27 Out, 2026

“Os projetos que nos chegam são cada vez mais e, sobretudo, cada vez melhores”

Frederico Furriel, secretário geral da APU, fala sobre a importância das Bolsas de Investigação da associação, o seu contributo para o desenvolvimento da investigação em Urologia e a relevância da apresentação dos resultados no Simpósio.

“Os projetos que nos chegam são cada vez mais e, sobretudo, cada vez melhores”

Como surgiram as Bolsas de Investigação da APU e qual tem sido o seu percurso?
As Bolsas de Investigação da APU são atribuídas há mais de duas décadas. O primeiro número do Boletim Informativo da APU, em 2001, já lhes dedicava uma secção. Nasceram em parceria com a indústria farmacêutica, numa altura em que o financiamento para investigação em Urologia era muito escasso. O objetivo mantém-se desde então: apoiar o desenvolvimento da Urologia na sua vertente de investigação.

Só na última década, a APU apoiou cerca de vinte projetos, num valor próximo dos 150 mil euros. É um esforço financeiro considerável para uma associação científica, e só tem sido possível com o apoio da indústria. E aqui não posso deixar de destacar a Jaba Recordati, que tem sido o nosso parceiro mais constante nesta área. Mas tem valido a pena. Destas bolsas nasceram projetos muito relevantes, que deram origem a várias publicações e levaram a Urologia portuguesa a revistas internacionais onde nem sempre estamos presentes.

 

Têm ajudado a criar uma cultura de investigação?
Diria que têm sido decisivas. A investigação é cara e, em muitos casos, a bolsa da APU não chega para cobrir o projeto todo. Mas funciona muitas vezes como rastilho: permite arrancar e obter os primeiros resultados, e com eles os autores conseguem depois procurar financiamentos bem mais substanciais, junto de instituições nacionais e internacionais. Conhecemos vários projetos que provavelmente não teriam arrancado sem esse impulso inicial.

A Urologia portuguesa sempre teve um nível científico elevado, mas nem sempre se dedicou muito à investigação, exceto em pequenos grupos. Já nos últimos 10 a 20 anos temos notado um interesse crescente dos internos e jovens urologistas, não só pela investigação clínica, mas também pela translacional. Costuma dizer-se que “esta é a geração mais bem preparada de sempre”, e na APU sentimo-lo. Os projetos que nos chegam são cada vez mais e, sobretudo, cada vez melhores.

O objetivo último é ajudar a construir um ecossistema científico mais robusto, que fortalece a especialidade e, no fim de contas, os cuidados que prestamos aos doentes.

 

Que critérios orientam a seleção e que áreas têm despertado mais interesse?
Um dos traços distintivos das Bolsas da APU é aceitarem projetos de qualquer área da Urologia. Muitos financiamentos têm limitações temáticas, sendo a Oncologia o exemplo mais evidente. A Oncologia ocupa naturalmente uma parte importante da nossa atividade, mas a APU já apoiou também projetos em Urologia funcional, transplantação renal, infeções, litíase, Andrologia e Urologia reconstrutiva. São áreas com menos oportunidades de financiamento, mas nem por isso menos interessantes ou relevantes. Com o apoio destas bolsas, os projetos nestas áreas conseguem “sair do papel”.

Outro critério essencial é que o investigador principal seja urologista e associado da APU. Claro que a investigação se faz em equipas multidisciplinares, e muitas das nossas incluem biólogos, bioquímicos, farmacologistas, etc. Mas, para nós, é fundamental que o projeto seja liderado por um urologista. É isso que garante a ligação entre o financiamento e a comunidade urológica que a APU representa.

A avaliação cabe à Comissão Científica da APU. Esta tarefa tem sido cada vez mais difícil, precisamente pela qualidade crescente das candidaturas. Hoje usamos um modelo aberto: o júri conhece os nomes e a afiliação da equipa e pode entrevistar um elemento de cada projeto finalista. Assim percebe, de viva voz, as motivações da equipa e as condições necessárias para o projeto ter sucesso. No passado chegámos a usar a avaliação cega. Cremos que o modelo atual permite uma avaliação mais rigorosa, completa e transparente.

 

Qual a importância de dar visibilidade aos resultados no Simpósio?
A apresentação dos resultados está, aliás, prevista no próprio regulamento, e por boas razões. Em primeiro lugar, é o momento em que os associados podem ver o que resultou do investimento feito pela sua associação e avaliá-lo de forma crítica. Depois, dá a conhecer à comunidade os projetos em curso, liderados por colegas, o que pode gerar sinergias, referenciações e colaborações clínicas ou científicas. Por fim, responsabiliza quem recebe a bolsa pelo compromisso que assumiu. No fundo, é uma questão de transparência e de prestação de contas perante os associados.

 

Sílvia Malheiro 

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