“O hipoparatiroidismo é a última situação de deficiência hormonal primária que ainda não é tratada de forma sistemática através da substituição da hormona em falta”
A terapêutica convencional pra hipoparatiroidismo baseada exclusivamente em cálcio e vitamina D pode revelar-se insuficiente para alcançar alguns dos parâmetros bioquímico, de acordo com as últimas guidelines. Em entrevista, Neil Gittoes, médico endocrinologista e professor universitário, explicou as novas recomendações no Congresso Português de Endocrinologia 2026/77.ª Reunião Anual da SPEDM, em Coimbra.

Quais são as principais alterações nas recomendações de 2025 para hipoparatiroidismo em comparação com as versões anteriores?
As novas recomendações para a gestão do hipoparatiroidismo introduzem uma mudança conceptual relevante ao colocarem o doente no centro da tomada de decisão, com uma clara ênfase numa abordagem holística dos cuidados. Nas versões anteriores, o enfoque recaía predominantemente nos parâmetros bioquímicos avaliados através de análises ao sangue e à urina. Embora estes continuem a ser fundamentais, as atuais recomendações valorizam de forma mais explícita aspetos relacionados com a qualidade de vida, o bem-estar e o controlo sintomático. Paralelamente, as evoluções terapêuticas mais recentes no tratamento do hipoparatiroidismo tornam cada vez mais exequível a obtenção de resultados clínicos mais abrangentes e globalmente positivos para os doentes.
Quais serão as que vão ter maior impacto imediato na prática clínica diária?
Curiosamente, parte do impacto imediato das novas recomendações prende-se com medidas aparentemente simples relacionadas com a suplementação de cálcio e vitamina D. Em alguns centros continuam a ser utilizadas doses elevadas de suplementos de cálcio, que sabemos serem difíceis de tolerar pelos doentes e frequentemente associadas a efeitos adversos relevantes. As recomendações sublinham que a utilização de formas ativas de vitamina D pode permitir uma melhor otimização do equilíbrio do cálcio, sendo, em muitos casos, suficiente sem necessidade de recorrer a suplementos adicionais de cálcio. É igualmente essencial garantir que a ingestão alimentar de cálcio seja adequadamente otimizada.
Adicionalmente, as orientações clarificam a quantidade de cálcio que pode ser realisticamente absorvida por toma. Assim, quando é necessária a suplementação com doses mais elevadas de cálcio, esta deve ser fracionada ao longo do dia para maximizar a absorção intestinal. A variabilidade observada na prática clínica relativamente ao uso de suplementos de cálcio torna particularmente relevante a clareza introduzida por estas recomendações, cujo impacto já se começa a fazer sentir.
“A principal alteração introduzida pelas recomendações consiste na identificação de um grupo de doentes com elevada necessidade clínica que poderá beneficiar da terapêutica de substituição com PTH”
Que aspetos das novas recomendações são mais difíceis de implementar na prática clínica real?
A terapêutica convencional baseada exclusivamente em cálcio e vitamina D pode revelar-se insuficiente para alcançar alguns dos parâmetros bioquímicos considerados essenciais para resultados favoráveis a longo prazo no hipoparatiroidismo. Além disso, mesmo quando esses parâmetros se encontram dentro dos intervalos recomendados, muitos doentes continuam a apresentar sintomas persistentes e uma qualidade de vida comprometida.
Neste contexto, pode ser particularmente desafiante cumprir integralmente os padrões definidos nas recomendações quando apenas estão disponíveis terapêuticas convencionais. Dados mais recentes relativos à terapêutica de substituição com hormona paratiroideia (PTH) demonstram que é possível melhorar significativamente vários dos objetivos clínicos anteriormente difíceis de atingir.
Um dos desafios atuais prende-se com a disponibilização equitativa da terapêutica de substituição com PTH aos doentes que dela necessitam. Pela primeira vez, as recomendações estabelecem critérios explícitos para o acesso a esta terapêutica. Espera-se que, com o tempo, a substituição da hormona em falta com PTH se torne amplamente acessível, permitindo benefícios clínicos relevantes no curto prazo e melhores resultados a longo prazo.
Em que grupos de doentes se espera a maior mudança na abordagem terapêutica?
A principal alteração introduzida pelas recomendações consiste na identificação de um grupo de doentes com elevada necessidade clínica que poderá beneficiar da terapêutica de substituição com PTH. Embora este tratamento esteja atualmente disponível apenas em alguns países, a sua disponibilização mais alargada poderá representar a mudança mais significativa na abordagem terapêutica destes doentes. Importa salientar que o hipoparatiroidismo é a última situação de deficiência hormonal primária que ainda não é tratada de forma sistemática através da substituição da hormona em falta. Estamos num momento potencial de mudança de paradigma, no sentido de tratar esta condição através da reposição fisiológica de PTH.
“… a disfunção renal pode constituir uma complicação relevante a longo prazo em doentes tratados com terapêutica convencional quando não é alcançado um controlo metabólico ideal”
Que lacunas de evidência permanecem após a publicação das guidelines de 2025?
O hipoparatiroidismo é classificado como uma doença rara e, como tal, continua a existir escassez de conjuntos de dados robustos que permitam caracterizar plenamente a história natural da doença e os seus desfechos a longo prazo. Ainda assim, registos multinacionais recentes têm vindo a fornecer informação mais consistente sobre as consequências a curto e longo prazo do hipoparatiroidismo. Sabe-se, por exemplo, que a disfunção renal pode constituir uma complicação relevante a longo prazo em doentes tratados com terapêutica convencional quando não é alcançado um controlo metabólico ideal.
Dados iniciais relativos à terapêutica de substituição com PTH sugerem que a função renal pode ser estabilizada ou mesmo melhorada nos primeiros anos de tratamento, o que assume particular relevância em doentes com patologia renal prévia. Ao nível do esqueleto, o hipoparatiroidismo associa-se a alterações complexas do metabolismo ósseo. Existe evidência de um potencial aumento do risco de fratura, embora o mecanismo fisiopatológico não corresponda ao observado na osteoporose clássica. É necessária investigação adicional nesta área, mas dados preliminares indicam que a substituição da PTH pode contribuir para restabelecer uma fisiologia óssea mais próxima do normal.
Que áreas de investigação devem ser prioritárias nos próximos anos?
As recomendações destacam claramente a importância da qualidade de vida e do bem-estar. No entanto, na prática clínica atual, a avaliação sistemática da qualidade de vida em doentes com hipoparatiroidismo ainda não está plenamente integrada nos cuidados de rotina. Existe um esforço crescente para incorporar esta dimensão na prática clínica, mas ainda estamos numa fase inicial de desenvolvimento de instrumentos específicos e validados que permitam medir de forma fiável o impacto da doença na qualidade de vida.
Uma vez que a baixa qualidade de vida constitui um dos critérios para acesso à terapêutica de substituição com PTH, torna-se essencial integrar esta avaliação na prática clínica, de modo a assegurar um acesso equitativo ao tratamento. São necessários dados de longo prazo sobre qualidade de vida em doentes tratados com terapêutica convencional e com terapêutica de substituição com PTH. Adicionalmente, esses dados devem ser correlacionados com avaliações objetivas da função renal e da saúde óssea ao longo do tempo.
SO
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