med-interna-entrevistas - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/med-interna/med-interna-entrevistas/ Notícias sobre saúde Wed, 25 Mar 2026 11:56:26 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png med-interna-entrevistas - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/med-interna/med-interna-entrevistas/ 32 32 “Precisamos de ações concretas. Está em risco o funcionamento dos hospitais e da Medicina Interna” https://saudeonline.pt/precisamos-de-acoes-concretas-esta-em-risco-o-funcionamento-dos-hospitais-e-da-medicina-interna/ https://saudeonline.pt/precisamos-de-acoes-concretas-esta-em-risco-o-funcionamento-dos-hospitais-e-da-medicina-interna/#respond Tue, 24 Mar 2026 12:40:36 +0000 https://saudeonline.pt/?p=184987 No âmbito da Proposta de Reforma Hospitalar entregue pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna à ministra da Saúde e à Direção Executiva do SNS, o presidente da SPMI, Luís Duarte Costa, alerta que a sobrecarga da Medicina Interna é apenas a ponta do icebergue. Em entrevista ao SaúdeOnline, o médico defende uma reorganização centrada no doente e o reconhecimento formal do papel estratégico dos internistas para garantir o funcionamento dos hospitais.

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A proposta começa por dizer que interpretar a crise hospitalar como uma sobrecarga da Medicina Interna é redutor. O que é que estamos, então, a diagnosticar mal no SNS?
É uma falta de eficiência e produtividade na área hospitalar, que muitas vezes se reflete no trabalho da urgência, que para funcionar corretamente precisa do bom desempenho de todo o hospital. E é o alvo da maior atenção por parte de toda a gente, até dos próprios médicos. Queremos alertar exatamente para isso: é insustentável a forma como o SNS, ao longo dos anos, permaneceu imóvel, sem melhoria nem inovação na gestão, fazendo com que muitas coisas ainda funcionem como há 50 anos.

Isso vê-se todos os dias em todos os hospitais, uns mais do que outros, por algumas particularidades da sua realidade. Mas a verdade é que, em todo o país, de norte a sul, os hospitais não conseguem dar uma resposta eficiente, levando a que as urgências sejam apenas a ponta do icebergue. Em concreto, o doente, que devia ser o centro da atenção – parece até ridículo dizê-lo, porque é óbvio -, na verdade não é.

Isto é fácil de explicar com vários exemplos: um doente internado, imaginemos por insuficiência cardíaca, pode ficar uma semana à espera de um ecocardiograma. Se precisar de uma TAC, pode esperar vários dias. Em vez de o hospital se organizar em redor do doente, organiza-se em torno dos serviços e dos médicos: o serviço de Cardiologia, o de Medicina Interna, o de Imagiologia, e por aí fora. Se a pessoa precisar de vários exames, entra em várias listas de espera, em vez de o hospital colocar toda a atenção na pessoa internada.

Da mesma maneira, o trabalho dos médicos está muito disperso por várias atividades, em vez de estar concentrado num único objetivo: o doente internado. Por exemplo, esta pessoa com insuficiência cardíaca pode estar numa enfermaria de Cardiologia ou de Medicina Interna e, por vezes, a dificuldade de partilha de informação entre especialidades aumenta brutalmente, porque os hospitais estão divididos por estas barreiras das enfermarias. Portanto, queremos chamar a atenção: o modo de funcionamento dos hospitais precisa de uma reforma profunda, que coloque efetivamente o doente no centro.

 

“É insustentável a forma como o SNS, ao longo dos anos, permaneceu imóvel, sem melhoria nem inovação na gestão, fazendo com que muitas coisas ainda funcionem como há 50 anos”

 

Porque é que a urgência se tornou o principal palco desta crise hospitalar?
Por vários motivos. Em primeiro lugar, porque há muitos anos – mais de 20 – várias especialidades abandonaram a urgência. Isso foi aceite com alguns argumentos, nomeadamente decisões dos colégios das especialidades, que entenderam que determinados internos já não deviam estar na urgência. Isto foi aceite pelos bastonários e pelos governos, que provavelmente não têm autoridade para definir este tipo de assuntos.

Olhando para trás, parece-me que foi um erro. Isto é tão absurdo como, por exemplo, um médico de Endocrinologia nunca ver uma cetoacidose diabética durante a formação, porque estas estão sempre na urgência. E, depois, intitulam-se especialistas em diabetes. Não faz sentido, porque não veem uma parte fundamental e grave da doença. Da mesma forma, um pneumologista raramente vê uma asma grave agudizada ao ponto de ser entubada. Um cardiologista raramente vê uma dor no peito no início, só enfartes já diagnosticados. Um gastroenterologista vê pancreatites ou hemorragias digestivas, mas não os sintomas iniciais. Mesmo do ponto de vista formativo, isto foi um erro aceite pela Ordem dos Médicos.

Por outro lado, os governos e os Ministérios da Saúde não tomaram posição e, ao longo dos anos, as urgências ficaram abandonadas, ficando essencialmente com a Medicina Interna. É uma especialidade generalista, talvez a mais bem preparada para ver os doentes da urgência. Mas lembro-me que, no início do meu internato, há 25 anos, partilhava o trabalho pesado à noite com médicos de várias especialidades. Era extraordinário: todos aprendíamos uns com os outros.

Ao longo dos anos, ficou praticamente só a Medicina Interna a trabalhar à noite, aos fins de semana, com uma carga que foi aumentando pela ausência dos outros médicos. Se juntarmos a isso a falta de eficiência dos hospitais, trabalhar na urgência tornou-se um pesadelo. Isso reflete-se em vários indicadores e na atratividade da Medicina Interna. Hoje, para ser internista, temos de fazer tudo o que já fazíamos e ainda ficar praticamente sozinhos na urgência.

 

Falamos de um problema institucional e sistémico. Já fez referência à gestão hospitalar, ao Ministério e aos bastonários da OM, mas e os atuais modelos de governação clínica, nomeadamente as ULS?
As ULS têm uma ideia de base boa. Faz sentido que hospitais e centros de saúde funcionem em conjunto. Baseou-se na experiência histórica de duas ULS em Portugal com características muito particulares: a de Matosinhos, com território pequeno e 20 anos de experiência, que consolidou partilha de informação entre hospital e cuidados primários, e a do Alentejo, com grande área geográfica, onde é necessária cooperação absoluta.

A verdade é que a implementação não funcionou bem. A partilha de informação e contactos entre médicos não se faz por decreto ou papel, é preciso que as pessoas se conheçam. Na prática, acabou por sobrecarregar os hospitais das ULS, que não estavam preparados.

Muitas coisas funcionaram mal: especificidades dos centros de saúde e hospitais foram ignoradas, funcionaram todos da mesma forma, sem verdadeira partilha de informação. Além disso, retirou autonomia a certos centros. A ideia é boa, mas precisa de muito mais tempo para aperfeiçoar. Não é a solução para o problema que discutimos.

 

Durante anos a Medicina Interna foi aguentando o sistema. O que mudou para dizer agora: isto acabou?
A Medicina Interna é uma especialidade como as outras e deve ser valorizada pelo papel central que tem no funcionamento dos hospitais. Ser médico generalista e especialista em doentes adultos complexos é muito diferente de realizar um ato técnico, por mais experiência que ele exija. Lidar com pessoas, salvar vidas e tomar decisões complexas exige médicos preparados para ver o doente como um todo.

Esta expressão repete-se muitas vezes, mas é importante que as pessoas compreendam que o trabalho é realmente muito diferente de ficar num gabinete a tratar de um único problema. O Ministério da Saúde tem de reconhecer formalmente esta mais-valia de ter internistas nos hospitais, incluindo funções estratégicas de coordenação do internamento. Dou um exemplo: há cerca de um ano, tivemos uma conversa com a Secretária de Estado da Saúde, porque um decreto determinava que os responsáveis pelas consultas hospitalares de diabetes só poderiam ser endocrinologistas.

Na maioria das ULS, são os internistas que seguem a maior parte dos doentes com diabetes nos hospitais, enquanto nos cuidados primários são os médicos de família. A decisão era incoerente, já que os internistas garantem acompanhamento integral destes doentes. Felizmente, a situação acabou por ser corrigida na prática.

