mgf-entrevistas - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/mgfonline/mgf-entrevistas/ Notícias sobre saúde Mon, 08 Jun 2026 11:32:22 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png mgf-entrevistas - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/mgfonline/mgf-entrevistas/ 32 32 Infeções sexualmente transmissíveis. “Temos de aumentar a acessibilidade ao rastreio em consultas e de forma anónima e confidencial” https://saudeonline.pt/infecoes-sexualmente-transmissiveis-temos-de-aumentar-a-acessibilidade-ao-rastreio-em-consultas-e-de-forma-anonima-e-confidencial/ https://saudeonline.pt/infecoes-sexualmente-transmissiveis-temos-de-aumentar-a-acessibilidade-ao-rastreio-em-consultas-e-de-forma-anonima-e-confidencial/#respond Tue, 02 Jun 2026 08:19:09 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187467 De acordo com o estudo português “Perceção da população portuguesa sobre as infeções sexualmente transmissíveis”, apresentado no ID Symposium 2026, 45% dos portugueses não realizam exames de rastreio e 59% têm vergonha de os fazer. Para Rita Maciel Barbosa, assistente Graduada em Medicina Geral e Familiar e coordenadora do Centro Integrado de Saúde Sexual do Porto, é preciso falar mais do assunto e desmistificar ideias como sexo oral é mais seguro mesmo sem preservativo.

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Atualmente, quais são as infeções sexualmente transmissíveis (IST) mais preocupantes?

O Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) lançou recentemente um novo documento onde chama a atenção para o número crescente de casos de gonorreia e de sífilis que, neste momento, são consideradas talvez as IST mais preocupantes. Não podemos esquecer a infeção por clamídia – uma das infeções bacterianas também bastante prevalente.

Quem é mais afetado? Os mais jovens ou também existe um risco acrescido nos mais velhos?

No que diz respeito às três IST acima referidas, a população mais afetada tem sido a população jovem. Estamos a falar da população entre os 20 -24 anos nas mulheres e dos 25 aos 34 na população masculina. Por outro lado, quanto às diferenças entre géneros, no caso da gonorreia e da sífilis destaca-se o sexo masculino, e no caso da clamídia, em grande parte dos países da Europa continua a destacar-se o sexo feminino.

Mas se estivermos, por exemplo, a falar de VIH, é importante relembrar os dados do Relatório Nacional, onde se chama a atenção para o facto de que a maioria dos casos de diagnóstico de VIH, por transmissão heterossexual, ser em pessoas mais velhas, com idade igual ou superior a 50 anos.

“… ter uma IST não quer dizer nada sobre o número de parceiros sexuais ou as práticas sexuais da pessoa, muito menos sobre o tipo de pessoa que é. Basta ter uma relação sexual desprotegida para ser infetado por uma IST”

De acordo com o estudo, 45% dos portugueses não realizam exames de rastreio a IST. Porquê?

O próprio estudo dá, em si mesmo, algumas pistas sobre os motivos. Parece-me que existem vários fatores. Estamos a falar da população geral, que ainda não está muito sensibilizada para o tema, porque se falarmos de grupos de população vulnerável, provavelmente teremos taxas de rastreio muito superiores, uma vez que estas pessoas estão mais sensibilizadas para esta questão.

Cada vez se fala mais sobre o tema na comunicação social; têm saído mais notícias, nomeadamente durante os últimos dois anos, mas continua a não ser um tema sobre o qual se fala com profundidade entre as pessoas, nem com os profissionais de saúde. E os estudos demonstram isso.

Existe talvez uma desvalorização do assunto, sob ideias como aquela “só acontece aos outros e a pessoas com determinados comportamentos sexuais, mais promíscuos”. Ou seja, existem, ainda, preconceitos e mitos – as IST só atingem determinado tipo de população – o que não é verdade. Em boa verdade, ter uma IST não quer dizer nada sobre o número de parceiros sexuais ou as práticas sexuais da pessoa, muito menos sobre o tipo de pessoa que é. Basta ter uma relação sexual desprotegida para ser infetado por uma IST.

De acordo com o estudo, poderia indicar-me exemplos de desinformação/desconhecimento sobre diferentes IST?

Percebemos que existe desconhecimento sobre as diferentes IST. As pessoas ainda associam muito a palavra IST à infeção por VIH e desconhecem a epidemiologia atual, nomeadamente quanto às infeções por gonorreia, sífilis ou clamídia. Por outro lado, as IST são associadas a práticas sexuais penetrativas e a prática de sexo oral continua a ser muito desvalorizada, como sendo igualmente de risco, em caso de não ser protegida. Claro que os mitos e preconceitos, ou as barreiras identificadas no acesso a cuidados de saúde sexual por parte da população, também vão contribuir para essa desinformação. Os próprios profissionais de saúde descrevem sentir dificuldades nesta área, quer na abordagem comunicacional, quer no conhecimento técnico.

“E é urgente recuperarmos uma campanha preventiva, nomeadamente sobre o uso do preservativo, associado ao prazer sexual, tal como se trabalhou tão bem nos anos 90. Observa-se um abandono deste comportamento seguro, nomeadamente entre a população jovem”

O que mais contribui para estes resultados?

São estes vários fatores, é o desconhecimento, os mitos, as barreiras comunicacionais, e também temos aqui outra barreira, que é o facto de, por vezes, o acesso aos rastreios ainda não estar facilitado. Temos de trabalhar mais para aumentar a acessibilidade ao rastreio, quer em consultas, mas também de forma anónima e confidencial, para ultrapassar algumas barreiras.

O estudo deixa algumas recomendações, nomeadamente para os profissionais de saúde?

