Entrevista - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/entrevista/ Notícias sobre saúde Mon, 13 Apr 2026 13:33:39 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Entrevista - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/entrevista/ 32 32 “Este modelo permite que o médico defina de forma personalizada o seu caminho formativo” https://saudeonline.pt/este-modelo-permite-que-o-medico-defina-de-forma-personalizada-o-seu-caminho-formativo/ https://saudeonline.pt/este-modelo-permite-que-o-medico-defina-de-forma-personalizada-o-seu-caminho-formativo/#respond Mon, 13 Apr 2026 09:37:33 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185660 A edição de 2026 do Update em Medicina aposta num modelo inovador de trilhos formativos personalizados, pensado para responder às necessidades reais da Medicina Geral e Familiar. Em entrevista, o internista António Pedro Machado, coordenador da Comissão Científica do evento, destaca uma formação mais prática, flexível e articulada com outras especialidades, defendendo os cuidados de saúde primários como base essencial do SNS.

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Esta edição marca uma rutura com o formato mais tradicional do Update em Medicina. O que motivou a decisão de avançar para um modelo por trilhos formativos? Que lacuna sentiam que era preciso preencher?
Como sabe, temos um formato híbrido. Além das sessões presenciais no Algarve, transmitimos em direto online para aqueles que estão mais longe ou não puderam deslocar-se. O foco prático mantém-se nos cuidados de saúde primários.

O programa inclui sete áreas temáticas principais: saúde mental, saúde cardiovascular, infeciologia, geriatria, saúde da mulher e materno-infantil, nutrição e gestão organizacional, incluindo também questões médico-legais. Todas estas áreas são abordadas com casos clínicos, debates e cursos práticos, com conteúdos selecionados por um grupo alargado de especialistas em medicina familiar, mas também de especialidades hospitalares, embora com um peso muito menor.

Alguns tópicos refletem questões atuais e emergentes, como o Burnout, a gestão da grávida com comorbilidades ou a epidemia de obesidade, que são temas essenciais nos cuidados de saúde primários. Outro tema de destaque é o impacto dos ecrãs no neurodesenvolvimento das crianças. Aliás, espero que no Dia Mundial da Criança, no dia 1 junho, este tema venha a debate. Mantemos o formato dinâmico, com casos clínicos interativos, debates de prós e contras e mini palestras.

Uma das novidades é a avaliação de conhecimentos através de uma web app. Contudo, o aspeto mais inovador é a introdução dos trilhos formativos. Estes permitem que cada participante escolha o seu percurso de acordo com os seus interesses ou necessidades formativas. Por exemplo, se uma sessão plenária abordar infeciologia, o médico poderá seguir sessões sequenciais sobre VIH, tuberculose e outros temas da área, constituindo um trilho formativo. Outro trilho poderá começar com insuficiência cardíaca e seguir para cardiomiopatia amiloidótica, fibrilhação auricular, entre outros.

Nunca temos mais de dois trilhos em paralelo, de forma a preservar a sequência lógica de cada percurso. Este modelo permite que o médico defina de forma personalizada o seu caminho formativo, o que consideramos fundamental.

 

Este novo modelo parece aproximar-se de uma lógica de formação quase “à medida”. Até que ponto este poderá ser o futuro dos congressos médicos em Portugal?
Exatamente, é isso mesmo! Vamos continuar a desenvolver este modelo no futuro. Estruturámos o Update em torno de grandes áreas nucleares da Medicina Geral e Familiar. Há sessões plenárias, mas cada médico pode optar pelo seu trilho formativo, de acordo com os interesses ou necessidades. Além disso, também incluímos simpósios que se encaixam nestas grandes áreas temáticas.

Considero que a nossa metodologia é inovadora e tem pernas para andar oferecendo um percurso formativo mais personalizado e adaptado à realidade de cada participante.

 

O Update tem reforçado a componente hands-on e a aprendizagem prática. De que forma este carácter mais experiencial pode fazer a diferença na forma como os médicos aplicam o conhecimento quando regressam à sua prática clínica?
Sempre que possível, tentamos reproduzir a prática do dia a dia em cada sessão. O médico recebe um conjunto de dados do doente, analisa-os, formula hipóteses diagnósticas, conduz a investigação, decide quais os exames mais adequados e, no final, integra toda a informação para chegar ao diagnóstico, que funciona como um veredito. Depois, aplica as medidas terapêuticas necessárias, ou seja, toma decisões clínicas, exatamente como na prática diária.

Dou-lhe um exemplo: na sessão sobre comorbilidades na grávida, vamos apresentar um caso de uma grávida que chega à consulta na 24.ª semana, isto é pouco comum, dado que a primeira consulta normalmente ocorre entre a 6.ª e a 9.ª semanas. Este tipo de caso permite aos médicos experimentar situações fora do habitual, analisando-as de forma inovadora e tomando decisões baseadas no raciocínio clínico, e não apenas seguindo regras pré-definidas. Cada decisão é discutida, avaliando-se os caminhos possíveis, todos defensáveis, mas existindo uma opção considerada a mais adequada.

O objetivo do Update é simular o dia a dia do médico, com mensagens muito claras e ensinamentos práticos. Não se trata de revisar toda a matéria, mas de destacar flashes de conhecimento úteis para a prática clínica futura.

Não são regras absolutas, mas pequenas lições que ficam na memória e são aplicáveis na vida profissional. Não se trata de acumular dezenas de informações, mas de reter pontos realmente importantes que fazem a diferença no dia a dia do médico.

 

Nesta fase particularmente desafiante para o sistema de saúde, considera que o diálogo entre as diferentes especialidades, assim como a maior articulação com a Medicina Geral e Familiar promovidos pelo Update em Medicina podem contribuir para melhorar os cuidados prestados?
Sim, acho que sim. Considero a Medicina Geral e Familiar como a especialidade base do nosso sistema de saúde, e é fundamental reforçá-la. Entre as suas várias intervenções, destaca-se a identificação precoce da doença e a prevenção, que são responsáveis por grandes ganhos em saúde. Olhando para a evolução da especialidade nas últimas décadas, houve uma mudança radical.

