Manuel Carrageta - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/manuel-carrageta/ Notícias sobre saúde Tue, 27 Jan 2026 17:19:32 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Manuel Carrageta - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/manuel-carrageta/ 32 32 “A forma mais eficaz de evitar as doenças cardiovasculares é através da adoção de um estilo de vida saudável” https://saudeonline.pt/a-forma-mais-eficaz-de-evitar-as-doencas-cardiovasculares-e-atraves-da-adocao-de-um-estilo-de-vida-saudavel/ Tue, 13 Jan 2026 16:14:07 +0000 https://saudeonline.pt/?p=182055 O conteúdo <i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> “A forma mais eficaz de evitar as doenças cardiovasculares é através da adoção de um estilo de vida saudável” aparece primeiro em Saúde Online.

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“O SNS precisa da Geriatria para melhorar os cuidados e contrariar o aumento das despesas em saúde” https://saudeonline.pt/o-sns-precisa-da-geriatria-para-melhorar-os-cuidados-e-contrariar-o-aumento-das-despesas-em-saude/ https://saudeonline.pt/o-sns-precisa-da-geriatria-para-melhorar-os-cuidados-e-contrariar-o-aumento-das-despesas-em-saude/#respond Thu, 13 Nov 2025 12:22:36 +0000 https://saudeonline.pt/?p=180538 Manuel Carrageta, presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia, realça as mais-valias da inovação e da tecnologia na melhoria dos cuidados de saúde. E alerta para importância da Geriatria que também tem vantagens financeiras para o Estado, face ao aumento da despesa no Serviço Nacional de Saúde.

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“A inovação ao serviço do envelhecimento”. Porquê esta temática no Congresso deste ano da SPGG?

O lema do congresso aponta para a necessidade de combinar as abordagens tradicionais da medicina geriátrica com as tecnologias inovadoras, que dão apoio à funcionalidade e independência das pessoas mais velhas. Esta capacidade para integrar os novos apoios tecnológicos nas áreas de diagnóstico, tratamento, vigilância e apoio a uma vida independente dos mais velhos, associada a uma abordagem multidisciplinar do envelhecimento e dos problemas da idade avançada, constitui um salto qualitativo no progresso da Geriatria.

Estamos convencidos que este congresso oferece uma excelente oportunidade para nos informarmos sobre os mais recentes desenvolvimentos em Geriatria e Gerontologia, estabelecer contactos valiosos e moldar em conjunto o futuro da medicina geriátrica e da investigação na área do envelhecimento. Temas como a economia da longevidade, saúde mental, dependências e sexualidade estão cada vez mais em foco e exigem uma reflexão conjunta sobre a responsabilidade social e médica.

Na Geriatria, quais as áreas em que a tecnologia pode ser uma mais-valia?

A inovação tecnológica e científica apoia o diagnóstico e a vigilância médica por meio de dispositivos vestíveis que monitorizam os sinais vitais, sensores domésticos inteligentes que detetam quedas e automatizam tarefas, programas de IA que preveem problemas de saúde e plataformas de telesaúde que permitem consultas remotas. Essas inovações promovem a deteção precoce de problemas de saúde, apoiam a vida independente e melhoram a segurança e a conectividade social dos idosos.

Hoje, temos disponíveis sensores vestíveis (smartwatches, monitores de fitness) e sensores domésticos inteligentes capazes de recolher continuamente dados sobre os níveis de atividade, sinais vitais (frequência cardíaca, oxigénio no sangue, glicemia) e adesão à medicação, alertando os cuidadores ou profissionais de saúde para potenciais problemas.

Como já referi, estes dispositivos inteligentes e sensores domésticos podem detetar quedas e alertar automaticamente os serviços de emergência ou familiares, proporcionando uma rede de segurança vital para uma vida independente. Além da monitorização da saúde, dispositivos de apoio, como aparelhos auditivos avançados e robótica, auxiliam nas tarefas diárias, ajudam as pessoas idosas a manter as suas conexões essenciais, independência e qualidade de vida.

 

Na sua perspetiva, quais os maiores desafios do Plano de Envelhecimento Ativo, tendo em conta os seus seis pilares: Saúde e bem-estar; Autonomia e vida independente; Desenvolvimento e aprendizagem ao longo da vida; Vida laboral saudável ao longo do ciclo de vida; Rendimentos e economia do envelhecimento; e Participação na sociedade?

A população idosa portuguesa apresenta particular vulnerabilidade face a alguns aspetos sociais e económicos (como baixa escolaridade e nível económico), com uma participação social inferior à média europeia. Não bastam programas de envelhecimento ativo, é necessário adequar os cuidados médicos e sociais às necessidades específicas dos idosos e a criação de ambientes que favoreçam a autonomia e independência das pessoas com mais idade.

É também preciso atuar sobre os determinantes de autonomia e independência, combatendo discriminações baseadas na idade (idadismo) que afetam a autoestima e ameaçam a própria sobrevivência  dos adultos idosos. As pessoas vivem cada vez mais anos e a sociedade está a precisar destas pessoas mais velhas que, ao contrário de que acontecia por norma no passado, poderem, se o desejarem, trabalhar e dar um contributo mais impactante para a sociedade. Devemos ter presente que o aumento observado na longevidade se tem acompanhado de um melhor estado biológico e funcional.

Não devemos esquecer que um homem ou mulher, por exemplo, de 70 anos pode viver, em média, mais cerca de duas décadas, que podem e devem ser disfrutadas com vitalidade e dignidade. Mesmo na oitava década de vida e nas seguintes, estes homens e mulheres devem manter-se fisicamente ativos, mentalmente estimulados e socialmente envolvidos, para com a sua experiência e sabedoria exercerem uma influência benéfica na sociedade.

Outro desafio é a solidão, uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente ao aumentar a ocorrência de vários problemas de saúde mental e física, como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC, a doença cardíaca e o cancro. As consequências nocivas deste risco têm sido comparadas aos de fumar e até se estima que superem os da obesidade e da inatividade física. A solidão e o isolamento social associam-se a produtividade reduzida no trabalho e a menor participação cívica. A pandemia da covid veio ainda agravar mais a solidão, particularmente das pessoas mais velhas.

“Para grande número de pessoas, a melhor opção é envelhecer no lar, o que significa optar por permanecer na sua própria casa, enquanto se envelhece, em vez de se mudar para uma estrutura residencial para pessoas idosas(ERPI)”

Fala-se em alternativas à institucionalização dos idosos. Que medidas devem ser tomadas para que essa realidade chegue a todas as pessoas, nomeadamente às mais vulneráveis em termos económicos?

Um sistema de cuidados continuados de qualidade permite que as pessoas idosas, que sofram um declínio significativo nas suas capacidades, recebam os cuidados e o apoio que necessitam para ter uma vida compatível com os seus direitos básicos, liberdades fundamentais e dignidade humana. Sem eles, os idosos correm o risco de sofrer um aumento do isolamento social, problemas de saúde mental, acidentes evitáveis e uma redução na duração e qualidade de vida. Ao gerir as doenças crónicas e fornecer apoio consistente, os cuidados continuados de qualidade ajudam a prevenir problemas de saúde graves que poderão levar a internamento hospitalar.

