Podcasts - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/podcasts/ Notícias sobre saúde Tue, 11 May 2021 11:57:06 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Podcasts - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/podcasts/ 32 32 Instante 10, a Mudança https://saudeonline.pt/instante-10-a-mudanca/ https://saudeonline.pt/instante-10-a-mudanca/#respond Fri, 14 May 2021 08:45:13 +0000 https://saudeonline.pt/?p=113916 Por: Fernanda Mendes Barata

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Há excessos de petróleo. Nascem guerras novas nas velhas diferenças planetárias. Agora, a insurreição e a vingança batalham rosto a rosto: os muito ricos e os muito pobres tentam abrir mão das suas alteridades. Será tarde demais? O Planeta, ele mesmo, parece atirar-nos com a porta sem qualquer pudor.

Olho para as desordens sem medo da zaragatoa com que a vida nos empurra sempre para trás. Penso e repenso. Mudo-me por dentro. Reponho os ventiladores do cérebro a funcionar. Tenho medo da vala comum em que antes existia com os meus semelhantes – para trás não volto, nunca mais! – e apesar desse temor apavorador sinto que não desabo qual muro armado. Sei que não caio, nem ruidosa, nem com clamor. O silêncio ainda é a minha arma.

Brota a meia noite e no dia seguinte em que acordo desperto. O infesto continua vivo, à soleira das nossas portas. Não morreu nem miraculosamente se desfez, mas levantaram as restrições porque, entre morrer de contágio ou de outro algo cujo nome temos vergonha de afirmar, então que venha o dito.

Ah…! A fome tem pernas…

Em breve poderemos sair. O meu vizinho soltou os cães. Ouço na varanda alguém trautear “La Vie em Rose”. Os carros dão a volta aos quarteirões. As lojas enchem-se de coisas que se enchem de pessoas a gastar o seu bem mais precioso, o tempo. Às janelas, Grândola Vila Morena marcha afónica, desafinada.

Está sol… Vale-me o mar que um dia destes verei. Tentarei esticar as mãos ao horizonte, aos milhões de seres humanos que não têm desavindos, apenas um sangue desnutrido e nenhuma esperança.

Um dia, talvez possa entender.

Lá fora: Alguém disse: a culpa, afinal, foi sempre do morcego.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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Instante 9, o Choque https://saudeonline.pt/instante-9-o-choque/ https://saudeonline.pt/instante-9-o-choque/#respond Tue, 11 May 2021 08:35:18 +0000 https://saudeonline.pt/?p=113907 Por: Fernanda Mendes Barata

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Fui ver e… a quantidade de outros que sofrem rasga-me. Como faço para mudar isto?

Vejo a população pobre da américa latina, 550 milhões de almas: uma mancha em movimento em busca da sobrevivência.  Na China, 1.2 mil milhões de pessoas…. 1.2 mil milhões de seres humanos. Índia: 11 milhões de pessoas põem-se em movimento, gente que trabalha à jorna e que hoje, hoje, quando brotar a meia noite e despertarem no dia seguinte, não terão nada para comer. África: 250 milhões de existências à fome.

Todas estas pessoas como eu: pernas, feridas, sangue, filhos e mães, avós e netos, todos eles, unhas e cabelos, fome e sede, exaustão.

Grandes números dizem muito dando a ideia da quantidade de seres, pessoas que sofrem porque existem no mesmo lugar onde eu estou, despertada no dia seguinte à meia noite em que adormeci.

Ninguém quer saber. Dizemos:  rejeite-se a China, abaixo os EU, fora com os refugiados, que se danem os desvalidos da índia, morram os velhos, os doentes crónicos e os terminais, não queremos saber da pobreza na América Latina, enforque-se a Coreia do Norte, não importam os africanos… e não pomos em relação olhando as proporções de vítimas que não escolheram estar tão à beira desta imolação apocalíptica que é tão nossa como deles.

Uns como outros são inocentes, mas nós só queremos ver culpados. A dignidade é a mesma em cada um de nós, mas não a reconhecemos. Estávamos cegos, estamos cegos, paralisados e sem voz.

Lá fora: Alguém disse: está a correr bem, vamos voltar à normalidade.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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Instante 8, a Aceitação https://saudeonline.pt/instante-8-a-aceitacao/ https://saudeonline.pt/instante-8-a-aceitacao/#respond Fri, 07 May 2021 10:05:59 +0000 https://saudeonline.pt/?p=113897 Por: Fernanda Mendes Barata

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aceitação

 

 

Ligo-me à janela como se do mundo inteiro se tratasse. Grupos aglomeram-se às portas das lojas, cumprindo a distância imposta de senha na mão à espera de vez, talvez para a incerteza possível de um crematório.

Pediram-me ajuda e eu fui: de frente para rostos às vezes desfigurados na transmissão, falei com uma e outra e outra pessoa. A distância é agora um sinal de proximidade e até – como é possível?… – de afeto e vinculação.

Apercebo-me da indiferença com que falam sobre números de mortos no constante ligar e desligar das notícias e isto percebe-se, apenas, num contexto egocêntrico: Eu. Cada um de nós diz eu… e eu… também digo.

Nunca compreendemos somas gigantes de grandes números: uma criança com menos de 15 anos morre a cada cinco segundos em todo o mundo. Ninguém se mexeu. Nada aconteceu.  Neste exacto momento: 70.8 milhões de pessoas estão em fuga por motivos de guerra, fome e violação dos direitos humanos. Ninguém sabe quem são. Nada mudou. Anualmente, pesam na nossa consciência inerte 8.6 milhões de mortes em países de baixo e médio rendimento. Não fizemos nada.

