inteligência artificial?
Convidámos José Maria Pimentel, que considero um dos melhores comunicadores atualmente em Portugal, para nos ajudar a refletir sobre o pensamento crítico em Medicina e em Urologia.

É importante pensarmos naquilo que fazemos e não nos limitarmos a atuar de forma automática. Hoje, os processos são cada vez mais automatizados e a inteligência artificial e as novas tecnologias parecem, por vezes, colocar o médico numa posição secundária.

Queremos contrariar essa tendência, valorizando o papel do médico nos cuidados de saúde e a importância de manter um pensamento crítico sobre tudo aquilo que fazemos e dizemos. José Maria Pimentel vai ajudar-nos a refletir sobre esta temática, que considero particularmente pertinente na Medicina atual.

 

O programa reserva também um espaço próprio aos internos, incluindo sessões dedicadas à investigação científica e às novas tecnologias. Como avalia o envolvimento das novas gerações e que papel pode a APU desempenhar no seu desenvolvimento?
Há já alguns anos que temos uma estrutura dedicada aos internos, que anteriormente funcionava de forma quase autónoma. Atualmente, o Núcleo de Internos da Associação Portuguesa de Urologia integra os órgãos da associação e tem um dinamismo muito próprio.

Os internos são muito inovadores e dinâmicos na organização das suas iniciativas científicas, e queremos continuar a valorizar esse trabalho.

No primeiro dia, durante a tarde, teremos uma sessão dedicada ao Núcleo de Internos da APU, com vários convidados, incluindo especialistas estrangeiros. Serão debatidos temas do interesse das novas gerações, nomeadamente a investigação científica, as novas tecnologias e a apresentação de trabalhos científicos.

Esta é uma relação que pretendemos cultivar e aprofundar no futuro. Considero que estamos perante uma geração cada vez mais motivada para estas áreas e é importante que a associação acompanhe e incentive esse interesse.

Como caracteriza a evolução da Urologia portuguesa nos últimos anos, tanto ao nível da diferenciação técnica e científica como da qualidade dos cuidados prestados aos doentes?
A Urologia portuguesa sempre se pautou por elevados critérios de qualidade e rigor. Há muitos anos que acompanhamos aquilo que de mais moderno se faz na Europa e no mundo.

É possível que, nos últimos anos, tenhamos ficado um pouco mais limitados em termos tecnológicos, sobretudo no setor público, devido a um défice de equipamentos. No entanto, mais recentemente, a aquisição de novas tecnologias por muitos serviços de Urologia, nomeadamente sistemas robóticos, equipamentos de laser e tecnologias de imagem, veio alterar essa realidade.

O acesso que temos atualmente a exames de imagem e a exames funcionais também contribuiu para esta evolução. Tudo isto permitiu voltar a colocar a Urologia portuguesa numa posição de destaque no contexto europeu e mundial, tanto ao nível clínico como da investigação e da produção científica.

Por isso, considero que não ficamos atrás do que de melhor se faz na Urologia a nível internacional.

 

Que mensagem gostaria de deixar aos participantes do XIX Simpósio da APU?
Gostaria que se juntassem a nós e contribuíssem para tornar este Simpósio verdadeiramente interativo.

O encontro foi preparado com muito cuidado, a pensar em todos os associados, para que possam partilhar os seus casos, discutir experiências e sentir-se à vontade para participar de forma aberta e descomprometida.

Espero que, no final deste fim de semana, todos saiam da Figueira da Foz mais ricos em conhecimento e experiência. Esse é o nosso principal objetivo.

 

Sílvia Malheiro

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