No entanto, é essencial que a Medicina Geral e Familiar não fique isolada. É preciso manter uma ligação forte com as outras especialidades. Aprendi com o professor Nogueira da Costa que só existem três especialidades “nucleares” – a Medicina Interna, a Pediatria e a Medicina Geral e Familiar. Todas as outras “são subespecialidades”. O médico de família, tal como o internista, domina grandes áreas do conhecimento sem ser especialista em cada uma delas, mas consegue, igualmente, estabelecer pontes com as várias especialidades. O médico de família faz, no fundo, a Medicina Interna do ambulatório, mas também cobre a saúde infantil, a saúde da mulher, a medicina preventiva e outras áreas que escapam à medicina interna.

É devido a este cunho generalista da especialidade que ter uma ampla cultura médica e um raciocínio clínico treinado são requisitos fundamentais ao exercício da arte do diagnóstico diferencial. Só diagnosticamos o que conhecemos, o que temos em mente. Também por isso, é tão importante o diálogo entre a Medicina Geral e Familiar e as outras subespecialidades.

Este tipo de congressos – que integram várias áreas do conhecimento – é crucial para a prática da Medicina Geral e Familiar e, consequentemente, para excelência dos cuidados de saúde prestados. No dia em que deixarmos de investir nos cuidados de saúde primários e nos seus profissionais, o Serviço Nacional de Saúde estará em risco

 

Quer deixar uma mensagem aos participantes?
Sim. Gostaria de convidar todos os colegas, internos e especialistas, a viverem este congresso de forma ativa. Ser ativo significa participar, levantar o braço, intervir, explorar os trilhos, escolher os percursos formativos, questionar e discutir debater ideias. Mas, acima de tudo, significa partilhar experiências: a dúvida de um é a dúvida do outro, e a opinião de cada um enriquece o conhecimento coletivo. A experiência não se constrói apenas com o contacto direto com o doente, mas também através da partilha de experiências com os outros.

O Update em Medicina foi pensado para refletir a riqueza e a complexidade da Medicina Geral e Familiar, uma especialidade fundamental para o SNS. Espero que o congresso não seja apenas um momento de atualização científica, mas também uma oportunidade de reencontro com o entusiasmo e o sentido de missão que une todos os médicos. Porque nós somos missionários. A medicina exige compromisso: quem escolhe esta carreira compromete-se a servir os doentes e é para isso que fazemos um juramento. No juramento de Hipócrates, como sabemos, a palavra “utente” não aparece.

 

Sílvia Malheiro

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“Procuramos criar percursos formativos que se adaptem às necessidades de cada participante”

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O que significa, para si, liderar a edição de 2026 do Update em Medicina num momento particularmente exigente para a Medicina Geral e Familiar?
É, de facto, uma responsabilidade acrescida, até porque têm existido muitas mudanças, tanto na realidade do Serviço Nacional de Saúde e da saúde como um todo em Portugal, como nas exigências atuais relacionadas com a prática clínica e a premência da atualização científica constante.

O Update em Medicina é, desde sempre, um congresso e um espaço privilegiado para a atualização científica, muito focado na Medicina Geral e Familiar, mas não exclusivamente. Alguns dos colegas que colaboram connosco de forma muito próxima são de variadas especialidades hospitalares, criando uma interdisciplinaridade e dinâmicas muito interessante.

O objetivo passa por reunir este conjunto de profissionais de referência, permitindo o máximo de atualização e garantindo conteúdo científico de elevada qualidade em cada edição.

Naturalmente, trazer um congresso com este impacto, que se tem de posicionar como um dos grandes eventos científicos nacionais, representa uma responsabilidade ainda maior.

Mas este trabalho não se faz sozinho. Temos toda uma equipa motivada, criativa e a trabalhar para preparar este evento com grande rigor. Acredito que esta será uma edição de grande interesse, com atualizações em áreas diferenciadoras face ao que, muitas vezes, nos é trazido noutros congressos médicos, onde alguns temas acabam por se tornar repetitivos.

Esta edição traz uma lufada de ar fresco e marca um processo de transformação e renovação do próprio Update em Medicina, para que continue a liderar as tendências no panorama científico nacional como sempre o fez até agora.

 

Quais são os grandes temas que vão marcar esta edição do Update em Medicina 2026?
Os grandes temas que trazemos, desenrolam-se seguindo um conceito que desenvolvemos: o dos roteiros científicos.

O objetivo é romper com o modelo mais linear dos congressos, em que os profissionais seguem o percurso que foi previamente definido pela organização. Com os roteiros científicos, procuramos criar percursos formativos diferenciados, permitindo que cada participante escolha os temas mais alinhados com as suas necessidades e áreas de interesse.

Em algumas temáticas mais dirigidas a nichos formativos — por exemplo, na área da infeciologia, com a tuberculose ou o VIH/SIDA, que podem interessar mais a determinados subgrupos da Medicina Geral e Familiar — criamos caminhos paralelos, com sessões a decorrer em simultâneo. Desta forma, os participantes podem divergir para outras áreas de interesse, beneficiando de uma oferta formativa mais personalizada e diferenciadora.

Na definição destes roteiros, damos particular destaque à saúde da mulher e materno-infantil, áreas que habitualmente são pouco trabalhadas. Há também um enfoque especial na saúde mental, tendo em conta o papel absolutamente central que a Medicina Geral e Familiar desempenha na primeira linha de abordagem nestas patologias.

