Entrevista - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/entrevista/ Notícias sobre saúde Mon, 08 Jun 2026 21:20:51 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Entrevista - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/entrevista/ 32 32 “Temos de pensar na fertilidade também como uma questão demográfica e social” https://saudeonline.pt/temos-de-pensar-na-fertilidade-tambem-como-uma-questao-demografica-e-social/ https://saudeonline.pt/temos-de-pensar-na-fertilidade-tambem-como-uma-questao-demografica-e-social/#respond Tue, 09 Jun 2026 10:30:42 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187561 O adiamento da maternidade, a quebra da natalidade e consequentemente o aumento da infertilidade feminina, mas também masculina, estão a transformar a fertilidade num desafio que ultrapassa a esfera clínica. Em entrevista ao SaúdeOnline, Luís Ferreira Vicente, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, defende uma estratégia nacional que envolva saúde, educação, trabalho e políticas sociais, alertando para o impacto demográfico e económico da atual crise de natalidade.

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“Temos de pensar na fertilidade também como uma questão demográfica e social”

A infertilidade deixou de ser apenas um problema clínico para passar a ser também uma questão social e demográfica?
Sim. Neste momento, o impacto da fertilidade começa a sentir-se, sobretudo, devido ao adiamento da gravidez. As pessoas optam pela maternidade mais tarde na sua vida, o que faz com que a fertilidade esteja mais reduzida. Em Portugal, a idade média em que as pessoas têm o primeiro filho está a aproximar-se dos 31 anos. Além disso, as pessoas estão a ter menos filhos. Portanto, estamos perante uma crise demográfica em toda a Europa, porque o índice de fecundidade necessário para garantir a renovação da população deveria situar-se nos 2,1 filhos por mulher, enquanto Portugal e a Europa estão nos cerca de 1,4 filhos por mulher.

Há um trabalho muito interessante desenvolvido pela diretora da PORDATA, apresentado há pouco tempo, que mostra que, em 2070, de acordo com o número de filhos que as pessoas têm atualmente, cerca de metade da população idosa poderá ter um apoio familiar muito reduzido, no máximo de uma pessoa. Isso pode afetar cerca de um milhão de indivíduos.

Portanto, temos de pensar no futuro também do ponto de vista da sustentabilidade da Segurança Social, do trabalho e da organização da sociedade, e não apenas olhar para a fertilidade como uma questão de haver ou não infertilidade e de existirem ou não tratamentos. Pessoalmente, penso que nós, médicos da área da Medicina da Reprodução, não só devemos combater a infertilidade através dos tratamentos, como também temos um dever social de alertar para estas questões.

Temos soluções, inclusivamente para adiar o projeto de maternidade, como a preservação de ovócitos. E, quando já não existem ovócitos viáveis, existem ciclos de doação de ovócitos. Mas, por outro lado, sabemos que as gravidezes mais tardias podem ser mais complicadas. Uma gravidez após os 40-45 anos tem mais riscos de diabetes gestacional, hipertensão, pré-eclâmpsia e restrição do crescimento intrauterino do bebé.

 

“Estamos perante uma crise demográfica em toda a Europa”

 

Isto significa que o problema da fertilidade não se resolve apenas dentro dos hospitais e das clínicas?
Exato, por isso, também temos de alertar para a necessidade de criar condições laborais que permitam aos casais ter filhos mais cedo, se assim o desejarem, sem serem penalizados, como acontece atualmente. Temos de atuar não só na área da saúde, nomeadamente no acesso aos tratamentos — felizmente, em Portugal, os medicamentos já são comparticipados a 90%, o que ajuda muito os casais —, mas também em mais dois pilares fundamentais.

Um deles é a educação e a literacia da fertilidade. Muitas pessoas têm a ideia de que o limite da fertilidade é a menopausa. Mas não é. O declínio da fertilidade começa muito antes. Embora as mulheres continuem a menstruar, já podem não existir ovócitos sem alterações cromossómicas, o que reduz bastante a fertilidade após os 40 anos, sobretudo após os 43 ou 44 anos. E esta informação não é transmitida à população.