Portugal e Espanha têm uma Medicina Interna forte e generalista, modelo que já demonstrou vantagens. Alguns países estão agora a seguir um caminho semelhante. Nos Estados Unidos, criaram os hospitalistas, precisamente para integrar informação e acompanhar o doente internado. Ou seja, a evolução foi oposta à nossa: a Medicina Interna quase desapareceu, houve aumento das especialidades médicas, os hospitais ficavam vazios e faltava alguém a coordenar os cuidados, criaram os hospitalistas. Este é um exemplo de como se pode aprender com modelos internacionais para melhorar o SNS.

 

“A Medicina Interna é uma especialidade como as outras e deve ser valorizada pelo papel central que tem no funcionamento dos hospitais”

 

Os planos de contingência continuam a recair sobretudo sobre os internistas. Isto é comodismo do sistema ou falta de coragem para mudar?
Os planos de contingência são um bom exemplo de “mão cheia de nada”. Todos os anos, no inverno, repetimos a mesma estratégia: aumentar 20 a 30% das camas de Medicina Interna, mas com os mesmos médicos. Isso significa que se libertam camas de cirurgia, os cirurgiões reduzem atividade por três meses, e os internistas ficam com mais carga. É como se o resto do ano estivessem a trabalhar a 70% da sua capacidade – mas não estão!

A maioria dos serviços de Medicina Interna já ultrapassa a capacidade e utiliza macas. No inverno, a carga aumenta 30%, o que é absurdo. Um plano de contingência não pode passar simplesmente por repetir o que se fez no ano anterior. Os hospitais não podem considerar que isto é um problema da Medicina Interna, porque não é! Há uma clara falta de eficiência e produtividade hospitalar, que impede uma resposta adequada ao aumento previsível de internamentos no inverno. Um plano de contingência deve incluir soluções reais para drenar doentes e aumentar a capacidade de resposta.

 

A especialidade tem sido usada como um tampão para falhas estruturais do SNS…
Sem dúvida nenhuma! Não é um problema da Medicina Interna, porque outras especialidades – inclusive cirúrgicas, que reduzem atividade no inverno – deixam aos internistas a responsabilidade de resolver problemas de todo o hospital.

Além disso, cerca de 25% dos internamentos são de doentes com necessidades sociais, que não conseguem sair do hospital por falta de estruturas adequadas, agravando a sobrecarga. Isso representa uma falha do Estado, porque impede a libertação de camas hospitalares para outros doentes. A urgência é a ponta do icebergue, devido ao mau funcionamento do hospital. O Ministério da Saúde já deveria ter resolvido isto há muitos anos. Pagar uma cama num hospital é muito mais caro do que num lar ou unidade de cuidados continuados, e o problema persiste há décadas.

 

“Todos os anos, no inverno, repetimos a mesma estratégia: aumentar 20 a 30% das camas de Medicina Interna, mas com os mesmos médicos”

 

A SPMI defende o reconhecimento formal da Medicina Interna como líder do internamento médico. Em termos práticos, o que mudaria num hospital?
Isto teria de ser feito de forma faseada, porque não existem internistas suficientes para colocar todos os doentes internados sob sua responsabilidade de imediato. Podemos começar por organizar unidades dedicadas a determinadas patologias, com trabalho conjunto entre Medicina Interna e outras especialidades.

Por exemplo, um doente com insuficiência cardíaca poderia ser seguido por uma equipa integrada de internistas, cardiologistas, fisiatras e técnicos especializados, permitindo respostas mais rápidas e eficientes.

Mas isto exige tempo: conversar com especialidades para compreender que o modelo de organização deve ser diferente; contratar médicos; alocar especialistas a técnicas muito específicas. Também é necessário que os colégios aceitem que o modelo não retira doentes, mas permite cogestão com Medicina Interna, mantendo a formação adequada.

 

Como se evita que esta proposta seja vista como uma tentativa de tomada de poder da Medicina Interna?
Não se trata de protagonismo. O objetivo é melhorar a eficiência hospitalar e o cuidado aos doentes. Um doente adulto complexo precisa de um médico generalista que coordene cuidados e de especialistas nas suas áreas. Não pode esperar cinco dias por uma TAC ou dois dias por avaliação especializada. A Medicina Interna tem formação para assumir esta coordenação.

 

Mesmo com a criação da especialidade de Medicina de Urgência?
A criação da Medicina de Urgência é uma realidade. A SPMI não apoiou a decisão, mas agora é vigente. Parece ser uma resposta às consequências de tudo o que discutimos: as outras especialidades saíram da urgência, deixando a Medicina Interna sobrecarregada. Espero que a Medicina de Urgência seja um sucesso, mas sei que não resolverá todos os problemas, porque não há nenhum especialista capaz de resolver simultaneamente todos os casos médicos e cirúrgicos complexos. Portanto, várias especialidades, incluindo Medicina Interna, continuarão a ser essenciais na urgência.

 

E o internista deverá continuar a ser o “grande gestor” do doente, mesmo com a Medicina de Urgência?
Sim. Com esta especialidade, a Medicina Interna deve ser responsável pelo doente adulto grave e complexo, enquanto a Medicina de Urgência cobre outros casos. Há uma vantagem: formação específica para médicos que trabalham na urgência, mas não têm experiência prévia. Espero que, em alguns anos, todos os médicos da urgência tenham esta formação – um ponto positivo.

 

A perda de atratividade da Medicina Interna é um sinal de alarme organizacional. Estamos perto do ponto de rutura?
Estamos completamente. Daí todas as mensagens enviadas ao Ministério, Direção Executiva e Ordem dos Médicos, e agora à comunicação social. Recebo contactos de colegas de todo o país. Em várias zonas, sobretudo Lisboa e sul, onde o défice de internistas é enorme. Os médicos continuam a aguentar o sistema por sentido de missão, mas há limites. Jovens médicos gostam da especialidade, mas não querem viver com a sensação de não conseguir fazer bem o trabalho. Se continuar assim, acabam por escolher outra especialidade. A SPMI lidera esta mensagem sem ameaça, mas precisamos de ações concretas agora, porque o funcionamento dos hospitais e da Medicina Interna está em risco.

 

Que impacto tem esta situação na qualidade e na segurança dos cuidados prestados aos doentes?
É enorme. A falta de eficiência dificulta tudo e atinge um ponto crítico. Se um médico faz uma noite de urgência de 12 horas e depois tem de trabalhar na enfermaria, a qualidade do trabalho inevitavelmente diminui. Ou não consegue ver todos os doentes com atenção, ou fá-lo exausto. Isto acontece diariamente em muitos hospitais. Quando um médico é responsável por muitos mais doentes do que o razoável, a capacidade de decisão diminui, afetando diretamente o cuidado. Há dois anos, o Colégio e a SPMI elaboraram um documento definindo o máximo de trabalho aceitável aos internistas, mas é claramente ultrapassado.

 

No documento afirmam que discutir se o doente devia ou não ter ido à urgência é irrelevante quando este já está no hospital. Isso é uma crítica ao discurso político sobre o controlo do acesso?
Não é crítica direta, é uma posição pragmática. Os doentes vão à urgência e, quando lá estão, precisam de resposta imediata. É evidente que o acesso nos cuidados primários deve melhorar, mas quando o doente já está na urgência, tem de ser tratado. Por exemplo, o ideal seria informar previamente um doente que vai à urgência com uma dor nos joelhos há dois meses que não vai ser atendido naquele momento e que lhe vai ser marcada uma consulta no seu médico assistente. Mas isso exige médicos de família disponíveis, senão não há solução. O que estamos a dizer é que todos os doentes precisam de resposta, e isso requer trabalho de equipa – não pode ser só um problema da Medicina Interna.

 

“A falta de eficiência dificulta tudo e atinge um ponto crítico”

 

O SNS pode continuar a gerir a crise ou chegou o momento de a enfrentar?
Chegou claramente o momento de agir. Em todo o país, especialmente Lisboa, a falta de médicos deixa os profissionais exaustos e o sistema frágil. Basta uma pequena faísca para tudo colapsar. O apelo ao Ministério da Saúde e à Direção Executiva do SNS é para agir agora, para bem dos doentes e do funcionamento dos hospitais. Se continuarmos assim, daqui a alguns anos não teremos internistas suficientes. Falhar na Medicina Interna será um erro caro. Alguns países abandonaram este modelo e agora voltam a apostar em especialidades generalistas, como os hospitalistas nos EUA. Espero que Portugal aprenda com estas experiências e mude o rumo enquanto ainda é possível.

