Psicadélicos e saúde mental: uma mudança de paradigma
Psiquiatra, professor no Ispa e diretor clínico da The Clinic of Change

Psicadélicos e saúde mental: uma mudança de paradigma

O espaço crescente que o diálogo sobre a saúde mental tem vindo a ocupar na sociedade civil é extremamente positivo, porque promove um país mais saudável, uma cidadania mais informada e políticas públicas de saúde mais consequentes. Segundo o último Inquérito Nacional de Saúde, publicado em 2019, 8% da população em análise registava sintomas depressivos. Uma estimativa, referente ao mesmo ano, citada no relatório “Portugal: Perfil de saúde do país 2023” da OCDE, traça um cenário igualmente preocupante: 22% da população analisada sofria de uma perturbação de saúde mental, um valor superior à média europeia.

Não obstante o valor inerente a uma discussão mais ampla no espaço público sobre a saúde mental, na componente clínica a inovação terapêutica em Portugal tem avançado a um ritmo demasiado lento face às necessidades dos doentes. Em condições como a depressão resistente, o stress pós-traumático ou as dependências, muitas pessoas continuam ainda sem respostas satisfatórias. É neste contexto que a psicoterapia assistida por psicadélicos tem vindo a ganhar relevância científica e constitui, hoje, uma das abordagens clínicas mais promissoras para tratar um dos maiores problemas de saúde mental do nosso tempo.

A descoberta, por parte de uma equipa de psiquiatras da Universidade de Yale, há 25 anos, do potencial antidepressivo da cetamina constituiu um dos maiores progressos recentes na investigação sobre a depressão e renovou os alicerces teóricos da psiquiatria. Não apenas porque abriu novos caminhos no tratamento de perturbações para as quais as abordagens vigentes se mostravam insuficientes, mas também porque alterou a forma como entendemos a depressão.

A explicação desta mudança de paradigma pode resumir-se em três fatores. Em primeiro lugar, porque, ao contrário dos antidepressivos tradicionais administrados por via oral, cujos resultados podem demorar semanas a manifestar-se, a cetamina demonstrou capacidade para reduzir sintomas depressivos em poucas horas. Em segundo lugar, porque a cetamina se baseia num mecanismo de ação diferente, que abriu a porta ao desenvolvimento de novos medicamentos: enquanto a teoria dominante até então atribuía os efeitos dos antidepressivos à modulação de neurotransmissores, como a serotonina, a noradrenalina e a dopamina, a cetamina atua na sinalização glutamatérgica e inibe os recetores de N-metil-D-aspartato (NMDA). Por fim, porque este psicadélico se revelou capaz de reduzir sintomas em doentes com depressão resistente ao tratamento, isto é, que não respondiam aos antidepressivos convencionais.

A evidência científica produzida ao longo dos últimos anos ajuda a compreender o potencial terapêutico que tem alimentado a adoção progressiva deste tratamento com base em protocolos clínicos testados. Em 2024, um estudo publicado na revista Psychedelic Medicine concluiu que a psicoterapia assistida por cetamina produziu uma redução sustentada nos sintomas de ansiedade, depressão e stress pós-traumático para lá do período das sessões de dosagem e integração. Por sua vez, uma revisão sistemática publicada em 2025 no Journal of Affective Disorders, que analisou cinco estudos diferentes, concluiu que o uso de cetamina e da escetamina conduz a uma melhoria na qualidade de vida dos doentes.

No nosso país, um estudo recente, promovido pela The Clinic of Change, registou melhorias estatística e clinicamente relevantes nos sintomas depressivos e de ansiedade, bem como na incapacidade funcional (escalas PHQ 9, GAD 7 e WSAS), de uma amostra de 98 pacientes após o programa de psicoterapia assistida por cetamina.

Em Portugal, a psicoterapia assistida por psicadélicos está a consolidar-se, mas não estamos a avançar ao ritmo que a incidência da depressão na nossa sociedade exige. Na Noruega, as autoridades reguladoras aprovaram, em 2025, o financiamento público do tratamento com cetamina por via intravenosa para casos de depressão resistente. Já este ano, em França, a Agence nationale de sécurité du médicament et des produits de santé aprovou a utilização da cetamina intravenosa para o tratamento de crises suicidas graves em adultos.

Devemos falar mais sobre saúde mental? Sem dúvida. Mas utilizemos todo o conhecimento que temos ao dispor para articular a nossa discussão. Em 2026, temos de incluir os psicadélicos nessa discussão.

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