Bastonário critica responsabilização de profissionais do INEM por morte durante greve
O bastonário da Ordem dos Médicos considera “revoltante e desonesto” responsabilizar um médico e uma técnica do INEM pela morte de um homem durante uma greve, defendendo que os verdadeiros culpados devem ser apurados e que não se transformem os profissionais em “bodes expiatórios”.

O bastonário da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, classificou como “profundamente revoltante e desonesto” o facto de se imputarem responsabilidades a um médico e a uma técnica de emergência no caso da morte de um homem ocorrida em Pombal, no decurso de uma greve do INEM.
Numa publicação feita no Facebook, Carlos Cortes denuncia aquilo que considera uma inversão da realidade: “O absurdo, de contornos quase kafkianos, surge quando, perante esta tragédia, se decide responsabilizar precisamente aqueles que, em pleno caos e condições particularmente adversas, procuraram cumprir o seu dever profissional e ético. Um médico e uma técnica de emergência, que aceitaram estar de serviço nesse dia conturbado, são inesperadamente apontados como culpados, transformados em verdadeiros bodes expiatórios”.
O comentário surge na sequência do relatório da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) sobre o atraso no socorro a um homem de 53 anos, ocorrido a 4 de novembro de 2024, dia em que se realizaram duas greves em simultâneo: uma dos técnicos de emergência pré-hospitalar às horas extraordinárias e outra da administração pública.
Segundo uma nota do Ministério da Saúde divulgada na passada quarta-feira, e com base nas conclusões da IGAS, a alegada demora no envio de socorro do INEM “não é atribuída à greve, nem a um eventual atraso no atendimento da chamada pelo CODU [Centro de Orientação de Doentes Urgentes]”.
De acordo com o Ministério, que cita a versão do relatório que recebeu, as causas do atraso estarão relacionadas com “falta de zelo, de cuidado e de diligência” por parte de dois profissionais envolvidos no processo, os quais, segundo a IGAS, “não atuaram segundo as boas práticas da emergência médica” e a quem se exigia “uma atitude mais célere e expedita, em concreto na triagem e despacho de meios”.
Carlos Cortes critica duramente esta leitura dos factos, sublinhando que “num país onde tantas vezes os verdadeiros responsáveis escapam ilesos, são os profissionais que enfrentam diariamente um sistema com falhas reais que acabam sacrificados em nome da conveniência do momento”.
Para o bastonário, “é imperioso e urgente pôr fim a esta lógica perversa. As instituições públicas têm o dever de agir com transparência e responsabilidade. Que se apurem os verdadeiros responsáveis pelas falhas ocorridas, e não se culpem injustamente aqueles que, mesmo em circunstâncias adversas, tentaram salvar vidas”.
Cortes recorda ainda que a greve de 4 de novembro foi “amplamente anunciada, previsível e do conhecimento público – exceto, ao que tudo indica, das entidades que deveriam garantir os serviços mínimos do sistema nacional de emergência médica”.
Nesse dia, sublinha, registou-se “um cenário de caos, com milhares de chamadas sem resposta, angústia generalizada e socorro comprometido. E, no meio deste contexto dramático, uma vítima mortal conhecida, em Pombal”.
Segundo dados da IGAS, mais de metade das 7.326 chamadas feitas ao INEM nesse dia foram abandonadas, o que fez desta greve o protesto com maior impacto na atividade do instituto até à data.
LUSA/SO
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