Acima de tudo, o estudo levanta aqui uma questão: existem necessidades identificadas, estudadas, é preciso priorizar este assunto, normalizar a sua abordagem numa consulta médica. É preciso falar-se por rotina sobre sexualidade, respeitando, naturalmente, os princípios do respeito e ausência de juízo de valor. É preciso normalizar a questão das IST e o acesso aos rastreios. Se eu tenho atividade sexual (desprotegida), é importante fazer rastreios, ponto final.

E é urgente recuperarmos uma campanha preventiva, nomeadamente sobre o uso do preservativo, associado ao prazer sexual, tal como se trabalhou tão bem nos anos 90. Observa-se um abandono deste comportamento seguro, nomeadamente entre a população jovem.

Maria João Garcia

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Infeções sexualmente transmissíveis atingem níveis recorde na Europa e ECDC alerta para falhas na prevenção

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“A diminuição da obesidade só será possível com três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes” https://saudeonline.pt/a-diminuicao-da-obesidade-so-sera-possivel-com-tres-forcas-prevencao-seria-tratamento-precoce-e-acesso-real-a-terapeuticas-eficazes/ https://saudeonline.pt/a-diminuicao-da-obesidade-so-sera-possivel-com-tres-forcas-prevencao-seria-tratamento-precoce-e-acesso-real-a-terapeuticas-eficazes/#respond Tue, 26 May 2026 11:09:17 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187316 Um estudo britânico indica que as taxas de obesidade estão a estabilizar, inclusive em Portugal. Mas para Gil Faria, médico, investigador e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é preciso olhar para os resultados com alguma cautela. Em entrevista, alerta que não se pode parar de lutar contra a doença e que ainda há muito trabalho pela frente, nomeadamente a implementação do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade.

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O estudo recente, liderado pelo Imperial College de Londres, e publicado na revista “Nature”, refere que as taxas de obesidade estabilizaram e até diminuíram em vários países, incluindo Portugal. O que contribuiu para esta diminuição?

Esta é uma boa notícia, mas deve ser lida com prudência. O estudo mostra que, em alguns países de elevado rendimento, incluindo Portugal, o crescimento da obesidade abrandou, estabilizou ou poderá até ter começado a inverter-se ligeiramente, sobretudo em crianças e adolescentes. Mas não significa que o problema esteja resolvido. Significa apenas que talvez algumas medidas implementadas estejam a começar a produzir efeito.

Provavelmente, contribuiu uma combinação de fatores: maior consciência pública, políticas de alimentação escolar, taxação de bebidas açucaradas, melhor literacia alimentar, maior pressão social para ambientes mais saudáveis e alguma mudança nos padrões de consumo. Portugal tem tido programas na área da alimentação saudável e prevenção da obesidade infantil e isso pode estar a ter impacto.  Mas há um ponto essencial: não podemos confundir estabilização com vitória. Se um incêndio deixa de alastrar, continua a haver fogo.

Apesar destes resultados, a obesidade continua a ser uma preocupação?

Sem dúvida. Continua a ser uma das maiores ameaças à saúde pública em Portugal. Segundo o INE, mais de metade dos adultos portugueses tem excesso de peso ou obesidade: 37,3% com excesso de peso e 15,9% com obesidade. Nas crianças, o estudo COSI Portugal 2022 mostrou 31,9% com excesso de peso e 13,5% com obesidade. Estes números não são marginais, são estruturais. E existem outros estudos que demonstram prevalências superiores.

Mesmo que a curva esteja a estabilizar, estamos ainda num patamar demasiado alto. Milhões de pessoas continuam expostas a maior risco de diabetes, hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, doença hepática metabólica, infertilidade e vários tipos de cancro. A obesidade não deixou de ser preocupante, porque cresceu menos. Continua a ser preocupante porque já cresceu demasiado.

“Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas”

Esta é uma doença associada a muitas outras comorbilidades. Como vê, atualmente, a abordagem clínica da obesidade? Já existe maior apoio multidisciplinar?

A abordagem está a mudar, mas ainda não mudou o suficiente. Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como uma falha individual. Hoje sabemos que é uma doença crónica, complexa, biológica, social e ambiental. Por isso, não pode ser tratada apenas com uma folha de dieta ou com a frase “tem de fazer exercício”.

A boa notícia é que Portugal publicou o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, que prevê uma resposta mais estruturada, com equipas multidisciplinares, articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares, acompanhamento nutricional, psicológico, médico, farmacológico e cirúrgico, quando indicado.

Mas a implementação ainda é difícil. Uma coisa é produzir regulamentos. Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas. E, no global, o número de profissionais disponíveis e treinados para tratar a obesidade ainda não é suficiente para as necessidades.

“O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica”

Em termos de acesso ao tratamento, seja farmacológico ou cirúrgico, é o mais adequado ou ainda há muito trabalho a fazer?

Ainda há muito trabalho a fazer. Muito mesmo. Temos hoje tratamentos eficazes: fármacos antiobesidade, cirurgia metabólica, intervenção nutricional, apoio psicológico e programas estruturados, mas a existência de tratamentos não é o mesmo que garantir acesso.

No caso dos fármacos, o acesso continua limitado pelo custo, pela ausência de comparticipação e pela escassez. No caso da cirurgia metabólica, o problema é igualmente grave: muitos doentes com indicação cirúrgica continuam sem acesso em tempo útil, apesar da cirurgia ser a intervenção mais eficaz e custo-efetiva para a obesidade moderada a grave. Continuamos a estimar que apenas 1% dos doentes com indicação para cirurgia consegue atingir esse tratamento.

E aqui temos de ser claros: o doente com obesidade não é menos doente. Não pode ser tratado como alguém que “pode esperar” indefinidamente ou que não “merece” o tratamento. Negar acesso ao tratamento não poupa dinheiro ao SNS.

 

De futuro, pode-se esperar uma diminuição da obesidade?

