A Saúde é para todos?
Recordei a frase que se diz de Júlio César, segundo a qual, havia “nos confins da Ibéria, na parte mais ocidental, um povo que nem se governa nem se deixa governar”.
Na verdade, para alguns historiadores, a sua autoria deveria ser atribuída ao general Galba (século III AC), que o teria escrito em carta enviada ao imperador.
Como quer que seja, parece ser verdadeira ainda hoje.
Na verdade, envolvemo-nos pouco em iniciativas cívicas, temos taxas de abstencionismo elevado – a que o nível dos candidatos poderá ajudar a entender…, o voluntariado é pouco mais do que residual, o interesse individual pelo colectivo pode surgir, talvez, em situações pontuais e trágicas.
Julgo que não podemos sossegar com a ideia de que, o estado da democracia é forte, o suficiente, para não evidenciar sinais bem negativos, não de protesto, mas de alheamento e desinteresse.
O estado da saúde em Portugal é tema de críticas, de denúncias, de dramas e falhas um pouco por muitos lados, o SNS enche páginas de jornais e horas nas televisões.
Não é o momento ou o cenário para uma dissertação mais científica, mas civicamente ninguém alude ou explica que, dois doentes, com a mesma idade, em locais distintos do país, podem ser atendidos no mesmo instante e especialidade médica e, os desfechos clínicos e vitais, para cada um deles poderão ser diametral e infelizmente opostos.
As desigualdades estão associadas a n factores.
Porque é que o País não discute e não é informado sobre isso?
O género, as profissões, os níveis de escolaridade atingida, o rendimento, o local ou o meio onde vivem, as condições climáticas, os hábitos pessoais ou a genética individual são exemplos de muitas variáveis que vão, seguramente, fazer a diferença – toda a diferença – entre viver ou sobreviver e morrer.
Os determinantes de saúde são inúmeros e podem acentuar as desigualdades.
A Saúde e o SNS, em particular, estão embrulhados e enredados em torrentes legislativas e confusão normativa, com a apressada extinção das ARS e criação de ULS no território continental, tudo asfixiado por excesso de burocracia e falta de planeamento, sentido estratégico e empenhamento dos profissionais.
O modelo centralizado de urgências e novos diplomas legais é disso mais um exemplo.
O paradoxo é que, no tempo em que a tecnologia avança a velocidades que o pensamento já não acompanha, vemos um ciclo sacrossanto de delegação de decisões, de afastamento de responsabilidades gestionárias, operacionais e individuais, de ligações complicadíssimas entre órgãos do Estado e do próprio Ministério da Saúde.
As demissões sucedem-se entre dirigentes das ULS.
Uma questão, um problema, um concurso vai andando a passear entre um qualquer ULS e Lisboa, para lá e para cá, aguardando que múltiplos órgãos se pronunciem e, com facilidade, também com autarquias municipais e por fim, com as Comissões Coordenadoras Regionais, entretanto em processo de crescimento gigantesco…
Aceitamos todos enquanto cidadãos respostas sem responsabilidade e aceitamos como modernidade tal abdicação.
O verdadeiro risco do nosso tempo e para o nosso povo não são as máquinas e as Inteligências Artificiais tornarem-se conscientes.
O drama é o ser humano desistir da sua consciência em nome da conveniência.
A consciência é sempre incómoda porque obriga a fazer escolhas.
Escolhas que podem falhar, surtir nulas.
Tudo tem riscos, nada é hoje fácil, rápido ou optimizável.
Não podemos é suspender eticamente o dever de pensarmos por nós e de nos calarmos.
A Saúde é mesmo para todos.
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