Para grande número de pessoas, a melhor opção é envelhecer no lar, o que significa optar por permanecer na sua própria casa, enquanto se envelhece, em vez de se mudar para uma estrutura residencial para pessoas idosas(ERPI), para um lar residencial ou para uma residência assistida. Essencialmente, trata-se de manter o estilo de vida escolhido e o ambiente familiar pelo maior tempo possível, na sua própria casa. Para algumas pessoas idosas, manter-se em casa exige alguma assistência nas atividades diárias, tais como limpeza da casa, cuidar da higiene pessoal e cozinhar, que podem tornar-se difíceis com o avançar da idade.

Isso pode incluir cuidados de saúde domiciliares, apoio nos transportes, entrega de refeições em casa e outros serviços que ajudam os idosos a gerir as tarefas diárias e a manter a sua independência. Muitas vezes é aconselhável fazer modificações na casa (por exemplo, instalar barras de apoio, rampas, etc.) para maior apoio e segurança, nomeadamente para aumentar a mobilidade e prevenir as quedas.

Mais uma vez vão abordar a temática das vacinas. O tema tornou-se obrigatório quando se fala em promoção da saúde?

Uma declaração de consenso clínico, recentemente subscrita por especialistas da Sociedade Europeia de Cardiologia, veio chamar a atenção para uma dimensão que, apesar de essencial quando se trata da saúde cardiovascular, continua subestimada: o papel fundamental da vacinação na prevenção de doenças cardiovasculares de alto risco.

Especificamente no que diz respeito a esta declaração, estamos a falar do resultado de investigações que confirmam que as infeções respiratórias virais funcionam como verdadeiros “gatilhos” cardiovasculares, desencadeando uma cascata de eventos potencialmente fatais: enfartes do miocárdio, acidentes vasculares cerebrais, arritmias perigosas, episódios de insuficiência cardíaca e, no limite, morte súbita. A proteção contra estas infeções, que pode, em muitos casos, ser feita através das vacinas, traduz-se, então, numa proteção do coração e da saúde cardiovascular.

De resto, este documento considera mesmo que a vacinação é um dos quatro pilares fundamentais das estratégias preventivas, com base em evidências que sugerem que as vacinas contra a gripe, SARS-CoV-2, vírus sincicial respiratório, herpes zoster e outros agentes virais não se limitam a prevenir a infeção primária, mas também a reduzir significativamente a incidência de eventos cardiovasculares adversos graves nas pessoas vacinadas.

“A Geriatria pode reduzir o recurso a cuidados tecnológicos muito dispendiosos e é fundamental para atender às crescentes necessidades do envelhecimento da sociedade”

Na formação, sente que os mais jovens se interessam cada vez mais pela Geriatria?

Cada vez mais a Geriatria – assim como a Gerontologia – assumem um papel muito relevante na sociedade face ao envelhecimento da população, fruto do sucesso dos cuidados de saúde e da melhoria geral das condições de vida. É esta população envelhecida que os médicos mais jovens vão encontrar na prática clínica. É fundamental apostar-se numa abordagem holística, sobretudo no caso dos doentes mais idosos que, em regra, têm multipatologia e estão polimedicados. Todos estes aspetos devem ser tidos em conta quando tratamos um doente idoso, sem esquecer as características próprias da idade, assim como o ambiente envolvente, o que contribui, e muito, para a sua saúde. Ora, os profissionais de saúde compreendem que têm de adquirir conhecimentos em Geriatria para que deem a resposta mais adequada a esta população cada vez mais vasta.

A Geriatria e a Gerontologia dão ênfase ao trabalho em equipa multidisciplinar na abordagem de doentes complexos e na necessidade de recorrer a cuidadores familiares ou profissionais. São, sem dúvida, os doentes mais difíceis e complexos, pelo que do ponto de vista médico são os que suscitam desafios intelectuais mais interessantes do ponto de vista do diagnóstico e do tratamento.

Estes cuidados devem ser prestados preferencialmente em equipa inter e multidisciplinar: médicos, enfermeiros, gerontólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, etc. É uma medicina mesmo muito complexa. Trabalhar com pessoas idosas envolve não só colaborar como elemento de uma equipa vasta, como com o próprio doente. Nunca se devem tomar decisões médicas sobre eles sem partilhar a decisão. O doente e a família devem ser informados dos benefícios e riscos das decisões terapêuticas e deixá-los chegar à sua própria conclusão, embora oferecendo orientação.

Não deveria ser especialidade?

A Geriatria segue um conceito holístico e é orientada para a manutenção da função e da cognição, não se concentra apenas no tratamento de um único órgão ou parte do corpo. Um médico com competência em Geriatria, sem conhecimentos nas áreas de Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Neurologia e Psiquiatria, não poderá oferecer cuidados adequados aos pacientes mais idosos. A Geriatria pode reduzir o recurso a cuidados tecnológicos muito dispendiosos e é fundamental para atender às crescentes necessidades do envelhecimento da sociedade. No fim das contas, cuidados melhores costumam ser cuidados mais baratos, pelo que o SNS precisa da Geriatria para melhorar  os cuidados prestados e, ao mesmo tempo, contrariar o aumento constante das despesas em saúde.

A SPGG convidou a Sociedade Espanhola de Geriatria e Gerontologia (SEGG). Quais os principais frutos desta ligação?

É já uma tradição, iniciada pelo fundador da nossa Sociedade, Dr. José Reis Júnior. Esta relação estreita entre a SPGG e a SEGG faz todo o sentido e abre-nos melhores caminhos para a Europa. A Geriatria em Espanha é uma especialidade estabelecida há bastantes anos e pelo seu desenvolvimento tem uma posição de relevo mundial. O novo presidente, o Dr. Francisco José Tarazona Santabalbina, que iniciou as suas funções, recentemente, desloca-se até nós, o que é muito significativo do seu empenho em nos ajudar no desenvolvimento da Geriatria portuguesa. Estamos muito reconhecidos e o nosso desejo, é aprofundar ainda mais estas relações fraternas.

Maria João Garcia

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“A proximidade entre Cardiologia e MGF é fundamental para uma profícua prática clínica” https://saudeonline.pt/a-proximidade-entre-cardiologia-e-mgf-e-fundamental-para-uma-proficua-pratica-clinica-2/ https://saudeonline.pt/a-proximidade-entre-cardiologia-e-mgf-e-fundamental-para-uma-proficua-pratica-clinica-2/#respond Thu, 13 Mar 2025 11:53:50 +0000 https://saudeonline.pt/?p=173091 Manuel Carrageta fala sobre alguns dos avanços terapêuticos a que se tem assistido nos últimos 39 anos, desde que se começou a realizar este evento que começou por juntar a Cardiologia e a MGF. Contudo, como realça, mesmo os maiores avanços científicos não devem secundarizar a adoção de hábitos de vida saudável.

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Que balanço faz de 39 anos de jornadas que voltam a juntar a Cardiologia e a MGF?

Comemoram-se, este ano, 39 anos de Jornadas e para quem teve o privilégio de as acompanhar ao longo deste longo período são percetíveis mudanças profundas, que é oportuno salientar. Por um lado, uma notória melhor preparação e qualidade dos médicos no terreno, nomeadamente dos médicos de família. Por outro lado, também uma prática médica mais eficaz, graças, nomeadamente, à disponibilidade de fármacos e equipamentos de diagnóstico e tratamento inovadores. Tudo isto obriga a um maior esforço de atualização.

