Inês Homem de Melo - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/ines-homem-de-melo/ Notícias sobre saúde Wed, 20 Mar 2024 15:35:55 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Inês Homem de Melo - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/ines-homem-de-melo/ 32 32 Perturbação de hiperatividade no adulto: desconstrução de estigmas e mitos https://saudeonline.pt/perturbacao-de-hiperatividade-no-adulto-desconstrucao-de-estigmas-e-mitos-2/ https://saudeonline.pt/perturbacao-de-hiperatividade-no-adulto-desconstrucao-de-estigmas-e-mitos-2/#respond Fri, 22 Mar 2024 14:00:32 +0000 https://saudeonline.pt/?p=156764 Estudos epidemiológicos estimam que a perturbação de hiperatividade e défice de atenção tenha uma prevalência de cerca de 5% das crianças e 3% dos adultos. No primeiro dia das VI Jornadas Multidisciplinares de MGF a psiquiatra Inês Homem de Melo falou deste tema e é “com grande entusiasmo” que vê o interesse dos médicos de família em trazer as perturbações do neurodesenvolvimento para cima da mesa.

O conteúdo Perturbação de hiperatividade no adulto: desconstrução de estigmas e mitos aparece primeiro em Saúde Online.

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Qual a importância de se realizar uma sessão sobre este tema neste evento?
A PHDA não existe.
A PHDA é o resultado de más estratégias de parentalidade.
A PHDA só existe na criança.
As pessoas com PHDA não têm sucesso académico.
A PHDA é uma desculpa para a preguiça e mau-comportamento.
Estes são alguns dos mitos mais comuns em torno da perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA). Enquanto membros da sociedade, nós médicos, não somos imunes aos mitos e preconceitos que circulam na população geral. Conscientes disso, cabe-nos manter-nos informados e ser agentes da desconstrução do estigma, veículos de literacia para a saúde e para a saúde mental em particular. Nesse sentido, é com grande entusiasmo que vejo o interesse dos médicos de família em trazer as perturbações do neurodesenvolvimento para cima da mesa em eventos tão importantes como estas Jornadas!

 

Qual a prevalência das perturbações da hiperatividade no adulto?
A PHDA é uma das perturbações do neurodesenvolvimento mais comuns, caracterizando-se por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade com uma interferência negativa sobre a funcionalidade. Apesar de estar presente desde o início do desenvolvimento, os sintomas da PHDA podem não se tornar totalmente manifestos até as exigências sociais excederem as capacidades do indivíduo, sendo por isso possível que o diagnóstico seja feito pela primeira vez na vida adulta. Estudos epidemiológicos estimam uma prevalência de PHDA em cerca de 5% das crianças e 3% dos adultos. Aproximadamente dois terços das crianças com PHDA mantêm sintomas clinicamente relevantes na vida adulta.

 

Quais as principais conclusões/ideias-chave que pretende transmitir aos colegas durante a apresentação?
– O impacto da PHDA ao longo da vida vai sendo espelhado nos desafios próprios de cada faixa etária. Na criança e no adolescente auscultamos sobretudo o desempenho escolar, a interação com os pares e as dinâmicas familiares. No adulto, os desafios multiplicam-se: o desempenho académico, a vida profissional, a gestão das finanças, a condução, o casamento, a parentalidade e, especialmente caro ao trabalho do médico de família, a manutenção da saúde. Os adultos com PHDA não tratada têm maior probabilidade de desenvolver doenças crónicas devido à sua dificuldade acrescida em aderir a hábitos de vida saudáveis, à sua tendência aumentada para as adições e ao maior risco de acidentes de viação. Adicionalmente, o não tratamento da PHDA dificulta a adesão ao tratamento e follow-up de outras patologias, por esquecimento e dificuldades de gestão. De facto, depois dos 18 anos, a taxa de mortalidade das pessoas com PHDA sem tratamento encontra-se 4 a 5 vezes aumentada!

– A PHDA tem uma componente genética muito forte, sendo expectável encontrar uma grande agregação familiar deste quadro. A referenciação de uma suspeita de PHDA no adulto acontece frequentemente na sequência do diagnóstico de um filho. Após identificação do pai ou da mãe com as dificuldades do filho, esta suspeita pode ser verbalizada ao médico de família pelo agregado familiar. Efetivamente, os estudos mostram que em 40 a 50% das famílias em que pelo menos um filho tem PHDA, um dos pais também tem PHDA. Mais uma vez, pela proximidade ao agregado familiar como um todo, o médico de família poderá ter um importantíssimo papel nestes casos.

