Gil Faria - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/gil-faria/ Notícias sobre saúde Wed, 27 May 2026 10:41:58 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Gil Faria - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/gil-faria/ 32 32 “A diminuição da obesidade só será possível com três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes” https://saudeonline.pt/a-diminuicao-da-obesidade-so-sera-possivel-com-tres-forcas-prevencao-seria-tratamento-precoce-e-acesso-real-a-terapeuticas-eficazes/ https://saudeonline.pt/a-diminuicao-da-obesidade-so-sera-possivel-com-tres-forcas-prevencao-seria-tratamento-precoce-e-acesso-real-a-terapeuticas-eficazes/#respond Tue, 26 May 2026 11:09:17 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187316 Um estudo britânico indica que as taxas de obesidade estão a estabilizar, inclusive em Portugal. Mas para Gil Faria, médico, investigador e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é preciso olhar para os resultados com alguma cautela. Em entrevista, alerta que não se pode parar de lutar contra a doença e que ainda há muito trabalho pela frente, nomeadamente a implementação do Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade.

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O estudo recente, liderado pelo Imperial College de Londres, e publicado na revista “Nature”, refere que as taxas de obesidade estabilizaram e até diminuíram em vários países, incluindo Portugal. O que contribuiu para esta diminuição?

Esta é uma boa notícia, mas deve ser lida com prudência. O estudo mostra que, em alguns países de elevado rendimento, incluindo Portugal, o crescimento da obesidade abrandou, estabilizou ou poderá até ter começado a inverter-se ligeiramente, sobretudo em crianças e adolescentes. Mas não significa que o problema esteja resolvido. Significa apenas que talvez algumas medidas implementadas estejam a começar a produzir efeito.

Provavelmente, contribuiu uma combinação de fatores: maior consciência pública, políticas de alimentação escolar, taxação de bebidas açucaradas, melhor literacia alimentar, maior pressão social para ambientes mais saudáveis e alguma mudança nos padrões de consumo. Portugal tem tido programas na área da alimentação saudável e prevenção da obesidade infantil e isso pode estar a ter impacto.  Mas há um ponto essencial: não podemos confundir estabilização com vitória. Se um incêndio deixa de alastrar, continua a haver fogo.

Apesar destes resultados, a obesidade continua a ser uma preocupação?

Sem dúvida. Continua a ser uma das maiores ameaças à saúde pública em Portugal. Segundo o INE, mais de metade dos adultos portugueses tem excesso de peso ou obesidade: 37,3% com excesso de peso e 15,9% com obesidade. Nas crianças, o estudo COSI Portugal 2022 mostrou 31,9% com excesso de peso e 13,5% com obesidade. Estes números não são marginais, são estruturais. E existem outros estudos que demonstram prevalências superiores.

Mesmo que a curva esteja a estabilizar, estamos ainda num patamar demasiado alto. Milhões de pessoas continuam expostas a maior risco de diabetes, hipertensão, apneia do sono, doença cardiovascular, doença hepática metabólica, infertilidade e vários tipos de cancro. A obesidade não deixou de ser preocupante, porque cresceu menos. Continua a ser preocupante porque já cresceu demasiado.

“Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas”

Esta é uma doença associada a muitas outras comorbilidades. Como vê, atualmente, a abordagem clínica da obesidade? Já existe maior apoio multidisciplinar?

A abordagem está a mudar, mas ainda não mudou o suficiente. Durante muito tempo, a obesidade foi tratada como uma falha individual. Hoje sabemos que é uma doença crónica, complexa, biológica, social e ambiental. Por isso, não pode ser tratada apenas com uma folha de dieta ou com a frase “tem de fazer exercício”.

A boa notícia é que Portugal publicou o Percurso de Cuidados Integrados para a Pessoa com Obesidade, que prevê uma resposta mais estruturada, com equipas multidisciplinares, articulação entre cuidados de saúde primários e hospitalares, acompanhamento nutricional, psicológico, médico, farmacológico e cirúrgico, quando indicado.

Mas a implementação ainda é difícil. Uma coisa é produzir regulamentos. Algo bem mais difícil é a implementação prática. Apesar da excelente capacidade técnica e humana, o acesso ainda é difícil. Muitos doentes continuam perdidos entre consultas, listas de espera e respostas fragmentadas. E, no global, o número de profissionais disponíveis e treinados para tratar a obesidade ainda não é suficiente para as necessidades.

