Opinião - MGF - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/mgfonline/opiniao-mgf/ Notícias sobre saúde Thu, 21 May 2026 14:14:42 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Opinião - MGF - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/mgfonline/opiniao-mgf/ 32 32 O génio do SNS ou do país? https://saudeonline.pt/o-genio-do-sna-ou-do-pais/ https://saudeonline.pt/o-genio-do-sna-ou-do-pais/#respond Wed, 20 May 2026 08:04:30 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187161 Especialista em Medicina Geral e Familiar

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dor

Para os Portugueses, tempos houve em que o oceano Atlântico era, mais do que um desafio, um grande mistério.

Bravos e destemidos, animados por uma fé e crença ora perdidas de há muito, fizeram-se às águas e passo a passo, foram descobrindo novos Mundos e vencendo os limites que, mais no espírito, do que nos corpos, os tolhiam e acanhavam.

O génio português na sua coragem, desassossego e curiosidade!

Mas por esses séculos fora, deixamos gradualmente de compreender e de aprender, contentando-nos em viver o dia a dia, abúlicos e calados, sem questionar nem reflectir sobre o que, realmente, nos deveria preocupar.

Vem isto a propósito do que, em relação às consequências e às intervenções nas regiões assoladas pelas tempestades do princípio de 2026, se depara e perturba, contabilizando para além das vidas perdidas, prejuízos sem fim e sem reparação em tempo útil.

Muitos responsáveis políticos, técnicos e académicos falam agora da falta de estruturas regionais, genuinamente regionais e capazes, quer quanto ao “antes”, como quanto ao “depois” das tragédias.

Contudo, falar em “regionalização” parece tabu e bem recentemente, o próprio Primeiro-Ministro, veio publicamente dizer que, tal questão, não era prioridade para o actual governo.

E ao comemorar, no passado dia 2 de Abril, os 50 anos de aprovação, recordei que, a Constituição da República de 1976, deixara aprovada já a criação das Regiões, mas a ideia e a promessa constitucionais permanecem congeladas porque, na verdade, regionalizar significa partilhar poder e decisão, representa perda de poder central!

Parecem-me por isso, em matéria de organização dos serviços públicos de saúde, legítimas as dúvidas e preocupações que sempre mantive, relativamente a uma resposta única e uniforme para todo o território onde impera uma cultura ‘hospitalocêntrica’, que desde logo inibe ou impede a integração dos diferentes níveis de cuidados.

A apressada extinção das administrações regionais de saúde e a sua diluição avulsa por Unidades Locais de Saúde (ULS) não resultou, mesmo no plano da articulação e relacionamento entre Cuidados Primários e Hospitalares.

Falar em urgências metropolitanas teve e teria maior compreensão e adesão numa visão regional que, em modelo ULS se torna intrigante por contrariar a estratégia seguida para o fim das administrações regionais.

Indicadores demográficos, densidade populacional, taxa de envelhecimento, fluxos migratórios, rendimento médio per capita, índice de pobreza e exclusão social, esperança média de vida, índice de doenças crónicas, taxa de mortalidade infantil, acesso tempestivo a cuidados saúde, número e distribuição de unidades de saúde, cobertura médicos de família, taxa de utilização de serviços, PIB regional, indicadores de desigualdade regional e tantos outros, significam que as necessidades de territórios como o Alentejo ou Trás-os-Montes, pelas suas características, serão com certeza diferentes das necessidades das áreas suburbanas de Lisboa ou do Porto, pressupondo a lógica de modelos de gestão que, devem assentar numa valorização de base territorial e na adaptação e flexibilidade às especificidades regionais.

Sem esforço admite-se que, visando reforçar as capacidades de resposta locais e promover uma maior autonomia e flexibilidade, essenciais para enfrentar os desafios de cada região, os resultados em saúde possam ser superiores.