Pode, mas não acontecerá por acaso. A diminuição da obesidade só será possível se combinarmos três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes. Precisamos de melhores políticas públicas, alimentação escolar saudável, cidades que promovam movimento, combate aos alimentos ultraprocessados, diagnóstico mais cedo e equipas preparadas para acompanhar a pessoa ao longo da vida.

Os novos fármacos podem ajudar. A cirurgia continuará a ser fundamental nos casos mais graves, mas nenhuma solução isolada resolverá uma doença tão complexa. Tal como este estudo da Nature comprova, a melhor forma de travar a obesidade é o elevador social: sociedades com maior desenvolvimento económico estão mais capacitadas para combater a obesidade.

O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica, séria, tratável e profundamente influenciada pela sociedade em que vivemos.

Maria João Garcia

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Obesidade abranda em Portugal e na Europa Ocidental mas continua a crescer em países pobres

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“As doenças da tiroide tendem a ser desvalorizadas e, por isso, subdiagnosticadas e subtratadas” https://saudeonline.pt/as-doencas-da-tiroide-tendem-a-ser-desvalorizadas-e-por-isso-subdiagnosticadas-e-subtratadas/ Mon, 25 May 2026 09:10:48 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187290 O conteúdo <i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> “As doenças da tiroide tendem a ser desvalorizadas e, por isso, subdiagnosticadas e subtratadas” aparece primeiro em Saúde Online.

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“Um dos maiores problemas ‘silenciosos’ dos resultados em Saúde é a falta de adesão ao tratamento” https://saudeonline.pt/um-dos-maiores-problemas-silenciosos-dos-resultados-em-saude-e-a-falta-de-adesao-ao-tratamento/ https://saudeonline.pt/um-dos-maiores-problemas-silenciosos-dos-resultados-em-saude-e-a-falta-de-adesao-ao-tratamento/#respond Wed, 25 Mar 2026 10:21:46 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185067 Hoje assinala-se o Dia Mundial da Adesão. João Ramos, médico de Medicina Geral e Familiar e coordenador da USF Carnide Quer - ULS Santa Maria, alerta para o problema ‘silencioso’ da não adesão à medicação que acontece, sobretudo, em doenças crónicas assintomáticas.

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Qual é a importância do Dia Mundial da Adesão?

A importância é muita, direi mesmo decisiva, porque esta efeméride assinala e sensibiliza para um dos maiores problemas “silenciosos” dos resultados em Saúde, e que é o da falta de adesão ao tratamento. A adesão ao plano assistencial, e não apenas à terapêutica no sentido estrito da toma da medicação, é crucial para tornar eficaz e eficiente o processo de gestão da doença e de acompanhamento do doente.

 

De acordo com o estudo, 40% dos doentes em Portugal não cumprem a medicação de forma consistente. O que contribui para esta percentagem tão elevada?

Esta resposta não é linear, porque todos nós, mais ou menos envolvidos no processo, percebemos, e temos a sensibilidade de reconhecer, que este é um desafio de causa multifatorial. Acredito que há causas estruturais como a falta de literacia em Saúde – que não é exclusiva de classes socioeconomicamente desfavorecidas – ou a falta de acesso, dos doentes e cuidadores, a recursos de acompanhamento adequado por profissionais de saúde. Do ponto de vista sociolaboral, também me parece que podemos fazer muito mais para proteger os cuidados de que um doente crónico necessita, nomeadamente o tempo para consultas médicas e de enfermagem, o acesso a canais de esclarecimento, o investimento em equipas de acompanhamento domiciliário, ou a articulação entre os diferentes profissionais de saúde, não apenas médicos ou enfermeiros, mas psicólogos, nutricionistas, fisioterapeutas, higienistas orais, terapeutas ocupacionais, para citar alguns.

Por outro lado, acredito que a solução também passa pela responsabilização do doente e/ou dos seus cuidadores, no sentido em que, em muitas situações, a não adesão adequada ao plano de tratamento é deliberada e consciente, e é importante que o doente que não cumpre um plano recomendado por um profissional de saúde altamente diferenciado para o efeito, perceba que está a desperdiçar recursos (seja no sistema público ou privado), está a aumentar o seu risco, e, em última análise, está a enfraquecer o sistema social em que se insere, com mais morbilidade, mais mortalidade, mais necessidade de reabilitação, mais disfuncionalidade, mais abstinência laboral e menos disponibilidade para a contribuição da vida em sociedade.

Outro aspeto que não é de somenos importância é a sensibilidade que todos nós, profissionais de saúde, devemos ter para as dificuldades, anseios e barreiras que o doente identifica no processo. É fácil esquecermo-nos que estamos a comunicar com alguém que não está à vontade no tema como nós, o que leva a que se criem desafios que resultam desta inconsciente falta de empatia, pela incapacidade de nos pormos “na pele” do doente. Outra causa, sinal dos tempos, é a desinformação e a facilidade de propagação dessa desinformação, por vezes até por pessoas ou entidades com responsabilidades sociais, éticas e deontológicas.

Finalmente, e apesar de haver inúmeros fatores que ficam por elencar, não posso deixar de mencionar algo que me parece decisivo para a mudança, e que consiste em identificar verdadeiramente, e com “trabalhos de fundo”, a dimensão deste problema. Isto passa por trabalhos epidemiológicos de larga escala nas várias doenças crónicas, nos doentes polimedicados, nos doentes dependentes de cuidadores não coabitantes, nos doentes com dificuldade de acesso a cuidados, e outros cenários onde o risco de falta de adesão é naturalmente maior. Mas passa igualmente pelo gabinete de cada um de nós, com uma maior sensibilização e reconhecimento do médico, na codificação deste problema nas suas consultas, para que possamos quantificá-lo e atuar.