– Apesar de durante muito tempo a PHDA ter sido pensada como um problema exclusivamente ligado à criança, existe hoje evidência muito sólida da sua persistência e do seu enorme impacto na vida adulta. O médico de família ocupa um lugar privilegiado para fazer a ponte entre a Psiquiatria da Infância e Adolescência e a Psiquiatria (de adultos) – caso um jovem já diagnosticado mantenha sintomas na maioridade – bem como para suspeitar de uma PHDA não-diagnosticada num adulto, em ambos os casos enviando o doente para orientação por Psiquiatria.

 

SM

Notícia relacionada 

“A elevada procura pelas Jornadas é fruto de um trabalho contínuo, crescente e de qualidade”

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Qual a importância de se realizar uma sessão sobre este tema neste evento?
A PHDA não existe.
A PHDA é o resultado de más estratégias de parentalidade.
A PHDA só existe na criança.
As pessoas com PHDA não têm sucesso académico.
A PHDA é uma desculpa para a preguiça e mau-comportamento.
Estes são alguns dos mitos mais comuns em torno da perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA). Enquanto membros da sociedade, nós médicos, não somos imunes aos mitos e preconceitos que circulam na população geral. Conscientes disso, cabe-nos manter-nos informados e ser agentes da desconstrução do estigma, veículos de literacia para a saúde e para a saúde mental em particular. Nesse sentido, é com grande entusiasmo que vejo o interesse dos médicos de família em trazer as perturbações do neurodesenvolvimento para cima da mesa em eventos tão importantes como estas Jornadas!

 

Qual a prevalência das perturbações da hiperatividade no adulto?
A PHDA é uma das perturbações do neurodesenvolvimento mais comuns, caracterizando-se por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade com uma interferência negativa sobre a funcionalidade. Apesar de estar presente desde o início do desenvolvimento, os sintomas da PHDA podem não se tornar totalmente manifestos até as exigências sociais excederem as capacidades do indivíduo, sendo por isso possível que o diagnóstico seja feito pela primeira vez na vida adulta. Estudos epidemiológicos estimam uma prevalência de PHDA em cerca de 5% das crianças e 3% dos adultos. Aproximadamente dois terços das crianças com PHDA mantêm sintomas clinicamente relevantes na vida adulta.

 

Quais as principais conclusões/ideias-chave que pretende transmitir aos colegas durante a apresentação?
– O impacto da PHDA ao longo da vida vai sendo espelhado nos desafios próprios de cada faixa etária. Na criança e no adolescente auscultamos sobretudo o desempenho escolar, a interação com os pares e as dinâmicas familiares. No adulto, os desafios multiplicam-se: o desempenho académico, a vida profissional, a gestão das finanças, a condução, o casamento, a parentalidade e, especialmente caro ao trabalho do médico de família, a manutenção da saúde. Os adultos com PHDA não tratada têm maior probabilidade de desenvolver doenças crónicas devido à sua dificuldade acrescida em aderir a hábitos de vida saudáveis, à sua tendência aumentada para as adições e ao maior risco de acidentes de viação. Adicionalmente, o não tratamento da PHDA dificulta a adesão ao tratamento e follow-up de outras patologias, por esquecimento e dificuldades de gestão. De facto, depois dos 18 anos, a taxa de mortalidade das pessoas com PHDA sem tratamento encontra-se 4 a 5 vezes aumentada!

– A PHDA tem uma componente genética muito forte, sendo expectável encontrar uma grande agregação familiar deste quadro. A referenciação de uma suspeita de PHDA no adulto acontece frequentemente na sequência do diagnóstico de um filho. Após identificação do pai ou da mãe com as dificuldades do filho, esta suspeita pode ser verbalizada ao médico de família pelo agregado familiar. Efetivamente, os estudos mostram que em 40 a 50% das famílias em que pelo menos um filho tem PHDA, um dos pais também tem PHDA. Mais uma vez, pela proximidade ao agregado familiar como um todo, o médico de família poderá ter um importantíssimo papel nestes casos.