Foi feito um estudo recente com mulheres da Geração Z e Millennials que mostrou que, apesar de estarem muito expostas à informação e às redes sociais, 80% dessas mulheres não sabiam o que era a reserva ovárica. Talvez devêssemos abordar estes temas nos livros de biologia e falar mais sobre a reserva ovárica, em vez de limitar o ensino apenas à contraceção.

Depois, há um outro pilar fundamental: não podemos apenas dizer às pessoas para terem filhos mais cedo. Muitas gostariam, mas não têm condições. Por isso, temos também de pressionar os decisores políticos e os empresários para que sejam criadas condições laborais adequadas.

Há uma grande discrepância entre Portugal e os países nórdicos, como a Finlândia, ou países como a Alemanha no que respeita às licenças de maternidade. Nalguns desses países, as licenças parentais aproximam-se dos três anos. Isto porque já estão a pensar a longo prazo na renovação da sociedade. Nós não estamos. Ainda discutimos recentemente se os médicos deveriam certificar a amamentação para além de um ano.

Também é importante criar condições no trabalho, como o regime híbrido ou a possibilidade de acompanhar um filho a uma consulta sem penalizações profissionais. Precisamos de criar condições para que as pessoas possam ter filhos mais cedo, se quiserem. Temos de pensar na fertilidade também como uma questão demográfica e social.

Essa preocupação já existe, por exemplo, em França. Há um movimento chamado “Mais Fertilidade”, iniciado em Portugal em junho do ano passado, mas que teve origem em Paris, em 2024. Estive presente nessa reunião, que juntou especialistas em Medicina da Reprodução de vários países, representantes de associações de doentes e outros profissionais. Dali saiu um manifesto precisamente para alertar para estas questões e defender intervenção nestes três pilares: acesso à saúde, condições laborais e literacia da fertilidade.

Em Portugal, adaptámos essa iniciativa à nossa realidade e criámos uma aliança com a Associação Portuguesa de Fertilidade e com o colégio da subespecialidade de Medicina da Reprodução da Ordem dos Médicos. Consideramos que é uma missão comum alertar para estas questões e pressionar os decisores políticos para avançarem com medidas concretas.

Já fomos recebidos por grupos parlamentares, tivemos uma audiência com o presidente da Assembleia da República e estivemos também na Comissão Europeia para sermos ouvidos sobre estas matérias. Considero que tem sido feito um bom trabalho, mas é preciso continuar, porque estamos perante uma sociedade cada vez mais envelhecida, com a pirâmide demográfica completamente invertida.

 

Este manifesto defende uma estratégia nacional para a fertilidade. O que é que essa estratégia deveria incluir exatamente? São estas questões laborais e de literacia da fertilidade que tem vindo a referir?
Sim, incluindo a área da saúde, claro. O acesso à saúde e aos tratamentos é fundamental. A sul do Hospital Garcia de Orta, continuamos a não ter nenhum centro público de infertilidade para todo o sul do país. Felizmente, já existem respostas nas ilhas, mas no Algarve ainda não está a funcionar.

Depois, há a questão das listas de espera para a doação de gâmetas no banco público. Nestas últimas Jornadas de Estudos da Reprodução, que se realizaram a 8 e 9 de maio, tivemos uma discussão muito construtiva sobre medidas que poderiam incentivar a dádiva de gâmetas, porque é preciso fazer campanhas de informação e facilitar o acesso ao processo.

Atualmente, temos assistido a um aumento muito grande das doações nos bancos privados, porque conseguem atrair mais doadores, mas o banco público não está a conseguir acompanhar. É preciso reforçar os recursos humanos e técnicos no banco público de gâmetas para que também consiga captar essas doações. Muitas vezes são feitas campanhas, porém os bancos públicos não têm capacidade para receber as pessoas interessadas.

A lei prevê uma compensação para as mulheres que passam por todo o processo de doação de óvulos, porque implica tratamentos, ecografias e uma punção. O problema é que alguns sites do setor público não estão atualizados. Então, fazendo uma pesquisa, a inteligência artificial acaba por indicar que compensa mais doar num centro privado, porque a valor é maior. Isso não é verdade, é exatamente o mesmo.  A informação disponível é que está desatualizada. E isto acaba por afastar potenciais doadores do sistema público.