“O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica”

Em termos de acesso ao tratamento, seja farmacológico ou cirúrgico, é o mais adequado ou ainda há muito trabalho a fazer?

Ainda há muito trabalho a fazer. Muito mesmo. Temos hoje tratamentos eficazes: fármacos antiobesidade, cirurgia metabólica, intervenção nutricional, apoio psicológico e programas estruturados, mas a existência de tratamentos não é o mesmo que garantir acesso.

No caso dos fármacos, o acesso continua limitado pelo custo, pela ausência de comparticipação e pela escassez. No caso da cirurgia metabólica, o problema é igualmente grave: muitos doentes com indicação cirúrgica continuam sem acesso em tempo útil, apesar da cirurgia ser a intervenção mais eficaz e custo-efetiva para a obesidade moderada a grave. Continuamos a estimar que apenas 1% dos doentes com indicação para cirurgia consegue atingir esse tratamento.

E aqui temos de ser claros: o doente com obesidade não é menos doente. Não pode ser tratado como alguém que “pode esperar” indefinidamente ou que não “merece” o tratamento. Negar acesso ao tratamento não poupa dinheiro ao SNS.

 

De futuro, pode-se esperar uma diminuição da obesidade?

Pode, mas não acontecerá por acaso. A diminuição da obesidade só será possível se combinarmos três forças: prevenção séria, tratamento precoce e acesso real a terapêuticas eficazes. Precisamos de melhores políticas públicas, alimentação escolar saudável, cidades que promovam movimento, combate aos alimentos ultraprocessados, diagnóstico mais cedo e equipas preparadas para acompanhar a pessoa ao longo da vida.

Os novos fármacos podem ajudar. A cirurgia continuará a ser fundamental nos casos mais graves, mas nenhuma solução isolada resolverá uma doença tão complexa. Tal como este estudo da Nature comprova, a melhor forma de travar a obesidade é o elevador social: sociedades com maior desenvolvimento económico estão mais capacitadas para combater a obesidade.

O futuro pode ser melhor, sim, mas só se deixarmos de tratar a obesidade como uma culpa individual e passarmos a tratá-la como aquilo que é: uma doença crónica, séria, tratável e profundamente influenciada pela sociedade em que vivemos.

Maria João Garcia

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Quando tratar é investir na vida https://saudeonline.pt/quando-tratar-e-investir-na-vida/ https://saudeonline.pt/quando-tratar-e-investir-na-vida/#respond Fri, 13 Mar 2026 09:16:48 +0000 https://saudeonline.pt/?p=184472 Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo; Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde; Professor da FMUP; Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

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No Dia Mundial da Obesidade fala-se muito de prevenção. Fala-se de alimentação saudável, de exercício físico e de escolhas conscientes. Tudo isso é importante, mas há uma parte da conversa que, muitas vezes, fica em segundo plano: o tratamento de quem já vive com obesidade instalada e com complicações associadas. Para essas pessoas, a cirurgia metabólica continua a ser o tratamento mais eficaz de que dispomos e continua a ser sistematicamente adiado.

A cirurgia metabólica não é nova, nem um procedimento experimental. Não é um recurso desesperado, nem um procedimento estético. É uma intervenção terapêutica com impacto profundo na biologia da doença. Atua não apenas na redução da capacidade gástrica, mas, sobretudo, na regulação hormonal do apetite, da saciedade e do equilíbrio energético. Os dados científicos são consistentes: a cirurgia metabólica permite perdas de peso superiores a 30% do peso corporal total, com manutenção a longo prazo. Reduz a mortalidade, diminui drasticamente o risco cardiovascular, promove a remissão da diabetes e melhora de forma sustentada a qualidade de vida. E, mesmo assim, continua a ser encarada como último recurso.

Nos últimos anos, assistimos a uma evolução técnica notável. As cirurgias são realizadas por via laparoscópica, com incisões mínimas, menos dor e recuperação mais rápida. Programas estruturados permitem, em casos selecionados, a realização em regime de ambulatório com alta no próprio dia. Novas adaptações técnicas têm sido desenvolvidas para reduzir efeitos secundários como o refluxo, preservando a eficácia na perda de peso. A cirurgia metabólica de hoje é mais segura, mais previsível e mais personalizada do que nunca.

Em paralelo, surgiram medicamentos inovadores que atuam nos circuitos hormonais da fome. São avanços importantes e ampliam as opções terapêuticas. No entanto, é fundamental compreender as diferenças.

