Trauma, epigenética e dor
Especialista em Medicina Geral e Familiar

Trauma, epigenética e dor

A dor crónica é um fenómeno complexo que resulta da interação entre processos nociceptivos, mecanismos de modulação e fatores psicossociais. O trauma psicológico é particularmente importante neste âmbito. Cerca de 60% das pessoas com dor crónica têm história de trauma, mas esta questão raramente é abordada em consulta.

O trauma não se limita a um evento único e extremo. Pode resultar da exposição à negligência, disfunção familiar, violência interpessoal, stress crónico ou mesmo experiências pré-natais, com efeito cumulativo. Destaco as experiências adversas na infância (Adverse Childhood Experiences, ACEs), que se associam, de forma dose-dependente, a maior vulnerabilidade para várias doenças crónicas, incluindo dor persistente, ansiedade e depressão. É importante referir que a exposição à adversidade não desencadeia forçosamente trauma psicológico ou perturbação de stress pós-traumático (PTSD) – que é uma entidade clínica própria e que deve ser identificada. No entanto, a adversidade associa-se a maior prevalência de dor crónica mesmo na ausência de PTSD.

A psiconeuroimunologia identifica mecanismos comuns entre trauma e dor crónica, incluindo inflamação crónica de baixo grau, ativação persistente do eixo hipotálamo–hipófise–suprarrenal (HPA), disfunção autonómica e modificações nas redes de ameaça e controlo, envolvendo a amígdala, o córtex pré-frontal e o hipocampo. Essas alterações sensibilizam o sistema nervoso, tornando-o mais reativo, e ajudam a explicar fenómenos como hiperalgesia, cinesiofobia e respostas paradoxais aos tratamentos.

A epigenética contribui para compreender como estas experiências podem “ficar gravadas” no organismo. Processos como a metilação do DNA, modificações de histonas e regulação por microRNAs alteram a expressão génica sem interferir na sequência do DNA, influenciando vias do eixo HPA, mediadores inflamatórios, neurotransmissores e sistemas de vinculação social. Embora grande parte da evidência seja ainda associativa, é um campo promissor.

Na prática clínica, trauma e PTSD devem ser encarados como fatores que aumentam a complexidade do tratamento, mais do que simples comorbilidades. O chamado “doente difícil” — resistente, com evolução errática, baixa adesão, sono muito perturbado, hipervigilância ou catastrofização — tem frequentemente o sistema nervoso em modo de proteção permanente, merecendo que se avalie a presença de sintomas de stress ou trauma/PTSD.

Neste contexto, o trauma-informed care é fundamental. Reconhecer o impacto do trauma, criar um ambiente seguro, escutar ativamente e recorrer a estratégias multidimensionais melhora a adesão, o prognóstico e a funcionalidade, até porque as alterações não são definitivas. A plasticidade neurobiológica e epigenética permite a modulação através de psicoterapia, mindfulness, movimento gradual, sono reparador, relações seguras e ambientes enriquecedores. Integrar o trauma nos cuidados, torna-nos mais eficazes, mais humanos e menos iatrogenizantes.

 

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