Outro dos cernes será a nutrição e a saúde digestiva, incluindo a discussão dos prós e contras das várias dietas atualmente em voga. A grande diversidade de “correntes” e opções disponíveis, torna a área da alimentação bastante controversa, pelo que faz sentido proporcionar atualização para que os médicos consigam orientar cada pessoa de forma adequada e individualizada.

As questões organizacionais e éticas na Medicina Geral e Familiar são também áreas centrais. Falamos aqui de aspetos de fundo relacionados com a gestão da consulta e das próprias unidades de saúde, um tema cada vez mais relevante, sobretudo nas Unidades de Saúde Familiar, onde a otimização de recursos, muitas vezes escassos, é essencial.

Teremos ainda algumas sessões plenárias, sempre com uma forte componente interativa e de proximidade, que é uma marca do Update em Medicina. Queremos que os participantes tenham espaço para colocar questões, partilhar dúvidas e interagir com os oradores, tornando a experiência o mais dinâmica e profícua possível.

 

Quais são, neste momento, os maiores desafios que sente que os médicos de família enfrentam na consulta?
Atualmente, de entre os principais desafios que enfrentamos, destacaria três aspetos principais: sobrecarga assistencial, sobrecarga burocrática e (i)literacia em saúde.

A sobrecarga assistencial deve-se primariamente ao sobredimensionamento dos ficheiros médicos em número absoluto de utentes, que deixa pouca margem para flexibilidade na resposta prestada. Também, estes utentes vivem mais tempo e apresentam uma maior carga de doença, o que aumenta a complexidade da consulta e o tempo necessário para gerir a multimorbilidade. Toda esta dinâmica é agravada pela falta de médicos de família no serviço público em determinadas áreas do país, que por sua vez sobrecarrega os médicos “resistentes”, levando eventualmente à sua exaustão e subsequente agravamento do ciclo de ausência de resposta médica.

A sobrecarga burocrática é um entrave à fluidez da consulta por falta de tempo destinado ao efeito. Além de todos os registos clínicos, formulários e documentos a preencher, as unidades de saúde são altamente monitorizadas através dos seus indicadores. Embora muitos destes processos tenham como objetivo a monitorização da qualidade e a organização dos cuidados, na prática traduzem-se frequentemente em tempo retirado à observação clínica e à relação médico-doente. Adicionalmente, a fragmentação dos sistemas de informação e a sua usabilidade limitada contribuem para aumentar o tempo despendido em tarefas não clínicas, gerando frustração e ineficiência.

A literacia em saúde é parte das funções inerentes à Medicina Geral e Familiar. Contudo, apesar do crescente acesso à informação, muitos utentes apresentam dificuldades em compreender conceitos básicos de saúde, interpretar sintomas, aderir a planos terapêuticos ou navegar adequadamente no sistema de saúde. Assim, verificamos frequentemente uma “falsa literacia”, resultante da exposição a informação não validada, frequentemente proveniente da internet ou redes sociais, que pode gerar expectativas desajustadas, ansiedade e resistência às recomendações médicas. Isto traduz-se num nível de exigência crescente por parte dos doentes. Cada vez mais, os utentes chegam já com informação prévia, conceitos formados e, muitas vezes, uma agenda própria de temas que pretendem abordar. Naturalmente, o médico de família também tem a sua agenda clínica, isto é, os aspetos que considera prioritários avaliar naquele contexto específico. O desafio surge na articulação entre estas duas agendas. Assim, uma parte significativa da consulta passa por desmistificar e clarificar conceitos bem como a contextualizar informação previamente adquirida pelo doente.

 

O que é que um médico de família pode esperar levar deste congresso para a prática clínica do dia a dia que o ajuda a combater esta dificuldade?
Pretendemos que os médicos possam sair deste congresso com mais conhecimento e ferramentas para a gestão da sua prática clínica e para a monitorização e acompanhamento da própria unidade e equipa de saúde.

Também, a sessão dedicada ao stress e ao burnout, com abordagem não apenas na perspetiva do utente, mas também do próprio profissional de saúde, que muitas vezes acaba igualmente por se ver enquadrar nessa situação clínica, pretende clarificar conceitos e lançar alertas. O objetivo é dar resposta àquilo que consideramos ser uma verdadeira epidemia silenciosa, que se tem vindo a alastrar e que, muito provavelmente, continuará a crescer nos próximos anos. Por isso, é essencial promover uma intervenção proativa e capacitar os médicos para reconhecer, prevenir e atuar mais cedo nestas situações.

Por outro lado, teremos também uma sessão centrada noutra faixa etária, mas que muitas vezes está na génese de vários destes problemas: a relação das crianças com o tempo de ecrã. Vamos abordar os riscos deste entretenimento aparentemente fácil, mas que pode ter consequências mais complexas à medida que as crianças crescem, nomeadamente no seu desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional.

Por fim, talvez o mais importante, o médico de família ganha confiança para continuar a abordar, gerir e solucionar temas complexos, de multimorbilidade e psicossociais, de forma centrada no doente, operacionalizando de forma otimizada a articulação entre cuidados de saúde primários e cuidados de saúde secundários.

 

Quantas inscrições têm?
Nesta edição contamos com cerca de 1000 inscrições presenciais, às quais se soma um número ligeiramente inferior de participantes em formato digital. De forma a aumentar a acessibilidade e a participação no congresso, optámos por manter o formato híbrido.

Esta decisão ganha ainda mais relevância tendo em conta as limitações das próprias unidades de saúde e o número de profissionais que podem estar ausentes em simultâneo. Em muitos casos, este modelo facilita a organização das equipas e permite conciliar de forma mais equilibrada a participação no congresso com as exigências assistenciais do dia a dia.

No fundo, o formato híbrido tem sido uma forma de tornar o Update em Medicina mais inclusivo, mais flexível e mais ajustado à realidade atual dos profissionais de saúde.