Ainda assim, gostaria de finalizar a resposta a esta pergunta, enfatizando o muito que já foi feito para mitigar este problema, pela Tutela, por inúmeras entidades públicas e privadas, ou até por “start-ups” vocacionadas para a Saúde e prestação de cuidados, desde as várias formas de comunicação entre o doente e os profissionais de saúde, passando por aplicações para dispositivos móveis, novas moléculas farmacológicas com posologias mais favoráveis, projetos de integração e articulação virados para os cuidados de proximidade, formação dos profissionais de saúde em comunicação e em técnicas de entrevista clínica, e muito mais. Há muito para percorrer, mas segura e indubitavelmente que já muito se percorreu.

“… o bom médico de Medicina Geral e Familiar é aquele que olha para o doente e o projeta com mais 3, 5, 10, ou 20 anos, antevendo o que poderá acontecer se não fizermos aquilo que é reconhecidamente a melhor prática clínica”

Quais as doenças em que se tende a não aderir tanto à terapêutica?

Esta é talvez a pergunta mais fácil de responder. As doenças crónicas, por norma assintomáticas, com períodos longos de evolução, e geralmente indolentes e subtis nessa evolução, são as que mais se oferecem ao incumprimento. Estamos a falar essencialmente de patologia do foro cardiometabólico e respiratório: hipertensão, diabetes, dislipidemia, insuficiência cardíaca, asma, doença pulmonar obstrutiva crónica, doença venosa crónica, entre outras. E apesar de haver inúmeras explicações e contextos para isso, acredito que, em última análise, podemos resumir a justificação, neste cenário, a uma ideia simples, mas tremendamente complexa de desconstruir: estamos a pedir a um adulto consciente, com direito ao livre arbítrio e à sua autonomia, que cumpra, sem falhas e com a frequência que cada plano impõe, um conjunto de recomendações para melhorar algo que ele não sente, nem percepciona, e/ou para evitar algo que nunca sabemos se vai acontecer, ou não. Em muitos casos, emanando de alguém com quem não estabeleceu uma relação de confiança. A “cereja no topo do bolo” é que, por vezes, ao cumprir, vai sentir-se pior do que se não cumprisse…

 

Os doentes (57,5%) tendem a omitir essa informação ao médico por acharem que não é relevante. Como é que se pode mudar esta realidade, sobretudo quando se trata de doenças silenciosas? 

Penso que aqui é particularmente importante relembrar que uma relação médico-doente é, antes de mais, uma relação, e, por isso, só tem possibilidade de sucesso se assentar na confiança mútua, o que implica uma responsabilização bidirecional. O médico tem de garantir que cria as condições para essa confiança, e para a honestidade do doente, não fazendo juízos de valor, mas antes demonstrando as potenciais consequências do incumprimento, e partilhando os sucessos do cumprimento, sempre com a capacidade para se colocar do outro lado.

No caso concreto da Medicina Geral e Familiar, que é a especialidade da multipatologia crónica, da polimedicação e do seguimento longitudinal, digo frequentemente aos colegas mais novos que o bom médico de Medicina Geral e Familiar é aquele que olha para o doente e o projeta com mais 3, 5, 10, ou 20 anos, antevendo o que poderá acontecer se não fizermos aquilo que é reconhecidamente a melhor prática clínica. Essa imagem também tem de ser passada e “comprada” pelo doente, fazendo-o sentir que é protagonista neste filme, e, igualmente importante, temos de lhe dar tempo e espaço para partilhar dúvidas, receios, ou preocupações, discutindo e democratizando o plano, e adaptando-o à realidade que temos.

Os doentes têm de perceber a natureza de uma doença crónica, têm de aceitar o fenómeno de evolução de um problema e o conceito de história natural da(s) sua(s) doença(s), e perceber a diferença entre uma intervenção eficaz e o incumprimento do plano.

“O problema da falta de tempo na consulta é real, e é talvez o maior contaminador na dinâmica médico-doente, mas esta comunicação, em toda a sua potencialidade, não tem de ser exclusivamente feita com o médico, nem no espaço da consulta”

Deverá existir uma maior aposta na comunicação em saúde, sobretudo quando a relação médico-doente é condicionada pela falta de tempo na consulta?

Penso que a comunicação em Saúde nunca é demais, mas deve ser uma comunicação pedagógica, responsável e responsabilizadora, e não uma comunicação paternalista e condescendente, no sentido em que o doente deve sentir que é um elemento ativo, decisivo mesmo, no sucesso do processo. Nas doenças crónicas, dependemos do doente para ter sucesso na intervenção, e isso deve ser enfatizado nas estratégias de comunicação.

O problema da falta de tempo na consulta é real, e é talvez o maior contaminador na dinâmica médico-doente, mas esta comunicação, em toda a sua potencialidade, não tem de ser exclusivamente feita com o médico, nem no espaço da consulta. Pode ser com o enfermeiro, que é indispensável e altamente qualificado, e tem por vezes uma sensibilidade e um conhecimento da realidade daquele doente que o médico não tem. Igualmente, pode decorrer de ações de parceria com outros intervenientes sociais como os Órgãos de Poder central e local, as forças de segurança, instituições de carácter social ou organizações de voluntariado.

Naturalmente, e até pelo enquadramento desta entrevista, não posso diminuir a importância dos órgãos de Comunicação Social, pela sua expressão e alcance, e pela capacidade de dar voz e ouvidos a realidades tão heterogéneas, nem tão pouco a importância dos laboratórios farmacêuticos no apoio a ações de sensibilização e dinamização, e projetos de investigação ou intervenção.

 

Existe mais algum dado/resultado do estudo que gostasse de destacar?

