Médico Interno de Formação Específica de MGF, USF Canelas - ACeS Grande Porto VIII - Espinho/Gaia

Dor crónica – uma doença

Se estiver sentado ao lado de duas pessoas, a probabilidade diz-nos que ou o leitor ou uma dessas pessoas tem dor crónica. Dor. Crónica. Isto significa que ou o leitor ou quem está ao seu lado está há pelo menos 3 meses a passar por uma experiência desagradável, pessoal e intransmissível, com efeitos nefastos no funcionamento da pessoa e no seu bem-estar social e psicológico.

Evidentemente, este exercício pode não corresponder à verdade na amostra do leitor, mas ajuda a retratar a prevalência estimada pelos estudos nacionais. O facto de não ser visível a olho nu faz com que a prevalência de 36,7% de dor crónica em Portugal surpreenda muitas pessoas. Pode ser difícil entender a experiência pela qual uma pessoa com dor está a passar, quando essa experiência é subjetiva e difícil de quantificar. A dor torna-se ainda mais incompreendida quando não existe uma agressão óbvia à integridade física – a dor de alguém que corta um dedo e está a sangrar é mais “visível” do que a de alguém que está sentado tranquilamente numa cadeira, mesmo que este último afirme ter uma dor de intensidade 10/10.

Como médicos e profissionais de saúde do século XXI, não podemos cometer o mesmo erro de Descartes, que defendia que a dor ou era física ou psíquica. Sabemos hoje que a dor é um output do cérebro e não um input. Ela é muito mais do que o processo biológico da nocicepção, estando frequentemente presente na sua ausência.

A dor crónica deve ser encarada como uma doença em si mesma, que apesar de não ter cura, deve ser tratada como qualquer outra doença crónica, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida. Para isso temos de saber avaliar, ouvir e intervir na dor. Temos de entender como a classificação da dor por mecanismos fisiopatológicos leva a opções terapêuticas específicas. Temos de evitar a cronificação da dor aguda através do seu tratamento atempado e multimodal ab initio. Temos de ser realistas e honestos com as pessoas que observamos, para conseguirmos gerir as expetativas daqueles que têm dor com muito tempo de evolução, por vezes décadas.

Na abordagem farmacológica, destacam-se as seis regras básicas da OMS no controlo da dor crónica: 1) medicação pela via oral (preserva a autonomia e empodera o doente), 2) medicação pelo relógio (a horas certas); 3) medicação pela escada analgésica; 4) utilização de adjuvantes (em qualquer um dos degraus da escada; muitas vezes os adjuvantes são mesmo a primeira linha); 5) medicação para o indivíduo (magro vs obeso, jovem vs idoso, polimedicado vs sem medicação, insuficiente renal vs insuficiente hepático); 6) atenção aos detalhes.

Contudo, abordar a dor crónica apenas do ponto de vista farmacológico irá ter probabilidade de sucesso reduzida se não considerarmos o tratamento não-farmacológico como parte da solução. Aliás, boa parte do trabalho estará feita se tivermos consciência disto (tantos os profissionais e como os doentes). Existe toda uma miríade de tratamentos não farmacológicos disponíveis para o tratamento da dor crónica que devem ser recomendados, dos quais destaco a atividade física e os tratamentos psicológicos (como o treino de relaxamento, as terapias cognitivo-comportamentais, entre outras). Apenas uma abordagem multimodal e multidisciplinar permitirá diminuir de forma relevante o impacto da dor crónica na sociedade.

 

 

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