 

Sílvia Malheiro

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O Programa Nacional para a Diabetes foi recentemente atualizado. Quais diria que são as principais linhas estratégicas desta nova fase e o que muda face ao ciclo anterior?

De facto, há um novo modelo de organização do Programa Nacional para a Diabetes. Vamos ter equipas de coordenação local do Programa Nacional para a Diabetes, o que vem na sequência do que já existia há uns anos, com as unidades coordenadoras funcionais. Essas unidades foram um passo importante para juntar profissionais dos cuidados de saúde primários e dos cuidados hospitalares. Agora, com o novo modelo das ULS, foi necessário reestruturar esta organização.

Aproveitámos para criar um modelo que não só integra os cuidados de saúde primários e hospitalares, reforçando esta estrutura, como junta também outros profissionais que são igualmente importantes na área da diabetes — como pediatras, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais e representantes dos utentes e dos municípios.

A diabetes ultrapassa o mundo da saúde: é um problema que também envolve a comunidade, e por isso é importante reforçar essa ligação.

Além disso, propomos o contributo do setor privado e social, que também foi convidado a constituir equipas de coordenação local, articuladas com o Programa Nacional para a Diabetes, porque o objetivo é garantir qualidade nos cuidados em todo o sistema de saúde.

Outra novidade é a existência de tempo alocado a este tipo de atividade, reconhecendo a importância da diabetes e da estrutura de gestão e organização que a suporta. Em resumo, diria que estes são os principais pontos de novidade: vamos voltar a ter equipas, na área de cada ULS, que se vão articular. Na prática, são elas que vão implementar o programa no terreno.

 

Qual é o papel e a importância da equipa multidisciplinar nos cuidados de saúde primários e na comunidade? Quando diz que agora há um tempo destinado a isso, significa que estas pessoas estão dedicadas apenas a este trabalho?

Não totalmente, mas no modelo anterior não havia tempo alocado a estas tarefas. Agora, para os elementos efetivos, está previsto que exista tempo destinado a este tipo de funções.

Como dizia, os cuidados de saúde primários são fundamentais. Com quase um milhão de pessoas identificadas com diabetes — e muitas mais em risco —, a maior parte destas pessoas não está a ser acompanhada no hospital, nem é desejável que esteja. Portanto, o papel dos cuidados de saúde primários, onde é seguida a maior parte da população com diabetes, é absolutamente essencial.

 

Os dados mais recentes do Observatório Nacional da Diabetes mostram que a prevalência atingiu 14,2% da população — o valor mais elevado de sempre. O que está a falhar na prevenção primária, e que novas medidas o programa prevê para inverter esta tendência?

A prevenção primária — ou, se quisermos, a prevenção primordial — começam antes mesmo de nascermos. Medidas como uma alimentação saudável, atividade física regular, não fumar, manter um peso adequado… tudo isso é essencial para prevenir a diabetes. E isto vai muito além dos serviços de saúde: envolve a educação, o ordenamento do território e outras políticas públicas.

No país têm sido implementadas várias medidas, incluindo algumas de outros programas prioritários, como a redução do teor de açúcar em muitos alimentos — uma ação que já mostra resultados e que deverá continuar a ter impacto a médio e longo prazo.

Em termos de cuidados de saúde, é importante prevenir a progressão para a diabetes nas pessoas já identificadas com risco aumentado. Nesse sentido, tem-se feito um trabalho muito relevante: mais de 60% da população adulta já tem classificação de risco para o desenvolvimento de diabetes nos próximos anos.

O programa também prevê várias ações: estamos a preparar programas comunitários, quer de prevenção, quer de controlo e remissão da doença. Destaco o “Mais Saúde, Menos Diabetes”, desenvolvido em colaboração com outros programas prioritários, a divisão de literacia e a academia. Já foi testado num projeto-piloto, com bons resultados, e agora, com as equipas de coordenação local, será implementado nas Unidades Locais de Saúde.

Além disso, está a decorrer um projeto piloto que inclui exercício físico estruturado, em parceria com a Faculdade de Motricidade Humana, para oferecer às pessoas em risco aumentado um programa integrado, com componente educativa e componente prática, para prevenir a evolução para a diabetes. Idealmente, este projeto será depois alargado a todo o país.

Estes programas envolvem também municípios, universidades e outras entidades — reforçando a vertente colaborativa com a sociedade, que é essencial na prevenção.

É importante lembrar que fatores como a escolaridade também influenciam: as pessoas com menor nível de escolaridade têm uma prevalência de diabetes muito mais elevada. Isto está associado a fatores económicos, mas também ao acesso à informação e à capacidade de adotar estilos de vida saudáveis.

 

Esse aumento da prevalência pode também estar relacionado com um diagnóstico mais precoce?

Na verdade, estes 14% de que estamos a falar já são uma estimativa que inclui também as pessoas que não estão diagnosticadas. Nos cuidados de saúde primários, temos identificadas mais de 930 mil pessoas com diabetes (dados do final de 2024). As estimativas da Federação Internacional da Diabetes (IDF) e do Observatório Nacional da Diabetes referem-se à população entre os 20 e os 79 anos, com uma prevalência padronizada estimada em 10,5%.

Quando observamos a prevalência real na população, chegamos aos mais de 14%. Essas estimativas baseiam-se num estudo de 2009-2010, que mostrava que mais de 40% da população não estava diagnosticada. Com base nisso, são calculadas as projeções atuais – os 14%.

 

Pensei que este aumento de números pudesse estar relacionado com o facto de estarmos a diagnosticar mais?

É verdade que estamos a diagnosticar mais casos: só em 2024 foram registados mais de 80 mil novos diagnósticos. O número total de pessoas com diabetes diagnosticada também tem aumentado todos os anos, atingindo já quase 9% das pessoas registadas nos cuidados de saúde primários, ou seja, cerca de 9% da população. Ainda assim, estima-se que existam muitas pessoas por identificar.

 

A obesidade e o sedentarismo são grandes fatores de risco para a diabetes. Como é que estes programas articulam a resposta à diabetes com as políticas de alimentação saudável e de atividade física?

Estão perfeitamente alinhados. Tudo o que o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e o Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física fizerem — ou o novo Programa Nacional de Gestão de Obesidade — beneficia diretamente a diabetes. Muitos programas e projetos são feitos em conjunto – como os que lhe falei – e todas as medidas têm resultados positivos para esta área.

 

Como é feita a seleção das pessoas que participam nestes programas?

Normalmente, são parcerias com a área da saúde. O programa que referi ainda vai para o terreno, mas já temos o “Diabetes em Movimento”, que existe há vários anos e está atualmente implementado em 60 municípios. É um programa de exercício físico estruturado para pessoas com diabetes tipo 2, desenvolvido em parceria com o Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física.

O recrutamento é feito através dos profissionais de saúde — conta habitualmente com a participação do município, envolve enfermeiros e de fisiologistas do exercício —, e as atividades decorrem em grupos de pessoas com diabetes. No caso do novo programa de prevenção, será dirigido a pessoas com risco elevado de desenvolver a doença.

 

E há boa adesão?

Quem participa gosta bastante, mas não podemos dizer que a maioria das pessoas adere. Os recursos também ainda não permitem abranger toda a população. Mas quem participa fica satisfeito e quer continuar.

Mudar comportamentos é difícil, e por isso a Psicologia tem aqui um papel essencial. É preciso promover uma mudança comportamental ao nível da sociedade e também, criar um ambiente que facilite escolhas saudáveis e torne essas opções automáticas e naturais — o que nem sempre acontece.

 

Um dos eixos do programa é a deteção precoce e o rastreio da diabetes tipo 2. Há metas concretas para aumentar o diagnóstico precoce e reduzir os casos não detetados?

Sim. O cálculo de risco é uma ferramenta essencial, que deve ser aplicada a toda a população adulta a partir dos 18 anos. Esse indicador é avaliado anualmente, e o objetivo é que a cada três anos todas as pessoas tenham um cálculo de risco efetuado. No final do ano passado, já tínhamos cerca de 62% da população coberta, percentagem que tem aumentado nos últimos anos.