O dado que mais me impressionou foi o da justificação para o incumprimento terapêutico, em que um terço dos doentes referiu que “se sente bem e não considera a medicação necessária”, destacando-se que, no universo desta resposta, mais de 35% têm ensino superior. É um dado inquietante que revela falta de confiança no processo e condiciona fortemente o desfecho possível do acompanhamento.

 

Maria João Garcia

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Um em cada três doentes omite falhas na medicação ao médico, alertam especialistas

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“É importante deixar de encarar a doença alérgica como algo passageiro” https://saudeonline.pt/e-importante-deixar-de-encarar-a-doenca-alergica-como-algo-passageiro/ https://saudeonline.pt/e-importante-deixar-de-encarar-a-doenca-alergica-como-algo-passageiro/#respond Wed, 04 Feb 2026 10:15:55 +0000 https://saudeonline.pt/?p=182692 “As doenças alérgicas e respiratórias continuam subvalorizadas na prática clínica em Portugal, muitas vezes com diagnósticos tardios e tratamentos inadequados”, alerta Mário Morais de Almeida, cocoordenador do Allergy & Respiratory Summit. Em entrevista, a propósito da próxima edição do encontro, que se realiza de 5 a 7 de fevereiro, no Porto, o imunoalergologista reforça que a articulação entre os vários níveis de cuidados médicos, primários e hospitalares, é crucial para melhorar a qualidade de vida das pessoas com condições alérgicas, otimizando assim os recursos clínicos e aumentando a qualidade dos atos.

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As doenças alérgicas e respiratórias continuam entre as patologias crónicas mais prevalentes em Portugal. Do ponto de vista da Imunoalergologia, que problemas continuam a ser mais subvalorizados na prática clínica?
As doenças alérgicas e respiratórias são, como disse, doenças crónicas. Têm uma característica algo única quando comparadas com outras patologias crónicas: afetam desde crianças em idade pré-escolar até adultos muito idosos, ou seja, são transversais a todas as idades e com uma elevada prevalência.

Estamos a falar de asma, rinite, dermatite atópica, urticária, alergias alimentares e alergias a medicamentos, entre outras. O grande desafio continua a ser o diagnóstico. Apesar de termos uma especialidade bem implementada em Portugal, com um rácio razoável de distribuição de especialistas pela população, muitas pessoas continuam a sofrer bastante porque são tardiamente identificadas e, muitas vezes, também tardiamente referenciadas para a especialidade quando indicado.

A isto acresce o facto de os doentes raramente terem apenas uma doença. As patologias associam-se: a pessoa tem asma e rinite, rinite e alergia alimentar, dermatite atópica e asma. Essa complexidade pode levar à dispersão de recursos quando, na verdade, um bom diagnóstico e um acompanhamento adequado permitem melhorar muito a qualidade de vida e reduzir significativamente os custos associados ao controlo da doença.

 

Onde é que hoje estão as maiores falhas: no acesso, na decisão clínica ou na articulação entre cuidados?
Penso que é fundamental a interação entre todos os intervenientes, nomeadamente entre os cuidados de saúde primários e os cuidados mais diferenciados. Esse diálogo tem vindo a melhorar e isso é claramente positivo.

Ainda assim, continuamos a sentir que muitas pessoas demoram demasiado tempo a chegar ao diagnóstico correto e, depois, aos tratamentos adequados. Recentemente, por exemplo, realizámos um webinar onde se discutiu bastante a rinite alérgica. Sendo esta a doença crónica mais frequente na população — afetando pelo menos 25 a 30% das pessoas —, é impressionante que continuemos a observar, em consulta, doentes que já passaram por vários serviços, incluindo urgências, e que continuam a ser tratados com medicamentos que já não têm qualquer justificação.

Estamos a falar da utilização de anti-histamínicos de primeira geração ou do uso excessivo de antibióticos para tratar situações que são claramente alérgicas. Isto mostra que ainda há muito a corrigir e reforça a importância de fortalecer o diálogo entre a Medicina Geral e Familiar, a Imunoalergologia e outras especialidades, para melhorar a prática clínica e os resultados para os doentes.

É por esta razão que se justificam este tipo de reuniões, para discutir as melhores práticas com os melhores resultados possíveis.

 

A maioria destes doentes é seguida inicialmente em Medicina Geral e Familiar. Que aspetos da abordagem das doenças alérgicas gostaria que estivessem mais consolidados nos cuidados de saúde primários?
Estes doentes são, e devem continuar a ser, acompanhados maioritariamente nos cuidados de saúde primários, porque aí existe uma abordagem holística da pessoa. Os doentes não têm apenas doença alérgica; têm outras patologias e necessidades de promoção da saúde que vão muito além da alergia.

No entanto, é essencial compreender que existe uma inflamação crónica, maioritariamente alérgica, que tem de ser controlada e que devemos apostar na promoção da saúde através da prevenção. Sendo doenças crónicas, o diagnóstico deve ser corretamente estabelecido e os exames adequados devem ser realizados viabilizando uma abordagem correta.

Neste evento também será muito debatido, por exemplo, o tema das doenças respiratórias obstrutivas, como a asma ou a DPOC. Sabemos que ainda hoje muitas pessoas nunca realizaram uma prova de função respiratória, como a espirometria com prova de broncodilatação. Porém, sem quantificar e avaliar o dano funcional, não conseguimos diagnosticar e adequar um bom programa terapêutico.

É importante deixar de encarar a doença alérgica e respiratória como algo passageiro — “é só uma alergia e passa” — porque não passa. É uma condição que acompanha muitas pessoas ao longo do seu ciclo de vida.

Diria que as questões principais são: o reconhecimento efetivo da doença alérgica como uma patologia presente ao longo de toda a vida, e a necessidade de um uso mais racional dos exames complementares. Por vezes, recorre-se excessivamente a exames de imagiologia ou laboratoriais, enquanto os estudos funcionais, que são de baixo custo e de grande utilidade clínica, continuam pouco acessíveis ou subutilizados. O sistema de saúde tem de garantir o acesso a estes exames, porque isso traduz-se em melhor qualidade de vida e melhores resultados clínicos.

