Pessoas com afasia enfrentam “falta de apoio estruturado” do SNS
Estudo revela impacto psicossocial prolongado, falhas na continuidade da reabilitação e ausência de apoio psicológico às pessoas com afasia e às suas famílias.

Quase metade das pessoas que mantêm afasia após um acidente vascular cerebral (AVC) não realiza terapia da fala após a alta hospitalar e nenhuma teve acesso a acompanhamento psicológico. A conclusão é um estudo desenvolvido pelo IPAFASIA – Instituto Português da Afasia, em parceria com o Hospital Pedro Hispano, nos concelhos de Matosinhos, Vila do Conde e Póvoa de Varzim.
A investigação evidencia que, apesar dos cuidados prestados na fase aguda do AVC serem globalmente bem avaliados, “a resposta desaparece ou torna-se fragmentada após o regresso a casa, deixando pessoas com afasia e famílias sem apoio estruturado numa fase crítica da recuperação”.
O estudo analisou 458 internamentos por primeiro episódio de AVC em 2023 e concluiu que 11,35% dos sobreviventes mantinham diagnóstico de afasia à data da alta hospitalar. Meses depois, uma parte significativa continuava a apresentar dificuldades comunicativas com impacto direto na autonomia, na participação social e no bem-estar emocional.
As pessoas que mantinham afasia apresentaram níveis mais baixos de qualidade de vida, sobretudo a nível psicológico, face ao impacto na vida social. Além disso, 43% dos participantes avaliados apresentavam sinais de sintomatologia depressiva, maioritariamente associados à persistência da afasia.
Apesar de 88% das pessoas com afasia terem tido contacto com terapia da fala durante o internamento, apenas 47% o mantiveram após a alta e nenhuma teve acesso a apoio psicológico, mesmo quando estavam presentes sinais de sofrimento emocional. “O regresso a casa surge, assim, como o momento de maior vulnerabilidade, marcado por descontinuidade terapêutica, acesso desigual aos cuidados e forte dependência do apoio informal das famílias”, avança a IPAFASIA em comunicado.
O estudo revela ainda que tanto as pessoas com afasia como os familiares referem falta de informação clara, acessível e adaptada sobre a afasia, o processo de recuperação e as estratégias de comunicação. “Esta lacuna contribui para frustração, isolamento e sobrecarga emocional dos cuidadores, reforçando o impacto psicossocial da condição.” Foram igualmente identificadas barreiras estruturais, comunicacionais e sociais, incluindo estigma e desconhecimento generalizado sobre a afasia, que limitam a inclusão destas pessoas na comunidade.
Em Portugal, existem cerca de 40 mil pessoas com afasia, uma perturbação adquirida da linguagem e da comunicação causada por lesão cerebral, mais frequentemente na sequência de um AVC. A afasia pode afetar a capacidade de falar, compreender, ler e escrever, sem comprometer a inteligência, e estima-se que cerca de um terço dos sobreviventes de AVC desenvolva esta condição. “Apesar da sua elevada prevalência e do impacto profundo na autonomia, na participação social e na qualidade de vida, a afasia continua a ser pouco reconhecida e subvalorizada, quer na resposta clínica após a alta hospitalar, quer no espaço público e comunitário”, alerta.
Maria João Garcia
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