Existe um risco inegável de desigualdades entre regiões com diferentes recursos técnicos e financeiros. Exige forte coordenação e financiamento adequado, não baseado em mera capitação. E coragem, muita coragem…

 

O autor escreve de acordo com o A.A.O

 

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A inatividade física na população sénior em Portugal: um desafio urgente de saúde pública https://saudeonline.pt/a-inatividade-fisica-na-populacao-senior-em-portugal-um-desafio-urgente-de-saude-publica/ https://saudeonline.pt/a-inatividade-fisica-na-populacao-senior-em-portugal-um-desafio-urgente-de-saude-publica/#respond Wed, 13 May 2026 09:01:52 +0000 https://saudeonline.pt/?p=186893 Diretora Técnica Residência Cascais Farol da Guia

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A inatividade física é atualmente reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como um dos principais fatores de risco modificáveis para o desenvolvimento de doenças crónicas e para a mortalidade prematura. No contexto europeu, este problema ganha particular relevância face ao envelhecimento progressivo da população, tornando-se um dos grandes desafios contemporâneos da saúde pública. Em Portugal, esta realidade é especialmente evidente na população sénior, onde os níveis de sedentarismo atingem valores preocupantes.

De acordo com o Eurobarómetro Especial sobre Desporto e Atividade Física da Comissão Europeia, cerca de 92% dos séniores portugueses não praticam exercício físico de forma regular, um valor significativamente superior à média nacional, onde aproximadamente 73% da população refere nunca realizar atividade física ou desporto. Estes dados revelam uma tendência consistente de sedentarismo que se agrava com a idade e que coloca Portugal entre os países europeus com maior necessidade de intervenção nesta área.

Este cenário torna-se ainda mais relevante quando analisado à luz da realidade demográfica nacional. Portugal conta atualmente com cerca de 2,5 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, o que corresponde a aproximadamente um quarto da população total. Este envelhecimento acelerado implica uma pressão crescente sobre os sistemas de saúde e reforça a urgência de estratégias eficazes de promoção da autonomia, prevenção da doença e melhoria da qualidade de vida.

A evidência científica é clara quanto ao papel da atividade física na saúde do idoso. As recomendações da Organização Mundial da Saúde sublinham a importância de uma prática regular que inclua atividade aeróbica moderada, exercícios de fortalecimento muscular e treino de equilíbrio. Estes componentes não têm apenas um impacto generalizado no bem-estar, mas atuam de forma específica em diferentes sistemas fisiológicos, contribuindo para a prevenção de múltiplas patologias.

O exercício físico regular está associado a uma redução significativa do risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, hipertensão arterial, obesidade e alguns tipos de cancro. Estes efeitos são explicados por adaptações metabólicas e fisiológicas, como a melhoria da sensibilidade à insulina, a regulação da pressão arterial e o controlo dos níveis lipídicos. Paralelamente, a atividade física desempenha um papel crucial na prevenção da sarcopenia, uma condição caracterizada pela perda progressiva de massa e força muscular associada ao envelhecimento, que constitui uma das principais causas de fragilidade e perda de autonomia.

Para além dos efeitos musculoesqueléticos, o exercício físico tem também um impacto direto na prevenção de quedas, um dos eventos mais frequentes e graves na população idosa. A melhoria do equilíbrio, da coordenação motora e da força muscular contribui significativamente para a redução deste risco, diminuindo hospitalizações e complicações associadas. Em termos neurológicos e psicológicos, a atividade física regular está igualmente associada à redução de sintomas depressivos e ansiosos, frequentemente subdiagnosticados nos idosos, bem como à preservação da função cognitiva, com evidência crescente de um possível efeito protetor contra o declínio cognitivo e a demência.

Neste contexto, as Residências Sénior assumem um papel determinante na promoção de um envelhecimento ativo. Mais do que espaços de cuidado e assistência, estas instituições devem ser encaradas como ambientes de promoção de saúde, autonomia e participação social. A integração de programas estruturados de atividade física adaptada permite responder às necessidades individuais dos residentes, respeitando limitações clínicas, mas incentivando sempre o movimento e a funcionalidade.