 

As expectativas são boas?
As expectativas são boas. As inscrições são importantes porque naturalmente permitem operacionalizar toda a logística que um evento deste calibre exige, mas acima de tudo, o nosso foco está na qualidade do conteúdo científico disponibilizado.

Para isso, cada sessão do congresso apresenta uma programação detalhada, como se de um curso se tratasse. Esta abordagem, com definição prévia de conteúdos programáticos, permite que os profissionais saibam antecipadamente o que será abordado em cada tema e consigam selecionar as sessões que melhor correspondem às suas necessidades formativas.

O objetivo é que, desde o início, cada participante tenha uma visão clara do que esperar, tornando a experiência mais direcionada, personalizada e eficaz.

 

Quer deixar uma mensagem aos participantes?
O Update em Medicina é um congresso feito de colegas para colegas, onde a participação e o contributo de todos são fundamentais e dão sentido a cada nova edição. Ano após ano, é essa partilha que enriquece e molda o nosso programa científico.

Mais do que um momento de atualização, queremos que este seja um espaço de proximidade, de diálogo aberto e de verdadeira troca de experiências. As mesas-redondas e as conversas informais nos corredores são tão valiosas quanto as sessões formais, permitindo-nos discutir desafios do dia a dia e crescer em conjunto enquanto comunidade médica e científica.

A presença de cada um de vós é, por isso, essencial. Queremos que se sintam verdadeiramente em casa para que possam participar, questionar e partilhar, contribuindo ativamente para a dinâmica do congresso.

Acima de tudo, deixamos um sincero agradecimento pela vossa energia, pela vossa disponibilidade e pela partilha generosa da vossa presença. É esse espírito de colaboração e de entreajuda que dá vida ao Update em Medicina e o torna único. Sejam muito bem-vindos à vossa Família Update.

 

Sílvia Malheiro

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“Devemos olhar para a ciência, investigação e progresso não como um custo, mas como investimento e criação de valor” https://saudeonline.pt/devemos-olhar-para-a-ciencia-investigacao-e-progresso-nao-como-um-custo-mas-como-investimento-e-criacao-de-valor/ https://saudeonline.pt/devemos-olhar-para-a-ciencia-investigacao-e-progresso-nao-como-um-custo-mas-como-investimento-e-criacao-de-valor/#respond Tue, 07 Apr 2026 08:39:18 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185243 No Dia Mundial da Saúde, Hugo Martinho, Medical & Regulatory Affairs Director, AstraZeneca Portugal, destaca a importância da ciência e da investigação como criação de valor. Em entrevista, o responsável defende o papel da indústria farmacêutica na prevenção e tratamento das mais diversas patologias.

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Qual é o papel da investigação clínica em Portugal e o seu impacto direto para os doentes no acesso precoce à inovação?

Em apenas seis décadas, assistimos a um aumento de 17 anos da esperança média de vida em Portugal. Um português nascido em 1960 esperava viver cerca de 64 anos, enquanto um português nascido em 2020 tem uma esperança média de vida de 81 anos. Este enorme salto civilizacional foi possível devido a melhorias das condições de vida, hábitos e acesso a cuidados de saúde, mas também ao progresso e desenvolvimento da ciência e da medicina.

A aposta na investigação clínica ao longo das últimas décadas e os resultados obtidos permitiram encontrar soluções para tratar melhor, controlar e reduzir a progressão de muitas doenças e a mortalidade associada. A concretização destas soluções em resultados objetivos de saúde apenas tem sido possível pela democratização do acesso, mais ou menos facilitado da população, pelo sistema de saúde, a estas intervenções.

Esse acesso à inovação tem sido facilitado em Portugal ou ainda devem ser adotadas medidas para que o mesmo seja mais agilizado?

O tempo de acesso à inovação continua a ser um dos grandes desafios do nosso sistema de saúde. Apesar de melhorias observadas nos últimos anos, vários rankings internacionais continuam a colocar Portugal como um dos países da Europa em que os medicamentos inovadores demoram mais tempo a chegar aos doentes que deles podem beneficiar. Este aspecto é ainda mais relevante quando falamos de doenças com prognóstico mais desfavorável (como alguns tipos de cancro ou doenças raras) ou em patologias mais prevalentes e com elevada necessidade de utilização de recursos de saúde.

Nestas áreas, que são também aquelas com maior morbilidade e mortalidade, ainda  existem necessidades médicas importantes por satisfazer, pelo que não há nenhum racional científico para que, imediatamente após a demonstração do benefício do medicamento e reconhecida a sua mais-valia clínica (em comparação com o padrão de tratamentos) este não possa ser disponibilizado através de programas acelerados de acesso precoce enquanto se tenta agilizar o tempo de avaliação dos processos de avaliação de medicamentos e reduzir os longos processos de negociação económica. Quando se trata da saúde das pessoas não podemos esperar e perder oportunidades para tomar decisões.

“Os doentes e os profissionais de saúde sabem muito bem reconhecer o valor e a diferença que uma intervenção inovadora lhes proporciona. E sabem-no porque experienciam melhorias de sintomas, de controlo da doença, de melhoria da qualidade de vida”

Atualmente, como se mede o valor da inovação em saúde (outcomes clínicos, qualidade de vida, eficiência do sistema)?

O valor da inovação tem múltiplas dimensões. Desde logo, o valor terapêutico: se se trata de uma terapêutica mais eficaz, segura ou com melhor perfil de tolerabilidade que favoreça, por exemplo, uma maior adesão à terapêutica. Mas também o valor clínico, no controlo, na redução das complicações agudas ou crónicas, na progressão da doença, numa melhor qualidade de vida e ainda mais importante na redução da mortalidade global.