Os fármacos exigem administração contínua e o custo acumulado ao longo dos anos é elevado. Quando são interrompidos, o peso tende a regressar, porque a doença permanece ativa. A cirurgia, por outro lado, é uma intervenção única, com efeito metabólico duradouro. Em termos de custo-benefício, os estudos mostram que, ao reduzir complicações, hospitalizações e medicação crónica, a cirurgia torna-se economicamente vantajosa para o sistema de saúde em poucos anos.

Mas talvez o argumento mais forte não seja financeiro. Seja humano.

A cirurgia metabólica devolve mobilidade, energia, qualidade de vida. Permite que pessoas deixem de depender de múltiplos medicamentos, que controlem a diabetes, que reduzam o risco de enfarte ou AVC. Permite viver mais e viver melhor. Será então legítimo perguntar porque continua a ser subutilizada?

Parte da resposta reside no estigma. A cirurgia ainda carrega o peso de mitos antigos, de imagens ultrapassadas, de complicações eliminadas, mas, acima de tudo, da falsa ideia de que representa um atalho. Mas a ciência é clara ao demonstrar que a obesidade não é uma opção, não é um problema de carácter. É uma doença metabólica complexa. E tratar uma doença não é desistir do doente, nem oferecer um atalho: é cuidar com rigor e cuidado.

Neste Dia Mundial da Obesidade, é essencial dizer com clareza: prevenir é fundamental, mas tratar é inadiável. E quando falamos de eficácia, segurança e sustentabilidade a longo prazo, a cirurgia metabólica continua a ser a ferramenta mais poderosa que a medicina tem para oferecer. Continuar a olhar para a cirurgia como “último recurso” é um equívoco que custa saúde. Porque quando falamos de obesidade grave, adiar o tratamento não é prudência, é permitir que a doença avance.

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Novos tratamentos da obesidade: Quando a ciência abala o preconceito

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Novos tratamentos da obesidade: Quando a ciência abala o preconceito https://saudeonline.pt/novos-tratamentos-da-obesidade-quando-a-ciencia-abala-o-preconceito/ https://saudeonline.pt/novos-tratamentos-da-obesidade-quando-a-ciencia-abala-o-preconceito/#respond Thu, 20 Nov 2025 09:25:46 +0000 https://saudeonline.pt/?p=180727 Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo; Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde; Professor da FMUP; Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

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Nos últimos anos, os avanços da cirurgia metabólica e os novos fármacos baseados em GLP-1 revolucionaram o tratamento da obesidade. Estas intervenções atuam sobre o sistema hormonal que regula a fome, o apetite e o metabolismo, ajudando o corpo a encontrar o seu ponto de equilíbrio metabólico. Os resultados são notáveis: perdas de peso sustentadas, redução do risco cardiovascular e aumento da qualidade de vida.

Mas, paradoxalmente, estes avanços científicos vêm acompanhados de um fenómeno curioso: o desconforto social perante quem recorre a estes tratamentos. Se os doentes optam por tratamentos cirúrgicos estão, aos olhos de muitos, a optar pelo caminho dos preguiçosos que não querem fazer dieta; se, por outro lado, avançam com tratamentos farmacológicos estão a ser egoístas e a “roubar” os fármacos aos que deles precisam para tratar a diabetes.

Durante várias gerações, a sociedade ensinou-nos que manter um peso saudável é uma questão de força de vontade. A magreza foi associada a virtude, disciplina e sucesso pessoal, enquanto a obesidade foi sempre sinónimo de gula, preguiça e falta de vontade. Assim, quando a ciência torna o tratamento da obesidade mais eficaz, ameaça essa ideia de mérito moral. Para muitas pessoas, aceitar a ideia de que a perda de peso possa ser atingida por medicamentos é desconcertante, porque desmonta uma hierarquia invisível onde o controlo do peso era sinónimo de superioridade moral. A resistência aos novos fármacos e à cirurgia metabólica, por parte de alguns profissionais e da população em geral, nasce, muitas vezes, desse desconforto moral. Afinal, para controlar o peso não é necessário sacrifício pessoal, mas regulação hormonal.

No entanto, a biologia não se convence com sermões. A ciência afirma claramente que a obesidade é uma doença crónica, complexa, multifatorial e recidivante. O corpo humano possui mecanismos fisiológicos que defendem o peso elevado, aumentando a fome e reduzindo o metabolismo. Por esse motivo, a dieta e o exercício físico raramente são suficientes para atingir uma perda de peso significativa, a longo prazo.