Na Residência Farol da Guia, em Cascais por exemplo, a promoção da atividade física é entendida como um pilar central do cuidado diário. São desenvolvidos programas personalizados que têm em conta a condição física, as patologias associadas e o nível de autonomia de cada residente, sempre com acompanhamento de profissionais especializados. O objetivo é transformar o exercício numa experiência segura, regular e, acima de tudo, significativa, onde o movimento é incorporado como parte natural da rotina diária.

As atividades implementadas privilegiam o movimento funcional, a mobilidade articular, o fortalecimento muscular ligeiro e o treino do equilíbrio, promovendo não apenas ganhos físicos, mas também benefícios emocionais e sociais. A prática em grupo, por exemplo, desempenha um papel essencial na promoção da socialização, ajudando a combater a solidão e o isolamento, fatores frequentemente associados ao declínio da saúde mental na terceira idade.

Num país que envelhece rapidamente, a promoção da atividade física deve ser encarada como uma prioridade estratégica de saúde pública. O aumento da esperança média de vida só terá verdadeiro significado se for acompanhado por mais anos vividos com autonomia, dignidade e qualidade de vida. Isto implica uma mudança de paradigma, em que a prevenção e a promoção da saúde assumem um papel tão importante quanto o tratamento da doença.

O envelhecimento ativo não é apenas um conceito teórico, mas uma realidade possível quando existem condições, motivação e acompanhamento adequado. Cada momento de movimento representa uma oportunidade de preservar capacidades, reforçar a independência e melhorar o bem-estar global. Na prática, investir na atividade física na terceira idade é investir na dignidade humana e na sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Enquanto Diretora Técnica de uma Residência Sénior acredito que nunca é tarde para começar a cuidar do corpo e da mente, e que cada gesto de movimento contribui para uma vida mais plena, ativa e feliz. O envelhecimento pode e deve ser vivido com energia, propósito e qualidade, e o exercício físico é uma das ferramentas mais poderosas para alcançar esse objetivo.

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A PHDA para além do comportamento https://saudeonline.pt/a-phda-para-alem-do-comportamento/ https://saudeonline.pt/a-phda-para-alem-do-comportamento/#respond Mon, 11 May 2026 08:28:30 +0000 https://saudeonline.pt/?p=186846 Pediatra do Neurodesenvolvimento. Autor do livro Compreender a PHDA (3.ª Edição) - Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (LIDEL)

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A Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) constitui uma das condições do neurodesenvolvimento mais prevalentes e, simultaneamente, uma das mais frequentemente mal compreendidas em contexto clínico.

Apesar do robusto corpo de evidência científica disponível, persistem interpretações redutoras que a associam predominantemente a problemas comportamentais ou educativos, desvalorizando a sua base neurobiológica e o impacto funcional significativo ao longo do ciclo de vida. Esta visão simplista contribui para atrasos no diagnóstico, subtratamento e, não raramente, para a estigmatização dos doentes e das suas famílias.

Do ponto de vista etiológico, a PHDA resulta de uma interação complexa entre fatores genéticos e ambientais. A herdabilidade elevada, estimada entre 70% e 90%, evidencia o papel determinante da genética, nomeadamente ao nível do sistema de neurotransmissão dopaminérgica e noradrenérgica. Estas alterações afetam, particularmente, o funcionamento do córtex pré-frontal e das redes frontoestriadas, estruturas fundamentais para as funções executivas. Como consequência, observam-se défices na atenção sustentada, memória de trabalho, controlo inibitório e regulação emocional, frequentemente associados a dificuldades de planeamento, organização e monitorização do comportamento. Paralelamente, fatores ambientais, como exposição pré-natal a substâncias, prematuridade ou adversidade psicossocial, podem modular a expressão clínica, sem constituírem, de forma isolada, causa suficiente da perturbação.