Recordo que a iniciativa destas Jornadas partiu de um grupo de jovens cardiologistas e  médicos de família que resolveram juntar-se para otimizarem a sua prática clínica. Entendeu-se criar um encontro onde se pudessem atualizar os conhecimentos em Cardiologia, Hipertensão e Diabetes, além de se criarem laços de amizade, resultantes do convívio e colaboração mútua. Inicialmente, era uma iniciativa apenas local, mas face ao sucesso começámos a contar com a presença de colegas de diferentes partes do país. Os bons resultados também levaram à sua replicação noutras locais e noutras especialidades, o que demonstra que se trata de uma boa ideia.

 

Que frutos se têm conseguido com a aproximação entre especialidades que tratam doentes com problemas do foro cardíaco e com diabetes e hipertensão?

A proximidade entre a Cardiologia e a Medicina Geral e Familiar (MGF) é fundamental para uma profícua prática clínica, tanto mais porque, hoje em dia são os médicos de família que controlam a maioria dos casos de hipertensão e diabetes, tendo toda a competência para o fazer. São patologias frequentes que são melhor tratadas na proximidade, ficando somente uma pequena percentagem de casos mais complexos para os cuidados dos especialistas hospitalares. Os especialistas de MGF dominam perfeitamente os problemas de hipertensão, colesterol e diabetes, tendo ainda um papel essencial na prestação de cuidados de caráter holístico, por estarem mais próximos da população e por terem uma visão mais global da saúde.

“A obesidade – especialmente a gordura visceral – é um fator de inflamação subclínica com produção de mediadores inflamatórios que  ativam o sistema renina-angiotensina”

As jornadas começam com minicursos. Um diz respeito à obesidade. Considera que ainda existe algum estigma em relação a estes doentes, inclusive entre profissionais de saúde?

O peso corporal é um sinal tão vital como a tensão arterial e a frequência respiratória e a investigação mostra que manter um peso ideal não é uma questão de força de vontade. O peso de uma pessoa é sobretudo o resultado da interação da sua genética com os diversos fatores ambientais e sociais. Por isso não há qualquer razão para estigmatizar estas pessoas.

A obesidade é um importante fator de risco cardiovascular devido a aumentar vários fatores de risco, incluindo a diabetes, a hipertensão, a dislipidemia e outros como a apneia do sono. É claro que  a obesidade não está associada apenas a doença cardíaca, pois também aumenta o risco de vários cancros.

A obesidade – especialmente a gordura visceral – é um fator de inflamação subclínica com produção de mediadores inflamatórios que  ativam o sistema renina-angiotensina, o que contribui para os fatores de risco cardiovasculares. Saliento que o fígado gordo, que faz parte da obesidade visceral, aumenta a produção de fatores da coagulação que promovem a trombose venosa profunda e o embolismo pulmonar.

Estamos perante uma patologia muito complexa, que conduz à doença cardiovascular através de vários mecanismos intrinsecamente interligados. Devido à sua gravidade, existe necessidade imperativa de controlar a obesidade com recurso a alterações do estilo de vida e de medicamentos inovadores muito eficazes e recorrer a intervenções cirúrgicas, felizmente cada vez em menor número , para reduzir significativamente os eventos cardiovasculares. É essencial reconhecer que a abordagem da obesidade é uma componente crucial da gestão do risco cardiovascular e é fundamental para reduzir o peso global da doença cardiovascular.

“Lembro que não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de estilos de vida saudáveis”

O que ainda falta fazer para que a obesidade deixe de ser um flagelo?

Para isso é necessário fazer alterações significativas na forma como as sociedades modernas estão organizadas, nomeadamente, adotar medidas urbanísticas que tornem as cidades mais saudáveis,  com mais espaços verdes, e condições que incentivem a atividade física, o que depende em grande medida da iniciativa de políticos e autarcas esclarecidos.

A urbanização crescente da nossa sociedade, com um estilo de vida que leva ao sedentarismo e a uma alimentação demasiado rica em calorias, gordura animal e sal tem conduzido a verdadeiras epidemias de obesidade, de hipertensão arterial, colesterol elevado e diabetes.

É essencial adotar um estilo de vida saudável (alimentação mediterrânica, atividade física regular e não fumar) e, em caso de necessidade, assegurar o controlo dos fatores de risco cardiovasculares, nomeadamente a hipertensão arterial, o colesterol e a diabetes, se necessário com ajuda médica.

Lembro que não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de estilos de vida saudáveis. O que é determinante na esperança média de vida é ter-se uma vida saudável, com exercício e atividade física, alimentação saudável com pouca gordura, açúcar e sal, dormir bem e as horas necessárias, não fumar…Nestes quase 40 anos temos assistido a grandes avanços terapêuticos – e ainda bem, porque evitam-se muitas mortes -, mas o seu objetivo é ajudar a controlar a doença, sempre associada a estilos de vida equilibrados.

 

Nas novas guidelines da ESC 2024 introduz-se o conceito de pressão arterial elevada, já que se considera que o risco cardiovascular é atribuído à pressão contínua, sem escala binária entre normotensão e hipertensão. De que forma esta alteração vai mudar a prática clínica atual?

Estas recomendações alinham agora com as recomendações americanas. Não mudam os algoritmos terapêuticos  – dose inicial baixa, combinação dupla na maioria dos casos – mas mudam os patamares de intervenção.

Notavelmente, como o próprio título reflete, foi criada uma nova categoria chamada pressão arterial elevada.  É definida por PA clínica de 120/70 – 139/89 mmHg ou medição em casa de 120/70 – 134/84 mmHg. De notar que o mesmo valor limite inferior é usado para o diagnóstico de PA elevada no consultório e em casa.

O grupo de trabalho diz que esta nova categoria reflete a evolução ascendente constante da PA ao longo do tempo (idade) e  que alguns destes indivíduos podem beneficiar do tratamento, tendo em vista novas evidências de benefício da terapêutica demonstradas em ensaios clínicos de alta qualidade. Reflete também a crescente evidência do contínuo do risco de eventos cardiovasculares. Por essa razão, a PA <120/70 é agora designada PA não elevada em vez de normal.

Felizmente, o limite para diagnóstico da PA  continua o mesmo valor-limite (>- 140/90), o que é consistente com outras guidelines.

“Hoje sabe-se que o c-LDL não é meramente um fator de risco cardiovascular, é também a causa da aterosclerose”

No âmbito do risco cardiovascular, vai falar-se também de colesterol. Este fator de risco continua a ser o ‘parente pobre’?

Cerca de dois terços da população adulta portuguesa têm o colesterol elevado, com uma  taxa média de colesterol de 210,7 mg/dL. Por outro lado, um inquérito recente à população portuguesa  mostrou que três em cada quatro portugueses desconhece os seus níveis de colesterol, sendo este desconhecimento mais elevado nas faixas etárias mais jovens. Lembro que o colesterol elevado não causa quaisquer sintomas. Quando estes ocorrem, podem manifestar-se, por exemplo, sob a forma de dor no peito, devido a angina de peito ou enfarte do miocárdio, ou mesmo por morte súbita. Estamos, pois, perante uma patologia grave em que é fundamental fazer prevenção. Hoje sabe-se que o c-LDL não é meramente um fator de risco cardiovascular, é também a causa da aterosclerose e portanto deve constituir o um dos principais alvos terapêuticos.

 

Haverá ainda um momento para falar sobre amiloidose cardíaca. Qual o impacto desta doença no risco cardiovascular?