Obviamente que a estas dimensões favoráveis se associa também um impacto orçamental, que muitas vezes não deve ou não pode ser medido no curto prazo, mas sim através da valorização dos benefícios cumulativos de redução de episódios de urgência, número e duração de internamentos e reduções de complicações e tratamentos associados. É a avaliação destas dimensões que permite demonstrar o valor incremental ou disruptivo de um novo medicamento e que deve ser considerada num sistema de saúde moderno e capaz de responder de forma competente aos doentes que dele fazem parte.

 

Mas em Portugal não falta uma certa cultura de medição do valor da inovação? Se sim, como se pode melhorar essa realidade?

Sinceramente não me parece. Os doentes e os profissionais de saúde sabem muito bem reconhecer o valor e a diferença que uma intervenção inovadora lhes proporciona. E sabem-no porque experienciam melhorias de sintomas, de controlo da doença, de melhoria da qualidade de vida e da necessidade de recorrerem aos serviços de saúde. Por outro lado, fruto dos constrangimentos orçamentais crescentes, em que o investimento na saúde concorre com tantas outras prioridades de políticas públicas, temos assistido frequentemente a uma exigência e escrutínio cada vez maior, e mais demorado, no processo de acesso à inovação, o que por si só, num mundo onde tudo corre e acontece mais depressa, é um pouco contraditório.

“Acredito que Portugal tem tomado medidas importantes de promoção da valorização e da atração de investimento. Deve continuar a aprofundar este caminho”

Qual o contributo da indústria farmacêutica para um modelo de saúde mais sustentável e centrado no doente?

A indústria farmacêutica é um parceiro muito e cada vez mais relevante para o sistema de saúde, mas também para a sociedade e economia. Esta parceria materializa-se, desde logo, no investimento em investigação e desenvolvimento tecnológico e científico, em inovação e talento enquanto catalisadores económicos. O produto destes elementos que acabei de enumerar traduz-se na criação, comercialização  e disponibilização de ferramentas que permitem prevenir, tratar ou atrasar o decurso das doenças, contribuindo para que as pessoas possam viver mais e melhor e para um sistema de saúde não centrado  apenas na doença e mitigação dos seus efeitos (como ainda hoje acontece), mas sim num modelo centrado no indivíduo, através de uma intervenção precoce, efetiva e  promotora de bem-estar, saúde e de cuidados baseados em valor.

 

Quais são os principais desafios e oportunidades para se reforçar o ecossistema de investigação em Portugal?

Devemos cada vez mais olhar para a ciência, investigação e para o progresso não como um custo, mas sim como investimento e criação de valor. Está perfeitamente demonstrado que os países que mais investem nestes domínios são também aqueles onde a prosperidade e a qualidade de vida é maior. E acredito que Portugal tem tomado medidas importantes de promoção da valorização e da atração de investimento. Deve continuar a aprofundar este caminho, potenciando a transferência deste valor tangível para transformar, melhorar e modernizar áreas tão relevantes como a saúde e o sistema educativo.

Neste sentido, acredito que é fundamental trabalhar em modelos integrados multidisciplinares entre academia, entidades públicas, privadas e outros parceiros onde todos podem contribuir com ideias, competências e recursos. Existem muitas oportunidades, algumas já conhecidas outras que, com ambição e empreendedorismo, estão ainda à espera de serem criadas. É uma questão de fazer a escolha certa!

SO

 

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“Gosto muito de MGF e da prática clínica, mas acredito que esta deva ter por base a melhor evidência científica” https://saudeonline.pt/gosto-muito-de-mgf-e-da-pratica-clinica-mas-acredito-que-esta-deva-ter-por-base-a-melhor-evidencia-cientifica/ https://saudeonline.pt/gosto-muito-de-mgf-e-da-pratica-clinica-mas-acredito-que-esta-deva-ter-por-base-a-melhor-evidencia-cientifica/#respond Wed, 01 Apr 2026 09:00:10 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185218 Bruno Heleno foi eleito Médico de Família do Ano na Gala MGFamiliar. Em entrevista, fala sobre uma carreira em MGF, que conjuga prática clínica com ensino e investigação. Apesar do seu percurso, compreende que nem todos os clínicos tenham de seguir as mesmas pegadas. O seu maior desejo é que os médicos de família que queiram fazer investigação tenham tempo e recursos para pôr esse objetivo em prática.

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O que sentiu no momento que soube que era o Médico de Família do Ano?
Foi uma grande surpresa! Os outros candidatos têm currículos e projetos extraordinários na área da Medicina Geral e Familiar, por isso foi algo que não estava mesmo à espera. Aliás, nem sequer pensei alguma vez que iria ser nomeado, porque há outros colegas com projetos extraordinários. Mas foi uma sensação muito boa.

 

Qual é a importância deste tipo de iniciativas ou prémios na carreira de um médico de família?
É fundamental. Geralmente reunimo-nos para discutir o que está menos bem na MGF. Mas a Gala é um evento dedicado a celebrar a especialidade e o que de melhor se faz na Medicina Familiar. Temos todos de agradecer ao professor Carlos Martins por ter tido esta ideia refrescante e por ter tido capacidade para a concretizar. Poder celebrar coisas como o melhor artigo científico ou a melhor tese de doutoramento — e haver tantos candidatos — é um motivo para celebrar.

 

Fazendo um percurso pela sua carreira, como surgiu a ideia de ser médico de família? Foi a sua primeira escolha?
Por acaso, quando entrei para a faculdade queria ser neurologista. Entretanto, entrei na Associação de Estudantes, onde trabalhei na secção de Educação Médica. Ainda hoje é uma das minhas áreas de interesse. Na altura, tive o privilégio de poder contactar com uma pessoa extraordinária: a professora Patrícia Rosado Pinto. Foi uma experiência muito gratificante.

