Vai ser possível detetar droga produzida com fármacos e produtos de limpeza

Investigadores do Porto estão a coordenar um grupo de investigação internacional que criou métodos para auxiliar os médicos e as forças de segurança a detetar um tipo de droga que pode ser produzida em casa, com medicamentos e produtos de limpeza

Para a criação destes métodos, que permitem detetar a droga, designada por “krokodil”, no sangue, na urina e nos órgãos dos usuários, o grupo de investigação analisou os efeitos aditivos e tóxicos associados à desomorfina, um estupefaciente presente nessa substância, explicou à Lusa o investigador da Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário (CESPU), Ricardo Dinis-Oliveira, coordenador do projeto.

Esta droga, utilizada como “uma alternativa barata à heroína”, pode ser produzida em casa, “não necessitando de ser traficada”, escapando assim “ao controlo das forças de segurança”, referiu o coordenador desta investigação, que resulta de uma colaboração entre a CESPU e as faculdades de Farmácia e de Medicina da Universidade do Porto.

De acordo com o também presidente da Associação Portuguesa de Ciências Forenses, a base de produção desta droga são medicamentos que contêm codeína (utilizada para o tratamento da tosse ou em analgésicos), possíveis de adquirir nas farmácias (com receita médica) e na Internet, e produtos de limpeza à venda nos supermercados.

A “krokodil”, quando comparada à heroína, provoca efeitos mais fortes e mais rápidos, sendo mais destrutiva, de acordo com o coordenador, podendo o seu consumo levar à amputação dos membros dos usuários.

Quanto às consequências imediatas desta droga, aponta o aparecimento de úlceras, necroses (degeneração de um tecido pela morte das suas células), flebites (inflamações nas paredes das veias) e gangrena, nas áreas do corpo onde a droga é injetada, bem como lesões ósseas – nas cartilagens e músculos – e alterações na pressão sanguínea e na funções cardíaca, renal e hepática.

O toxicologista alerta ainda para as possíveis lesões neurológicas causadas pela “krokodil” (como alucinações, perda das capacidades cognitivas e da memória), resultando a morte dos utilizadores de múltiplas patologias, sobretudo de natureza infeciosa (como pneumonia), ou de depressão respiratória.

A “krokodil” surgiu há cerca de 15 anos na Rússia, país onde o número de consumidores ascende a um milhão, tendo-se expandido para a Geórgia e a Ucrânia e, nos últimos anos, para a Bélgica, a França, a Suécia, a Espanha, a Alemanha e a Noruega.

Em Portugal, segundo o investigador, a informação sobre o uso de “krokodil” “é escassa” e a sinalização desses casos “complexa”, não existindo dados oficiais quanto ao número de usuários, embora algumas situações tenham sido descritas por médicos portugueses em reuniões científicas.

O coordenador acredita que, por esta ser uma “droga nova”, “desconhecida” para as classes médica e farmacêutica, é importante ter profissionais “melhor informados”, o que pode tornar a venda de alguns medicamentos “mais criteriosa”.

Além dos investigadores portugueses, a equipa é composta por cientistas da Universidade Federal Fluminense do Rio de Janeiro (Brasil), da Républica Checa, da Geórgia e da Holanda, inserindo-se este trabalho no âmbito de uma tese de doutoramento em Ciências Forenses.

A “krokodil” e os métodos desenvolvidos para a sua deteção são exemplos de temas que vão estar em debate nas Jornadas Científicas da CESPU e no II Congresso da Associação Portuguesa de Ciências Forenses, que decorrem a 30 e 31 de março, na Alfândega do Porto.

LUSA/SO

 

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