ULS Santa Maria regista aumento de intoxicações voluntárias com medicamentos em jovens
A maioria das intoxicações medicamentosas voluntárias não acontecem apenas em jovens com perturbações depressivas ou ansiosas, mas também na sequência impulsos causados, por exemplo, por uma briga familiar.

Mais de metade das 232 intoxicações medicamentosas voluntárias registadas nos últimos seis anos na Urgência Pediátrica da ULS Santa Maria ocorreram em 2024 e 2025, sendo a maioria praticada com fármacos disponíveis em casa.
O alerta foi feito à agência Lusa pela coordenadora da Urgência Pediátrica da unidade, Erica Torres, após as Ordens dos Enfermeiros e dos Médicos terem chamado a atenção para os riscos do chamado “desafio do paracetamol”, promovido nas redes sociais e que incentiva à ingestão deliberada de doses elevadas do medicamento.
Segundo a Pediatra, a maioria das intoxicações envolve vários fármacos acessíveis no domicílio. Ainda assim, sublinha, “a noção que temos é que, de facto, os jovens sabem qual é a dose letal ou tóxica do paracetamol”, eventualmente por influência de conteúdos partilhados nas redes sociais.
“Ainda ontem [quarta-feira] tivemos uma adolescente com uma intoxicação com 10 gramas de paracetamol, que é muito. São 10 comprimidos”, exemplificou.
De acordo com a responsável, as intoxicações medicamentosas voluntárias têm sido “uma grande preocupação” na prática do serviço de urgência. Nos últimos seis anos, foram registados 232 casos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, mais de metade (131) apenas nos dois últimos anos. “O número é sempre a crescer: 59 em 2024 e 72 em 2025”, detalhou.
Cerca de 60% dos adolescentes envolvidos já tinham diagnóstico de perturbação depressiva ou ansiosa, mas aproximadamente 30% não apresentavam qualquer patologia identificada.
Há casos de jovens já acompanhados em Pedopsiquiatria que ingerem doses excessivas dos medicamentos prescritos, mas muitos recorrem também ao paracetamol, por ser de fácil acesso. O comprimido de 500 miligramas é de venda livre, enquanto o de um grama exige receita médica.
Embora existam situações premeditadas que configuram “verdadeiras tentativas de suicídio” — como a de um adolescente que acumulou medicamentos ao longo do verão para os ingerir mais tarde — a médica afirma que a maioria dos episódios resulta de atos impulsivos. “Zangou-se com o namorado ou o pai tirou o telemóvel e têm esta atitude de uma forma muito impulsiva, que muitas vezes até se arrependem”, referiu.
Erica Torres rejeita que estes comportamentos sejam meras chamadas de atenção. “Nunca podemos dizer isso”, afirmou, frisando que todos os adolescentes são avaliados por Pedopsiquiatria e que aqueles com ideação suicida permanecem internados.
Para a médica, estes atos são “sinónimo de mal-estar” e, por vezes, uma forma de o aliviar, à semelhança das autolesões. “Isto é a mesma coisa. É fazer mal a si próprio”, disse, explicando que os adolescentes constituem um grupo particularmente vulnerável, uma vez que o córtex pré-frontal ainda não está completamente desenvolvido, o que condiciona a gestão de impulsos.
Nesse sentido, defende maior vigilância por parte dos pais, recomendando que os medicamentos sejam guardados em locais seguros e que, no caso de jovens medicados com psicofármacos, a sua administração seja supervisionada por adultos. “Se o adolescente tem os medicamentos disponíveis no quarto, facilmente parte para uma atitude impulsiva”, alertou.
A médica defendeu também maior atenção na dispensa de medicamentos a menores nas farmácias e salientou o papel das famílias na supervisão da utilização da internet e na explicação dos riscos associados.
“Se não deixamos os nossos filhos andar sozinhos na rua, também não os podemos deixar sozinhos na internet”, sublinhou, defendendo igualmente a promoção de uma saúde mental equilibrada, com prática de desporto e atividades lúdico-culturais que reduzam o tempo passado nas redes sociais e nos jogos ‘online’.
Para a coordenadora, o número de intoxicações registado representa apenas “a ponta do iceberg” de um problema mais vasto de saúde mental, que considera ser “uma verdadeira preocupação”. Ataques de pânico, ansiedade, dor torácica e palpitações associadas a sofrimento psicológico são queixas frequentes na urgência pediátrica.
Contactada pela Lusa, Fátima Rato, coordenadora do Centro de Informação Antiveneno do INEM, afirmou não haver registo de casos diretamente associados ao desafio lançado na rede social TikTok.
“Temos casos de intoxicações intencionais com paracetamol, nomeadamente em adolescentes (…) mas os números que temos este ano são sensivelmente semelhantes ao que tínhamos o ano passado e ao outro”, disse.
Fátima Rato alertou que as intoxicações com paracetamol podem ter consequências graves quando as doses ingeridas são elevadas, incluindo toxicidade hepática e, em situações extremas, necessidade de transplante hepático.
SO/LUSA
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