Neste sentido, a conceptualização da PHDA enquanto condição neurobiológica acaba por ter implicações diretas na abordagem terapêutica. O tratamento deve ser necessariamente multimodal, integrando intervenção farmacológica e estratégias psicossociais. A terapêutica com psicoestimulantes, ao aumentar a disponibilidade sináptica de dopamina e noradrenalina, demonstra eficácia consistente na redução dos sintomas nucleares, bem como na melhoria das funções executivas e do desempenho académico. A evidência acumulada aponta ainda para benefícios adicionais ao nível da diminuição do risco de comorbilidades, de acidentes e de comportamentos de risco a longo prazo, reforçando o seu papel como intervenção de primeira linha em muitos casos.

Contudo, a intervenção farmacológica, embora central, não deve ser encarada como única resposta terapêutica. Programas de treino parental, intervenções cognitivo-comportamentais e adaptações no contexto escolar são fundamentais para promover competências de autorregulação, melhorar a adesão às tarefas e reduzir o impacto funcional da perturbação. A articulação entre profissionais de saúde, escola e família assume, assim, um papel determinante, permitindo uma intervenção consistente e ajustada às necessidades específicas de cada doente.

A eviência demonstra ainda que o atraso no diagnóstico e no início do tratamento está associado a consequências negativas significativas, incluindo insucesso académico, dificuldades interpessoais, baixa autoestima e maior vulnerabilidade a perturbações psiquiátricas na adolescência e idade adulta. Por isso, a identificação precoce, aliada a uma avaliação abrangente e a uma intervenção estruturada, deve constituir uma prioridade nos cuidados de saúde.

A evolução do conhecimento científico tem permitido afastar preconceitos e aproximar a prática clínica de modelos explicativos mais integrados e baseados na evidência. Este enquadramento é desenvolvido de forma mais aprofundada na obra Compreender a PHDA (LIDEL Editora), que reúne contributos relevantes para uma abordagem clínica informada.

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Carcinoma Urotelial da Bexiga: O panorama atual https://saudeonline.pt/carcinoma-urotelial-da-bexiga-o-panorama-atual/ https://saudeonline.pt/carcinoma-urotelial-da-bexiga-o-panorama-atual/#respond Wed, 29 Apr 2026 08:33:20 +0000 https://saudeonline.pt/?p=186491 Urologista; Diretor do Serviço de Urologia da ULS Santa Maria; Professor Convidado de Clínica e Diretor da Clínica Universitária de Urologia - Faculdade de Medicina de Lisboa

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Os tumores da bexiga continuam a ser uma importante causa de morbilidade e mortalidade em Portugal, bem como na restante Europa e no Mundo. Na Europa e na generalidade dos países desenvolvidos, a forma, de longe, mais frequente é o carcinoma urotelial da bexiga, sobre o qual nos vamos debruçar brevemente.

Na Europa, é o sexto tumor mais frequentemente diagnosticado nos homens e o nono se considerarmos ambos os sexos. No entanto, apesar de ser mais frequente no homem, todos os estudos apontam para um prognóstico mais desfavorável nas mulheres, em grande parte devido a um frequente diagnóstico mais tardio, que comentaremos mais adiante. A sua incidência, como muitos outros tumores aumenta com a idade.

Na União Europeia estão reportados 23,2 casos por 100.000 habitantes e por ano nos homens, e 5,9 nas mulheres, com 3,1 óbitos por ano e por 100.000 habitantes nos homens e 0,8 nas mulheres.

Em Portugal, os dados mais recentes de que dispomos são os do GLOBOCAN 2022 (Global Cancer Observatory ) em que se confirma que este representa um importante problema de saúde pública, com marcada predominância no sexo masculino. Registam‑se anualmente cerca de 3 517 novos casos, dos quais aproximadamente 2 660 (cerca de 76%) ocorrem em homens e 857 (24%) em mulheres. A mortalidade associada a esta neoplasia é relativamente proporcional com 1392 óbitos por ano, correspondendo 1 018 mortes em homens (73%) e 374 em mulheres (27%), confirmando uma percentagem de mortalidade face à incidência ligeiramente superior nas mulheres. Nos homens, em Portugal, o cancro da bexiga constitui o 4.º tumor mais frequentemente diagnosticado, apresentando, portanto, uma incidência superior à da União Europeia, embora inferior à da nossa vizinha Espanha.