Isto é muito importante para o diagnóstico, porque quem apresenta risco alto ou muito alto é encaminhado para exames laboratoriais. Obviamente, para além do diagnóstico através de análises que já é feito habitualmente em pessoas com mais de 35 anos ou outros fatores de risco específicos. Este cálculo de risco permite assim um diagnostico mais precoce de quem tem diabetes e a identificação de pessoas em risco de desenvolver diabetes. Quem tem diabetes tem a oportunidade de iniciar tratamento mais precoce, quem não tem diabetes, mas está em risco, poderá adotar medidas para evitar ou atrasar o seu aparecimento. Ou seja, é a partir do questionário de risco de diabetes que selecionamos as pessoas para entrarem no programa de que falámos há pouco.

Além disso, qualquer pessoa pode aceder ao SNS 24 para calcular o seu risco. Se o resultado indicar risco aumentado, o sistema pergunta se quer comunicar o resultado à sua equipa de saúde, onde poderá fazer o diagnóstico e ter o aconselhamento adequado. Nos cuidados de saúde primários o rastreio da diabetes está a ser feito por rotina e se as pessoas estiverem alertas, podem ajudar a que isto seja feito de forma sistemática e que se cubra toda a população.

 

Mas, a obesidade infantil também é uma grande preocupação, uma vez que tem vindo a aumentar. Como se combate este problema nas crianças, que ainda não têm diabetes, até como forma de prevenção desta patologia?

Essa é uma área crucial. A intervenção deve começar desde o início — incluindo a infância e até a gravidez, ou seja, a vida intrauterina. É fundamental promover estilos de vida saudáveis desde cedo.

A escola e a educação são determinantes. Temos, por exemplo, um concurso anual para realização de vídeos nas escolas, sobre diabetes, que promove o conhecimento, a integração das crianças com diabetes tipo 1 e a prevenção da diabetes tipo 2 — e acaba também por levar informação às famílias.

Para prevenir a obesidade infantil, é essencial regular a alimentação nas escolas e nos espaços envolventes, bem como controlar a publicidade dirigida às crianças e jovens.

É a promoção de estilos de vida saudáveis para prevenir a obesidade e a diabetes. Promover a literacia geral sobre o assunto, a inclusão nos conteúdos escolares, medidas como alimentação regulada nas escolas e nos espaços em redor, evitar a publicidade que promove hábitos menos saudáveis, como o consumo de alimentos açucarados, ter um ambiente que promove a prática de exercício físico e evita o tabagismo, entre outras medidas gerais.

 

Mas, nem todas as pessoas com diabetes têm obesidade?

A diabetes tipo 2 é, na verdade, um grupo muito heterogéneo — nem todas as pessoas têm maus hábitos alimentares, excesso de peso ou são sedentárias. Há mecanismos fisiopatológicos distintos e seja qual for o motivo pelo qual tem diabetes, é essencial combater o estigma associado à doença.

Outro aspeto importante é que muitas pessoas estão em idade ativa e é importante garantir que dispõem de condições para gerir bem a diabetes no trabalho, sem discriminação.

Continua a existir a ideia errada de que “se tens diabetes é porque fizeste alguma coisa mal”, mas há pessoas com peso perfeitamente normal, e fatores de risco menos óbvios, que também têm diabetes.

Acresce que a distinção entre diabetes tipo 1 e tipo 2 nem sempre é fácil. Hoje, começa-se até a identificar a diabetes tipo 1 em fases pré-clínicas, através da deteção de anticorpos, o que exige um esforço acrescido de classificação e acompanhamento por parte dos profissionais de saúde.

 

A monitorização contínua da glicemia e as novas tecnologias estão a mudar a gestão da diabetes. Que planos existem para alargar o acesso a dispositivos digitais e telemonitorização no SNS?

O acesso à monitorização contínua da glicose tem aumentado bastante desde 2018, quando começou a ser comparticipada. No final de 2024, estimava-se que mais de 40 mil pessoas utilizassem estes dispositivos. São sobretudo pessoas com diabetes tipo 1 ou diabetes tipo 2 que fazem múltiplas administrações diárias de insulina.

Há cerca de 33 mil pessoas com diabetes tipo 1 em Portugal, e são elas as principais destinatárias dos dispositivos de monitorização continua da glicose e das bombas de insulina. O acesso aos sistemas de administração automática de insulina, disponibilizados através das farmácias comunitárias desde janeiro, foi um grande avanço. Entre fevereiro e junho houve de facto um crescimento bastante significativo das pessoas que tiveram acesso. No final de junho já eram mais de 5.500 pessoas que passaram a usar bombas de insulina, das quais mais de 3.500 com sistemas automáticos.

Prevemos que o número continue a crescer, porque estes sistemas melhoram significativamente o controlo glicémico, a qualidade de vida e o conforto das pessoas com diabetes tipo 1.

Temos também o acesso a novos medicamentos na área da diabetes tipo 2. Nesta área, a análise das prescrições, revela que tem havido um consumo crescente de fármacos para a diabetes, nomeadamente de fármacos mais recentes. Este consumo tem sido acompanhado de custos crescentes. Globalmente, temos assistido a melhorias progressivas no controlo da diabetes e de outros fatores de risco cardiovascular em pessoas com diabetes, como a pressão arterial e o colesterol.

 

As desigualdades sociais e regionais influenciam o controlo da doença. Que estratégias existem para garantir equidade no acesso aos cuidados e terapêuticas?

O novo modelo, que envolve todas as ULS, com equipas de coordenação local do Programa Nacional para a Diabetes, pode ajudar muito, promovendo comunicação, cooperação e planos conjuntos, mas que são adaptados e implementados localmente. Queremos também criar indicadores comuns de ganhos em saúde, que permitam avaliar o que estamos a alcançar e apoiar as decisões futuras.

Porque de facto, existem assimetrias regionais marcadas, nomeadamente em termos de resultados na diabetes, com um claro gradiente norte-sul, e é fundamental reduzir essas diferenças, alcançando os melhores resultados possíveis.

 

Em termos de custos, a diabetes continua a representar uma fatia importante do orçamento da saúde. Que impacto espera que estas medidas tenham na sustentabilidade do SNS?

Tudo o que permita ganhos em saúde — para as pessoas com diabetes e para a comunidade — será uma mais-valia. Temos 14% da população entre os 20 e os 79 anos com diabetes e muitas mais com pré-diabetes. Se conseguirmos melhorar os resultados destas pessoas, melhoraremos também os da comunidade.

Prevenir é sempre mais sustentável. E já se começam a ver resultados positivos: melhor controlo glicémico, da pressão arterial e do colesterol; redução de internamentos por enfarte do miocárdio e AVC; diminuição da mortalidade e dos anos de vida perdidos por diabetes.

Ainda há muito a melhorar — há pessoas mal controladas, muitas amputações —, mas os rastreios e os cuidados de ambulatório têm melhorado. Temos das taxas mais baixas de internamento por diabetes na Europa, o que demonstra a qualidade dos cuidados prestados fora do hospital. Temos, sim, muitas pessoas internadas por outros motivos e que também têm diabetes.

 

O documento dá ênfase à literacia em saúde e à autogestão da doença. Como se pretende envolver mais os doentes na gestão do seu tratamento e estilo de vida?

Na diabetes, a autogestão é essencial. É uma doença em que a pessoa gere o seu dia-a-dia: o que come, o exercício que faz, a medicação, a monitorização da glicose e da pressão arterial, a adesão aos rastreios, por exemplo.

A educação terapêutica sempre foi uma componente central do acompanhamento da pessoa com diabetes. E os programas comunitários que referi também reforçam essa autonomia, transferindo para as pessoas e para a comunidade uma parte da responsabilidade pela gestão da doença. Envolvermos as pessoas com diabetes, envolver as autarquias também acaba por ser transferir para a comunidade parte desta responsabilidade, que na realidade já têm, de forma consciente ou não. A diabetes acaba por estar em todas as políticas, como se costuma dizer, e é verdade, muitas áreas acabam por ter reflexo nesta patologia.

 

É endocrinologista. O que a trouxe até aqui?

