“Medicina e Literatura são áreas complementares na experiência da complexidade e do sofrimento humanos”

Hélder Teixeira Aguiar é médico de família e escritor. “Na Tua Mão” é o nome do livro que o levou a receber o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís. Ao Jornal Médico de Família, fala sobre a sua obra e sobre as mais-valias da interligação entre a Medicina e a Literatura, sobretudo na empatia na relação médico-doente.

“Medicina e Literatura são áreas complementares na experiência da complexidade e do sofrimento humanos”

Foi distinguido com o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís. O que sente?

Foi uma grande surpresa! Há sempre uma esperança, como é óbvio, mas havia muitos candidatos e achei que seria muito difícil. A própria natureza narrativa da minha obra, que tem um perfil um pouco diferente do habitual, poderia não ser apelativa para o júri. Pensei mesmo que não teria qualquer hipótese e apenas me lembrei do Prémio na semana da cerimónia. Acabou por ser um momento muito feliz quando, domingo à noite, recebo um telefonema do Prof. Guilherme Oliveira Martins a transmitir-me, em primeira mão, a notícia. Não queria acreditar! A minha mulher reagiu de forma mais eufórica do que eu, naquela noite.

Qual é o enredo de “Na Tua Mão”?

Tematicamente, é uma história de migração que se desenrola na perspetiva de dois irmãos luso-venezuelanos, de 9 e 16 anos, forçados a fugir de Caracas após o desaparecimento da mãe jornalista. Tal como tem acontecido a muitos milhões de venezuelanos, eles irão acabar por se ter de embrenhar numa das rotas mais perigosas do mundo: o Estreito de Darién. São 100 km de selva muito hostil, entre a América do Sul e a Central, conhecida como “Selva da Morte”.

Trata-se de uma história contemporânea que aborda temas sensíveis e pesados. O romance não foge à realidade (a maioria dos episódios na selva basearam-se em relatos reais), mas ganha este contraste peculiar ao ser narrada pelos olhos de uma criança e um jovem adolescente. O ponto de vista juvenil acaba por impregnar elementos de humor, aventura e de uma certa inocência, que até certo ponto são mecanismos de defesa psicológica.

Foi ao investigar esta travessia, atravessada todos os anos por mais de um milhão de pessoas, um quinto dos quais menor de idade e a viajar desacompanhado, que me senti impelido a dar-lhes uma voz. Impressionou-me a profundidade dos testemunhos que li: jovens que, atirados para o “caixote do lixo” do mundo, para uma catadupa de decisões impossíveis, são forçados a um amadurecimento ultrarrápido, a uma reinvenção intrínseca para sobreviver, a um constante questionamento sobre o mundo à sua volta, a uma capacidade de nos fazer refletir. Num núcleo mais emocional, o romance explora muito esse amadurecimento pessoal, a reinvenção de papéis na relação fraternal e o impacto da interação intercultural.

“Foi esta a história que me apaixonou e que me levou a escrever e a dar voz a este sofrimento. No Estreito de Darién confluem pessoas de imensos locais”

Como surgiu a ideia desta história? Baseou-se nos tais testemunhos de que falou há pouco?

Sim. Gosto muito de estar atualizado e há uns tempos deparei-me com um artigo da jornalista Nadja Drost, vencedora do Prémio Pullitzer. Sempre gostei de ler e o “bichinho” interior para escrever qualquer coisa sempre existiu dentro de mim. Foi esta a história que me apaixonou e que me levou a escrever e a dar voz a este sofrimento. No Estreito de Darién confluem pessoas de imensos locais. É um encontro multicultural num estreito onde se tenta sobreviver, numa selva onde se tem de enfrentar várias dificuldades e também os nativos, que veem o seu ecossistema ameaçado por esta avalanche migratória.

 

Escreveu o livro em 2 anos…

A história em si foi escrita em cerca de 9 meses, mas houve todo um trabalho de investigação desde o início até ao fim. Aliás, cheguei mesmo a ter contacto, via WhatsApp, com um grupo de migrantes que faziam o percurso. Primeiramente, dediquei-me mais ao retrato psicológico dos personagens, mas faltava transformar a narrativa numa verdadeira história. A minha escrita é um pouco caótica, vou acrescentando camadas. O meu objetivo sempre foi que a história espelhasse a realidade, apesar de alguma liberdade narrativa.

 

Como conseguiu conciliar com a vida pessoal e de médico de família?