– Apesar de durante muito tempo a PHDA ter sido pensada como um problema exclusivamente ligado à criança, existe hoje evidência muito sólida da sua persistência e do seu enorme impacto na vida adulta. O médico de família ocupa um lugar privilegiado para fazer a ponte entre a Psiquiatria da Infância e Adolescência e a Psiquiatria (de adultos) – caso um jovem já diagnosticado mantenha sintomas na maioridade – bem como para suspeitar de uma PHDA não-diagnosticada num adulto, em ambos os casos enviando o doente para orientação por Psiquiatria.

 

SM

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“A elevada procura pelas Jornadas é fruto de um trabalho contínuo, crescente e de qualidade”

O conteúdo Perturbação de hiperatividade no adulto: desconstrução de estigmas e mitos aparece primeiro em Saúde Online.

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Depressão. “Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário” https://saudeonline.pt/depressao-ha-sempre-esperanca-mesmo-que-a-doenca-o-convenca-do-contrario-2/ https://saudeonline.pt/depressao-ha-sempre-esperanca-mesmo-que-a-doenca-o-convenca-do-contrario-2/#respond Wed, 04 Oct 2023 08:29:13 +0000 https://saudeonline.pt/?p=149182 ‘Viva! Para lá da depressão’ é o nome e o mote de um projeto que tem como objetivo aumentar a literacia em saúde mental. No âmbito desta iniciativa, a psiquiatra Inês Homem de Melo fala sobre a esperança que existe sempre na depressão e como é importante procurar ajuda o quanto antes.

O conteúdo Depressão. “Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário” aparece primeiro em Saúde Online.

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depressão

Qual a prevalência da depressão em Portugal?

Segundo o maior estudo epidemiológico de saúde mental em Portugal – o Estudo Nacional de Saúde Mental (Caldas de Almeida e Miguel Xavier) -, cerca de 8% dos portugueses adultos terão um quadro depressivo em cada ano. Esta prevalência corresponde a uma das mais altas da Europa.

 

Fala-se muito em jovens e adultos, mas também há situação das crianças e dos idosos com depressão…

A depressão pode afetar qualquer pessoa, seja qual for a sua idade, estatuto socioeconómico, etnia ou profissão. A sua prevalência é maior entre os 18 e os 44 anos e nas mulheres, embora possa afetar também crianças e idosos.

“Os primeiros socorros psicológicos que devemos prestar enquanto familiares e amigos são a escuta empática, sem julgamento e o encaminhamento para ajuda especializada”

Como se pode distinguir as normais mudanças de humor de um episódio depressivo?

A tristeza faz parte da vivência humana, surgindo como reação normativa (e até útil) face a acontecimentos do quotidiano e às perdas inevitáveis ao longo do ciclo de vida. Tristeza não é sinónimo de depressão! Na depressão, a tristeza assume um carácter persistente, invasivo, dominando toda a experiência interna e afetando o nível de funcionalidade do doente. Além disso, na depressão a tristeza surge acompanhada de um conjunto de outras manifestações clínicas: perda do interesse em atividades outrora prazerosas, diminuição da energia, sentimentos de culpa, dificuldades de concentração e sintomas do próprio corpo: alterações do apetite, do sono, do desejo sexual, do trânsito intestinal e até dores.

 

Que mecanismos existem para contrariar esta perturbação e como podemos ajudar alguém que está a viver uma depressão?

Os primeiros socorros psicológicos que devemos prestar enquanto familiares e amigos são a escuta empática, sem julgamento e o encaminhamento para ajuda especializada. A campanha ‘Viva! Para lá da depressão’ é particularmente poderosa por ter o foco na recuperação! É luminosa, solar e transmite esperança. Dá voz a profissionais de saúde de múltiplas disciplinas – Psicologia, Nutrição, Desporto, Medicina Geral e Familiar e Psiquiatria – promovendo um olhar completo sobre a doença em toda a sua complexidade. O tratamento da depressão quer-se multidisciplinar, numa intervenção concertada entre a medicação, a psicoterapia e alterações do estilo de vida e esta campanha não deixou nenhuma ferramenta terapêutica de fora! Por fim, é uma campanha onde podemos ouvir falar algumas figuras públicas acerca da sua experiência com a depressão, algo que ajuda muito a diminuir o estigma.

