Obesidade e Doença Cardiovascular
Médica interna de Medicina Geral e Familiar e membro do Grupo de Estudos de Doenças Cardiovasculares da APMGF

Obesidade e Doença Cardiovascular

A obesidade constitui um dos maiores desafios de saúde pública a nível global. Em Portugal, de acordo com dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística, 37,3% dos adultos apresentam excesso de peso e 15,9% é obeso.1 Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), a obesidade é uma acumulação excessiva de gordura corporal, sendo o diagnóstico feito pelo índice de massa corporal (IMC) ≥30 kg/m².2 Contudo, embora o IMC seja um marcador útil, não reflete a distribuição da gordura, parâmetro particularmente relevante na estratificação do risco cardiovascular. A gordura abdominal, avaliada pelo perímetro abdominal, associa-se de forma mais consistente a complicações metabólicas e cardiovasculares do que o IMC isoladamente.2

Do ponto de vista fisiopatológico, na obesidade, o tecido adiposo transforma-se num órgão metabolicamente ativo, com secreção aumentada de citocinas pró-inflamatórias. Este ambiente favorece um estado inflamatório crónico, disfunção endotelial e um perfil pró-trombótico, que potencia a progressão da aterosclerose e o risco de eventos cardiovasculares.2

Além das implicações clínicas, a obesidade tem um impacto económico significativo. Estima-se que represente 10% da despesa total em saúde, sendo responsável por custos indiretos relacionados com perda de produtividade por incapacidade e morte prematura.3

O tratamento da obesidade deve ser abrangente. Apesar da possibilidade de recorrer à farmacoterapia ou, ocasionalmente, à cirurgia bariátrica, é fundamental assegurar a adoção de hábitos de vida saudáveis – nomeadamente ao nível da alimentação e da atividade física – que devem estar presentes em todos os planos de tratamento.2

Em resposta à magnitude do problema, a DGS lançou, em março de 2025, o Roteiro de Ação para Acelerar a Prevenção e Controlo da Obesidade em Portugal 2025-2027, que propõe dez ações estratégicas para enfrentar esta epidemia. Estas incluem melhorar o acesso e a qualidade dos cuidados de saúde para as pessoas com obesidade e reforçar a prevenção da obesidade nos Cuidados de Saúde Primários (CSP).3Os CSP desempenham um papel fulcral, integrando a prevenção, o diagnóstico precoce e a gestão continuada da obesidade. A literacia em saúde, o aconselhamento motivacional e o incentivo à prática de exercício físico e alimentação equilibrada são ferramentas quotidianas destes profissionais, que, pelo contacto próximo com os utentes, estão numa posição privilegiada para intervir.

Em suma, a obesidade deve ser encarada como um fator de risco cardiovascular importante, com impacto direto na estratificação do risco. O envolvimento ativo dos profissionais dos CSP é determinante para travar esta epidemia e melhorar a saúde cardiovascular da população portuguesa.

 

Referências bibliográficas: 1INE. Inquérito Nacional de Saúde 2022. Disponível em: www.ine.pt;

2 DGS. Obesidade: Otimização da abordagem terapêutica no SNS. Disponível em: alimentacaosaudavel.dgs.pt; 3DGS. Roteiro de Ação para Prevenção e Controlo da Obesidade 2025-2027. Disponível em: nutrimento.pt

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