Precisamente por causa do meu trabalho na associação de estudantes, no segundo ano do curso li Tomorrow’s Doctors, um documento produzido pela Ordem dos Médicos do Reino Unido, que era um autêntico elogio à especialidade de Medicina Geral e Familiar — mais do que um documento sobre educação médica. Pela primeira vez percebi qual era o papel de uma especialidade que trabalha na comunidade e em proximidade com as pessoas, com estas características de primeiro contacto, de oferecer cuidados continuados e de coordenar cuidados entre vários profissionais. Enfim, uma especialidade com uma visão muito abrangente. Aquilo para mim foi uma novidade. Diria mesmo que foi muito sedutor. E foi nesse momento que deixei de querer seguir Neurologia e comecei a ponderar a ideia de ser médico de família.

“Há características próprias da MGF que são muito úteis para o ensino médico, nomeadamente o facto de se poder ter estágios relativamente longos, com um tutor que acompanha o desenvolvimento do aluno ao longo de um período prolongado”

Considera que os alunos entram no curso de Medicina sem terem uma noção exata do que é a MGF?
Depende. Em Portugal deparamo-nos com uma grande assimetria entre regiões no que diz respeito ao acesso a médico de família. Obviamente, quem teve médico de família e sabe como é ter esse acompanhamento ao longo do tempo terá uma visão mais positiva da especialidade. Outros poderão ter uma visão mais negativa, sobretudo se viram pessoas às cinco ou seis da manhã à porta do centro de saúde para conseguirem uma consulta.

 

E de que forma se pode alterar essa ideia mais negativa, já que não corresponde à realidade em todas as regiões?
Atualmente as escolas estão a fazer um trabalho extraordinário nesse âmbito. Por exemplo, a Universidade da Beira Interior tem grande parte do seu currículo já em cuidados de saúde primários. Braga também, assim como a Universidade do Algarve. Existem estudos que mostram que este investimento, no pré-graduado, altera a perceção dos estudantes sobre a MGF — além de melhorar os resultados em termos de aprendizagem.

Fazendo uma comparação, há cursos mais focados no ambiente hospitalar e outros menos. Não se pode dizer que um seja melhor do que o outro — pelo menos não existe evidência científica nesse sentido. Há características próprias da MGF que são muito úteis para o ensino médico, nomeadamente o facto de se poder ter estágios relativamente longos, com um tutor que acompanha o desenvolvimento do aluno ao longo de um período prolongado. Isso é muito útil em termos de educação médica.

 

Como médico de família, quais têm sido os principais desafios ao longo dos anos?
A minha realidade é muito diferente da maioria dos médicos de família, porque o meu contrato principal não é com o Ministério da Saúde nem com uma organização de saúde, mas com uma universidade. Em suma, acabo por não sentir determinados desafios.

De qualquer forma, penso que um dos desafios é manter a essência da especialidade: ser o primeiro contacto, ter uma visão global do doente e ser capaz de coordenar cuidados entre muitos prestadores de saúde  e prestadores que não são apenas do setor da saúde, mas que também têm influência na área. Isso é um esforço que todos nós devíamos fazer, mas que nem sempre é percetível. Há alturas em que este trabalho é mais fácil e noutras é mais difícil, quer por questões organizacionais quer tecnológicas. Às vezes há coisas que nos ultrapassam.

 

Fala-se muito da importância do médico de família e de se ter uma equipa de família. Mas, na prática, sente que se tem dado a devida atenção à MGF?
Existe um antes e um depois da reforma dos cuidados de saúde primários. Seguramente que se deu muito ênfase aos cuidados de saúde primários na fase inicial de mudança, mas as coisas foram mudando. A aposta em cuidados de saúde primários melhora a saúde das populações, por isso gostaria que houvesse maior investimento em vários pontos — não só em equipas de saúde familiar, mas também na nossa capacidade de resolvermos, em conjunto, a maior parte dos problemas de saúde da população.

“A possibilidade de estar essencialmente na faculdade a fazer ensino e de ajudar várias pessoas a desenvolver os seus projetos de doutoramento — assim como outras equipas a fazer investigação — é muito relevante para os cuidados de saúde primários” 

Na sua opinião, este trabalho em conjunto deve envolver também os setores privado e social? Temos atualmente as primeiras USF modelo C…
A prestação de cuidados não tem de ser necessariamente pública, mas isso exige do Estado uma contratualização muito exigente e uma capacidade de monitorizar resultados. Há inclusive universidades envolvidas em projetos, como a de Santa Maria. Não tenho nada contra o modelo C, mas parece-me justo que as condições de partida sejam semelhantes às do setor público, em termos de financiamento e de recursos disponibilizados. Além disso, a avaliação de resultados também deve ser semelhante. Devemos analisar e ter dados robustos sobre estas experiências.

Todas as políticas públicas precisam de ser bem planeadas e, sobretudo, bem avaliadas no final, para se perceber se funcionaram. Estou expectante para ver o que vai acontecer com estes novos modelos e, sobretudo, como se vão articular com as estruturas já existentes. A nossa primeira missão é melhorar a saúde das populações e, com base nessa premissa, temos de pensar de que forma o podemos fazer.

 

Como consegue conjugar atividade assistencial, ensino e investigação?
Gosto muito de MGF e da prática clínica, mas acredito que esta deva ter por base a melhor evidência científica. Para mim é essencial ajudar outras pessoas a desenvolverem-se e a realizarem o seu potencial. Tive a oportunidade de ter uma carreira que combina estas três áreas. A possibilidade de estar essencialmente na faculdade a fazer ensino e de ajudar várias pessoas a desenvolver os seus projetos de doutoramento — assim como outras equipas a fazer investigação — é muito relevante para os cuidados de saúde primários. Também seria feliz se fosse médico de família a tempo inteiro, mas agrada-me muito poder estar no ensino e na investigação.