O desejo de ajudar a melhorar a qualidade de vida das pessoas com diabetes e, no fundo, de toda a sociedade. Pode parecer um pouco ambicioso, mas cada passo conta. É claro que podemos sonhar e aspirar atingir o melhor para todos, mas a verdade é que ao melhorarmos os resultados em diabetes, também melhoramos os resultados na doença cardiovascular, prevenimos alguns tipos de cancro e uma série de outras patologias. Além disso, reduzimos custos para o sistema de saúde e para as pessoas. Se conseguíssemos evitar a maioria dos casos de diabetes, ganharíamos todos: em saúde, qualidade de vida e sustentabilidade.

Portanto, o que me trouxe aqui foi o desafio de tentar contribuir para melhorar a qualidade de vida das pessoas. É tentar contribuir para uma sociedade melhor. E de facto a diabetes é um grande desafio para a sociedade inteira. Portanto, não sou “eu”, somos todos os que estamos envolvidos e se conseguirmos incluir a sociedade inteira vamos conseguir continuar a melhorar os resultados.

 

Por fim, olhando para 2027, que resultados gostaria de alcançar para poder dizer que esta nova fase do Programa Nacional para a Diabetes foi um sucesso?

Melhores resultados ou, pelo menos, melhor qualidade de cuidados, para depois no futuro colhermos os resultados. Porque muitos resultados serão a longo prazo. Se tivermos os cuidados mais harmonizados, nesta vertente de criar valor e ter melhores resultados para a pessoa, será excelente! Ter um programa de prevenção no terreno, programas de remissão, ter a avaliação de resultados a funcionar, as equipas locais alinhadas. Seria excelente.

 

Sílvia Malheiro

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Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina. “Os sintomas e sinais exigem vigilância redobrada” https://saudeonline.pt/miocardiopatia-amiloide-por-transtirretina-os-sintomas-e-sinais-exigem-vigilancia-redobrada/ https://saudeonline.pt/miocardiopatia-amiloide-por-transtirretina-os-sintomas-e-sinais-exigem-vigilancia-redobrada/#respond Tue, 11 Nov 2025 12:30:24 +0000 https://saudeonline.pt/?p=180466 A Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina é uma doença rara, cujos sintomas são semelhantes a patologias cardíacas mais comuns. Face a esta complexidade, o diagnóstico é multifacetado, como explica Dulce Brito, cardiologista e membro do Conselho Técnico-Científico da Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca (AADIC). A especialista também fala sobre o manual lançado a pensar nos doentes.

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Como se caracteriza a Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina?

A ATTR-CM, ou Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina, é uma doença cardíaca considerada rara, causada pela acumulação de proteínas amiloides no organismo, especialmente no coração. Por ser grave, a esperança média de vida após o diagnóstico é de apenas três a quatro anos. Pode ter origem hereditária ou surgir associada ao envelhecimento (forma wild type), sem causa genética conhecida. Um diagnóstico em fase inicial e o tratamento dirigido, em conjunto com um suporte social adequado, podem fazer a diferença no controlo da progressão da doença e no prolongamento de uma sobrevida com qualidade.

Quem é mais afetado?

A forma hereditária tende a manifestar-se mais cedo, entre os 50 e os 60 anos, e distribui-se de forma equitativa entre homens e mulheres. Caracteriza-se pela coexistência de insuficiência cardíaca, sintomas que afetam o sistema nervoso e/ou o aparelho digestivo, e há frequentemente um historial de síndrome do túnel cárpico (que pode ser bilateral). Já o risco de desenvolver a ATTR-CM wild type é mais elevador em homens caucasianos com idade superior a 60 anos. O envolvimento cardíaco é predominante, sendo a insuficiência cardíaca a manifestação mais frequente, bem como outras manifestações cardíacas como fibrilhação auricular, bloqueios de condução ou outras arritmias e, também um passado de síndrome do túnel cárpico bilateral.

“O tratamento da Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina (ATTR-CM) é sempre individualizado e assenta em dois pilares: o tratamento de suporte e a terapia específica”

O que é mais desafiante no diagnóstico e no tratamento?

O processo de diagnóstico da ATTR-CM é multifacetado e envolve uma combinação rigorosa de exames clínicos (sangue e urina) e imagiológicos especializados (ecocardiograma, eletrocardiograma, ressonância magnética cardíaca, cintigrafia óssea), complementados por teste genético ou, em alguns casos, por biópsia, idealmente cardíaca. Os exames iniciais são pedidos pelo médico quando a suspeita clínica surge, outros terão que ser equacionados já em centros especializados.

No entanto, o mais profundo desafio reside na vertente emocional. Receber o diagnóstico de uma patologia que acarreta uma esperança média de vida curta, tem um impacto psicológico avassalador. Lidar com esta situação implica enfrentar uma carga emocional intensa, marcada por sentimentos de luto, medo, incerteza e ansiedade perante o futuro, o que torna a gestão diária da doença extremamente difícil. Perante esta realidade, evitar o isolamento é fundamental. O suporte incondicional de familiares, amigos, grupos de apoio constituídos por pessoas que partilham a mesma situação clínica (outros doentes) e a orientação contínua das equipas de saúde, são absolutamente vitais para o bem-estar emocional e para fornecer a estrutura necessária para enfrentar a patologia.

Sendo uma doença que se pode confundir com outras patologias cardíacas, a que deve estar mais atento o médico de família, que costuma ser a primeira “frente” no sistema de saúde?

Devido à semelhança com patologias cardíacas comuns, os sintomas e sinais de ATTR-CM exigem vigilância redobrada. É necessário atentar a manifestações como fadiga, arritmias, diminuição da pressão arterial em doentes previamente hipertensos (e que deixam de necessitar dos medicamentos hipotensores que tomavam), edemas nos membros ou abdómen, nictúria, tonturas, episódios de síncope e anorexia. Além destes, a doença pode apresentar um conjunto de indicadores menos óbvios, mas igualmente relevantes: anomalias oculares (com alterações visuais), rotura espontânea do tendão do bicípede, disfunção gastrointestinal (diarreia, obstipação), necessidade de substituição articular (anca/joelho), bem como sintomas neurológicos (neuropatia) como dormência, formigueiro ou dor nas extremidades (mãos, pés e dedos), e dor lombar ou nas pernas.

“Este guia é uma ferramenta essencial e prática destinada a doentes com ATTR-CM e seus cuidadores. Foi criado para colmatar a lacuna de informação e facilitar a gestão desta doença progressiva”

Qual é o tratamento mais adequado? Tem havido progressos neste âmbito?

O tratamento da Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina (ATTR-CM) é sempre individualizado e assenta em dois pilares: o tratamento de suporte e a terapia específica. O tratamento de suporte foca-se na gestão dos sintomas da insuficiência cardíaca (como a retenção de líquidos e falta de ar, geralmente com diuréticos) e no controlo de arritmias, sendo crucial sublinhar que o recurso a medicamentos cardíacos convencionais requer prudência. Contudo, o grande avanço reside nas terapias modificadoras da doença, cujo objetivo é intervir na origem do problema, impedindo a formação e deposição da proteína amiloide.

Nesta área têm sido registados progressos terapêuticos muito significativos que alteram a história natural da doença, reduzindo a mortalidade e as hospitalizações e melhorando a capacidade funcional e a qualidade de vida. Com estas terapêuticas inovadoras e o diagnóstico precoce, a ATTR-CM, que anteriormente apresentava opções limitadas, entra numa nova era terapêutica que permite uma gestão muito mais promissora da doença e, consequentemente, o aumento da sobrevida com melhor qualidade.

 A World Heart Federation lançou o livro/agenda “Viver com Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina: Um guia para doentes”. De que forma esta ferramenta poderá ser uma mais-valia para os doentes e familiares?

Sabemos que informação é poder e que a posse de informação fidedigna e acessível é fundamental para que o doente consiga gerir a sua condição de forma proativa e tomar decisões informadas. Organizações como a AADIC – Associação de Apoio aos Doentes com Insuficiência Cardíaca a nível nacional, ou a World Heart Federation, internacionalmente, prestam um suporte inestimável: disponibilizam aconselhamento, recursos científicos validados e fomentam a ligação entre pessoas com a mesma experiência. Um exemplo prático deste apoio é o novo manual “Viver com Miocardiopatia Amiloide por Transtirretina: um guia para doentes”, da iniciativa da World Heart Federation e do qual sou coautora.