A nossa compreensão desta doença mudou rapidamente nos últimos 10 a 15 anos. Atualmente, reconhecemos que esta doença, que pensávamos ser uma doença muito rara, já não é assim tão rara. Hoje em dia, reconhecemos que a cardiomiopatia TTR está presente em vários cenários clínicos que são frequentemente observados na nossa prática clínica quotidiana. Estudos realizados recentemente demonstraram que cenários clínicos frequentes, como a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada ou a estenose aórtica grave submetida a implante de válvula aórtica transcateter (TAVI), apresentam cardiomiopatia amiloide concomitante em 10 a 15% dos doentes. Por conseguinte, não podemos continuar a considerar esta doença como uma doença rara. E na prática quotidiana devemos estar conscientes de que estes doentes estão presentes nas nossas clínicas e devemos reconhecê-los, porque existem novas terapêuticas disponíveis para tratar estes doentes.

Outros cenários onde esta doença pode ser encontrada incluem a doença de condução cardíaca, que requer pacemakers sem uma causa óbvia, ou a cardiomiopatia hipertrófica, um aumento da espessura da parede em alguém com mais de 50 anos sem variante sarcomérica, ou com doença cardíaca hipertensiva. É um cenário em que devemos pensar na cardiomiopatia TTR como causa desse aumento da espessura da parede. A suspeita clínica é importante para fazer o diagnóstico precoce, já que hoje dispomos de terapêuticas eficazes para estas situações.

“A solidão social é uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente ao aumentar a ocorrência de vários problemas (…) como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC e a doença cardíaca”

A IC continua a ser um problema grave de  saúde. Com o envelhecimento da população poderemos assistir a um aumento da sua incidência?

A IC pode ser considerada a epidemia cardiovascular do século XXI. Vai continuar a aumentar devido ao envelhecimento da população (2/3 dos doentes têm mais de 65 anos; metade, mais de 75 anos e um quarto mais de 85 anos). Por outro lado, há um aumento dos fatores de risco devido à obesidade e diabetes, HTA e também por  haver hoje uma menor mortalidade  por enfarte do miocárdio e doença cardíaca valvular, graças ao progressos da medicina.

 

O Professor vai falar sobre solidão e risco cardiovascular? Qual a ligação entre ambos?

A solidão social é uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente ao aumentar a ocorrência de vários problemas de saúde mental e física, como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC e a doença cardíaca. As consequências nocivas deste risco têm sido comparadas aos de fumar e até se estima que superem os da obesidade e da inatividade física.

Nas sociedades modernas há uma tendência para aumento da solidão, o que vai contra a natureza humana, pois nós somos uma espécie eminentemente social, que precisou ao longo de muitos milhares de anos (e continua a precisar) de outros para sobreviver.

A OMS, em 2022, declarou a solidão um problema de saúde mundial. Em países como o Reino Unido e o Japão já existem ministros da Solidão. Os estudos realizados na população portuguesa mostram que um quarto da população sofre de solidão significativa. Considero, acompanhando o recente relatório do cirurgião geral dos EUA, que abordar a crise da solidão social é um dos mais importantes desafios que a nossa geração enfrenta e precisa de vencer.

 

No final, vai ser atribuído o Prémio Mário Moura. Que palavras gostaria de deixar ao Dr. Mário Moura?

 O Dr. Mário Moura é um príncipe da Medicina e um visionário da Sociedade, teve um papel fundamental na criação da especialidade de MGF, foi presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), de que atualmente é presidente de Honra. Merece toda a nossa admiração e respeito e é um orgulho saber que estas jornadas foram criadas com o seu contributo.

Maria João Garcia

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Dislipidemia nos Doentes Idosos: Suspender ou continuar a terapêutica?

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“A proximidade entre Cardiologia e MGF é fundamental para uma profícua prática clínica” https://saudeonline.pt/a-proximidade-entre-cardiologia-e-mgf-e-fundamental-para-uma-proficua-pratica-clinica/ https://saudeonline.pt/a-proximidade-entre-cardiologia-e-mgf-e-fundamental-para-uma-proficua-pratica-clinica/#respond Thu, 16 Jan 2025 14:11:55 +0000 https://saudeonline.pt/?p=166687 Manuel Carrageta fala sobre alguns dos avanços terapêuticos a que se tem assistido nos últimos 39 anos, desde que se começou a realizar este evento que começou por juntar a Cardiologia e a MGF. Contudo, como realça, mesmo os maiores avanços científicos não devem secundarizar a adoção de hábitos de vida saudável.

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Que balanço faz de 39 anos de jornadas que voltam a juntar a Cardiologia e a MGF?

Comemoram-se, este ano, 39 anos de Jornadas e para quem teve o privilégio de as acompanhar ao longo deste longo período são percetíveis mudanças profundas, que é oportuno salientar. Por um lado, uma notória melhor preparação e qualidade dos médicos no terreno, nomeadamente dos médicos de família. Por outro lado, também uma prática médica mais eficaz, graças, nomeadamente, à disponibilidade de fármacos e equipamentos de diagnóstico e tratamento inovadores. Tudo isto obriga a um maior esforço de atualização.

Recordo que a iniciativa destas Jornadas partiu de um grupo de jovens cardiologistas e  médicos de família que resolveram juntar-se para otimizarem a sua prática clínica. Entendeu-se criar um encontro onde se pudessem atualizar os conhecimentos em Cardiologia, Hipertensão e Diabetes, além de se criarem laços de amizade, resultantes do convívio e colaboração mútua. Inicialmente, era uma iniciativa apenas local, mas face ao sucesso começámos a contar com a presença de colegas de diferentes partes do país. Os bons resultados também levaram à sua replicação noutras locais e noutras especialidades, o que demonstra que se trata de uma boa ideia.

 

Que frutos se têm conseguido com a aproximação entre especialidades que tratam doentes com problemas do foro cardíaco e com diabetes e hipertensão?

A proximidade entre a Cardiologia e a Medicina Geral e Familiar (MGF) é fundamental para uma profícua prática clínica, tanto mais porque, hoje em dia são os médicos de família que controlam a maioria dos casos de hipertensão e diabetes, tendo toda a competência para o fazer. São patologias frequentes que são melhor tratadas na proximidade, ficando somente uma pequena percentagem de casos mais complexos para os cuidados dos especialistas hospitalares. Os especialistas de MGF dominam perfeitamente os problemas de hipertensão, colesterol e diabetes, tendo ainda um papel essencial na prestação de cuidados de caráter holístico, por estarem mais próximos da população e por terem uma visão mais global da saúde.

“A obesidade – especialmente a gordura visceral – é um fator de inflamação subclínica com produção de mediadores inflamatórios que  ativam o sistema renina-angiotensina”

As jornadas começam com minicursos. Um diz respeito à obesidade. Considera que ainda existe algum estigma em relação a estes doentes, inclusive entre profissionais de saúde?

O peso corporal é um sinal tão vital como a tensão arterial e a frequência respiratória e a investigação mostra que manter um peso ideal não é uma questão de força de vontade. O peso de uma pessoa é sobretudo o resultado da interação da sua genética com os diversos fatores ambientais e sociais. Por isso não há qualquer razão para estigmatizar estas pessoas.

A obesidade é um importante fator de risco cardiovascular devido a aumentar vários fatores de risco, incluindo a diabetes, a hipertensão, a dislipidemia e outros como a apneia do sono. É claro que  a obesidade não está associada apenas a doença cardíaca, pois também aumenta o risco de vários cancros.