A cirurgia metabólica e os novos fármacos para o tratamento da obesidade atuam em um ou vários desses mecanismos, restaurando o controlo do apetite, da saciedade e o equilíbrio energético. Diversos estudos demonstram que os efeitos benéficos destes tratamentos vão muito para além do peso, incluindo diminuição de risco de doenças cardiovasculares e oncológicas e melhorias na saúde mental e na qualidade de vida das pessoas.

O maior obstáculo ao tratamento da obesidade, hoje em dia, não é científico: é cultural. Muitos doentes ainda hesitam em procurar tratamento por medo de críticas, e alguns profissionais continuam a ver a medicação ou a cirurgia como um recurso para casos extremos. Mas é tempo de mudar o paradigma!

Tratar a obesidade, com recurso a fármacos ou a cirurgia, não é falta de carácter, é evidência científica. Recusar essa ajuda em nome de um ideal moral anacrónico é perpetuar a doença. Porque no fim do dia, a maior luta já não é contra a doença, é contra o preconceito.

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A Obesidade não tira férias!

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Desafios da vida reprodutiva após a cirurgia metabólica https://saudeonline.pt/desafios-da-vida-reprodutiva-apos-a-cirurgia-metabolica-2/ https://saudeonline.pt/desafios-da-vida-reprodutiva-apos-a-cirurgia-metabolica-2/#respond Wed, 19 Mar 2025 12:28:45 +0000 https://saudeonline.pt/?p=173313 Gil Faria, cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo, escreve sobre a reorganização anatómica e fisiológica, após cirurgia metabólica, e o impacto que tem na vida reprodutiva.

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A cirurgia metabólica é o tratamento mais eficaz no controlo da obesidade e das doenças metabólicas associadas como a diabetes tipo 2. Anualmente, efetuam-se mais de meio milhão de cirurgias em todo o mundo e a sua grande maioria em mulheres, nomeadamente em idade reprodutiva. A necessidade de ajuste da contraceção é, muitas vezes, negligenciada, o que pode resultar em gravidezes não desejadas. É, pois, importante falar acerca do tema e preparar antecipadamente a mulher para que possa viver a sua vida reprodutiva em toda a plenitude, sem riscos e com total autonomia.

Após a cirurgia metabólica ocorrem mudanças significativas no organismo, com uma reorganização anatómica e fisiológica. A perda de peso rápida, as alterações hormonais e a manipulação do tubo digestivo, podem reduzir a absorção e diminuir a eficácia dos métodos contracetivos tradicionais, sobretudo os que dependem da via oral (pílulas). As recomendações internacionais, apesar da falta de estudos dirigidos ao assunto, recomendam a opção por métodos contracetivos que não dependam da via oral, sugerindo a utilização de métodos de barreira (preservativo, por exemplo) ou dispositivos uterinos. Não existe evidência científica que permita concluir sobre a absorção ou a eficácia dos anticoncecionais orais em mulheres submetidas às cirurgias metabólicas modernas, no entanto, o risco de uma gravidez precoce justifica a opção por outros métodos ou mesmo pela utilização de procedimentos combinados, pelo menos nos primeiros 12-18 meses após a cirurgia.

Este período, caracterizado por rápidas mudanças no peso e no equilíbrio corporal, pode estar associado a défices nutricionais e alterações do padrão de funcionamento gastrointestinal. Estas modificações podem comprometer o aporte de nutrientes e, consequentemente, o desenvolvimento de um feto, pelo que não é recomendada a gravidez até à estabilização do peso. Por outro lado, as alterações hormonais e a normalização da função dos ovários podem levar a um aumento súbito da fertilidade, pelo que a necessidade de uma contraceção adequada torna-se ainda mais premente.

A escolha do método contracetivo ideal deve levar em conta vários fatores, tais como o tipo de cirurgia efetuada, a conveniência, a eficácia e a segurança para a saúde. Esta escolha deve ser devidamente pensada e ponderada, idealmente antes da realização de uma cirurgia metabólica. A utilização de um dispositivo uterino, por exemplo, requer alguma habituação pelo organismo, pelo que deve ser feita alguns meses antes de uma cirurgia metabólica. Por outro lado, a utilização de pílulas orais pode aumentar o risco de uma complicação trombótica após a cirurgia, especialmente se a sua introdução for recente. As alternativas devem ser consideradas e discutidas sempre com a equipa médica, o mais cedo possível.

