Polimedicação ou velhos problemas
O envelhecimento da população europeia e portuguesa, em particular, sublinham uma certa forma de reorganização demográfica e epidemiológica, desenhando um novo cenário social e clínico, com fortes implicações em termos de saúde pública e de orçamento do Estado.
Portugal tem, aliás, o segundo índice de envelhecimento mais elevado da Europa.
A queda da natalidade e o aumento da expectativa de vida, pese embora o impacto da Pandemia recentemente vivida, traduzem o controlo relativo das doenças infecciosas e o acentuar do perfil de patologias crónicas, sobretudo em idades mais avançadas.
Por outro lado, a acessibilidade a cuidados de saúde e a confiança generalizada no sistema público de saúde, explica que as franjas mais idosas, desejem, procurem e aceitem várias intervenções médicas e, por consequência, não direi uma medicalização sistemática, mas a exposição ao risco de polifarmácia.
É nesta perspectiva que, o risco de interações medicamentosas e de efeitos adversos nos pacientes devem ser equacionados. Recordemos as quedas, os quadros de aparente ou real deterioração cognitiva, a confusão, a desidratação, as vertigens ou a sonolência exagerada.
Conhecem-se as hospitalizações e a influência na redução da qualidade de vida entre os mais velhos, mas não está tão presente o reconhecimento na perda da capacidade funcional dessas pessoas.
A polimedicação, assim definida como o uso de cinco ou mais medicamentos simultaneamente, é causa significativa de iatrogenia, sobretudo como dissemos em idosos.
As multimorbilidades exigem dos médicos uma atenção especial e a necessidade de revisão das medicações em curso.
Obviamente que, o percurso dos nossos utentes no SNS e fora dele, eleva o risco pela participação de múltiplos prescritores, acentuando mesmo as duplicações terapêuticas, as interacções e uma má adesão à medicação.
Convém ainda situar a dimensão dos custos e a complexidade que, muitos esquemas impõem, seja pelos horários, seja pelas titulações iniciais em muitos casos.
A desprescrição torna-se a estratégia a seguir e há referências sólidas ao papel pedagógico e sinalizador que, eventualmente, as farmácias comunitárias poderiam assumir, quer pela proximidade, quer pela sua dimensão de promoção de saúde.
São recomendáveis medidas periódicas de revisão das medicações e a insistência sobre outros eventuais medicamentos, sejam homeopáticos, suplementos alimentares, “naturais” ou de venda livre, para despiste mais completo de indicação para suspensão ou de potencial de risco ou interacção.
Na verdade, o apelo maior é ao reforço da comunicação com estes doentes ou seus cuidadores, tendo por objectivos uma maior humanização e uma aposta na prevenção da própria iatrogenia.
Seguramente os problemas associados a esta temática estão longe de se esgotar ou limitar aos erros dos clínicos, ou ao menor cuidado com a avaliação das interacções farmacológicas.
A noção permanente do escalão etário e da fragilidade desta população não podem ser descartadas na ponderação dos riscos da prescrição.
Sobretudo, diria eu, quando Portugal viu o Presidente do INFARMED ser eleito, no final de 2025, como Presidente do Conselho de Administração da Agência Europeia de Medicamentos!
* O autor escreve de acordo com o A.A.O.
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