29 Set, 2026

Medicamentos oncológicos demoram mais de dois anos e meio a chegar ao doente

A taxa de disponibilidade de medicamentos oncológicos inovadores em Portugal foi de 61%, face a 51% na média da UE27, considerando o período 2021-2024.

Medicamentos oncológicos demoram mais de dois anos e meio a chegar ao doente

Os medicamentos oncológicos demoram, em média, mais de dois anos e meio a chegar aos doentes em Portugal desde a aprovação europeia, segundo dados de uma análise de dezenas de estudos hoje divulgada.

A análise integrada sobre a jornada do doente oncológico em Portugal, hoje divulgada num encontro que decorre nos serviços sociais da Câmara Municipal de Lisboa, mostra que este tempo (926 dias) é superior aos menos de dois anos (655 dias) da média da União Europeia e indica que o acesso à inovação é um dos pontos mais críticos.

Os dados divulgados indicam que, entre 2020 e 2025, foram submetidos ao Infarmed 57 processos relativos a medicamentos oncológicos, tendo sido aprovados 26 novos fármacos e 37 programas de acesso precoce. No entanto, segundo a informação recolhida, a taxa de disponibilidade de medicamentos oncológicos inovadores em Portugal foi de 61%, face a 51% na média da UE27, considerando o período 2021-2024.

Mas os desafios identificados não se limitam ao acesso à inovação: 50,8% dos doentes inquiridos disseram já ter ficado sem medicação pelo menos uma vez, sendo a rutura de stock apontada como uma das principais razões.

A análise identifica ainda uma distância média de 56 quilómetros, considerando a deslocação de ida e volta, entre a residência e o local de levantamento da medicação.

Este trabalho, desenvolvido pela Inizio Engage, baseou-se num cruzamento de informações oficiais nacionais e internacionais de mais de 70 estudos realizados entre 2024 e 2026 e envolvendo médicos, pessoas com doença e cuidadores, abrangendo mais de 25 tipos de cancro em Portugal.

Os dados mostram que a experiência do doente revela diferenças na perceção dos tempos entre o diagnóstico e o início do tratamento: enquanto o período mais reportado pelos doentes é de duas a quatro semanas, os médicos referem períodos que podem chegar às oito semanas.

Ao mesmo tempo, 87,8% dos doentes sentem que participaram, muito ou em parte, nas decisões sobre o seu tratamento, refletindo uma “crescente participação” da pessoa com doença no processo de decisão terapêutica.

A análise mostra ainda que a jornada da pessoa com cancro não se esgota no diagnóstico e tratamento. Entre os apoios que os doentes e cuidadores sentem mais falta estão o apoio psicológico (38,6%), a informação clara sobre a doença (38,6%), a fisioterapia e reabilitação (34,1%), os grupos de doentes (32,9%) e o apoio social e financeiro (31,4%).

O apoio psicológico é identificado como uma necessidade de elevada relevância, mas que não é disponibilizada de forma transversal. A nutrição é igualmente apontada como uma lacuna e, segundo os dados apresentados, apenas metade dos doentes contam com apoio estruturado de enfermagem no acompanhamento da adesão terapêutica.

Também as associações de doentes assumem um papel relevante nesta jornada, com 57,1% dos doentes a assumirem já ter recorrido a uma associação ou linha de apoio.

Os dados apresentados enquadram-se num cenário em que o cancro constitui a segunda causa de morte em Portugal, representando 23% dos óbitos, e em que se estimam cerca de 69,5 mil novos casos por ano.

As desigualdades começam ainda antes do diagnóstico. Nos rastreios oncológicos de base populacional, dois dos três programas existentes em Portugal ainda não alcançaram a meta nacional de 90% de cobertura populacional, sendo identificadas diferenças regionais tanto na cobertura como na adesão.

Estes dados foram divulgados no dia em que decorre o 1.º Fórum Inizio Engage, dedicado ao tema “Inovação, Acesso e Cuidados na Jornada da Pessoa com Cancro”, que reúne diferentes perspetivas para discutir os principais pontos de estrangulamento ao longo do percurso do doente oncológico.

Os tempos de diagnóstico e início do tratamento, a articulação entre diferentes níveis de cuidados, o acesso à medicação, as desigualdades territoriais, o apoio psicológico e social, o papel das associações de doentes e os obstáculos à chegada da inovação ao doente são alguns dos temas em debate.

SO/LUSA

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