Neste momento, o tempo de espera para ovócitos ronda os três anos e meio e para espermatozoides é ainda superior. Vejo muitas pessoas muito empenhadas nos bancos públicos em tentar inverter esta situação, mas faltam condições e recursos para dar resposta. Por isso, penso que esta reunião foi importante precisamente para dar ferramentas aos profissionais e ajudá-los a pressionar as administrações para conseguirem melhores condições e investimento.

 

Como é que caracteriza atualmente o estado da Medicina da Reprodução em Portugal?
Portugal está, em termos científicos e tecnológicos, ao nível do que de melhor existe no mundo. Quando participamos em reuniões com colegas estrangeiros, percebemos que os nossos centros e os nossos especialistas estão perfeitamente alinhados com os padrões internacionais. Os laboratórios, os meios de cultura e a tecnologia utilizada em Portugal são equivalentes aos utilizados nos principais centros internacionais.

Além disso, temos profissionais de excelência, embriologistas excecionais e equipas multidisciplinares muito qualificadas. Acredito mesmo que Portugal pode ser visto como um exemplo para outros países.

 

Podemos então considerar que a infertilidade deve hoje ser encarada como uma prioridade de Saúde Pública?
Sim, penso que sim. Mas não apenas como uma questão de Saúde Pública. Deve também ser encarada como uma prioridade ao nível das políticas sociais e económicas. Se quisermos realmente levar este tema a sério, não o podemos deixar ficar apenas dentro do Ministério da Saúde. Tem de envolver também os ministérios da Economia, do Trabalho e da Educação, porque é preciso atuar em todas estas áreas ao mesmo tempo.

Neste movimento de que falámos há pouco, por exemplo, já temos cerca de 30 empresas que aderiram à ideia de criar condições para que as pessoas possam fazer tratamentos de fertilidade, ter faltas justificadas durante os tratamentos, melhores condições relacionadas com licenças parentais e outras medidas que permitam que sejam consideradas empresas fertility friendly. Inclusive, estamos a trabalhar na criação de um selo nesse sentido. Desde junho até agora, já aderiram várias grandes empresas, incluindo a NOS, o El Corte Inglés e outras. É importante dar um primeiro passo e criar exemplos positivos que depois possam disseminar-se pelo tecido empresarial.

Além disso, acredito que as novas gerações valorizam hoje outros aspetos no mercado de trabalho. No tempo dos nossos pais, talvez o mais importante fosse ter um contrato estável e um salário fixo. Hoje, isso já não é o único critério. Muitos jovens valorizam também empresas que ofereçam condições de conciliação entre vida profissional e familiar. Por isso, estas políticas podem até ser vistas como uma mais-valia para retenção de talento nas empresas.

Temos de ser proativos para tentar inverter um problema que já existe. Isto não é algo para começarmos a pensar daqui a uns anos. É um tema que exige medidas agora.

 

Mudando um bocadinho o assunto, a fertilidade masculina continua a ser subdiagnosticada e subvalorizada?
Sim, continua. E também tenho a perceção de que a infertilidade masculina tem vindo a aumentar. Antigamente dizia-se que cerca de um terço dos casos era de origem feminina, um terço de origem masculina e um terço de origem idiopática. Hoje em dia, acredito que uma grande parte dos casos tem origem masculina — claro que se as mulheres continuarem a adiar a maternidade, a fertilidade estará mais reduzida —, mas estamos a assistir a um declínio da fertilidade nos homens.

Há trabalhos que mostram isso. Um estudo muito importante da Shanna Swan, nos Estados Unidos, demonstrou uma redução de cerca de 50% na concentração de espermatozoides. Se disséssemos que a inteligência masculina (o QI) tinha diminuído para metade, provavelmente isso geraria grande preocupação. No entanto, quando falamos de fertilidade, isso não gera a mesma reação, apesar de ser um dado muito relevante!

Claro que ainda não estamos num ponto em que a fertilidade esteja totalmente comprometida, mas há sinais claros de declínio. Por exemplo, o valor de referência considerado normal para a concentração de espermatozoides é superior a 15 milhões por mililitro, que corresponde ao percentil 5. Ou seja, é o limite mais baixo da normalidade.

Idealmente, para que uma gravidez ocorra mais rapidamente, esse valor deveria estar acima dos 40 milhões por mililitro. E estamos claramente a assistir a uma tendência de descida em relação a esse valor.