 

A dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental pode ser uma das razões para que esteja a aumentar o consumo de antidepressivos e benzodiazepinas, ou seja, poderia haver situações que, tratadas atempadamente, não iriam exigir o uso destes medicamentos durante tanto tempo?

Sem dúvida! Para explicar o aumento da prescrição de antidepressivos e benzodiazepinas é importante referir as dificuldades no acesso aos cuidados de saúde, bem como a gritante falta de profissionais de saúde mental não-médicos no SNS, sobretudo de psicólogos. Numa fase inicial da depressão, a doença pode ainda ser tratada sem recurso a medicação, investindo-se na psicoterapia (habitualmente feita por psicólogos). Numa fase mais avançada, de maior gravidade, já será necessário medicar com antidepressivo. Se, por um lado, o atraso na chegada aos cuidados de saúde mental pode explicar que tenhamos de medicar pessoas que, tratadas precocemente, não teriam tido essa necessidade, por outro lado, a falta de psicólogos deixa-nos sem respostas não-farmacológicas para quem efetivamente acede aos cuidados atempadamente.

“Por saberem pouco sobre saúde e doença mental (e por terem tantos mitos e preconceitos), os portugueses atrasam muito a procura de ajuda”

O estigma associado tem diminuído ou ainda há muito trabalho a fazer?

O estigma tem diminuído, sobretudo graças a uma nova geração de jovens informados e investidos na sua saúde mental. A pandemia também ajudou muito a trazer este tema para a arena pública. No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer no que toca à literacia em saúde mental dos portugueses. Por saberem pouco sobre saúde e doença mental (e por terem tantos mitos e preconceitos), os portugueses atrasam muito a procura de ajuda. Tempo é saúde: quanto maior o período sem tratamento, pior o prognóstico. Quanto menos literacia, mais estigma. Foi assim que resolvi começar a promover a literacia com a minha própria voz.

 

Ainda existem muitos mitos?

Mitos acerca da doença mental, mitos acerca do tratamento (tanto acerca da medicação como da própria psicoterapia) e mitos acerca de nós, os psiquiatras. É um tema que me apaixona: analisar as razões históricas para a existência desses mitos e procurar descontruí-los!

 

Que mensagem gostaria de deixar a quem sofre de depressão?

Consulte um profissional em quem confie. A depressão tem tratamento e quanto mais cedo, melhor! Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário.

MJG

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Número de adolescentes em Portugal com sintomas depressivos aumentou em 2022-2023

O conteúdo Depressão. “Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário” aparece primeiro em Saúde Online.

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Depressão. “Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário” https://saudeonline.pt/depressao-ha-sempre-esperanca-mesmo-que-a-doenca-o-convenca-do-contrario/ https://saudeonline.pt/depressao-ha-sempre-esperanca-mesmo-que-a-doenca-o-convenca-do-contrario/#respond Tue, 03 Oct 2023 08:04:23 +0000 https://saudeonline.pt/?p=149135 ‘Viva! Para lá da depressão’ é o nome e o mote de um projeto que tem como objetivo aumentar a literacia em saúde mental. No âmbito desta iniciativa, a psiquiatra Inês Homem de Melo fala sobre a esperança que existe sempre na depressão e como é importante procurar ajuda o quanto antes.

O conteúdo Depressão. “Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário” aparece primeiro em Saúde Online.

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depressão

Qual a prevalência da depressão em Portugal?

Segundo o maior estudo epidemiológico de saúde mental em Portugal – o Estudo Nacional de Saúde Mental (Caldas de Almeida e Miguel Xavier) -, cerca de 8% dos portugueses adultos terão um quadro depressivo em cada ano. Esta prevalência corresponde a uma das mais altas da Europa.

 

Fala-se muito em jovens e adultos, mas também há situação das crianças e dos idosos com depressão…

A depressão pode afetar qualquer pessoa, seja qual for a sua idade, estatuto socioeconómico, etnia ou profissão. A sua prevalência é maior entre os 18 e os 44 anos e nas mulheres, embora possa afetar também crianças e idosos.

“Os primeiros socorros psicológicos que devemos prestar enquanto familiares e amigos são a escuta empática, sem julgamento e o encaminhamento para ajuda especializada”

Como se pode distinguir as normais mudanças de humor de um episódio depressivo?