Esta diferença entre os sexos e também, de alguma forma, entre os diferentes países tem sido associada, entre outros factores, à maior exposição masculina ao tabaco e a agentes carcinogénicos ocupacionais, sublinhando a necessidade de estratégias de prevenção, detecção precoce e sensibilização dirigidas à população de maior risco. De longe, o factor de risco mais importante é o tabagismo, tanto mais que os riscos de exposição profissional, ambiental e alimentar no mundo civilizado, tem vindo a ser diminuídos por mais conhecimento sobre os agentes mais perigosos que, nalguns casos, tem mesmo sido banidos e por maior qualidade e rigor nos equipamentos de protecção individual. A nível Europeu, estima-se que mais de metade dos tumores diagnosticados tem uma relação directa com o tabaco. Ainda no caso do tabagismo e risco de tumores da bexiga, sabemos que, ao contrário do pulmão, o risco de tumores da bexiga é cumulativo e irreversível, isto é, aumenta à medida que aumenta a exposição, medida em UMA’s (Unidades Maço/Ano) e nunca desaparece, mesmo após a cessação tabágica, apenas deixa de aumentar.

Daí resulta que, evidentemente, o que mais útil podemos fazer na prevenção destes 1 392 óbitos que ocorrem por ano serão os programas de cessação tabágica, com o benefício adicional da prevenção adicional de outros tumores ainda mais letais como os do pulmão e do pâncreas. No entanto, e sabendo que, apesar de todos os esforços, existirão sempre casos, será também importante investir no diagnóstico o mais precoce possível desta situação.

Sabemos que, felizmente, cerca de ¾ destes tumores se apresentam numa fase de doença localizada à mucosa da bexiga (tumores superficiais ou, mais correctamente, não músculo-invasivos). Nestes casos, o passo seguinte, que é a Ressecção Endoscópica dos referidos tumores será simultaneamente diagnóstico e terapêutico. No entanto, o problema não acaba aqui. Sabemos hoje claramente que, tipicamente, o carcinoma da bexiga é uma doença pluritópica e plurifásica, isto é, pode estar em vários locais (pluritópica) do urotélio (a mucosa que reveste todo o aparelho urinário) em várias fases de desenvolvimento (plurifásica). Isto quer dizer que um doente que se apresenta com um tumor da bexiga, mesmo que superficial e removido completamente pela cirurgia endoscópica, carece sempre de uma vigilância muito prolongada no tempo, sendo extremamente frequentes as recorrências – aparecimento de novos tumores – ao longo do “follow-up”.

Estas recorrências são sempre mais frequentes a nível da bexiga e só conseguem ser despistadas de forma eficaz por cistoscopias (endoscopias da bexiga) periódicas mas também podem ocorrer no chamado aparelho urinário alto (mucosa do ureter e do sistema excretor do rim, cálices e bacinete, situação esta muito mais rara mas, em compensação, de muito maior gravidade). É assim fácil de perceber que este tumor, para além da mortalidade e mortalidade, constitui um peso muito significativo para os sistemas de saúde (o que os anglo-saxónicos costumam chamar de “burden of disease”).

Os restantes 25% dos casos em que, logo no diagnóstico, já se apresenta doença invasiva da parede muscular da bexiga, o prognóstico já é muitíssimo mais desfavorável, sendo responsáveis pela maioria da mortalidade relacionada com a doença e, mesmo quando ainda potencialmente curáveis por cirurgia, obrigam normalmente a esquemas de quimioterapia sistémica agressiva seguidos de cirurgias bastante mutilantes como a cistoprostatectomia radical no homem ou a exenteração pélvica anterior na mulher.