 

Fala-se muito em burnout. Como consegue conciliar todas essas atividades sem pôr em causa a sua saúde?
É complicado. Se estivesse a falar comigo há ano e meio, talvez a resposta fosse outra. Os médicos têm muitas solicitações e, no pós-pandemia, de certeza que a maioria dos profissionais apresentava algum nível de burnout. Devemos olhar para este problema por graus, e não tanto como algo que se tem ou não se tem. Uma boa estratégia para prevenir o burnout, na minha opinião, pode ser precisamente não estar sempre a fazer o mesmo. É importante sentirmos que podemos ter uma carreira alternativa ou a possibilidade de, durante dois ou três anos, fazer algo diferente e depois voltar. Isso é fundamental para a saúde mental.

Maria João Garcia

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A doença gengival, como periodontite, aumenta até 26% o risco de se desenvolver diabetes tipo 2. Porquê?

De acordo com o artigo “Oral health and diabetes: a systematic review and meta-analysis”, publicado na The Lancet Public Health, pessoas com periodontite podem apresentar entre 19% e 26% maior risco de desenvolver diabetes tipo 2 ao longo da vida. Esta associação decorre sobretudo de fatores comportamentais de risco comum, mas também de mecanismos fisiopatológicos partilhados, em particular a inflamação sistémica crónica.

A infeção bacteriana persistente nos tecidos periodontais provoca uma resposta inflamatória contínua que pode afetar todo o organismo, libertando mediadores que entram na circulação e interferem na ação da insulina. Isso promove resistência à insulina e altera o metabolismo da glicose, elevando o risco de diabetes. Este artigo evidencia a importância de integrar a saúde oral nas estratégias de triagem precoce da diabetes no consultório médico-dentário, considerando os inúmeros fatores e indicadores de risco comuns. Esta deve ser integrada como uma parte integrante da saúde geral, e não como uma área isolada.

 

Em pessoas com diabetes, o risco de perda dentária aumenta entre 11% e 30%. Porquê?

Indivíduos com diabetes apresentam alterações fisiopatológicas que aumentam a vulnerabilidade à doença periodontal e, consequentemente, à perda dentária. A hiperglicemia crónica compromete a função do sistema imunitário, reduz a resposta a infeções e altera a microcirculação nos tecidos periodontais, dificultando a cicatrização e oxigenação. Estas alterações favorecem a progressão da doença periodontal, culminando na destruição do ligamento periodontal e do osso alveolar. Ao longo do tempo, este desgaste compromete a estabilidade dentária e aumenta a probabilidade de perda de dentes, que em casos graves pode atingir cerca de 30% em pacientes com diabetes de longa duração.

“… a articulação entre Medicina Dentária e Saúde Pública deve assentar numa lógica de colaboração interinstitucional, combinando prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde”

Esta consequência está associada a um menor controlo da diabetes?

A realidade é que existe evidência de que o controlo glicémico exerce um papel fundamental na saúde oral. Níveis elevados de HbA1c, indicativos de diabetes mal controlada, estão associados a maior prevalência e gravidade de doenças orais, incluindo periodontite e cárie dentária. O artigo indica que o controlo metabólico pode influenciar estes desfechos em saúde oral, embora os dados disponíveis ainda sejam limitados e heterogéneos, não permitindo estabelecer uma relação causal definitiva.

Ainda assim, a evidência existente, previamente a este artigo, aponta para uma relação bidirecional: a diabetes mal controlada favorece a progressão da doença periodontal, enquanto a periodontite pode dificultar a manutenção de níveis glicémicos adequados, criando um ciclo que reforça a necessidade de monitorização e intervenção integradas.

 

De que forma se poderá ter uma maior articulação entre a Medicina Dentária e as estratégias de prevenção e gestão em saúde pública?

Integrar a saúde oral nas estratégias de prevenção e gestão em saúde pública é hoje uma necessidade urgente e pode ser promovido através de rastreios de diabetes em consultas dentárias, da avaliação sistemática da saúde oral em doentes com doenças crónicas, por exemplo, e da criação de programas educativos de proximidade à comunidade. Estas iniciativas aproximam os cuidados de saúde à população, promovem literacia em saúde e incentivam comportamentos preventivos, reforçando essa prevenção e diagnóstico precoce de complicações associadas.

Neste contexto, a Egas Moniz School of Health & Science, em parceria com a Organização Mundial da Saúde, a Direção-Geral da Saúde e a Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal, promoveu, no passado dia 20 de março, a criação de uma aliança institucional com o objetivo de posicionar a saúde oral no centro das políticas de saúde pública. O objetivo é reforçar a necessidade de uma abordagem mais integrada na prevenção e gestão das doenças crónicas.

Em suma, a articulação entre Medicina Dentária e Saúde Pública deve assentar numa lógica de colaboração interinstitucional, combinando prevenção, diagnóstico precoce e educação em saúde, com o objetivo de melhorar os resultados clínicos e a qualidade de vida da população.

Maria João Garcia

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“Estamos a criar orientações para que os doentes oncológicos tenham respostas adequadas e flexíveis” https://saudeonline.pt/estamos-a-criar-orientacoes-para-que-os-doentes-oncologicos-tenham-respostas-adequadas-e-flexiveis/ https://saudeonline.pt/estamos-a-criar-orientacoes-para-que-os-doentes-oncologicos-tenham-respostas-adequadas-e-flexiveis/#respond Fri, 27 Mar 2026 14:34:22 +0000 https://saudeonline.pt/?p=185140 Criar orientações para que os doentes oncológicos tenham respostas clínicas e organizacionais adequadas são dois dos principais objetivos do European Commission Initiative on Cancer. Hugo Ribeiro, médico paliativista e investigador, foi escolhido pela Comissão Europeia para integrar um painel de 15 especialistas que desenvolverão recomendações europeias relacionadas com os rastreios oncológicos e a abordagem terapêutica de doentes com cancro. Em entrevista, fala do trabalho "muito desafiante", mas também "muito gratificante".