A tristeza faz parte da vivência humana, surgindo como reação normativa (e até útil) face a acontecimentos do quotidiano e às perdas inevitáveis ao longo do ciclo de vida. Tristeza não é sinónimo de depressão! Na depressão, a tristeza assume um carácter persistente, invasivo, dominando toda a experiência interna e afetando o nível de funcionalidade do doente. Além disso, na depressão a tristeza surge acompanhada de um conjunto de outras manifestações clínicas: perda do interesse em atividades outrora prazerosas, diminuição da energia, sentimentos de culpa, dificuldades de concentração e sintomas do próprio corpo: alterações do apetite, do sono, do desejo sexual, do trânsito intestinal e até dores.

 

Que mecanismos existem para contrariar esta perturbação e como podemos ajudar alguém que está a viver uma depressão?

Os primeiros socorros psicológicos que devemos prestar enquanto familiares e amigos são a escuta empática, sem julgamento e o encaminhamento para ajuda especializada. A campanha ‘Viva! Para lá da depressão’ é particularmente poderosa por ter o foco na recuperação! É luminosa, solar e transmite esperança. Dá voz a profissionais de saúde de múltiplas disciplinas – Psicologia, Nutrição, Desporto, Medicina Geral e Familiar e Psiquiatria – promovendo um olhar completo sobre a doença em toda a sua complexidade. O tratamento da depressão quer-se multidisciplinar, numa intervenção concertada entre a medicação, a psicoterapia e alterações do estilo de vida e esta campanha não deixou nenhuma ferramenta terapêutica de fora! Por fim, é uma campanha onde podemos ouvir falar algumas figuras públicas acerca da sua experiência com a depressão, algo que ajuda muito a diminuir o estigma.

 

A dificuldade de acesso a cuidados de saúde mental pode ser uma das razões para que esteja a aumentar o consumo de antidepressivos e benzodiazepinas, ou seja, poderia haver situações que, tratadas atempadamente, não iriam exigir o uso destes medicamentos durante tanto tempo?

Sem dúvida! Para explicar o aumento da prescrição de antidepressivos e benzodiazepinas é importante referir as dificuldades no acesso aos cuidados de saúde, bem como a gritante falta de profissionais de saúde mental não-médicos no SNS, sobretudo de psicólogos. Numa fase inicial da depressão, a doença pode ainda ser tratada sem recurso a medicação, investindo-se na psicoterapia (habitualmente feita por psicólogos). Numa fase mais avançada, de maior gravidade, já será necessário medicar com antidepressivo. Se, por um lado, o atraso na chegada aos cuidados de saúde mental pode explicar que tenhamos de medicar pessoas que, tratadas precocemente, não teriam tido essa necessidade, por outro lado, a falta de psicólogos deixa-nos sem respostas não-farmacológicas para quem efetivamente acede aos cuidados atempadamente.

“Por saberem pouco sobre saúde e doença mental (e por terem tantos mitos e preconceitos), os portugueses atrasam muito a procura de ajuda”

O estigma associado tem diminuído ou ainda há muito trabalho a fazer?

O estigma tem diminuído, sobretudo graças a uma nova geração de jovens informados e investidos na sua saúde mental. A pandemia também ajudou muito a trazer este tema para a arena pública. No entanto, há ainda um longo caminho a percorrer no que toca à literacia em saúde mental dos portugueses. Por saberem pouco sobre saúde e doença mental (e por terem tantos mitos e preconceitos), os portugueses atrasam muito a procura de ajuda. Tempo é saúde: quanto maior o período sem tratamento, pior o prognóstico. Quanto menos literacia, mais estigma. Foi assim que resolvi começar a promover a literacia com a minha própria voz.

 

Ainda existem muitos mitos?

Mitos acerca da doença mental, mitos acerca do tratamento (tanto acerca da medicação como da própria psicoterapia) e mitos acerca de nós, os psiquiatras. É um tema que me apaixona: analisar as razões históricas para a existência desses mitos e procurar descontruí-los!

 

Que mensagem gostaria de deixar a quem sofre de depressão?

Consulte um profissional em quem confie. A depressão tem tratamento e quanto mais cedo, melhor! Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário.

MJG

Notícia relacionada

Número de adolescentes em Portugal com sintomas depressivos aumentou em 2022-2023

O conteúdo Depressão. “Há sempre esperança, mesmo que a doença o convença do contrário” aparece primeiro em Saúde Online.

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