Só vemos o outro imediato à distância de um horizonte distante em que eles não nos contagiam com os seus desesperos e doenças. Apesar da globalização – e talvez por causa dela – continuamos a não ver uma pessoa + uma pessoa + uma pessoa… milhões de pessoas, com olhos, boca, pernas, braços e dor, pais e mães, sofrimento, esperança e dignidade.

Estivemos sempre escondidos do outro dentro das nossas casas…

Lá fora: alguém disse: vão trabalhar!

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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Instante 7, a Negociação https://saudeonline.pt/instante-7-a-negociacao/ https://saudeonline.pt/instante-7-a-negociacao/#respond Tue, 04 May 2021 09:00:51 +0000 https://saudeonline.pt/?p=113886 Por: Fernanda Mendes Barata

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negociação

 

 

O planeta é agora um carreiro estreito. 4.5 milhões de pessoas estão confinadas entre paredes desta tirania invisível.  Joga-se o jogo do medo.  Não tenho cartas na manga, nem dados viciados. Não é possível fazer batota e não tenho por onde fugir. Nenhuma máscara pode disfarçar-me de inocente.

Parece-me que vamos todos a caminho de um velório, todos mais gordos e mais pálidos, e cada um de nós vai velar a si mesmo.

Eu vou, sentada em frente ao computador a partir do qual reinvento agora a minha vida. Há pessoas cobertas de negro, caídas para dentro de buracos comuns. Outras cobertos de branco, começam a correr para escadas de salvação. Outras gritam. Outras berram e estrebucham lançando-se entre si falhas, delitos e erros como foguetes e mísseis que julgam mortíferos. Outras ganham e outras perdem nesta batalha de uns contra os outros e de todos contra todos, em que tudo se parece uma lacuna no tempo.

Perdeu-se o foco. Parece perder-se a guerra.

Eu não quero morrer. Não quero morrer sem desfazer aquilo que não sei que fiz. Ou que não fiz.

Se eu mudar, será que posso ter tudo de volta?

Lá fora: Alguém disse: talvez uma vacina.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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Instante 6, a Agonia https://saudeonline.pt/instante-6-a-agonia/ https://saudeonline.pt/instante-6-a-agonia/#respond Fri, 30 Apr 2021 10:14:53 +0000 https://saudeonline.pt/?p=113866 Por: Fernanda Mendes Barata

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agonia

 

 

Todos os dias há valas recentes para deitar as vidas agora mortas. Como foi que chegámos aqui?

Resta-me fazer-me à luta. Mas contra quem? Quem está lá fora que não vejo?

Talvez esse fosse o enigma que nunca entendi: não há inimigo. Ele esteve sempre dentro de mim. Dentro de nós. Dentro das casas onde vivemos com os nossos egoísmos e indiferenças, murados para o mundo dos outros sem percebermos que só nos defendemos se nos protegermos uns aos outros com o vigor de conexão que tanto tentámos estilhaçar.

Exércitos inteiros levantam-se na direção do confronto. Mas vejamos: não desenhámos ética coletiva, não construímos sonho de grupo, utopia comum, ilusão global e, para nosso desencanto, deixámos agora de ter futuro.

Qual guerra? Caímos para dentro do esquecimento…

Trocámos apenas, com o facilitismo do deleite fácil, trocámos – repito e repito e repito para mim mesma – que trocámos a humanidade pela compensação imediata. Fomos castrados na vontade de modificar as nossas vidas. As sociedades organizaram-se ao ponto de nos tornar fantoches por desejos que não eram nossos. Não eram meus.

Afinal, quando brotou a meia noite, adormeci e era o dia seguinte!

Lá fora: Alguém disse: a saúde mental vai ficar doente.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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Instante 5, a Surpresa https://saudeonline.pt/instante-5-a-surpresa/ https://saudeonline.pt/instante-5-a-surpresa/#respond Tue, 06 Apr 2021 17:15:59 +0000 https://saudeonline.pt/?p=110862 Por: Fernanda Mendes Barata

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surpresa

 

 

Tenho estado a imaginar os livros, filmes e documentários que produzirão sobre esta fase de uma desumanidade cruel: estamos todos a morrer.

É interessante: levámos séculos a encobrir a morte, a ignorá-la, a escondê-la atrás de cortinas, a despojá-la das suas vestes emocionais. Roubámos-lhe sem respeito o perfil incorpóreo e racionalizámos o fim. Descobrimos teorias para superar todos os lutos. Deixámos os nossos velhos e doentes anulados em camas de hospital, em lares, em asilos e tantas vezes sós em casa e agora… agora isto. Isto!

Riscámos toda a honra da vida humana de todos os quadrantes e deixámos que o horizonte não pudesse jamais queixar-se da ausência da dignidade perdida.

Agora… eis que a morte brota na meia noite em que adormeci, e era o dia seguinte. É o que é.

Somos todos culpados de termos deixado que o mundo adormecesse e despertasse no dia seguinte à sua morte. Não fizemos nada para impedir esta tragédia insólita. Estávamos todos ocupados em sobreviver para ganhar a vida com a qual haveríamos de comprar coisas que nos levavam a esquecer.

E eu… consenti a invasão de tudo contra mim. Entrei no jogo. Fantasiei, como todos, com um final feliz, um retrocesso miraculoso em tudo o que estava errado: os consumos exagerados de tudo um pouco. Esqueci o minimalismo e a certeza do bem.

Como grupo, nós, humanos, não soubemos parar. Deixámos que não nos deixassem chegar ao consenso.

La fora: o medo chegou a todos os Continentes. Alguém disse: é só uma gripezinha.

 

Por: Fernanda Mendes Barata

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