Isto é importante porque os tratamentos são diferentes quando existe infertilidade masculina. Nas jornadas, este tema foi também muito discutido por especialistas como os professores Peter Humaidan e Jorge Hallak, que reforçaram precisamente essa ideia: temos de começar a medicar os homens, que durante muito tempo foram muito esquecidos ao longo dos tratamentos. Sabemos que melhorar a qualidade dos espermatozoides, nomeadamente reduzindo a fragmentação do ADN, tem impacto direto na qualidade embrionária.

Nos casais mais jovens, essa realidade já começa a mudar, e já há maior abertura para fazer espermogramas e investigar o fator masculino. Acredito que vamos passar cada vez mais a medicar também os homens, tal como fazemos com as mulheres, o que poderá melhorar os resultados dos tratamentos.

 

E o que é que leva a esta redução da fertilidade masculina? São fatores ambientais, de qualidade de vida?
São vários fatores ligados ao estilo de vida e também ao impacto dos denominados disruptores endócrinos. São substâncias que interferem com o nosso sistema hormonal. Estão presentes em várias coisas do dia a dia: na água, em fibras de roupa, em materiais diversos e até em papel de impressão térmica, como os talões de multibanco ou recibos. Esses papéis são ricos em Bisfenol A, que é um disruptor endócrino e pode aumentar os níveis de estrogénios, com impacto na fertilidade masculina. Estes papéis já foram proibidos no Japão desde 2010.

Um trabalho da Universidade de Granada mostrou que mais de 90% dos papéis de impressão térmica em Portugal e Espanha tinham níveis de Bisfenol A muito acima do considerado seguro, cerca de 100 a 150 vezes superiores. Isto pode ter impacto e temos de começar a alterar esta situação. Já se começam a ver alguns talões que, no verso, dizem “livre de Bisfenol”, mas ainda é algo que precisa de maior preocupação. Mais uma agência que deve estar envolvida nesta questão é a do Ambiente.

Também foi muito discutido pelo professor Jorge Hallak o impacto do consumo de cannabis. No Brasil, por exemplo, isso é um problema relevante e sabe-se que tem efeitos negativos na fertilidade masculina. Isto é importante, porque estamos a assistir a uma certa banalização do consumo, com mais lojas e maior disponibilidade de cannabis recreativa.

 

Muitos casais chegam já demasiado tarde aos centros de PMA?
Cada vez menos. As pessoas estão a procurar ajuda mais cedo. O que ainda acontece, por vezes, é existir alguma ideia errada sobre a fertilidade feminina, nomeadamente a crença de que se mantém até à menopausa. Isso leva a situações em que há mulheres que chegam à primeira consulta com 45 anos, depois de terem tentado engravidar durante dois anos sem sucesso e sem perceberem porquê. Isto mostra que ainda há trabalho a fazer na literacia sobre fertilidade. Precisamos de melhorar esse conhecimento.

Ainda assim, sinto que hoje os casais chegam mais cedo. Os médicos de Medicina Geral e Familiar também estão mais atentos a esta questão e fazem a referenciação mais rapidamente. Existem critérios definidos pela Direção-Geral da Saúde sobre quando encaminhar os casais para centros de PMA. Temos ainda a questão dos tempos de espera para tratamentos, que nalguns centros continuam a ser superiores a um ano. No entanto, estão a surgir mudanças na organização dos serviços. Por exemplo, com os centros de responsabilidade integrada, como no Hospital de São João, no Porto, já foi possível eliminar a lista de espera. Este tipo de modelo de gestão, em que os próprios centros têm mais autonomia e os profissionais são remunerados em função da atividade e dos resultados, faz todo o sentido. É uma mudança de mentalidade que teremos inevitavelmente de fazer no sistema de saúde, para conseguir reduzir os tempos de espera e melhorar o acesso aos tratamentos.