A obesidade – especialmente a gordura visceral – é um fator de inflamação subclínica com produção de mediadores inflamatórios que  ativam o sistema renina-angiotensina, o que contribui para os fatores de risco cardiovasculares. Saliento que o fígado gordo, que faz parte da obesidade visceral, aumenta a produção de fatores da coagulação que promovem a trombose venosa profunda e o embolismo pulmonar.

Estamos perante uma patologia muito complexa, que conduz à doença cardiovascular através de vários mecanismos intrinsecamente interligados. Devido à sua gravidade, existe necessidade imperativa de controlar a obesidade com recurso a alterações do estilo de vida e de medicamentos inovadores muito eficazes e recorrer a intervenções cirúrgicas, felizmente cada vez em menor número , para reduzir significativamente os eventos cardiovasculares. É essencial reconhecer que a abordagem da obesidade é uma componente crucial da gestão do risco cardiovascular e é fundamental para reduzir o peso global da doença cardiovascular.

“Lembro que não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de estilos de vida saudáveis”

O que ainda falta fazer para que a obesidade deixe de ser um flagelo?

Para isso é necessário fazer alterações significativas na forma como as sociedades modernas estão organizadas, nomeadamente, adotar medidas urbanísticas que tornem as cidades mais saudáveis,  com mais espaços verdes, e condições que incentivem a atividade física, o que depende em grande medida da iniciativa de políticos e autarcas esclarecidos.

A urbanização crescente da nossa sociedade, com um estilo de vida que leva ao sedentarismo e a uma alimentação demasiado rica em calorias, gordura animal e sal tem conduzido a verdadeiras epidemias de obesidade, de hipertensão arterial, colesterol elevado e diabetes.

É essencial adotar um estilo de vida saudável (alimentação mediterrânica, atividade física regular e não fumar) e, em caso de necessidade, assegurar o controlo dos fatores de risco cardiovasculares, nomeadamente a hipertensão arterial, o colesterol e a diabetes, se necessário com ajuda médica.

Lembro que não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de estilos de vida saudáveis. O que é determinante na esperança média de vida é ter-se uma vida saudável, com exercício e atividade física, alimentação saudável com pouca gordura, açúcar e sal, dormir bem e as horas necessárias, não fumar…Nestes quase 40 anos temos assistido a grandes avanços terapêuticos – e ainda bem, porque evitam-se muitas mortes -, mas o seu objetivo é ajudar a controlar a doença, sempre associada a estilos de vida equilibrados.

 

Nas novas guidelines da ESC 2024 introduz-se o conceito de pressão arterial elevada, já que se considera que o risco cardiovascular é atribuído à pressão contínua, sem escala binária entre normotensão e hipertensão. De que forma esta alteração vai mudar a prática clínica atual?

Estas recomendações alinham agora com as recomendações americanas. Não mudam os algoritmos terapêuticos  – dose inicial baixa, combinação dupla na maioria dos casos – mas mudam os patamares de intervenção.

Notavelmente, como o próprio título reflete, foi criada uma nova categoria chamada pressão arterial elevada.  É definida por PA clínica de 120/70 – 139/89 mmHg ou medição em casa de 120/70 – 134/84 mmHg. De notar que o mesmo valor limite inferior é usado para o diagnóstico de PA elevada no consultório e em casa.

O grupo de trabalho diz que esta nova categoria reflete a evolução ascendente constante da PA ao longo do tempo (idade) e  que alguns destes indivíduos podem beneficiar do tratamento, tendo em vista novas evidências de benefício da terapêutica demonstradas em ensaios clínicos de alta qualidade. Reflete também a crescente evidência do contínuo do risco de eventos cardiovasculares. Por essa razão, a PA <120/70 é agora designada PA não elevada em vez de normal.

Felizmente, o limite para diagnóstico da PA  continua o mesmo valor-limite (>- 140/90), o que é consistente com outras guidelines.

“Hoje sabe-se que o c-LDL não é meramente um fator de risco cardiovascular, é também a causa da aterosclerose”

No âmbito do risco cardiovascular, vai falar-se também de colesterol. Este fator de risco continua a ser o ‘parente pobre’?

Cerca de dois terços da população adulta portuguesa têm o colesterol elevado, com uma  taxa média de colesterol de 210,7 mg/dL. Por outro lado, um inquérito recente à população portuguesa  mostrou que três em cada quatro portugueses desconhece os seus níveis de colesterol, sendo este desconhecimento mais elevado nas faixas etárias mais jovens. Lembro que o colesterol elevado não causa quaisquer sintomas. Quando estes ocorrem, podem manifestar-se, por exemplo, sob a forma de dor no peito, devido a angina de peito ou enfarte do miocárdio, ou mesmo por morte súbita. Estamos, pois, perante uma patologia grave em que é fundamental fazer prevenção. Hoje sabe-se que o c-LDL não é meramente um fator de risco cardiovascular, é também a causa da aterosclerose e portanto deve constituir o um dos principais alvos terapêuticos.

 

Haverá ainda um momento para falar sobre amiloidose cardíaca. Qual o impacto desta doença no risco cardiovascular?

A nossa compreensão desta doença mudou rapidamente nos últimos 10 a 15 anos. Atualmente, reconhecemos que esta doença, que pensávamos ser uma doença muito rara, já não é assim tão rara. Hoje em dia, reconhecemos que a cardiomiopatia TTR está presente em vários cenários clínicos que são frequentemente observados na nossa prática clínica quotidiana. Estudos realizados recentemente demonstraram que cenários clínicos frequentes, como a insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada ou a estenose aórtica grave submetida a implante de válvula aórtica transcateter (TAVI), apresentam cardiomiopatia amiloide concomitante em 10 a 15% dos doentes. Por conseguinte, não podemos continuar a considerar esta doença como uma doença rara. E na prática quotidiana devemos estar conscientes de que estes doentes estão presentes nas nossas clínicas e devemos reconhecê-los, porque existem novas terapêuticas disponíveis para tratar estes doentes.

Outros cenários onde esta doença pode ser encontrada incluem a doença de condução cardíaca, que requer pacemakers sem uma causa óbvia, ou a cardiomiopatia hipertrófica, um aumento da espessura da parede em alguém com mais de 50 anos sem variante sarcomérica, ou com doença cardíaca hipertensiva. É um cenário em que devemos pensar na cardiomiopatia TTR como causa desse aumento da espessura da parede. A suspeita clínica é importante para fazer o diagnóstico precoce, já que hoje dispomos de terapêuticas eficazes para estas situações.

“A solidão social é uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente ao aumentar a ocorrência de vários problemas (…) como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC e a doença cardíaca”

A IC continua a ser um problema grave de  saúde. Com o envelhecimento da população poderemos assistir a um aumento da sua incidência?

A IC pode ser considerada a epidemia cardiovascular do século XXI. Vai continuar a aumentar devido ao envelhecimento da população (2/3 dos doentes têm mais de 65 anos; metade, mais de 75 anos e um quarto mais de 85 anos). Por outro lado, há um aumento dos fatores de risco devido à obesidade e diabetes, HTA e também por  haver hoje uma menor mortalidade  por enfarte do miocárdio e doença cardíaca valvular, graças ao progressos da medicina.

 

O Professor vai falar sobre solidão e risco cardiovascular? Qual a ligação entre ambos?

A solidão social é uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente ao aumentar a ocorrência de vários problemas de saúde mental e física, como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC e a doença cardíaca. As consequências nocivas deste risco têm sido comparadas aos de fumar e até se estima que superem os da obesidade e da inatividade física.

