Terapêutica neoadjuvante no cancro do cólon: evidência vs prática clínica
O cancro colorretal representa o segundo cancro mais frequente em Portugal, com perto de 10 mil novos casos anuais, e é também o segundo mais letal, logo após o cancro do pulmão. Estima-se que 12 portugueses morram diariamente devido a esta doença. A nível mundial, os números são igualmente alarmantes: cerca de dois milhões de novos casos por ano e mais de 900 mil mortes, o que o torna o segundo cancro mais mortal no planeta.
A cirurgia continua a ser a pedra angular no tratamento com intenção curativa do cancro do cólon. A decisão terapêutica é geralmente baseada na ressecabilidade do tumor, na presença de metástases e na avaliação do risco-benefício do tratamento sistémico. A quimioterapia adjuvante está bem estabelecida para doentes com doença em estádio III e em alguns casos de estádio II de alto risco. No entanto, o papel da quimioterapia neoadjuvante permanece controverso fora do contexto de ensaios clínicos.
Nos últimos anos, estudos como o FOxTROT, o PRODIGE 22, o OPTICAL e o NeoCol procuraram responder a uma pergunta central: será a quimioterapia neoadjuvante mais eficaz do que a estratégia tradicional de cirurgia seguida de quimioterapia nos tumores ressecáveis?
O estudo FOxTROT, um dos mais relevantes até à data, demonstrou que seis semanas de quimioterapia pré-operatória com FOLFOX resultam numa regressão tumoral significativa e numa menor taxa de margens cirúrgicas positivas. Verificou-se ainda uma redução modesta da taxa de recidiva aos dois anos. Contudo, não demonstrou um benefício claro em termos de sobrevida global.
Resultados semelhantes foram encontrados no PRODIGE 22, que utilizou um esquema perioperatório de FOLFOX (quatro ciclos antes e oito depois da cirurgia). Apesar de ter revelado melhorias em parâmetros como o tumor regression grade e a taxa de R0, não houve ganho estatisticamente significativo na sobrevida livre de doença ou global.
O NeoCol trial também comparou quimioterapia neoadjuvante com cirurgia primária seguida de adjuvância. Mais uma vez, não houve diferenças relevantes em termos de sobrevida, embora a quimioterapia neoadjuvante tenha sido associada a menos complicações pós-operatórias e melhor tolerância aos ciclos de quimioterapia.
Na prática clínica, a percentagem de doentes elegíveis para terapêutica neoadjuvante continua a ser reduzida. Isto deve-se, em grande parte, à dificuldade em estadiar com precisão a invasão tumoral pré-operatória e ao receio de progressão em casos mal selecionados. Por outro lado, a evidência de benefício em sobrevida ainda não é robusta, o que limita a generalização da estratégia.
No entanto, em contextos específicos — como doença localmente avançada, risco elevado de morbilidade cirúrgica ou doentes com fraca tolerância esperada ao regime adjuvante — a terapêutica neoadjuvante surge como uma opção razoável e segura, com potencial para melhorar a qualidade da cirurgia e a trajetória terapêutica global do doente.






