13 Fev, 2026

Pessoas com afasia enfrentam “falta de apoio estruturado” do SNS

Estudo revela impacto psicossocial prolongado, falhas na continuidade da reabilitação e ausência de apoio psicológico às pessoas com afasia e às suas famílias.

Pessoas com afasia enfrentam “falta de apoio estruturado” do SNS

Quase metade das pessoas que mantêm afasia após um acidente vascular cerebral (AVC) não realiza terapia da fala após a alta hospitalar e nenhuma teve acesso a acompanhamento psicológico. A conclusão é um estudo desenvolvido pelo IPAFASIA – Instituto Português da Afasia, em parceria com o Hospital Pedro Hispano, nos concelhos de Matosinhos, Vila do Conde e Póvoa de Varzim.

A investigação evidencia que, apesar dos cuidados prestados na fase aguda do AVC serem globalmente bem avaliados, “a resposta desaparece ou torna-se fragmentada após o regresso a casa, deixando pessoas com afasia e famílias sem apoio estruturado numa fase crítica da recuperação”.

O estudo analisou 458 internamentos por primeiro episódio de AVC em 2023 e concluiu que 11,35% dos sobreviventes mantinham diagnóstico de afasia à data da alta hospitalar. Meses depois, uma parte significativa continuava a apresentar dificuldades comunicativas com impacto direto na autonomia, na participação social e no bem-estar emocional.

As pessoas que mantinham afasia apresentaram níveis mais baixos de qualidade de vida, sobretudo a nível psicológico, face ao impacto na vida social. Além disso, 43% dos participantes avaliados apresentavam sinais de sintomatologia depressiva, maioritariamente associados à persistência da afasia.

Apesar de 88% das pessoas com afasia terem tido contacto com terapia da fala durante o internamento, apenas 47% o mantiveram após a alta e nenhuma teve acesso a apoio psicológico, mesmo quando estavam presentes sinais de sofrimento emocional. “O regresso a casa surge, assim, como o momento de maior vulnerabilidade, marcado por descontinuidade terapêutica, acesso desigual aos cuidados e forte dependência do apoio informal das famílias”, avança a IPAFASIA em comunicado.

O estudo revela ainda que tanto as pessoas com afasia como os familiares referem falta de informação clara, acessível e adaptada sobre a afasia, o processo de recuperação e as estratégias de comunicação. “Esta lacuna contribui para frustração, isolamento e sobrecarga emocional dos cuidadores, reforçando o impacto psicossocial da condição.” Foram igualmente identificadas barreiras estruturais, comunicacionais e sociais, incluindo estigma e desconhecimento generalizado sobre a afasia, que limitam a inclusão destas pessoas na comunidade.

Em Portugal, existem cerca de 40 mil pessoas com afasia, uma perturbação adquirida da linguagem e da comunicação causada por lesão cerebral, mais frequentemente na sequência de um AVC. A afasia pode afetar a capacidade de falar, compreender, ler e escrever, sem comprometer a inteligência, e estima-se que cerca de um terço dos sobreviventes de AVC desenvolva esta condição. “Apesar da sua elevada prevalência e do impacto profundo na autonomia, na participação social e na qualidade de vida, a afasia continua a ser pouco reconhecida e subvalorizada, quer na resposta clínica após a alta hospitalar, quer no espaço público e comunitário”, alerta.

Maria João Garcia

Artigo relacionado

Afasia: Ignorar a realidade nacional é perigoso

 

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais