Especialista em Medicina Geral e Familiar, USF Barão do Corvo (ACES Gaia) e Membro da Iniciativa IM3M

Obrigatoriedade da assistência médica: mitos e realidades – visão do médico

Em caso de emergência médica em que a vida da pessoa está em risco, a obrigatoriedade de assistência prevalece, não deixando dúvida. Mas e nos outros casos?

Como médica de família, o caso mais paradigmático será a quebra da relação médico de família- utente. Fui ensinada que a responsabilidade sobre a qualidade da relação médico-doente cai quase exclusivamente no médico. Devemos ser dotados de ótimas e variadas técnicas de comunicação para de forma eficaz ajudarmos a pessoa num momento de tão grande fragilidade quanto o de doença ou possibilidade da mesma.

Durante a minha formação tive uma ocasião em que me senti perseguida por parte de uma utente. Esta queria insistentemente fazer desmame dos antidepressivos que tomava sem que eu fosse dessa opinião; para este efeito ligou diversas vezes para a unidade exigindo que eu orientasse a situação via telefone e, posteriormente, em consulta aberta no dia e hora pretendidos pela utente.

Fui perturbada durante a minha atividade profissional por esta situação, tendo sido ainda informada dos vários comentários insultuosos que a utente ia tecendo a meu respeito. Recorri à coordenadora da unidade que em retorno me disse que eu teria de gerir esta situação e que, no fundo, e em resumo, como diz o ditado “o cliente tem sempre razão”.

A questão que se coloca é: tenho mesmo de prestar cuidados a esta utente? O utente tem efetivamente sempre razão e os profissionais é que têm de se adaptar ao mesmo, independentemente da situação?

Devo manter na minha lista de utentes uma utente com quem me incompatibilizei após ter sido alvo de acusações, ameaças e tentativa de coação? Se o posso alterar da minha lista, tenho ainda obrigação de o atender em consulta aberta? E quando o utente em questão violou já os limites aceitáveis das relações com os médicos da unidade? Poderá ser excluído da unidade ou terá um dos elementos médicos de manter os cuidados de saúde a este utente?

Compreendo e não podemos esquecer da posição de vulnerabilidade do doente. Quando estamos doentes, todo o desconhecimento, impotência e confronto com a fragilidade da natureza humana, leva-os para uma posição de enorme humildade em que pedimos a outro, o médico, alguém que não pertence ao nosso núcleo social para cuidar de um dos nossos maiores tesouros, a nossa saúde.

O conhecimento dos limites a partir dos quais o médico tem o direito a proteger-se em vez de proteger, apenas vem beneficiar a prática clínica, salvaguardando o bem-estar dos profissionais e definindo linhas-limite que não deverão ser ultrapassadas, sendo impossível de justificar mesmo pela pessoa mais vulnerável.

 

 

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