  

“O que ainda acontece, por vezes, é existir alguma ideia errada sobre a fertilidade feminina, nomeadamente a crença de que se mantém até à menopausa”

 

Porque as listas de espera do SNS continuam a comprometer o prognóstico reprodutivo?
Se falarmos, por exemplo, da doação de gâmetas, o tempo de espera para tratamentos ronda os três anos e meio. No caso de ovócitos e espermatozoides, pode chegar aos quatro anos. Isto é algo que precisava de ser resolvido. Nas jornadas, tivemos uma mesa-redonda onde foram discutidas várias formas de reduzir estas listas de espera e melhorar o acesso. Em alguns casos, existe a possibilidade de os centros do SNS encaminharem doentes para privados com acordo, o que pode ser uma solução temporária. Enquanto estas listas de espera se mantiverem, é evidente que não existe capacidade instalada suficiente para dar resposta em tempo útil.

 

Os principais constrangimentos prendem-se também com questões de recursos humanos e diferenciação técnica?Felizmente, esta nova geração de ginecologistas é muito interessada pela área da Medicina da Reprodução e eu acho que isso vai ser muito útil. E, em termos de capacidade técnica, não são só os médicos que contam, é toda uma equipa. Eu não consigo fazer nada sem ter uma boa equipa de embriologistas, de enfermeiras, sem ter Psicologia e Andrologia. Temos mesmo de trabalhar como uma equipa interdisciplinar para conseguirmos ter os melhores resultados.

 

Qual considera ser o maior desafio da Medicina da Reprodução em Portugal nos próximos 10 anos?
Eu diria que um dos maiores desafios será a integração da inteligência artificial como ferramenta de apoio clínico em toda a área da Medicina da Reprodução. A IA pode ajudar-nos a selecionar o melhor tratamento, a estimar prognósticos e a aconselhar os casais com base em variáveis como a idade e a reserva ovárica.

Muitas vezes, os casais não têm uma perceção realista das suas probabilidades de sucesso. Por exemplo, sabemos que acima dos 43 anos a probabilidade de gravidez com ovócitos próprios pode rondar os 5%, e isso nem sempre é claro para os doentes. Estas ferramentas podem ajudar a tornar essa informação mais objetiva e mais compreensível. Também podem apoiar a monitorização, por exemplo na ecografia, e facilitar a contagem e avaliação dos folículos.

A nível do laboratório, a evolução tecnológica também é evidente, ajudando a identificar os melhores espermatozoides e embriões com mais potencial de implantação. Ao longo dos últimos anos, já houve uma evolução importante: os tratamentos tornaram-se menos agressivos, com menor carga de medicação injetável, ciclos mais curtos e protocolos mais simples. Também os sistemas de time-lapse nos laboratórios representam um avanço significativo. No entanto, há ainda um grande desafio pela frente: conseguir melhorar a seleção embrionária através de métodos não invasivos. Atualmente, a seleção baseia-se sobretudo em critérios como a euploidia e a avaliação morfológica, mas no futuro pode passar por marcadores biológicos no meio de cultura. Ou seja, sinais libertados pelo embrião que indiquem maior probabilidade de implantação. Por exemplo, marcadores como o HLA-G solúvel, que estão ligados ao sucesso da implantação.

A grande aposta internacional será precisamente essa: encontrar métodos não invasivos, marcadores fiáveis que nos permitam prever, com maior precisão, qual o embrião com maior potencial de implantação e maior probabilidade de gravidez. Essa será, na minha opinião, a grande aposta em todo o mundo. Encontrarmos os marcadores certos.

 

Sílvia Malheiro 

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Europa chamada a tratar a fertilidade como prioridade pública, social e económica

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Infeções sexualmente transmissíveis. “Temos de aumentar a acessibilidade ao rastreio em consultas e de forma anónima e confidencial” https://saudeonline.pt/infecoes-sexualmente-transmissiveis-temos-de-aumentar-a-acessibilidade-ao-rastreio-em-consultas-e-de-forma-anonima-e-confidencial/ https://saudeonline.pt/infecoes-sexualmente-transmissiveis-temos-de-aumentar-a-acessibilidade-ao-rastreio-em-consultas-e-de-forma-anonima-e-confidencial/#respond Tue, 02 Jun 2026 08:19:09 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187467 De acordo com o estudo português “Perceção da população portuguesa sobre as infeções sexualmente transmissíveis”, apresentado no ID Symposium 2026, 45% dos portugueses não realizam exames de rastreio e 59% têm vergonha de os fazer. Para Rita Maciel Barbosa, assistente Graduada em Medicina Geral e Familiar e coordenadora do Centro Integrado de Saúde Sexual do Porto, é preciso falar mais do assunto e desmistificar ideias como sexo oral é mais seguro mesmo sem preservativo.