Este guia é uma ferramenta essencial e prática destinada a doentes com ATTR-CM e seus cuidadores. Foi criado para colmatar a lacuna de informação e facilitar a gestão desta doença progressiva. Mais do que um guia informativo, é um toolkit de empoderamento que inclui um diferencial de instrumentos de monitorização e registo (como rastreadores de sintomas e medicamentos) e um diário que facilita a organização e o controlo ativos dos utilizadores sobre a sua saúde. O conteúdo abrange desde a compreensão detalhada da ATTR-CM e o aconselhamento genético, até à gestão prática do estilo de vida (dieta e exercício) e o crucial apoio à saúde mental. Sem dúvida uma ferramenta útil com aplicação direta no aperfeiçoamento da comunicação com a equipa médica e na qualidade de vida diária.

 Maria João Garcia

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“Os Cuidados Paliativos não tratam o fim da vida. Tratam a vida como ela é” https://saudeonline.pt/os-cuidados-paliativos-nao-tratam-o-fim-da-vida-tratam-a-vida-como-ela-e/ https://saudeonline.pt/os-cuidados-paliativos-nao-tratam-o-fim-da-vida-tratam-a-vida-como-ela-e/#respond Wed, 29 Oct 2025 12:36:56 +0000 https://saudeonline.pt/?p=180047 No Dia Mundial dos Cuidados Paliativos Pediátricos, a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) e várias sociedades médicas lançaram um manifesto que denuncia a situação desta área em Portugal.
Em entrevista ao SaúdeOnline, Cândida Cancelinha, vice-presidente da APCP e especialista em Cuidados Paliativos Pediátricos no Hospital Pediátrico de Coimbra, explica os desafios enfrentados pelas equipas – tanto de Cuidados Paliativos Pediátricos como de adultos –, o impacto para as famílias e a urgência de garantir uma cobertura mais equitativa e eficaz.
Para a médica, os Cuidados Paliativos não tratam o fim da vida, mas sim a vida em toda a sua duração, assegurando qualidade, dignidade e apoio personalizado aos doentes e suas famílias.

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No Dia Mundial dos Cuidados Paliativos Pediátricos, a APCP e várias sociedades médicas lançaram um manifesto que denuncia a situação dos Cuidados Paliativos Pediátricos em Portugal, baseado num inquérito. Que conclusões mais a alarmaram?
Este inquérito começou em maio de 2025, junto das equipas sinalizadas como existentes em Portugal, incluindo equipas especializadas, generalistas ou em constituição. Obtivemos 23 respostas, estimando que representem mais de 80% das equipas existentes em Portugal continental e nas Ilhas.

As principais conclusões que motivaram o manifesto são preocupantes: nenhuma equipa funciona com os recursos humanos mínimos exigidos no Plano Estratégico de Desenvolvimento para Cuidados Paliativos 2023-2024. Ou seja, nenhuma equipa possui todos os médicos, enfermeiros, assistentes sociais e psicólogos necessários.

Além disso, há uma forte desigualdade regional: Algarve e Alentejo estão praticamente desprovidos de equipas, enquanto o interior do país continua com escassez acentuada. Nos Açores já existe uma equipa generalista a funcionar e, na Madeira, uma em constituição.

Mesmo nas equipas com recursos, muitos profissionais têm dificuldade em cumprir os critérios de formação prática, especialmente assistentes sociais e psicólogos, porque a maioria não se dedica exclusivamente aos Cuidados Paliativos. Acresce a escassez de apoio domiciliário, fundamental para crianças com mobilidade limitada ou em situações de vulnerabilidade.

O apoio peri e neonatal também é incipiente. É uma área em desenvolvimento que exige sensibilização e formação contínua.

 

Por que é tão difícil apostar nesta área logo desde o nascimento?
Nos últimos meses, temos assistido a notícias sobre o encerramento de serviços de Obstetrícia ou Pediatria, mas quase ninguém fala sobre crianças que não têm acesso a Cuidados Paliativos, ou sobre grávidas e puérperas em situações de risco sem apoio especializado nesta área.

A saúde ainda é tratada como um bem essencial, mas não se olha para a qualidade de vida. Apenas cerca de 10% das crianças em Portugal têm acesso a estes cuidados, e a situação praticamente não mudou nos últimos cinco anos. É urgente alterar este cenário, e é por isso que a APCP lançou este manifesto.

Mesmo com o Orçamento do Estado de 2026, embora os Cuidados Paliativos estejam nas grandes opções, não há medidas concretas, e a área continua diluída nos Cuidados Continuados – o que é um erro que nos custa caro.

 

“As principais conclusões que motivaram o manifesto são preocupantes: nenhuma equipa funciona com os recursos humanos mínimos exigidos no Plano Estratégico de Desenvolvimento para Cuidados Paliativos 2023-2024”

 

Qual o verdadeiro impacto para as famílias, tanto das equipas de Cuidados Pediátricos peri e neonatais como infantis?
Podemos falar de diferentes tipos de crianças com necessidades paliativas: muitas têm doença oncológica, mas, apesar de essa ser a primeira patologia que associamos a Cuidados Paliativos Pediátricos, a maioria das crianças tem doenças neurológicas, metabólicas ou síndromes genéticas, muitas vezes desde o período neonatal, devido a complicações no parto ou malformações durante a gravidez.

Normalmente, estas situações começam logo num período de grande vulnerabilidade para as famílias, que têm de lidar com dependências múltiplas, polimedicação e dispositivos médicos complexos, como ventiladores, gastrostomias e oxigénio. Precisam de treino para cuidar dos filhos e muitas chegam às equipas de Cuidados Paliativos já com elevados níveis de exaustão.

As equipas podem reduzir idas às urgências, internamentos e mortes em ambiente hospitalar, oferecendo acompanhamento domiciliário e melhorando a qualidade de vida das crianças – otimizando o controlo de sintomas e reduzindo a sobrecarga das famílias – e, igualmente importante, a sustentabilidade do SNS.

De acordo com um estudo publicado na Acta Médica Portuguesa, em Portugal, estas crianças representam 40% das despesas hospitalares e 85% das mortes em contexto hospitalar.

 

Este manifesto apresenta 20 reivindicações e envolve várias sociedades médicas. Sente que há finalmente uma frente unida para exigir mudanças concretas?
Sim. Os Cuidados Paliativos Pediátricos em Portugal têm pouco mais de 10 anos, mas as especialidades reconhecem cada vez mais a sua importância.

Falando da experiência da equipa a que pertenço, temos muitas especialidades que, há cerca de cinco anos, não referenciavam, mas que, depois de compararem o antes e o depois, perceberam e passaram a encaminhar mais precocemente e mais vezes as crianças com necessidades mais complexas.

O manifesto surgiu de um encontro promovido em Leiria, a 10 de outubro, no Dia Mundial de Sensibilização para os Cuidados Paliativos Pediátricos. Apresentámos os resultados do inquérito, manifestámos preocupação e foram seis sociedades que quiseram subscrever o manifesto. Isso demonstra que não estamos sozinhos nesta luta.

Precisamos de profissionais com formação e tempo para acompanhar as crianças e famílias. Muitos querem dar o melhor, mas é à custa de horários extra.

 

A escassez de profissionais desta área, tal como a falta de formação, pode estar também relacionada com essa falta de referenciação que mencionou, por parte dos próprios profissionais de saúde? Se não há referenciação…
Sim, mas é sobretudo uma questão de sensibilização das equipas de outras especialidades e de comunicação institucional, que deve ser feita através de um trabalho de muita proximidade. Naturalmente, há profissionais mais sensíveis à área e outros menos.

Mesmo que não seja possível referenciar ainda em todos os serviços de Pediatria, dada a escassez de equipas em alguns deles, existem equipas especializadas nos cinco grandes centros hospitalares e universitários e já várias equipas generalistas. Porém, a falta de conhecimento e sensibilização impede uma referenciação mais ampla.

Por outro lado, ainda existe algum estigma entre os profissionais de saúde: os Cuidados Paliativos não são apenas para o fim da vida. O nosso trabalho é melhorar a vida das crianças, descentralizando cuidados do hospital e permitindo que estejam em casa, no seu ambiente normal, com impacto positivo na sua vida e na das famílias.