Foi complicado! Basicamente, surripiei horas ao sono, porque quando me vinha uma ideia à mente, tinha mesmo de continuar a escrever. A minha mulher encontrou-me várias vezes, à noite, no escritório. Estes dois irmãos são muito reais para mim, é como se vivessem dentro da minha cabeça. Quando acabei o livro, quase chorei na verdade, porque tive de decidir que, pronto, a história que eles tinham para contar, terminou. Tive menos tempos livres e as vezes em que saí para alguma atividade, foi com o apoio da minha esposa. Tal como a Medicina, a escrita começou a tornar-se obsessiva, no sentido de querer atingir o melhor possível.

“O médico de família é o confidente, ouve muitas histórias, capta o sofrimento dissimulado nas consultas”

O livro fala de imigrantes, uma realidade também bem conhecida Portugal – apesar, obviamente, das diferenças face ao que se passa na Venezuela e no Estreito de Darién. A literatura também acaba por ter uma ligação à Medicina, ao dar a conhecer realidades de vida muito concretas?

Sim. Sempre tive uma predisposição para me colocar no lugar do outro. Lembro-me de em criança ver reportagens sobre a guerra e a fome nos telejornais e isso incomodava-me. Fazia-me pensar como era um privilegiado, inclusive quando a minha mãe me obrigava a comer tudo e a não desperdiçar comida, porque havia muitas crianças com fome. A Medicina também aprofundou esse meu lado mais empático, sobretudo pelo contacto direto com o sofrimento humano. O médico de família é o confidente, ouve muitas histórias, capta o sofrimento dissimulado nas consultas. A Medicina permitiu-me compreender melhor a dolência. E, como escritor, talvez isso se reflita ao nível da construção dos personagens.

  

Hoje, fala-se muito da Medicina Narrativa. Quais as mais-valias?

Maior empatia, por exemplo. Na Medicina Geral e Familiar (MGF) é essencial estar atento aos sinais que podem indiciar dolência. As próprias palavras nem sempre refletem a verdade, mesmo que inconscientemente. Cabe ao médico descodificar o que é dito e, para tal, devemos estar muito atentos à narração, construindo uma história – não apenas clínica – ao longo das várias consultas. Existe uma interligação entre a Medicina, que tem uma visão mais analítica, e a Escrita, que é mais abstrata e filosófica. Medicina e Literatura são áreas complementares na experiência da complexidade e do sofrimento humanos.

Em suma, a narrativa ajuda na construção da história do doente, que permitirá, nomeadamente, entender melhor a dolência?

Sim, ao longo do tempo é muito importante ir construindo essa história. O médico de família, como presta cuidados contínuos, tem uma posição privilegiada neste ponto. Obviamente, seria importante haver tempo para o silêncio, porque é aí que surge um “Já agora, Dr.” Na Medicina atual, muito centrada nos indicadores – apesar de terem o seu lugar –, e na agenda do médico, torna-se cada vez mais difícil para parar e deixar a pessoa falar livremente. Ter tempo para escutar.

“Existem benefícios a nível do raciocínio, na concentração, na empatia e na interação com os outros, como já demonstram alguns estudos”

Esse tempo para a escuta é o que mais faz falta na Medicina?

Sim. Não é fácil, porque existe uma grande pressão por causa das longas listas de utentes, que nos sugam o tempo para a consulta. Mas há também esta outra vertente mais tecnológica da sociedade atual. Estamos muito focados nos ecrãs. Aliás, enquanto escritor, questiono-me: se escrevesse em papel, seria uma escrita diferente? A tecnologia tem o seu lado positivo, mas também nos retira momentos de união. Existem estudos que alertam para a perda das refeições em família, um hábito cultural muito português. Nesse encontro à mesa conversa-se, debate-se ideias… Hoje, os mais jovens poderão ter menos competências para o debate e partilha por crescerem com a tecnologia. Estamos cada vez mais tecnológicos e isso também nos cria desafios enquanto médicos.

A Medicina Narrativa pode ser um apoio para esta medicina cada vez mais tecnológica?

Sim, sem dúvida! O próprio processo de leitura oferece-nos ferramentas nesse sentido, porque não nos limitamos a ter mais cultura geral. Existem benefícios a nível do raciocínio, na concentração, na empatia e na interação com os outros, como já demonstram alguns estudos.

Relativamente ao utente, também se fala muito da biblioterapia. Considera que também se deve apostar nesta valência?

Sim, é uma boa ideia. Aliás, já aconselhei livros a alguns doentes.

E como foi a reação?