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Atualmente, quais são as infeções sexualmente transmissíveis (IST) mais preocupantes?

O Centro de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) lançou recentemente um novo documento onde chama a atenção para o número crescente de casos de gonorreia e de sífilis que, neste momento, são consideradas talvez as IST mais preocupantes. Não podemos esquecer a infeção por clamídia – uma das infeções bacterianas também bastante prevalente.

Quem é mais afetado? Os mais jovens ou também existe um risco acrescido nos mais velhos?

No que diz respeito às três IST acima referidas, a população mais afetada tem sido a população jovem. Estamos a falar da população entre os 20 -24 anos nas mulheres e dos 25 aos 34 na população masculina. Por outro lado, quanto às diferenças entre géneros, no caso da gonorreia e da sífilis destaca-se o sexo masculino, e no caso da clamídia, em grande parte dos países da Europa continua a destacar-se o sexo feminino.

Mas se estivermos, por exemplo, a falar de VIH, é importante relembrar os dados do Relatório Nacional, onde se chama a atenção para o facto de que a maioria dos casos de diagnóstico de VIH, por transmissão heterossexual, ser em pessoas mais velhas, com idade igual ou superior a 50 anos.

“… ter uma IST não quer dizer nada sobre o número de parceiros sexuais ou as práticas sexuais da pessoa, muito menos sobre o tipo de pessoa que é. Basta ter uma relação sexual desprotegida para ser infetado por uma IST”

De acordo com o estudo, 45% dos portugueses não realizam exames de rastreio a IST. Porquê?

O próprio estudo dá, em si mesmo, algumas pistas sobre os motivos. Parece-me que existem vários fatores. Estamos a falar da população geral, que ainda não está muito sensibilizada para o tema, porque se falarmos de grupos de população vulnerável, provavelmente teremos taxas de rastreio muito superiores, uma vez que estas pessoas estão mais sensibilizadas para esta questão.

Cada vez se fala mais sobre o tema na comunicação social; têm saído mais notícias, nomeadamente durante os últimos dois anos, mas continua a não ser um tema sobre o qual se fala com profundidade entre as pessoas, nem com os profissionais de saúde. E os estudos demonstram isso.

Existe talvez uma desvalorização do assunto, sob ideias como aquela “só acontece aos outros e a pessoas com determinados comportamentos sexuais, mais promíscuos”. Ou seja, existem, ainda, preconceitos e mitos – as IST só atingem determinado tipo de população – o que não é verdade. Em boa verdade, ter uma IST não quer dizer nada sobre o número de parceiros sexuais ou as práticas sexuais da pessoa, muito menos sobre o tipo de pessoa que é. Basta ter uma relação sexual desprotegida para ser infetado por uma IST.

De acordo com o estudo, poderia indicar-me exemplos de desinformação/desconhecimento sobre diferentes IST?

Percebemos que existe desconhecimento sobre as diferentes IST. As pessoas ainda associam muito a palavra IST à infeção por VIH e desconhecem a epidemiologia atual, nomeadamente quanto às infeções por gonorreia, sífilis ou clamídia. Por outro lado, as IST são associadas a práticas sexuais penetrativas e a prática de sexo oral continua a ser muito desvalorizada, como sendo igualmente de risco, em caso de não ser protegida. Claro que os mitos e preconceitos, ou as barreiras identificadas no acesso a cuidados de saúde sexual por parte da população, também vão contribuir para essa desinformação. Os próprios profissionais de saúde descrevem sentir dificuldades nesta área, quer na abordagem comunicacional, quer no conhecimento técnico.

“E é urgente recuperarmos uma campanha preventiva, nomeadamente sobre o uso do preservativo, associado ao prazer sexual, tal como se trabalhou tão bem nos anos 90. Observa-se um abandono deste comportamento seguro, nomeadamente entre a população jovem”

O que mais contribui para estes resultados?

São estes vários fatores, é o desconhecimento, os mitos, as barreiras comunicacionais, e também temos aqui outra barreira, que é o facto de, por vezes, o acesso aos rastreios ainda não estar facilitado. Temos de trabalhar mais para aumentar a acessibilidade ao rastreio, quer em consultas, mas também de forma anónima e confidencial, para ultrapassar algumas barreiras.