Além dos aspetos fisiológicos, a decisão sobre a contraceção após a cirurgia metabólica envolve também uma dimensão psicológica e emocional. A mulher pode sentir-se ansiosa face às mudanças no seu corpo e às incertezas sobre a fertilidade futura. Por isso, o aconselhamento psicológico torna-se uma ferramenta indispensável para apoiar a paciente nesta fase de transição. O diálogo aberto é fundamental para esclarecer dúvidas e definir expectativas realistas quanto à recuperação e à qualidade de vida.

Em suma, a contraceção após a cirurgia metabólica é um tema complexo que exige uma abordagem personalizada e integrada. As alterações fisiológicas e hormonais que acompanham a perda de peso e a modificação do sistema digestivo implicam uma reavaliação cuidadosa dos métodos contracetivos, de forma a garantir a segurança e a eficácia na prevenção de gravidezes indesejadas. Num contexto em que a saúde integral da mulher é uma prioridade, o investimento num acompanhamento multidisciplinar revela-se essencial para uma recuperação bem-sucedida e para a manutenção do bem-estar, a longo prazo.

Gil faria é cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo e Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde. É também Professor da FMUP e investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade.

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Desafios da vida reprodutiva após a cirurgia metabólica https://saudeonline.pt/desafios-da-vida-reprodutiva-apos-a-cirurgia-metabolica/ https://saudeonline.pt/desafios-da-vida-reprodutiva-apos-a-cirurgia-metabolica/#respond Wed, 19 Mar 2025 08:18:39 +0000 https://saudeonline.pt/?p=173310 Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo/Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde/Professor da FMUP/Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

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A cirurgia metabólica é o tratamento mais eficaz no controlo da obesidade e das doenças metabólicas associadas como a diabetes tipo 2. Anualmente, efetuam-se mais de meio milhão de cirurgias em todo o mundo e a sua grande maioria em mulheres, nomeadamente em idade reprodutiva. A necessidade de ajuste da contraceção é, muitas vezes, negligenciada, o que pode resultar em gravidezes não desejadas. É, pois, importante falar acerca do tema e preparar antecipadamente a mulher para que possa viver a sua vida reprodutiva em toda a plenitude, sem riscos e com total autonomia.

Após a cirurgia metabólica ocorrem mudanças significativas no organismo, com uma reorganização anatómica e fisiológica. A perda de peso rápida, as alterações hormonais e a manipulação do tubo digestivo, podem reduzir a absorção e diminuir a eficácia dos métodos contracetivos tradicionais, sobretudo os que dependem da via oral (pílulas). As recomendações internacionais, apesar da falta de estudos dirigidos ao assunto, recomendam a opção por métodos contracetivos que não dependam da via oral, sugerindo a utilização de métodos de barreira (preservativo, por exemplo) ou dispositivos uterinos. Não existe evidência científica que permita concluir sobre a absorção ou a eficácia dos anticoncecionais orais em mulheres submetidas às cirurgias metabólicas modernas, no entanto, o risco de uma gravidez precoce justifica a opção por outros métodos ou mesmo pela utilização de procedimentos combinados, pelo menos nos primeiros 12-18 meses após a cirurgia.

Este período, caracterizado por rápidas mudanças no peso e no equilíbrio corporal, pode estar associado a défices nutricionais e alterações do padrão de funcionamento gastrointestinal. Estas modificações podem comprometer o aporte de nutrientes e, consequentemente, o desenvolvimento de um feto, pelo que não é recomendada a gravidez até à estabilização do peso. Por outro lado, as alterações hormonais e a normalização da função dos ovários podem levar a um aumento súbito da fertilidade, pelo que a necessidade de uma contraceção adequada torna-se ainda mais premente.

A escolha do método contracetivo ideal deve levar em conta vários fatores, tais como o tipo de cirurgia efetuada, a conveniência, a eficácia e a segurança para a saúde. Esta escolha deve ser devidamente pensada e ponderada, idealmente antes da realização de uma cirurgia metabólica. A utilização de um dispositivo uterino, por exemplo, requer alguma habituação pelo organismo, pelo que deve ser feita alguns meses antes de uma cirurgia metabólica. Por outro lado, a utilização de pílulas orais pode aumentar o risco de uma complicação trombótica após a cirurgia, especialmente se a sua introdução for recente. As alternativas devem ser consideradas e discutidas sempre com a equipa médica, o mais cedo possível.