O sintoma de apresentação mais frequente e para o qual devemos alertar de forma muito enfática a população é a presença de sangue na urina (hematúria). Mais tipicamente esta hematúria é descrita como “monosintomática” ou “indolor” significando que o sangue aparece sem nenhum outro sintoma. Esta é, de facto, a forma mais frequente e se, adicionalmente, ocorrer num fumador, obriga ainda mais a uma investigação urgente e profunda. No entanto, não raramente, a hematúria é algo desvalorizada e atribuída a outras situações como infecções urinárias. Daí, pensa-se, o diagnóstico ser frequentemente mais tardio nas mulheres.

Em termos de mensagens finais: insistir na cessação tabágica o mais cedo possível e nunca ignorar uma hematúria, particularmente se fora de uma situação claramente aguda que a justifique, e / ou num doente idoso ou fumador, presente ou passado.

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Entre o silêncio e a intensidade: trauma, suicídio e luto na experiência autista https://saudeonline.pt/entre-o-silencio-e-a-intensidade-trauma-suicidio-e-luto-na-experiencia-autista/ https://saudeonline.pt/entre-o-silencio-e-a-intensidade-trauma-suicidio-e-luto-na-experiencia-autista/#respond Thu, 02 Apr 2026 08:33:25 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185072 Psicólogo com especialidade em Psicologia Clínica e da Saúde e autor do livro Intervenção Psicológica em Pessoas Adultas com Autismo (PACTOR Editora)

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Falar de trauma, suicídio e luto no contexto do autismo implica reconhecer uma realidade frequentemente invisível, mesmo nos discursos mais bem-intencionados sobre saúde mental. Durante décadas, a pessoa autista foi descrita a partir de fora, reduzida a comportamentos observáveis, negligenciando-se a profundidade da sua experiência emocional. Hoje, a investigação começa a revelar aquilo que muitas pessoas autistas sempre souberam, que a intensidade emocional existe, por vezes de forma amplificada, mas nem sempre reconhecida ou compreendida pelos outros.

O trauma, na pessoa autista, raramente corresponde apenas a eventos extremos. Pode emergir de experiências repetidas de incompreensão, rejeição social, sobrecarga sensorial ou exigências constantes de adaptação a normas implícitas. A tentativa contínua de mascarar dificuldades, frequentemente designada como camuflagem social, tem sido associada a níveis elevados de exaustão psicológica e vulnerabilidade traumática. Este tipo de trauma cumulativo, subtil, mas persistente, tende a escapar aos modelos clássicos de avaliação, exigindo uma escuta clínica mais fina e contextualizada.

No que diz respeito ao suicídio, os dados internacionais apontam para um risco significativamente superior entre adultos autistas, particularmente naqueles sem deficiência intelectual associada. Este fenómeno não pode ser compreendido de forma simplista. A presença de ideação suicida surge muitas vezes ligada a sentimentos profundos de alienação, fracasso nas relações interpessoais e dificuldade em encontrar pertença num mundo que parece estruturalmente desalinhado com o seu modo de ser. Importa sublinhar que a comunicação destas vivências pode não seguir os padrões esperados, sendo por vezes literal, indireta ou até silenciosa, o que aumenta o risco de subavaliação clínica.

O processo de luto, por sua vez, apresenta especificidades que desafiam as conceções tradicionais. A pessoa autista pode experienciar o luto de forma intensa, mas expressá-lo de modos menos convencionais. A ausência de manifestações emocionais socialmente esperadas não traduz ausência de dor. Pelo contrário, pode refletir dificuldades na expressão emocional ou na partilha intersubjetiva dessa experiência. Para alguns, o luto pode ser vivido de forma prolongada e profundamente internalizada, coexistindo com uma necessidade de previsibilidade que a perda inevitavelmente desorganiza.

Neste contexto, torna-se fundamental desenvolver abordagens clínicas que integrem o conhecimento científico com uma compreensão genuína da experiência autista. Isso implica adaptar modelos terapêuticos, flexibilizar expetativas comunicacionais e reconhecer que o sofrimento pode assumir formas diversas. A escuta deve ser menos normativa e mais fenomenológica, permitindo aceder ao significado que cada pessoa atribui à sua vivência.