O estudo deixa algumas recomendações, nomeadamente para os profissionais de saúde?

Acima de tudo, o estudo levanta aqui uma questão: existem necessidades identificadas, estudadas, é preciso priorizar este assunto, normalizar a sua abordagem numa consulta médica. É preciso falar-se por rotina sobre sexualidade, respeitando, naturalmente, os princípios do respeito e ausência de juízo de valor. É preciso normalizar a questão das IST e o acesso aos rastreios. Se eu tenho atividade sexual (desprotegida), é importante fazer rastreios, ponto final.

E é urgente recuperarmos uma campanha preventiva, nomeadamente sobre o uso do preservativo, associado ao prazer sexual, tal como se trabalhou tão bem nos anos 90. Observa-se um abandono deste comportamento seguro, nomeadamente entre a população jovem.

Maria João Garcia

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“A diminuição da obesidade só será possível com três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes” https://saudeonline.pt/a-diminuicao-da-obesidade-so-sera-possivel-com-tres-forcas-prevencao-seria-tratamento-precoce-e-acesso-real-a-terapeuticas-eficazes/ https://saudeonline.pt/a-diminuicao-da-obesidade-so-sera-possivel-com-tres-forcas-prevencao-seria-tratamento-precoce-e-acesso-real-a-terapeuticas-eficazes/#respond Tue, 26 May 2026 11:09:17 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187316 Um estudo britânico indica que as taxas de obesidade estão a estabilizar, inclusive em Portugal. Mas para Gil Faria, médico, investigador e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é preciso olhar para os resultados com alguma cautela. Em entrevista, alerta que não se pode parar de lutar contra a doença e que ainda há muito trabalho pela frente, nomeadamente a implementação do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade.

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O estudo recente, liderado pelo Imperial College de Londres, e publicado na revista “Nature”, refere que as taxas de obesidade estabilizaram e até diminuíram em vários países, incluindo Portugal. O que contribuiu para esta diminuição?

Esta é uma boa notícia, mas deve ser lida com prudência. O estudo mostra que, em alguns países de elevado rendimento, incluindo Portugal, o crescimento da obesidade abrandou, estabilizou ou poderá até ter começado a inverter-se ligeiramente, sobretudo em crianças e adolescentes. Mas não significa que o problema esteja resolvido. Significa apenas que talvez algumas medidas implementadas estejam a começar a produzir efeito.

Provavelmente, contribuiu uma combinação de fatores: maior consciência pública, políticas de alimentação escolar, taxação de bebidas açucaradas, melhor literacia alimentar, maior pressão social para ambientes mais saudáveis e alguma mudança nos padrões de consumo. Portugal tem tido programas na área da alimentação saudável e prevenção da obesidade infantil e isso pode estar a ter impacto.  Mas há um ponto essencial: não podemos confundir estabilização com vitória. Se um incêndio deixa de alastrar, continua a haver fogo.

Apesar destes resultados, a obesidade continua a ser uma preocupação?

Sem dúvida. Continua a ser uma das maiores ameaças à saúde pública em Portugal. Segundo o INE, mais de metade dos adultos portugueses tem excesso de peso ou obesidade: 37,3% com excesso de peso e 15,9% com obesidade. Nas crianças, o estudo COSI Portugal 2022 mostrou 31,9% com excesso de peso e 13,5% com obesidade. Estes números não são marginais, são estruturais. E existem outros estudos que demonstram prevalências superiores.

Mesmo que a curva esteja a estabilizar, estamos ainda num patamar demasiado alto. Milhões de pessoas continuam expostas a maior risco de diabetes, hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, doença hepática metabólica, infertilidade e vários tipos de cancro. A obesidade não deixou de ser preocupante, porque cresceu menos. Continua a ser preocupante porque já cresceu demasiado.

“Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas”

Esta é uma doença associada a muitas outras comorbilidades. Como vê, atualmente, a abordagem clínica da obesidade? Já existe maior apoio multidisciplinar?