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Foi convidado, em 2025, para integrar o European Commission Initiative on Cancer (ECIC). Que trabalho têm desenvolvido?

A ECIC é um órgão da Comissão Europeia criado para monitorizar e coordenar o circuito do doente com cancro nos países europeus. O objetivo inicial passa pela criação de normas europeias relativamente aos rastreios, ao diagnóstico, às terapêuticas dirigidas aos diferentes tipos de cancro e à abordagem paliativa. Este objetivo tem um prazo para ser cumprido: 1.º trimestre de 2027. Numa 2.ª fase, e após termos definido os indicadores e medidas de avaliação de desempenho e de produtividade (individual e coletiva) e de valor acrescentado em saúde, a União Europeia passará para o estabelecimento de metas para cada país, com o objetivo final de aproximar os resultados dos diferentes países, o que seria expectável na lógica da progressiva integração europeia. Ou seja, podemos esperar que estas metas signifiquem consequências para quem cumpra e para quem não cumpra.

Eu fui integrado num grupo de 15 especialistas europeus, o Supportive Care Top Specific Group, que está responsável pela criação de guidelines clínicas e organizacionais referentes à abordagem paliativa, uma área transversal às restantes. Ou seja, a partir do momento em que uma pessoa tem o diagnóstico de cancro, quais os procedimentos e resultados que temos de monitorizar para criar o maior valor acrescentado em saúde possível? Este processo inicia-se com a própria comunicação do diagnóstico ao doente e à sua família, passa pela adequada contenção do impacto da doença na esfera multidimensional de cada pessoa com cancro (desde o controlo de sintomas ao ajuste individual de alvos terapêuticos para outras doenças ou condições clínicas concomitantes) e termina com a abordagem de fim de vida e do acompanhamento no luto.

Estamos a criar orientações para que os doentes tenham respostas adequadas, clínicas e organizacionais, e flexíveis perante o sofrimento que possam apresentar. E estamos a definir, com uma equipa mais alargada da ECIC, quais os indicadores que serão criados (de qualidade, de satisfação e de recursos), em vários passos deste circuito, para serem adotados para o espaço europeu. Neste contexto, posso adiantar que tem sido um desafio muito exigente, mas muito gratificante. São múltiplos os desafios, mas há um estímulo intelectual que me agrada imenso e, naturalmente, o facto de poder estar envolvido num projeto que terá um impacto europeu tão significativo é emocionalmente compensador.

Quais os principais desafios que os países europeus enfrentam nos rastreios oncológicos e nas abordagens terapêuticas de doentes com cancro?

Atendendo a que tenho um contrato de confidencialidade, não poderei entrar em pormenores, mas posso realçar que temos realidades bem distintas em diferentes regiões e países europeus. Essa desigualdade observa-se não só nas infraestruturas físicas, como nas organizacionais (desde os sistemas de financiamento à implementação de planos e programas a nível nacional e regional), e também na cultura organizacional (onde há alguns países que têm uma política pública frágil na “medição em saúde”). A estas realidades juntam-se problemas de doutrinas clínicas, para além das diferenças entre as populações, com as suas diferentes crenças, perfis genéticos, psicossociais e existenciais. De qualquer forma, eu diria que o principal desafio atualmente é a uniformização da obtenção de dados para que consigamos adaptar estratégias.

A situação de Portugal é similar aos restantes países?

Para começar, Portugal é um país médio, em várias perspetivas: geográfica, populacional e económica. Penso que muitas vezes nos descrevemos como “pequenos”, mas a realidade não é essa. E acho que este mindset tem de mudar, pois a escala a que nos vemos influencia muito a comunicação que temos e certamente também influenciará o nosso posicionamento político. Pelo que posso referir neste momento, parece-me que o nosso país tem condições para fazer muito melhor. Diria que a principal lacuna que apresenta neste momento é a falta de análise e mensuração de dados e a falha na avaliação de desempenho, individual e coletivo.

“O foco é a obtenção dos melhores resultados focados no doente e na sua família, contendo ou atenuando o dano que a doença e algumas estratégias terapêuticas possam provocar”

Estão a trabalhar em recomendações. Já pode adiantar algumas?

Posso adiantar apenas que será expectável que as pessoas sejam acompanhadas de forma personalizada, e que teremos de ter a IA ao nosso serviço para nos ajudar a adaptar individualmente algumas estratégias e medição de resultados, de forma a otimizarmos o valor em saúde obtido.

 

O que mais tem aprendido com esta experiência?

O grupo em que estou envolvido é constituído por profissionais com vastos conhecimentos, complementares, havendo um denominador comum: estamos muito envolvidos em investigação clínica e translacional, e assim penso que temos contribuído para a evolução do pensamento na área da Medicina Paliativa e dos Cuidados Paliativos. O foco é a obtenção dos melhores resultados focados no doente e na sua família, contendo ou atenuando o dano que a doença e algumas estratégias terapêuticas possam provocar e garantindo o melhor conforto, qualidade de vida e dignidade possíveis.

De uma perspetiva puramente técnica, clínica e académica, tenho aprendido muito em áreas de expertise dos meus colegas de grupo, como a Radioterapia, a Oncologia Médica, a Cirurgia ou a Psiquiatria e a Psicologia.

Trabalhar em equipa multidisciplinar implica escutar e permite-nos olhar para um problema de diferentes ângulos, que na maioria das vezes terão melhores soluções com o contributo sinérgico de todos os seus elementos.Para além dos conhecimentos, a principal aprendizagem será sempre a criação e o fortalecimento de pensamentos, de análises e de raciocínios sobre as pessoas e as suas circunstâncias, sobre o sistema e sobre o nosso papel enquanto atores transformadores num mundo exigente e em permanente evolução.

 

Maria João Garcia

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