Nas sociedades modernas há uma tendência para aumento da solidão, o que vai contra a natureza humana, pois nós somos uma espécie eminentemente social, que precisou ao longo de muitos milhares de anos (e continua a precisar) de outros para sobreviver.

A OMS, em 2022, declarou a solidão um problema de saúde mundial. Em países como o Reino Unido e o Japão já existem ministros da Solidão. Os estudos realizados na população portuguesa mostram que um quarto da população sofre de solidão significativa. Considero, acompanhando o recente relatório do cirurgião geral dos EUA, que abordar a crise da solidão social é um dos mais importantes desafios que a nossa geração enfrenta e precisa de vencer.

 

No final, vai ser atribuído o Prémio Mário Moura. Que palavras gostaria de deixar ao Dr. Mário Moura?

 O Dr. Mário Moura é um príncipe da Medicina e um visionário da Sociedade, teve um papel fundamental na criação da especialidade de MGF, foi presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), de que atualmente é presidente de Honra. Merece toda a nossa admiração e respeito e é um orgulho saber que estas jornadas foram criadas com o seu contributo.

Maria João Garcia

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Dislipidemia nos Doentes Idosos: Suspender ou continuar a terapêutica?

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solidão

“Não é uma questão de idade” é o tema central do Congresso. Ainda existe muito idadismo?

Vivemos numa sociedade envelhecida, o que, sublinho, representa um triunfo da humanidade, pelo que o envelhecimento global deve ser visto como um fenómeno altamente positivo. No entanto, apesar das pessoas idosas já representarem quase um quarto do total da população portuguesa, o idadismo é o preconceito mais disseminado socialmente. A OMS define o idadismo como os estereótipos (como pensamos), os preconceitos (como atuamos) e a discriminação (como agimos)  em relação a outras pessoas, com base na idade. É evidente para todos que o idadismo existe em toda a parte, desde os locais de trabalho aos sistemas de saúde, aos espetáculos, aos media e anúncios. De acordo com as Nações Unidas, uma em cada duas  pessoas são idadistas. O idadismo, tal como outros ismos, baseia-se em generalizações sobre pessoas em função de caraterísticas exteriores. No fundo, as pessoas são julgadas não pelas suas capacidades, mas pela sua idade. Tornam-se, assim, vítimas de discriminação no emprego, na educação e do próprio Estado.

A idade cronológica nunca deve ser um fator decisivo para determinar o direito aos cuidados médicos. Está bem demonstrado que é um mau indicador da capacidade da pessoa para responder positivamente, mesmo a cuidados intensivos e de reabilitação. Só uma pequena minoria de pessoas idosas é diminuída física e cognitivamente. Pelo contrário, a  maioria é independente e goza de boa qualidade de vida. Um dos objetivos, a longo prazo, da SPGG é desafiar a prática do idadismo e criar condições para que que as pessoas mais velhas realizem todo o seu potencial, o que será benéfico para si próprios e para a sociedade.

 

Fala-se cada vez mais do impacto da solidão nos idosos. É, de facto, uma nova síndrome?

A solidão social é uma epidemia com riscos significativos para a saúde, nomeadamente por aumentar a ocorrência de vários problemas de saúde mental e física, como a ansiedade, a depressão, a demência, o AVC e a doença cardíaca. As consequências nocivas deste risco têm sido comparadas aos de fumar e até se estima que superem os da obesidade e da inatividade física.   A recente pandemia da covid veio ainda agravar mais a solidão, particularmente das pessoas mais velhas, ao limitar os contactos com as suas redes de apoio familiar e social. Esta tendência de aumento da solidão vai contra a natureza humana, pois somos uma espécie eminentemente social, que precisou ao longo de muitos milhares de anos (e continua a precisar) de outros para sobreviver.

A OMS, em 2022, declarou a solidão um problema de saúde mundial. Em países como o Reino Unido e o Japão já existem ministros da Solidão. Os estudos realizados na população portuguesa mostram que um quarto da população sofre de solidão significativa. A SPGG salienta a necessidade premente de se criarem condições na nossa sociedade que limitem a solidão e o isolamento social, através de medidas que promovam o aumento das conexões sociais.

Chamamos a atenção para a necessidade de se estabelecerem planos nacionais de combate à solidão. Estes planos devem, nomeadamente, recomendar o reforço das infraestruturas sociais nas comunidades locais e mobilizar todos os setores da sociedade para a sua implementação pelas autoridades públicas, nomeadamente municipais e também privadas. A SPGG considera que abordar a crise da solidão social é um dos mais importantes desafios que a nossa geração enfrenta e precisa de vencer.

“Trabalhar com pessoas idosas envolve não só colaborar como elemento de uma equipa vasta como com o próprio doente. Nunca devemos tomar decisões médicas sobre eles sem partilhar a decisão”

E a fragilidade?

Nas últimas décadas, a síndrome de fragilidade emergiu como uma entidade clínica da maior relevância, tornando-se um dos mais importantes focos de atenção dos geriatras e outros profissionais de saúde que prestam cuidados aos doentes idosos. A fragilidade é um estado de vulnerabilidade devido a perda das reservas biológicas, o que implica um risco aumentado de complicações, mesmo na sequência de uma doença ou stress ligeiros. Não existe uma definição consensual de fragilidade. A falta de força é geralmente a primeira queixa a surgir, a que se segue a perda de peso e a fadiga, que são componentes centrais em todas as definições. A sarcopenia (perda da massa muscular esquelética) é uma componente que está na base destes sintomas.

De uma maneira geral, podemos considerar a fragilidade como uma síndrome multidimensional modificável e reversível, mediante intervenções baseadas, fundamentalmente, numa abordagem holística, em que têm papel de destaque o exercício físico e a alimentação saudável.

Para otimizar as medidas de reversão desta patologia é fundamental identificarem-se os respetivos fatores determinantes da síndrome de fragilidade. Estes são a redução da atividade física, a malnutrição, a sarcopenia, a polimedicação, a depressão, os défices cognitivos e a falta de suporte. Este novo campo da Geriatria, chamada Gerociência, tem vindo a aprofundar os conhecimentos sobre a biologia do envelhecimento, o que potencialmente pode ter a vantagem de permitir abordar todas as doenças crónicas em simultâneo.

É sabido que, hoje, a maior parte dos muito idosos morre de doenças cardiovasculares, cancro, demências e infeções respiratórias, mas para a maior parte dos muito idosos o que limita a sua capacidade, para viver com independência até à morte, é a fadiga e a falta de força, características da síndrome de fragilidade.

Este Congresso já vai na 44.ª edição. Ao longo destes anos, o que mais se tem aprendido?

A nossa sociedade tem olhado mais para os jovens, esquecendo-se dos mais velhos. Todavia, a esperança média de vida tem continuado a aumentar nas últimas décadas e nem a mortalidade associada a covid-19 fez diminuir esta tendência. A Medicina tem de cuidar das pessoas idosas, indo ao encontro das suas particularidades. Para isso surgiram a  Geriatria e a Gerontologia, especialidades novas que fazem uma abordagem global e transversal do indivíduo. Esta abordagem é orientada menos para um órgão doente e mais para o indivíduo, evoluindo no seu contexto único. Um dos seus eixos de ação é o da medicina personalizada, procurando fazer a prevenção dos riscos do envelhecimento, priorizando a manutenção das funções  e a qualidade de vida, ou seja ajudando a pessoa a envelhecer saudavelmente.