A abordagem está a mudar, mas ainda não mudou o suficiente. Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como uma falha individual. Hoje sabemos que é uma doença crónica, complexa, biológica, social e ambiental. Por isso, não pode ser tratada apenas com uma folha de dieta ou com a frase “tem de fazer exercício”.

A boa notícia é que Portugal publicou o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, que prevê uma resposta mais estruturada, com equipas multidisciplinares, articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares, acompanhamento nutricional, psicológico, médico, farmacológico e cirúrgico, quando indicado.

Mas a implementação ainda é difícil. Uma coisa é produzir regulamentos. Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas. E, no global, o número de profissionais disponíveis e treinados para tratar a obesidade ainda não é suficiente para as necessidades.

“O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica”

Em termos de acesso ao tratamento, seja farmacológico ou cirúrgico, é o mais adequado ou ainda há muito trabalho a fazer?

Ainda há muito trabalho a fazer. Muito mesmo. Temos hoje tratamentos eficazes: fármacos antiobesidade, cirurgia metabólica, intervenção nutricional, apoio psicológico e programas estruturados, mas a existência de tratamentos não é o mesmo que garantir acesso.

No caso dos fármacos, o acesso continua limitado pelo custo, pela ausência de comparticipação e pela escassez. No caso da cirurgia metabólica, o problema é igualmente grave: muitos doentes com indicação cirúrgica continuam sem acesso em tempo útil, apesar da cirurgia ser a intervenção mais eficaz e custo-efetiva para a obesidade moderada a grave. Continuamos a estimar que apenas 1% dos doentes com indicação para cirurgia consegue atingir esse tratamento.

E aqui temos de ser claros: o doente com obesidade não é menos doente. Não pode ser tratado como alguém que “pode esperar” indefinidamente ou que não “merece” o tratamento. Negar acesso ao tratamento não poupa dinheiro ao SNS.

 

De futuro, pode-se esperar uma diminuição da obesidade?

Pode, mas não acontecerá por acaso. A diminuição da obesidade só será possível se combinarmos três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes. Precisamos de melhores políticas públicas, alimentação escolar saudável, cidades que promovam movimento, combate aos alimentos ultraprocessados, diagnóstico mais cedo e equipas preparadas para acompanhar a pessoa ao longo da vida.

Os novos fármacos podem ajudar. A cirurgia continuará a ser fundamental nos casos mais graves, mas nenhuma solução isolada resolverá uma doença tão complexa. Tal como este estudo da Nature comprova, a melhor forma de travar a obesidade é o elevador social: sociedades com maior desenvolvimento económico estão mais capacitadas para combater a obesidade.

O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica, séria, tratável e profundamente influenciada pela sociedade em que vivemos.

Maria João Garcia

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“As doenças da tiroide tendem a ser desvalorizadas e, por isso, subdiagnosticadas e subtratadas” https://saudeonline.pt/as-doencas-da-tiroide-tendem-a-ser-desvalorizadas-e-por-isso-subdiagnosticadas-e-subtratadas/ Mon, 25 May 2026 09:10:48 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187290 O conteúdo <i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> “As doenças da tiroide tendem a ser desvalorizadas e, por isso, subdiagnosticadas e subtratadas” aparece primeiro em Saúde Online.

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“O acesso a consultas diferenciadas de DII não é igual em todos os centros” https://saudeonline.pt/o-acesso-a-consultas-diferenciadas-de-dii-nao-e-igual-em-todos-os-centros/ Tue, 19 May 2026 14:04:55 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187128 O conteúdo <i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> “O acesso a consultas diferenciadas de DII não é igual em todos os centros” aparece primeiro em Saúde Online.

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“O anticorpo L2A5 abre portas tanto ao diagnóstico mais rigoroso como ao desenvolvimento de terapias dirigidas” https://saudeonline.pt/o-anticorpo-l2a5-abre-portas-tanto-ao-diagnostico-mais-rigoroso-como-ao-desenvolvimento-de-terapias-dirigidas/ Tue, 19 May 2026 08:54:56 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187052 O conteúdo <i class="iconlock fa fa-lock fa-1x" aria-hidden="true" style="color:#e82d43;"></i> “O anticorpo L2A5 abre portas tanto ao diagnóstico mais rigoroso como ao desenvolvimento de terapias dirigidas” aparece primeiro em Saúde Online.

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