Num tempo em que abril nos convida à consciencialização do autismo, importa ir além da sensibilização superficial e enfrentar temas difíceis, mas urgentes. A forma como compreendemos e intervimos nestas áreas pode ter um impacto decisivo na vida, e por vezes na sobrevivência, das pessoas autistas. Este é um campo em evolução que continuará a ser aprofundado na obra Comunicação e Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas, a publicar pela PACTOR Editora, onde se propõem caminhos clínicos mais ajustados e humanizados para responder a estes desafios complexos.

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Faz o que eu digo…e o que eu faço! https://saudeonline.pt/faz-o-que-eu-digo-e-o-que-eu-faco/ https://saudeonline.pt/faz-o-que-eu-digo-e-o-que-eu-faco/#respond Wed, 01 Apr 2026 08:00:17 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185259 Psicóloga clínica nos Serviços de Saúde da Universidade de Coimbra e Coautora do livro Estar Presente (PACTOR Editora)

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A ciência mostra que, enquanto espécie humana, sobrevivemos e evoluímos porque desenvolvemos estratégias sociais importantes: a procura e a prestação de cuidados. Refletindo nesta última, se fechássemos os olhos e pensássemos numa imagem que a represente, talvez surgissem figuras familiares, mas também, para alguns, a imagem de uma médica, enfermeiro ou psicóloga que os acompanhou em momentos difíceis. Falamos de pessoas que escolheram dedicar grande parte da sua vida a cuidar dos outros quando estes se encontram especialmente vulneráveis.

Embora partilhem do potencial inato para a procura e prestação de cuidado, nos profissionais de saúde, a prestação de cuidado ao outro tende, muitas vezes, a sobrepor-se ao autocuidado. Quem nunca ouviu falar de um profissional afetado por burnout? Ou cujo stress e carga de trabalho impactaram a vida pessoal? A vida humana oscila entre cuidar e ser cuidado, mas os contextos laborais destas pessoas reforçam quase exclusivamente o primeiro papel. Tornam-se “ases” na identificação do sofrimento alheio e na resposta rápida e eficaz, frequentemente sob elevada pressão e responsabilidade.

Mas, no meio disto tudo, quem cuida destes profissionais? Frequentemente, para estas pessoas, as necessidades do “eu” vão-se esbatendo no combate diário ao sofrimento do outro. Sofrem com e pelo outro, assumindo responsabilidade, às vezes excessiva, pelo bem-estar e recuperação da outra pessoa, dando orientações que nem sempre transportam para as suas próprias vidas. Com o tempo, o custo de cuidar torna-se elevado. Surge a fadiga de dar compaixão, que se pode manifestar por apatia, irritabilidade, culpa ou exaustão física, afetando não só os cuidados prestados, mas também a vida pessoal e relações. O treino intensivo na prestação de cuidados pode até dificultar receber cuidado ou o reconhecer das próprias necessidades, conduzindo ao distanciamento daquilo e daqueles que lhe são importantes.

Mas não tem de ser assim. Para preservar o próprio bem-estar, a regulação emocional surge como ferramenta central para os profissionais de saúde. Falamos de estratégias simples e realistas: permitir micro-pausas conscientes entre tarefas, tomar contacto com a experiência do momento (por exemplo, através de exercícios curtos de mindfulness), treinar-se a nomear as próprias emoções (“estou cansado”, “estou frustrado”), estabelecer limites e construir redes de partilha entre pares. Pequenos gestos, mas significativos, no caminho de cuidar do “eu” como se cuida dos outros.

No fundo, o desafio é transportar para a própria vida as orientações que se dão todos os dias. Ouvir o que se diz ao outro e colocar em prática. Porque cuidar do “eu” é parte de cuidar do outro. E, já que a regulação emocional é um desafio, a leitura do livro Estar Presente pode ser útil: embora dirigido a familiares e amigos de pessoas em sofrimento emocional, reúne estratégias que o próprio leitor pode aplicar em si, promovendo maior equilíbrio entre dar compaixão aos outros e a si mesmo.

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