 

“Mesmo com o Orçamento do Estado de 2026, embora os Cuidados Paliativos estejam nas grandes opções, não há medidas concretas, e a área continua diluída nos Cuidados Continuados”

 

Talvez seja então necessário fazer uma campanha junto dos profissionais de saúde sobre Cuidados Paliativos, para que haja maior sensibilidade e referenciação?
Exatamente. O manifesto envolve diferentes sociedades científicas no sentido de as comprometer, internamente, a trabalhar a formação pré e pós-graduada, a garantir referenciação adequada e a reforçar a sensibilização. Desta forma, estaremos a dar um passo importante. Apesar de tudo, nos últimos 10 anos houve progresso significativo, e os Cuidados Paliativos já começam a ser abordados na formação pré-graduada em diversas áreas profissionais.

Esta foi a vontade da APCP: ao subscreverem um manifesto, estas instituições passam também a ter a responsabilidade de pensar em quem referenciar, quando e como, e quais os centros adequados. É um caminho de muita sensibilização e de muita formação.

 

Sente que há vontade política em colocar os Cuidados Paliativos Pediátricos na agenda das prioridades de saúde?
Há vontade, mas ainda faltam medidas concretas para a Pediatria. Apesar de os Cuidados Paliativos em geral estarem nas grandes opções de 2025-2029, Portugal investe cerca de 0,2% do PIB nesta área, enquanto a média da OCDE é de 1 a 2%. Este investimento libertaria recursos para outras áreas, reduziria internamentos e melhoraria a vida das crianças e da sociedade.

Recorrentemente, a APCP tem mostrado a sua preocupação junto do Ministério da Saúde e da Sra. Ministra da Saúde, e temos sentido abertura, até para os pedidos de audiência que fazemos. No entanto, muitas outras áreas continuam a passar à frente em termos de prioridade – talvez porque ainda não se percebeu a importância desta aposta, tanto para as crianças e suas famílias como para a sustentabilidade do próprio SNS. A ausência de nomeação de nova Comissão Nacional de Cuidados Paliativos fala por si…

 

A APCP celebra 30 anos este mês. Que balanço faz da evolução destes cuidados em Portugal nas últimas três décadas?

Há muitos progressos, mas enquanto houver pessoas sem acesso a equipas de Cuidados Paliativos, o trabalho não está concluído. Hoje, cerca de 70% da população ainda não tem cobertura comunitária adequada. O modelo continua hospitalocêntrico, e é urgente expandir o apoio comunitário.

Mas, focando-me no caminho que já percorremos, temos equipas em todos os serviços hospitalares. Esta foi uma grande vitória, que resultou do intenso trabalho de formação, integração na formação pré e pós-graduada e sensibilização contínua. É o fruto do esforço da APCP e de todos os profissionais envolvidos, que ao longo destes 30 anos batalharam por mais e melhores cuidados.

Para os próximos 30 anos, a grande mudança terá de ser ao nível das equipas comunitárias, em todo o país, para que nessa altura possamos dizer que temos uma cobertura de 100%, tal como já temos nos hospitais.

 

“Portugal investe cerca de 0,2% do PIB nesta área, enquanto a média da OCDE é de 1 a 2%. Este investimento libertaria recursos para outras áreas, reduziria internamentos e melhoraria a vida das crianças e da sociedade”

 

Trabalhar em Cuidados Paliativos Pediátricos deve ser emocionalmente intenso. O que a move a continuar este trabalho e que mensagem deixa às famílias e equipas de profissionais?
É emocionalmente desafiante, mas muito recompensador. Acompanhamos a forma mais intensa e injusta de sofrimento que qualquer ser humano pode vivenciar e aprendemos diariamente com a capacidade de adaptação e superação das famílias. Acompanhar um filho com uma doença crónica, para a maioria de nós, é, à primeira vista, um processo contranatura. Mas existe e tem de ser trabalhado.

É um caminho de constante aprendizagem com as crianças, mas também com as famílias, que, mesmo neste processo, conseguem ter uma capacidade de adaptação, superação e transformação.

A estas famílias deixo uma palavra de gratidão: é através delas que aprendemos como o sofrimento pode transformar o ser humano pela positiva, levando à dedicação, amor, entrega, superação diária e resiliência. São elas que todos os dias nos fazem crescer um bocadinho na forma como olhamos e acompanhamos o outro neste processo. Esse “outro” são as crianças, os adolescentes e as famílias.

Mesmo depois de todo o caminho que percorreram, algumas famílias, nas últimas horas ou minutos de vida dos seus filhos, agradecem-nos. Fazem-nos sentir que, provavelmente, fizemos a diferença.

Aos profissionais, a mensagem é clara: quando uma família solicita referenciação para Cuidados Paliativos é porque precisa verdadeiramente. É para referenciar. E isso não significa perder o acompanhamento pela equipa de referência. Podem fazer-se em simultâneo, e todos ganham: crianças, famílias e profissionais.

Os Cuidados Paliativos não tratam o fim da vida. Tratam a vida como ela é: com a certeza de que deve ser vivida o mais intensamente e da melhor forma possível, garantindo acompanhamento personalizado, qualidade de vida e apoio constante, independentemente da sua duração.

Sílvia Malheiro

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“Um médico nas ERPI deveria ser o grande coordenador dos cuidados” https://saudeonline.pt/um-medico-nas-erpi-deveria-ser-o-grande-coordenador-dos-cuidados/ https://saudeonline.pt/um-medico-nas-erpi-deveria-ser-o-grande-coordenador-dos-cuidados/#respond Thu, 18 Sep 2025 09:07:57 +0000 https://saudeonline.pt/?p=178741 No âmbito da 3.ª Reunião da Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI), que se realiza a 20 de setembro, o seu presidente, Gorjão Clara, sublinha a urgência de melhorar a assistência prestada nas estruturas residenciais para idosos (ERPI). Em entrevista ao SaúdeOnline, o médico falou da necessidade de haver obrigatoriedade da presença médica nas instituições, do futuro da Geriatria em Portugal e das soluções para promover a qualidade de vida dos idosos institucionalizados.

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geriatria

Quais são os principais objetivos da 3.ª Reunião da Associação dos Médicos dos Idosos Institucionalizados (AMIDI) e o que esperam alcançar com este evento?
Os objetivos da reunião coincidem com os da própria AMIDI. Antes de mais, pretende-se dar a conhecer a associação, criada em 2022 com o objetivo de otimizar a assistência nas ERPI (estruturas residenciais para idosos), os antigos lares. Pretendemos mostrar que a AMIDI está ativa e a trabalhar na formação de todos os que atuam nestas instituições, atualizando conhecimentos nas várias áreas do cuidado a idosos.

Como é sabido, a assistência prestada aos idosos não é a melhor e os lares enfrentam várias deficiências. Uma das principais é que nem todos têm contrato com médicos, uma vez que a lei não obriga.

Quero chamar a atenção para algo que considero impressionante: as ERPI multiplicaram-se nos últimos anos. Existem ERPI legais e clandestinas. Contudo, é impossível acabar com as clandestinas, porque não há destino para esses idosos. Nenhuma tem obrigatoriedade de contratar médicos. Porém, na nossa perspetiva, o médico deveria ser o “grande coordenador” de toda a assistência prestada nas ERPI.

Na Holanda, existe até a especialidade de “médico dos lares”. Em Portugal, apesar de já termos reunido com o Ministério da Saúde e com a Tutela da Solidariedade Social, não consegui que a legislação obrigasse à contratação de médicos.

 

Há alguma novidade ou tema específico que se destaca nesta edição?
Queremos trazer a experiência de Espanha, onde a contratação de médicos é obrigatória e proporcional ao número de camas da instituição. Teremos como convidada a professora Esther Lueje Alonso, que vai partilhar a realidade das ERPI espanholas.

Abordaremos ainda outros temas relevantes, como a utilização da Inteligência Artificial no apoio a idosos. Esta área não se relaciona tanto com as ERPI, mas com idosos que ainda vivem em casa, muitas vezes isolados, podendo ter, através de programas de Inteligência Artificial, apoio para não se sentirem sozinhos.