 

Foi precisamente para colmatar essas falhas que surgiu este evento?
Exatamente e acreditamos que as pessoas continuam entusiasmadas. Por exemplo, associado ao Summit, realizámos recentemente vários webinares, com uma adesão que tem sido crescente, e o feedback foi muito positivo: prático, pragmático e com ferramentas úteis para a prática clínica.

O objetivo é capacitar os profissionais para lidarem com estas doenças ao longo de todo o ciclo de vida, desde a criança em idade pré-escolar até ao adulto idoso. É também importante perceber que, além da asma e da rinite, existem outras patologias associadas, como a rinosinusite ou a patologia do sono. Muitas destas pessoas fumam e desenvolvem DPOC, e há ainda o impacto das alergias alimentares e medicamentosas.

Tudo isto é discutido no evento, incluindo através de iniciativas mais interativas, como a “Allergy and Respiratoty League – 2026 Edition”, que no final do primeiro dia do evento permite testar conhecimentos e, ao mesmo tempo, reforçar informação relevante para melhorar a prática clínica. E os vencedores são premiados!

 

Mas produzem também conteúdos dirigidos ao público em geral?
Sim, produzimos. Estamos a iniciar a distribuição de uma coleção de pequenos livros intitulada “O Essencial de…”, como O Essencial da Asma, O Essencial da Rinite, O Essencial da Dermatite Atópica ou O Essencial da Anafilaxia, entre outros. São materiais de leitura simples, bem ilustrados, dirigidos tanto a profissionais de saúde como à população em geral.

O objetivo não é substituir decisões clínicas, mas facilitar o acesso à informação e aumentar o conhecimento. No site do Allergy and Respiratory Education também disponibilizamos materiais educativos, artigos relevantes e conteúdos dirigidos a médicos, farmacêuticos, enfermeiros e outros profissionais interessados nesta área.

Além disso, os webinars e as sessões do Summit ficam disponíveis após o evento. Nesta reunião, cerca de um terço dos participantes estará presencialmente, mas dois terços — num total de mais de mil colegas — participarão à distância, com possibilidade de rever as sessões posteriormente.

 

Contam com quantos participantes este ano?
No ano passado atingimos cerca de 1 100 participantes e, este ano, esperamos ultrapassar esse número, sendo esta uma atividade com acreditação europeia (UEMS) e também nacional, nomeadamente pelas Ordem dos Médicos e pela Ordem dos Farmacêuticos, o que muito nos honra.

 

Quer deixar uma mensagem aos participantes?
É um prazer acolher todos nesta troca de saberes. Nós próprios aprendemos muito com estas discussões. São sessões clínicas abertas, práticas, com espaço para perguntas e esclarecimento de dúvidas.

O convite é para que participem e que o prazer retirado desta ação seja, pelo menos, tão grande como aquele que nós, enquanto formadores, retiramos, e que nos permite também melhorar a nossa prática enquanto profissionais de saúde e enquanto facilitadores de educação e formação.

 

Sílvia Malheiro 

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Allergy and Respiratory Summit 2026: Atualização e formação contínua

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“Medicina e Literatura são áreas complementares na experiência da complexidade e do sofrimento humanos” https://saudeonline.pt/medicina-e-literatura-sao-areas-complementares-na-experiencia-da-complexidade-e-do-sofrimento-humanos/ https://saudeonline.pt/medicina-e-literatura-sao-areas-complementares-na-experiencia-da-complexidade-e-do-sofrimento-humanos/#respond Thu, 22 Jan 2026 10:33:09 +0000 https://saudeonline.pt/?p=182357 Hélder Teixeira Aguiar é médico de família e escritor. “Na Tua Mão” é o nome do livro que o levou a receber o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís. Ao Jornal Médico de Família, fala sobre a sua obra e sobre as mais-valias da interligação entre a Medicina e a Literatura, sobretudo na empatia na relação médico-doente.

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Foi distinguido com o Prémio Revelação Agustina Bessa-Luís. O que sente?

Foi uma grande surpresa! Há sempre uma esperança, como é óbvio, mas havia muitos candidatos e achei que seria muito difícil. A própria natureza narrativa da minha obra, que tem um perfil um pouco diferente do habitual, poderia não ser apelativa para o júri. Pensei mesmo que não teria qualquer hipótese e apenas me lembrei do Prémio na semana da cerimónia. Acabou por ser um momento muito feliz quando, domingo à noite, recebo um telefonema do Prof. Guilherme Oliveira Martins a transmitir-me, em primeira mão, a notícia. Não queria acreditar! A minha mulher reagiu de forma mais eufórica do que eu, naquela noite.

Qual é o enredo de “Na Tua Mão”?

Tematicamente, é uma história de migração que se desenrola na perspetiva de dois irmãos luso-venezuelanos, de 9 e 16 anos, forçados a fugir de Caracas após o desaparecimento da mãe jornalista. Tal como tem acontecido a muitos milhões de venezuelanos, eles irão acabar por se ter de embrenhar numa das rotas mais perigosas do mundo: o Estreito de Darién. São 100 km de selva muito hostil, entre a América do Sul e a Central, conhecida como “Selva da Morte”.

Trata-se de uma história contemporânea que aborda temas sensíveis e pesados. O romance não foge à realidade (a maioria dos episódios na selva basearam-se em relatos reais), mas ganha este contraste peculiar ao ser narrada pelos olhos de uma criança e um jovem adolescente. O ponto de vista juvenil acaba por impregnar elementos de humor, aventura e de uma certa inocência, que até certo ponto são mecanismos de defesa psicológica.

