Avaliação e melhoria contínua da qualidade na prescrição de inibidores de bomba de protões
Interna de Medicina Geral e Familiar, USF Novo Norte – ULS de Entre Douro e Vouga

Avaliação e melhoria contínua da qualidade na prescrição de inibidores de bomba de protões

A prática clínica na Medicina Geral e Familiar tem um importante componente integrativo – somos diariamente confrontados com doentes polimedicados, provenientes quer de outras especialidades médicas onde nem sempre a tabela terapêutica tem em conta a medicação habitual, quer de ambientes hospitalares onde com frequência os doentes iniciam terapêuticas com necessidade de ajuste e/ ou desmame.

Os Inibidores da Bomba de Protões (IBP) são os fármacos mais eficazes na inibição da secreção ácida a nível gástrico. A sua elevada eficácia, bom perfil de segurança e alta tolerabilidade aliadas ao seu custo reduzido tornam-nos na terapêutica mais utilizada mundialmente. Ao longo dos anos é percetível um aumento importante da integração destes medicamentos nas tabelas terapêuticas; este facto levantou duas importantes questões:

_ A introdução do medicamento será mesmo necessária?

_ A utilização dos IBP em larga escala será 100% segura?

Com estas questões, surgiu a ideia para o presente estudo – avaliar o panorama atual, percebendo a adequação dos IBP nos utentes de uma USF portuguesa, transmitir essa informação aos profissionais, promover uma atualização das normas de prescrição e, quando adequado, reduzir doses ou mesmo retirar o medicamento da terapêutica habitual.

A doença de refluxo gastroesofágico, a úlcera péptica e a dispepsia funcional sem úlcera são as 3 principais causas de sintomas dispépticos em que se usam IBP; contudo, em muitos casos, sem o estudo prévio adequado, com doses excessivas ou por períodos excessivamente longos. As evidências são crescentes entre a toma de IBP e alguns eventos  adversos,  tais  como  síndromes  demenciais,  eventos cardiovasculares hipomagnesemia, doença renal crónica e osteoporose; de notar que os estudos onde tais associações são estabelecidas são maioritariamente observacionais e requerem de investigação adicional para confirmação. Ainda, apontam-se também efeitos secundários decorrentes da diminuição crónica da produção ácida gástrica, tais como o aparecimento de pólipos displásicos com risco de adenocarcinoma gástrico, hiperparatiroidismo, anemia por défice de ferro e/ ou vitamina B12 e múltiplas complicações infeciosas, sendo a mais preocupante a infeção por Clostridium difficile.

O desenho do estudo e a sua aplicabilidade alargada baseiam-se num importante ponto – a existência de registos clínicos completos e atualizados; contudo, este ponto é também a nossa maior limitação. Numa análise preliminar aos dados da USF, apenas 28% dos doentes que se encontravam a fazer IBP tinham uma indicação formal para a realização do mesmo; valor este claramente abaixo do desejável mas que vai de encontro à literatura internacional.

Assim, com a correta aplicação do estudo, uma divulgação adequada e uma informação detalhada quer aos profissionais de saúde, quer aos doentes, existe uma enorme margem de melhoria da prescrição de IBP quer na nossa USF, quer na sua extrapolação a nível regional e eventualmente nacional.

Em conclusão, a prescrição adequada de IBP pode minorar efeitos adversos do fármaco na comunidade e, adicionalmente, reduzir os custos para a saúde quer na prescrição medicamentosa, quer no tratamento de eventuais complicações.

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