Também teremos temas como a disfagia – muitas vezes ignorada, mas com sérias consequências, como as pneumonias de aspiração – e a gestão da medicação nas ERPI.

Refletiremos sobre a elevada idade média atual dos idosos institucionalizados, que ronda os 86 anos, e sobre o aumento do número de comorbilidades nestes doentes.

 

Como referiu, a AMIDI tem defendido a obrigatoriedade de assistência médica nos lares. Além da questão da legislação, que outros obstáculos existem e como podem ser superados?
O maior obstáculo é a falta de legislação. O Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social deveria garantir que, pelo menos nos lares legais, a contratação de médicos fosse obrigatória.

 

Quais são as principais condições de saúde que afetam os idosos institucionalizados?
A maioria destes doentes apresenta múltiplas patologias. Num estudo realizado há alguns anos, cada idoso internado apresentava em média 7,9 doenças concomitantes. Hoje, com a idade média de 86 anos, é difícil encontrar um idoso institucionalizado que não precise de acompanhamento médico regular. Além disso, cerca de 44% tem demência e 42% depende de terceiros para as atividades básicas da vida diária.

 

Além da questão da assistência médica, que medidas a AMIDI propõe para melhorar a qualidade de vida e o bem-estar dos idosos em instituições?
A primeira medida é mesmo garantir assistência médica permanente. Isso melhoraria a qualidade dos cuidados, a dignidade e reduziria a hospitalização desnecessária. É fundamental não esquecer que estas pessoas têm história, identidade e valor, e que devem ser tratadas com humanidade até ao fim da vida.

Um médico que trabalhe numa ERPI deve lá ir todos os dias e estar disponível sempre que chamado. Não pode acontecer que, como atualmente, os idosos sejam enviados para a urgência de um hospital, numa situação aguda. A presença do médico, além de melhorar os cuidados e o bem-estar dos idosos, evita ao Estado os custos da hospitalização que poderia ser prevenida com assistência adequada nas ERPI.

É impressionante o número de idosos que estão à espera, em média cinco meses, de uma vaga numa ERPI. Um internamento inapropriado num hospital acarreta quedas, infeções hospitalares, delírio, perda de autonomia motora, entre outros aspetos. Por isso, é urgente melhorar o número de instituições, garantir assistência médica cuidada e reduzir a hospitalização desnecessária.

Todos devemos ser tratados com humanidade até ao fim da vida. Este facto é frequentemente esquecido em muitas ERPI, onde se ignora quem a pessoa foi, o que pode ser muito frustrante e causa de depressão para os idosos institucionalizados.

 

Quais são os principais desafios na formação dos médicos para atender adequadamente os idosos institucionalizados?
Tive a sorte de ser o primeiro professor de Geriatria na Faculdade de Medicina de Lisboa, mas a resistência inicial foi grande. Muitos médicos defendiam que os idosos eram apenas “adultos velhos” e que bastava reduzir a dose dos medicamentos, o que revela ignorância. Os idosos têm especificidades próprias, tal como as crianças, o que justificou a criação da Pediatria há mais de 100 anos.

Portanto, a Geriatria deve existir em Portugal, tal como em todos os países civilizados, e é importante que, no futuro, a Ordem dos Médicos reconheça a especialidade.

Infelizmente, em Portugal existe apenas a competência em Geriatria e algumas formações pós-graduadas. Fundei, com outros colegas, o Núcleo de Estudos de Geriatria da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, que tem crescido em importância e que permite fazer formação pós-graduada.

Contudo, é necessário haver unidades de Geriatria nos hospitais, porque só o ensino prático permite formar médicos preparados para tratar estes doentes — uma luta que levei muitos anos até me reformar.

 

Como vê o futuro da Geriatria em Portugal?
Estou convicto de que vai singrar, porque é eficaz e necessária. A palavra “Geriatria” foi criada em 1908, existe há mais de 100 anos e expandiu-se em todo o mundo civilizado. Se se desenvolveu ao longo deste tempo nos outros países, também se desenvolverá em Portugal.

É urgente criar unidades nos hospitais e tornar o ensino obrigatório em todas as faculdades de Medicina, seguindo as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Não podemos continuar a ser os últimos da Europa nesta área.

 

Sílvia Malheiro

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O congresso assinala os 10 anos da primeira admissão em Hospitalização Domiciliária. Que balanço faz desta evolução no Serviço Nacional de Saúde (SNS)?
Um balanço francamente positivo e sustentador de esperança: o projeto de internar em casa com a qualidade do hospital e o conforto do domicílio, iniciado em 16 de novembro de 2015, está estendido a todos os hospitais do SNS (e algumas unidades privadas), demonstra eficácia e eficiência, tem uma taxa de agrado de doentes e famílias/cuidadores acima dos 95% e há um horizonte promissor de melhoria.

 

Quais foram os marcos mais relevantes e que impacto tiveram para os doentes e para os hospitais?
a) O início da atividade pela UHD do Hospital Garcia de Orta, em 2015

b) O suporte legislativo para a HD, a saber:
– Definição da estratégia nacional de implementação das UHD no SNS e o respetivo modelo de regulamento interno (princípios, regras de organização e funcionamento, bem como critérios de acesso e integração dos doentes em cuidados domiciliário) Despacho n.º 9323-A/2018, de 3 outubro.
– Definição da terapêutica, da monitorização, das equipas de saúde, da referenciação e dos critérios aplicáveis à HD – Norma de Orientação Clínica (NOC) n.º 020/2018, de 20 de dezembro de 2018, da Direção-Geral da Saúde (DGS).
– Promoção do consolidar e do desenvolvimento de UHD nos estabelecimentos hospitalares do SNS, com vista ao alargamento deste modelo de prestação de cuidados de saúde a todos os estabelecimentos hospitalares do SNS – Despacho n.º 12333/2019, de 23 de dezembro.
– Definição do processo para a construção do modelo de avaliação de desempenho das equipas dedicadas às UHD, organizadas em centros de responsabilidade integrado (CRI) no SNS – Despacho n.º 2870/2024, de 18 de março.
– Regulação do índice de desempenho de equipa que integra o CRI de HD, bem como os termos de atribuição dos incentivos institucionais Portaria n.º 310/2024/1, de 3 de dezembro.

c) A designação e a excelência do desempenho do Coordenador Nacional até maio de 2025, Dr. Delfim Rodrigues.

d) O entusiasmo, a dedicação e a partilha das equipas das UHD que permitiram rápida disseminação do modo concreto de atuação em HD e dos seus requisitos.

e) Os tempos de reflexão e debate alargado ocorridos (os Congressos Nacionais HD e os Encontros de HD).

 

Apesar de todos os hospitais do SNS já terem equipas de HD, que obstáculos ainda persistem na consolidação deste modelo?
Uma perfeita compreensão do que é a HD pelos decisores em algumas ULS, a necessidade de uma melhor divulgação intra-hospitalar e na comunidade, o desenvolvimento de protocolos de atuação, a escassez de cuidadores e a não-resposta social a este problema são os obstáculos de mais premente resolução.

 

Um dos temas da 5.ª edição do Congresso Nacional de Hospitalização Domiciliária é a criação de CRI em HD. Que mudanças concretas trarão para a autonomia e sustentabilidade das equipas?
Sendo a forma de viabilização do trabalho das Equipas das UHD que o Ministério promove para “cumprir o desempenho assistencial, no que à HD respeita, conforme determinado no quadro global de referência”, a organização em CRI é ainda pouco expressiva a nível nacional. A partilha de experiências pelas equipas já assim em funcionamento, durante o 5.º Congresso Nacional HD, será certamente oportunidade para esclarecer dúvidas e robustecer convicções.

 

Como está a decorrer a articulação com os Cuidados de Saúde Primários, no contexto das novas Unidades Locais de Saúde?
Embora absolutamente indispensável, decorre a um ritmo não acelerado. A este nível carecemos de mais concertada interação em benefício dos doentes.

 

Que papel pode a Hospitalização Domiciliária ter no futuro do SNS, em termos de inovação, eficiência e humanização dos cuidados?
Cabe-lhe o papel de ser a melhor – mais eficaz, eficiente e efetiva (como usava dizer o Dr. Delfim Rodrigues) – forma de ter tratamento de ordem hospitalar, na maioria de situações.

 

Sílvia Malheiro 

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