É fundamental apostar-se numa abordagem holística, sobretudo no caso dos doentes mais idosos que, em regra, têm multipatologia e estão polimedicados. Todos estes aspetos devem ser tidos em conta quando tratamos um doente idoso, sem esquecer as características próprias da idade, assim como o ambiente envolvente, o que contribui, e muito, para a sua saúde. Ora, os profissionais de saúde têm de aprofundar os seus conhecimentos em Geriatria para que deem a resposta mais adequada a esta população cada vez mais vasta.

A Geriatria e a Gerontologia dão ênfase ao trabalho em equipa multidisciplinar na abordagem de doentes complexos e na necessidade de recorrer a cuidadores familiares ou profissionais. São, sem dúvida, os doentes mais difíceis e complexos, pelo que acabam por ser aqueles que suscitam desafios intelectuais mais interessantes do ponto de vista médico. Estes cuidados devem ser prestados, preferencialmente, em equipa inter e multidisciplinar: médicos, enfermeiros, gerontólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, nutricionistas, etc. É uma medicina muito complexa.

Trabalhar com pessoas idosas envolve não só colaborar como elemento de uma equipa vasta como com o próprio doente. Nunca devemos tomar decisões médicas sobre eles sem partilhar a decisão. O doente e a família devem ser informados dos benefícios e riscos das decisões terapêuticas e deixá-los chegar à sua própria conclusão, embora oferecendo orientação. É, pois, preciso tratar a pessoa idosa de acordo com as suas particularidades, o que implica múltiplos conhecimentos. O objetivo deve ser promover também a sua funcionalidade e autonomia, sempre que possível. E, num ponto de vista mais preventivo, a realidade impõe o caminho do envelhecimento saudável. Uma boa alimentação, atividade física regular, sono adequado e interação social são fundamentais.

MJG

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“Consultores em Geriatria nos cuidados primários e unidades geriátricas nos hospitais são medidas fundamentais”

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“As Jornadas são um reconhecimento de que a MGF tem um papel fundamental no SNS” https://saudeonline.pt/as-jornadas-sao-um-reconhecimento-de-que-a-mgf-tem-um-papel-fundamental-no-sns/ https://saudeonline.pt/as-jornadas-sao-um-reconhecimento-de-que-a-mgf-tem-um-papel-fundamental-no-sns/#respond Thu, 11 Jan 2024 09:44:08 +0000 https://saudeonline.pt/?p=153604 Em entrevista, Manuel Carrageta lembra o papel pioneiro de umas jornadas que marcaram desde logo a diferença pela interligação entre a Cardiologia e a MGF. O cardiologista faz ainda um balanço da evolução terapêutica na área da hipertensão e diabetes e realça a importância dos estilos de vida saudável.

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solidão

Estas são as Jornadas mais antigas que juntam a Cardiologia e Medicina Geral e Familiar (MGF). Ao fim de quase 40 anos, que avaliação faz da articulação entre ambas as especialidades?

As pioneiras Jornadas de Cardiologia, HTA e Diabetes de Almada conhecem este ano, entre os dias 11 e 13 de janeiro, a sua 38.ª edição. Trata-se da primeira iniciativa organizada, em Portugal, entre a Cardiologia e a Medicina Geral e Familiar e tiveram logo, desde início, grande aceitação. Sublinho que não se trata de uma iniciativa organizada para médicos de família, mas sim em conjunto por ambas as especialidades. Recordo que, na altura, se tratou de uma decisão local, com o intuito de melhorar as relações de trabalho e de comunicação entre os médicos da Clínica Geral e os da área hospitalar. Com o seu sucesso, acabou por se transformar numa reunião de dimensão nacional.

Havia uma grande separação e, até, um certo desconhecimento entre estas duas áreas da Medicina, particularmente da parte dos médicos hospitalares. As Jornadas foram um reconhecimento, da nossa parte, de que a MGF tem um papel fundamental e é, no fundo, o grande pilar em que assenta o Serviço Nacional de Saúde, sendo imprescindível que haja uma boa comunicação entre os médicos de ambas as especialidades. Estes profissionais são a espinha dorsal da assistência médica e sem eles nada de válido se conseguirá fazer. Só com o seu apoio será possível fazer uma boa Medicina e prestarmos um bom serviço aos nossos doentes.

Os atuais objetivos destas Jornadas continuam a ser exatamente os mesmos pelos quais toda a sua comissão organizadora, em que os médicos de família têm um papel fundamental, se pautaram há 38 anos para organizar a primeira edição: rever todas as inovações científicas ocorridas no ano anterior.

Destaco que nestas jornadas contamos com a presença de colegas e amigos que nos acompanham há muito tempo. Exemplo disso é o Dr. João  Sequeira Carlos, que começou por vir ao evento com a sua mãe (Regina Sequeira Carlos), ainda como aluno de Medicina! Desde então, além de especialista, já foi inclusive presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF). Um dos fundadores destas jornadas, o Dr. Mário Moura,  um visionário da Medicina, teve um papel fundamental na criação da especialidade de MGF, foi presidente da APMGF, sendo atualmente presidente de Honra. Merece toda a nossa admiração e respeito e é um orgulho saber que estas jornadas foram criadas, desde o primeiro dia, com o seu contributo.  Aliás, em sua homenagem, temos todos os anos o Prémio Mário Moura, atribuído à melhor comunicação oral e/ou melhor poster. Esta ligação ao passado é essencial.

 

A atual crise do SNS, com escassez de recursos humanos e as incertezas quanto à generalização do modelo Unidade Local de Saúde poderá pôr em causa essa mesma articulação?

Este novo modelo tenta aperfeiçoar de forma integrada a articulação entre os hospitais e a medicina de ambulatório, tendo também subjacente o objetivo de melhorar o controlo dos custos financeiros. Paralelamente, o SNS tem um problema básico na qualidade da sua gestão, que precisa de ser modernizada. Necessita também de um maior contributo dos médicos, que se tem perdido nos últimos anos, para assegurar que, para bem dos doentes, as regras da Medicina sejam respeitadas e não subvertidas pelas regras da gestão.

“A hipertensão arterial é a mais importante causa evitável de morte. Afeta cerca de 30% da população mundial e contribui para quase 11 milhões de mortes anualmente”

Relativamente às Jornadas, a hipertensão e a diabetes continuam a ser fatores de risco relevantes para doença cardiovascular. Ao longo destes 38 anos, que desenvolvimentos gostaria de destacar no que diz respeito ao diagnóstico e tratamento de ambas as patologias?

A hipertensão arterial é a mais importante causa evitável de morte. Afeta cerca de 30% da população mundial e contribui para quase 11 milhões de mortes anualmente, o que equivale a 30 mil mortes por dia (em consequência da hipertensão arterial). Hoje dispomos para tratar de três pilares. Em primeiro lugar, as mudanças de estilo de vida, em segundo lugar a terapêutica farmacológica e em terceiro lugar a desnervação renal. Nos últimos anos, surgiram novos recursos terapêuticos, como os iSGLT2 e os mineralocorticoides não esteroides. (finenerona) que podem contribuir para melhorar o controlo e prognóstico de alguns destes doentes.