Foi ao investigar esta travessia, atravessada todos os anos por mais de um milhão de pessoas, um quinto dos quais menor de idade e a viajar desacompanhado, que me senti impelido a dar-lhes uma voz. Impressionou-me a profundidade dos testemunhos que li: jovens que, atirados para o “caixote do lixo” do mundo, para uma catadupa de decisões impossíveis, são forçados a um amadurecimento ultrarrápido, a uma reinvenção intrínseca para sobreviver, a um constante questionamento sobre o mundo à sua volta, a uma capacidade de nos fazer refletir. Num núcleo mais emocional, o romance explora muito esse amadurecimento pessoal, a reinvenção de papéis na relação fraternal e o impacto da interação intercultural.

“Foi esta a história que me apaixonou e que me levou a escrever e a dar voz a este sofrimento. No Estreito de Darién confluem pessoas de imensos locais”

Como surgiu a ideia desta história? Baseou-se nos tais testemunhos de que falou há pouco?

Sim. Gosto muito de estar atualizado e há uns tempos deparei-me com um artigo da jornalista Nadja Drost, vencedora do Prémio Pullitzer. Sempre gostei de ler e o “bichinho” interior para escrever qualquer coisa sempre existiu dentro de mim. Foi esta a história que me apaixonou e que me levou a escrever e a dar voz a este sofrimento. No Estreito de Darién confluem pessoas de imensos locais. É um encontro multicultural num estreito onde se tenta sobreviver, numa selva onde se tem de enfrentar várias dificuldades e também os nativos, que veem o seu ecossistema ameaçado por esta avalanche migratória.

 

Escreveu o livro em 2 anos…

A história em si foi escrita em cerca de 9 meses, mas houve todo um trabalho de investigação desde o início até ao fim. Aliás, cheguei mesmo a ter contacto, via WhatsApp, com um grupo de migrantes que faziam o percurso. Primeiramente, dediquei-me mais ao retrato psicológico dos personagens, mas faltava transformar a narrativa numa verdadeira história. A minha escrita é um pouco caótica, vou acrescentando camadas. O meu objetivo sempre foi que a história espelhasse a realidade, apesar de alguma liberdade narrativa.

 

Como conseguiu conciliar com a vida pessoal e de médico de família?

Foi complicado! Basicamente, surripiei horas ao sono, porque quando me vinha uma ideia à mente, tinha mesmo de continuar a escrever. A minha mulher encontrou-me várias vezes, à noite, no escritório. Estes dois irmãos são muito reais para mim, é como se vivessem dentro da minha cabeça. Quando acabei o livro, quase chorei na verdade, porque tive de decidir que, pronto, a história que eles tinham para contar, terminou. Tive menos tempos livres e as vezes em que saí para alguma atividade, foi com o apoio da minha esposa. Tal como a Medicina, a escrita começou a tornar-se obsessiva, no sentido de querer atingir o melhor possível.

“O médico de família é o confidente, ouve muitas histórias, capta o sofrimento dissimulado nas consultas”

O livro fala de imigrantes, uma realidade também bem conhecida Portugal – apesar, obviamente, das diferenças face ao que se passa na Venezuela e no Estreito de Darién. A literatura também acaba por ter uma ligação à Medicina, ao dar a conhecer realidades de vida muito concretas?

Sim. Sempre tive uma predisposição para me colocar no lugar do outro. Lembro-me de em criança ver reportagens sobre a guerra e a fome nos telejornais e isso incomodava-me. Fazia-me pensar como era um privilegiado, inclusive quando a minha mãe me obrigava a comer tudo e a não desperdiçar comida, porque havia muitas crianças com fome. A Medicina também aprofundou esse meu lado mais empático, sobretudo pelo contacto direto com o sofrimento humano. O médico de família é o confidente, ouve muitas histórias, capta o sofrimento dissimulado nas consultas. A Medicina permitiu-me compreender melhor a dolência. E, como escritor, talvez isso se reflita ao nível da construção dos personagens.

  

Hoje, fala-se muito da Medicina Narrativa. Quais as mais-valias?

Maior empatia, por exemplo. Na Medicina Geral e Familiar (MGF) é essencial estar atento aos sinais que podem indiciar dolência. As próprias palavras nem sempre refletem a verdade, mesmo que inconscientemente. Cabe ao médico descodificar o que é dito e, para tal, devemos estar muito atentos à narração, construindo uma história – não apenas clínica – ao longo das várias consultas. Existe uma interligação entre a Medicina, que tem uma visão mais analítica, e a Escrita, que é mais abstrata e filosófica. Medicina e Literatura são áreas complementares na experiência da complexidade e do sofrimento humanos.

Em suma, a narrativa ajuda na construção da história do doente, que permitirá, nomeadamente, entender melhor a dolência?

Sim, ao longo do tempo é muito importante ir construindo essa história. O médico de família, como presta cuidados contínuos, tem uma posição privilegiada neste ponto. Obviamente, seria importante haver tempo para o silêncio, porque é aí que surge um “Já agora, Dr.” Na Medicina atual, muito centrada nos indicadores – apesar de terem o seu lugar –, e na agenda do médico, torna-se cada vez mais difícil para parar e deixar a pessoa falar livremente. Ter tempo para escutar.

“Existem benefícios a nível do raciocínio, na concentração, na empatia e na interação com os outros, como já demonstram alguns estudos”

Esse tempo para a escuta é o que mais faz falta na Medicina?