Além dos aspetos fisiológicos, a decisão sobre a contraceção após a cirurgia metabólica envolve também uma dimensão psicológica e emocional. A mulher pode sentir-se ansiosa face às mudanças no seu corpo e às incertezas sobre a fertilidade futura. Por isso, o aconselhamento psicológico torna-se uma ferramenta indispensável para apoiar a paciente nesta fase de transição. O diálogo aberto é fundamental para esclarecer dúvidas e definir expectativas realistas quanto à recuperação e à qualidade de vida.

Em suma, a contraceção após a cirurgia metabólica é um tema complexo que exige uma abordagem personalizada e integrada. As alterações fisiológicas e hormonais que acompanham a perda de peso e a modificação do sistema digestivo implicam uma reavaliação cuidadosa dos métodos contracetivos, de forma a garantir a segurança e a eficácia na prevenção de gravidezes indesejadas. Num contexto em que a saúde integral da mulher é uma prioridade, o investimento num acompanhamento multidisciplinar revela-se essencial para uma recuperação bem-sucedida e para a manutenção do bem-estar, a longo prazo.

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Inflamação: O elo perdido entre obesidade, depressão e cirurgia metabólica? https://saudeonline.pt/inflamacao-o-elo-perdido-entre-obesidade-depressao-e-cirurgia-metabolica/ https://saudeonline.pt/inflamacao-o-elo-perdido-entre-obesidade-depressao-e-cirurgia-metabolica/#respond Wed, 08 Jan 2025 10:14:26 +0000 https://saudeonline.pt/?p=166329 Cirurgião especialista em Cirurgia da Obesidade e Metabolismo/Coordenador dos Centros de Tratamento da Obesidade do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e do Grupo Trofa Saúde/Professor da FMUP/Investigador clínico na área da Cirurgia Metabólica e Obesidade

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A obesidade e a depressão são duas condições de saúde cada vez mais comuns e diversos estudos confirmam a sua relação. Um dos principais pontos em comum entre estas doenças é a inflamação crónica de baixo grau. Esta inflamação ocorre como resposta a fatores internos e externos e pode afetar o funcionamento de todo o organismo, incluindo o cérebro, e influencia também o humor e o bem-estar psicológico.

Quando uma pessoa tem obesidade, o corpo pode produzir substâncias inflamatórias em excesso, como a proteína C-reativa (CRP), que estão associadas a maior risco de problemas de saúde mental, incluindo a depressão. Por outro lado, quem sofre de depressão também pode ter níveis mais elevados destas substâncias, criando um ciclo difícil de quebrar: a inflamação agrava o estado emocional e, por sua vez, o estado emocional contribui para comportamentos que intensificam a inflamação, como alimentação pouco saudável e sedentarismo.

Para além disso, o intestino desempenha um papel importante nesta ligação. O equilíbrio das bactérias que vivem no sistema digestivo, conhecido como microbiota intestinal, pode ser afetado pela alimentação e pelo stress, agravando tanto a inflamação como o estado de humor.

Embora estratégias como uma alimentação equilibrada e a prática de exercício físico sejam úteis para reduzir a inflamação e melhorar o bem-estar, nos casos de obesidade grave a cirurgia metabólica é uma solução eficaz. Esta intervenção, que envolve alterações no sistema digestivo para ajudar na perda de peso, não só reduz os números na balança, mas também melhora a saúde geral e o estado emocional.

Após a cirurgia, diminuem significativamente os marcadores inflamatórios no sangue e muitos pacientes relatam uma redução nos sintomas de depressão. Estas melhorias devem-se tanto à perda de peso como às mudanças metabólicas e hormonais provocadas pela cirurgia. Para além disso, ao melhorar a composição da microbiota intestinal, a cirurgia contribui para um maior equilíbrio no organismo, o que também ajuda a reduzir a inflamação.

Contudo, nem todos os problemas se resolvem automaticamente com a cirurgia. Doentes com depressão antes do procedimento podem necessitar de acompanhamento psicológico para garantir que as melhorias são sustentadas e podem ter menor sucesso ao nível da perda de peso. Em alguns casos, uma inflamação residual pode dificultar quer a perda de peso, quer uma recuperação emocional completa. Assim, é fundamental que o tratamento seja acompanhado por uma equipa multidisciplinar, que inclua médicos, nutricionistas e psicólogos.

Por tudo isto, a inflamação é um dos fatores centrais que liga obesidade e depressão. A cirurgia metabólica tem o potencial de transformar vidas, aliviando os sintomas de ambas as doenças. No entanto, o sucesso a longo prazo depende de um acompanhamento contínuo, que deve focar-se não apenas no corpo, mas também na mente e numa verdadeira mudança do estilo de vida.

 

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