A diabetes é reconhecida há muitos anos como um importante fator de risco cardiovascular. Até recentemente o modelo utilizado era essencialmente glucocêntrico, com resultados muito limitados na redução dos eventos macrovasculares. Diversos ensaios clínicos demonstraram recentemente que os inibidores da SGLT- 2 e os agonistas GLP-1  têm um efeito muito positivo, quer na redução dos eventos cardiovasculares quer das complicações renais, as duas principais causas de morte destes doentes. Hoje há um consenso Europeu- Americano que diferencia estes dois grupos de fármacos. Os inibidores SGLT-2 devem ser usados, preferencialmente, na insuficiência cardíaca (sem ou com diabetes) e na insuficiência renal, enquanto os GLP-1 devem ser empregues quando predomina a doença aterosclerótica, independentemente dos níveis glicémicos.

“Não basta tomar os comprimidos. Não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de um estilo de vida saudável”

As terapêuticas são cada vez mais simples e individualizadas. Isso tem sido decisivo para doentes mais resistentes em seguir o tratamento?

Daí que seja fundamental esta interligação entre Cardiologia e MGF, porque, hoje em dia, são os médicos de família que controlam a maioria dos casos de hipertensão e diabetes, tendo a competência para o fazer. São patologias frequentes que acabam por ter de ser tratadas na proximidade, ficando somente uma pequena percentagem de casos mais complexos para os cuidados dos especialistas hospitalares. Os especialistas de MGF dominam perfeitamente os problemas de hipertensão e diabetes, tendo ainda um papel fundamental na prevenção, por estarem mais próximos da população e por terem uma visão mais global da sua saúde. Por isso mesmo debatemos todos os anos casos clínicos, onde domina a visão do MGF. Saliento, os médicos de família têm um papel fundamental na prevenção e tratamento dos fatores de risco de doença cardiovascular. Nestas Jornadas participam tal como os especialistas hospitalares na organização e nas conferências, promovendo-se assim a atualização de conhecimentos e partilha de experiências. O mais beneficiado é, sem dúvida, o doente.

 

Mesmo assim, com novas terapêuticas, qual o papel dos hábitos de vida saudável?

Não basta tomar os comprimidos. Não existe uma terapêutica que seja melhor que a adoção de um estilo de vida saudável. O que é determinante na esperança média de vida é ter-se uma vida equilibrada, com exercício e atividade física regular, alimentação mediterrânica, pobre em açúcar e sal, dormir as horas necessárias, não fumar…Nestes quase 40 anos temos assistido a grandes avanços terapêuticos – e ainda bem, porque permitem evitar muitas mortes -, mas o objetivo médico é curar e/ou controlar a doença, associando sempre a terapêutica a uma vida com hábitos saudáveis.

 

Os idosos continuam a ser a população mais vulnerável ao risco cardiovascular, não apenas pela idade mas também pela elevada prevalência de hipertensão e diabetes. Acredita que as novas gerações vão ser diferentes?

É reconhecido que uma das grandes conquistas do século XX foi o aumento da esperança de vida que, em Portugal, nos últimos 80 anos, cresceu cerca de dois a três anos  por cada década. Hoje é expectável que um homem ou mulher de 70 anos viva, em média, cerca de mais duas décadas, que devem ser disfrutadas com vitalidade e dignidade. Estamos perante uma conquista incrível, em que nem tudo é positivo. Do nosso sucesso resultou também uma epidemia de doenças crónicas associadas ao envelhecimento. Esta população com idade mais avançada traz novos desafios, resultantes da elevada prevalência de doenças geriátricas, embora muitas delas sejam em grande parte evitáveis e controláveis. No que respeita à esperança de vida com boa saúde, a comparação de Portugal com os restantes países da União Europeia é dececionante, o que significa que pode e deve ser melhorada. Viver mais tempo em boa saúde é hoje possível, atrasando o ritmo da perda das capacidades funcionais e de desenvolvimento de muitas doenças. Ter saúde e sentir-se jovem e com energia depende mais do estilo de vida que dos cuidados médicos, por melhores e mais especializados que estes sejam. No entanto, lembro que é errado, mesmo não ético, recusar a uma pessoa idosa um tratamento por motivos de custos elevados, desde que estejam comprovados os seus benefícios e segurança. Prescrição racional não é o mesmo que prescrição racionada.

“O prognóstico da insuficiência cardíaca é sombrio, na medida em que somente cerca de metade dos doentes estão vivos em cinco anos após o diagnóstico. Felizmente, o prognóstico tem melhorado muito, nos últimos anos”

Vai decorrer no sábado um minicurso sobre Insuficiência Cardíaca. Este é e será um dos grandes flagelos dos próximos anos face ao aumento da esperança de vida?

A insuficiência cardíaca afeta um elevado número de portugueses e é uma patologia cardíaca em franco aumento. Já é hoje a principal causa de internamento hospitalar dos indivíduos com mais de 65 anos. Os principais motivos que estão a levar a este aumento são o envelhecimento da população, com as suas doenças associadas, como a hipertensão arterial e a epidemia de obesidade, que afeta negativamente todos os outros fatores de risco cardiovascular. O prognóstico da insuficiência cardíaca é sombrio, na medida em que somente cerca de metade dos doentes estão vivos em cinco anos após o diagnóstico. Felizmente, o prognóstico tem melhorado muito, nos últimos anos, graças aos recentes e  enormes progressos no tratamento farmacológico e ao desenvolvimento de novos dispositivos médicos.

 

Para terminar, que dicas gostaria de deixar aos colegas médicos para que também eles, no meio da azáfama da prática clínica, pensem na sua saúde cardiovascular?

Perguntar-se-á o que podemos fazer hoje, para além de procurar apoio médico regular, numa perspetiva de medicina preventiva, para conseguir ter uma maior longevidade e um envelhecimento saudável? Sabemos que, para isso, é particularmente importante ter uma alimentação saudável e praticar atividade física com regularidade. A vida sedentária acelera o envelhecimento biológico, enquanto um estilo de vida fisicamente ativo tem um efeito marcadamente benéfico. No que respeita à alimentação, destaco que a dieta mediterrânica é a dieta mais estudada e a que tem a melhor evidência de vantagens para a saúde. Esta dieta é rica em vegetais e fruta, pão de trigo ou outros cereais pouco refinados, azeite e peixe, sendo pobre em gorduras saturadas e rica em gordura monoinsaturada (azeite), ácidos gordos ómega-3 (peixe) e fibra alimentar. Diversos estudos recentes demonstraram os seus benefícios, nomeadamente na promoção do envelhecimento saudável. A adoção de um estilo de vida saudável é, pois, fundamental para assegurar com sucesso um envelhecimento ativo.

Hoje a prestação de cuidados médicos está organizada em termos de órgãos, assim, por exemplo, para um problema cardíaco vai-se ao cardiologista e ele consegue evitar o enfarte do miocárdio pelo controlo dos fatores de risco, como a pressão arterial e o colesterol. As doenças cardiovasculares estão a cair. Missão que está a ser cumprida pela Cardiologia, e isso é ótimo. Mas o problema é que o doente continua em risco de outras doenças, como o cancro, a demência, a hipertrofia benigna da próstata, a insuficiência cardíaca, etc.

No futuro vamos conseguir atuar com maior eficácia no envelhecimento, que é o maior fator de risco para todas as doenças. Nós iremos não só atacar o colesterol, a pressão arterial ou a diabetes, mas também os mecanismos de envelhecimento, o que irá ter um impacto profundo sobre todas as doenças. Será preciso uma abordagem mais holística em que os médicos de família, internistas e geriatras terão um papel fundamental, numa medicina que será holística, mais preventiva que curativa.

Maria João Garcia

O conteúdo “As Jornadas são um reconhecimento de que a MGF tem um papel fundamental no SNS” aparece primeiro em Saúde Online.

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