Sim. Não é fácil, porque existe uma grande pressão por causa das longas listas de utentes, que nos sugam o tempo para a consulta. Mas há também esta outra vertente mais tecnológica da sociedade atual. Estamos muito focados nos ecrãs. Aliás, enquanto escritor, questiono-me: se escrevesse em papel, seria uma escrita diferente? A tecnologia tem o seu lado positivo, mas também nos retira momentos de união. Existem estudos que alertam para a perda das refeições em família, um hábito cultural muito português. Nesse encontro à mesa conversa-se, debate-se ideias… Hoje, os mais jovens poderão ter menos competências para o debate e partilha por crescerem com a tecnologia. Estamos cada vez mais tecnológicos e isso também nos cria desafios enquanto médicos.

A Medicina Narrativa pode ser um apoio para esta medicina cada vez mais tecnológica?

Sim, sem dúvida! O próprio processo de leitura oferece-nos ferramentas nesse sentido, porque não nos limitamos a ter mais cultura geral. Existem benefícios a nível do raciocínio, na concentração, na empatia e na interação com os outros, como já demonstram alguns estudos.

Relativamente ao utente, também se fala muito da biblioterapia. Considera que também se deve apostar nesta valência?

Sim, é uma boa ideia. Aliás, já aconselhei livros a alguns doentes.

E como foi a reação?

Ficaram surpreendidos, mas depois perceberam que pode ser uma ferramenta útil. No caso dos jovens, gosto muito de propor a leitura, sobretudo entre os 15 e os 18 anos, naquela fase em que andam desencontrados. Os anglo-saxónicos têm uma categoria muito interessante na Literatura: Young Adult. São livros “meio-termo”, nem muito densos, nem infantis, muitas vezes com protagonistas jovens com quem se identificam. Falo de obras como Os Marginais, Mataram a Cotovia, À Espera no Centeio, A Rapariga que Roubava Livros e outros mais recentes. Em Portugal não existe tanto esta cultura de adequação, e por vezes propomos obras demasiado complexas nestas idades, desencadeando um “trauma literário”. E então, afasta-se para sempre de ler seja o que for.

“Mas, na realidade, ao fim de muito tempo a lidar, regularmente, com o sofrimento e com a morte – também trabalho na equipa de Cuidados Paliativos –, acabamos por não nos conseguir abstrair assim tanto deste contexto”

A narrativa também pode ser uma ajuda para prevenir o burn-out dos médicos?

Sem dúvida! Sempre tive muita curiosidade em saber o porquê das coisas, o que me levou a interessar pela Literatura, apesar do sonho de ser médico. Às vezes, achamos que a nossa profissão não tem um impacto muito significativo nas nossas emoções. Mas, na realidade, ao fim de muito tempo a lidar, regularmente, com o sofrimento e com a morte – também trabalho na equipa de Cuidados Paliativos –, acabamos por não nos conseguir abstrair assim tanto deste contexto. O médico é treinado para ser empático, mas também para não se deixar envolver demais. Contudo, nem sempre é fácil. Recordo-me que, na pandemia, senti necessidade de me agarrar a este lado mais criativo da literatura. Foi uma forma de ganhar fôlego. Voltei a ler mais e, a partir daí, veio também a escrita.

A APMGF tem o Clube de Leitura, no qual o Dr. também participa. Que balanço faz desta iniciativa da associação?

Integro o Clube apenas há uns meses. Tem sido muito gratificante poder contar com um grupo de colegas com quem posso partilhar o gosto pela leitura. É um projeto muito bonito e que tem pernas para andar. É um excelente exemplo de como é importante acrescentar à Medicina a Literatura.

“Temos que ter disciplina para fazer aquilo de que gostamos; caso contrário, tendemos a prejudicar a nossa saúde e, inclusive, o nosso trabalho”

O que diria aos seus colegas que ainda não começaram a explorar esta interligação entre Medicina e Literatura?

Qualquer pessoa é um potencial leitor. Se ainda não teve o prazer de o descobrir é porque ainda não encontrou o livro certo. No Clube de Leitura é possível constatar como os livros nos ajudam a conhecer e discutir outras realidades, a aprofundar certos temas. O processo de leitura também é fundamental para os jovens, quer na prevenção do burn-out quer ao estimular o diálogo, a empatia e a concentração.

Quem nos está a ler poderá perguntar: mas e o tempo para ler livros, tendo em conta toda a sobrecarga do médico de família? O que responde?

Acho que quando gostamos mesmo de alguma coisa, arranjamos sempre algum tempo para ela. Às vezes, dizemos que não temos tempo, no entanto ocupamo-lo com preocupações e coisas que não trazem nada de novo. É preciso aprender a gerir o tempo. Temos que ter disciplina para fazer aquilo de que gostamos; caso contrário, tendemos a prejudicar a nossa saúde e, inclusive, o nosso trabalho. Os doentes notam quando estamos felizes. Todos os dias temos que ter tempo para nós próprios e para quem mais gostamos.

É uma forma de enfrentar os atuais desafios do Serviço Nacional de Saúde?

Sim, sem dúvida! Temos todos que ter alguma estratégia para lidar com a pressão e com os problemas, para nos fortalecermos e para conseguirmos lidar com a realidade.

E qual será a futura narrativa do SNS?

Não sei…Gostaria de ser otimista, mas veja-se o que aconteceu com o último concurso, em que ficaram imensas vagas por ocupar. Paira a ameaça do SNS se tornar tão pouco atrativo que os jovens são forçados, lá está, a emigrar ou a enveredar por carreiras no privado.

Quando estudei Medicina, os grandes especialistas faziam questão de exercer no SNS, onde mais se aprendia… Hoje, já não é bem assim. Mas, temos que ser resilientes e lutar para que o SNS continue forte, universal e se mantenha tendencionalmente gratuito. Saúde considerada um bem público gera melhores indicadores de saúde. A medicina privada pode ser um complemento? Sim, não me oponho a isso. Mas o SNS deve ser sempre a prioridade, na minha opinião, podendo, obviamente, complementar-se com os restantes setores.

 

Maria João Garcia

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