Ficaram surpreendidos, mas depois perceberam que pode ser uma ferramenta útil. No caso dos jovens, gosto muito de propor a leitura, sobretudo entre os 15 e os 18 anos, naquela fase em que andam desencontrados. Os anglo-saxónicos têm uma categoria muito interessante na Literatura: Young Adult. São livros “meio-termo”, nem muito densos, nem infantis, muitas vezes com protagonistas jovens com quem se identificam. Falo de obras como Os Marginais, Mataram a Cotovia, À Espera no Centeio, A Rapariga que Roubava Livros e outros mais recentes. Em Portugal não existe tanto esta cultura de adequação, e por vezes propomos obras demasiado complexas nestas idades, desencadeando um “trauma literário”. E então, afasta-se para sempre de ler seja o que for.

“Mas, na realidade, ao fim de muito tempo a lidar, regularmente, com o sofrimento e com a morte – também trabalho na equipa de Cuidados Paliativos –, acabamos por não nos conseguir abstrair assim tanto deste contexto”

A narrativa também pode ser uma ajuda para prevenir o burn-out dos médicos?

Sem dúvida! Sempre tive muita curiosidade em saber o porquê das coisas, o que me levou a interessar pela Literatura, apesar do sonho de ser médico. Às vezes, achamos que a nossa profissão não tem um impacto muito significativo nas nossas emoções. Mas, na realidade, ao fim de muito tempo a lidar, regularmente, com o sofrimento e com a morte – também trabalho na equipa de Cuidados Paliativos –, acabamos por não nos conseguir abstrair assim tanto deste contexto. O médico é treinado para ser empático, mas também para não se deixar envolver demais. Contudo, nem sempre é fácil. Recordo-me que, na pandemia, senti necessidade de me agarrar a este lado mais criativo da literatura. Foi uma forma de ganhar fôlego. Voltei a ler mais e, a partir daí, veio também a escrita.

A APMGF tem o Clube de Leitura, no qual o Dr. também participa. Que balanço faz desta iniciativa da associação?

Integro o Clube apenas há uns meses. Tem sido muito gratificante poder contar com um grupo de colegas com quem posso partilhar o gosto pela leitura. É um projeto muito bonito e que tem pernas para andar. É um excelente exemplo de como é importante acrescentar à Medicina a Literatura.

“Temos que ter disciplina para fazer aquilo de que gostamos; caso contrário, tendemos a prejudicar a nossa saúde e, inclusive, o nosso trabalho”

O que diria aos seus colegas que ainda não começaram a explorar esta interligação entre Medicina e Literatura?

Qualquer pessoa é um potencial leitor. Se ainda não teve o prazer de o descobrir é porque ainda não encontrou o livro certo. No Clube de Leitura é possível constatar como os livros nos ajudam a conhecer e discutir outras realidades, a aprofundar certos temas. O processo de leitura também é fundamental para os jovens, quer na prevenção do burn-out quer ao estimular o diálogo, a empatia e a concentração.

Quem nos está a ler poderá perguntar: mas e o tempo para ler livros, tendo em conta toda a sobrecarga do médico de família? O que responde?

Acho que quando gostamos mesmo de alguma coisa, arranjamos sempre algum tempo para ela. Às vezes, dizemos que não temos tempo, no entanto ocupamo-lo com preocupações e coisas que não trazem nada de novo. É preciso aprender a gerir o tempo. Temos que ter disciplina para fazer aquilo de que gostamos; caso contrário, tendemos a prejudicar a nossa saúde e, inclusive, o nosso trabalho. Os doentes notam quando estamos felizes. Todos os dias temos que ter tempo para nós próprios e para quem mais gostamos.

É uma forma de enfrentar os atuais desafios do Serviço Nacional de Saúde?

Sim, sem dúvida! Temos todos que ter alguma estratégia para lidar com a pressão e com os problemas, para nos fortalecermos e para conseguirmos lidar com a realidade.

E qual será a futura narrativa do SNS?

Não sei…Gostaria de ser otimista, mas veja-se o que aconteceu com o último concurso, em que ficaram imensas vagas por ocupar. Paira a ameaça do SNS se tornar tão pouco atrativo que os jovens são forçados, lá está, a emigrar ou a enveredar por carreiras no privado.

Quando estudei Medicina, os grandes especialistas faziam questão de exercer no SNS, onde mais se aprendia… Hoje, já não é bem assim. Mas, temos que ser resilientes e lutar para que o SNS continue forte, universal e se mantenha tendencionalmente gratuito. Saúde considerada um bem público gera melhores indicadores de saúde. A medicina privada pode ser um complemento? Sim, não me oponho a isso. Mas o SNS deve ser sempre a prioridade, na minha opinião, podendo, obviamente, complementar-se com os restantes setores.

 

Maria João Garcia

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