Conceição Calhau - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/conceicao-calhau/ Notícias sobre saúde Tue, 02 Dec 2025 12:34:52 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Conceição Calhau - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/conceicao-calhau/ 32 32 Saúde Digestiva: A microbiota intestinal pode ter um papel importante na prevenção e tratamento de doenças https://saudeonline.pt/saude-digestiva-a-microbiota-intestinal-pode-ter-um-papel-importante-na-prevencao-e-tratamento-de-doencas/ https://saudeonline.pt/saude-digestiva-a-microbiota-intestinal-pode-ter-um-papel-importante-na-prevencao-e-tratamento-de-doencas/#respond Tue, 02 Dec 2025 09:41:32 +0000 https://saudeonline.pt/?p=180972 Nutricionista, Investigadora e Professora Catedrática da NOVA Medical School

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Nos últimos 20 anos a saúde intestinal tem vindo a ocupar um lugar de destaque na esfera científica e médica. Em particular, o microbiota intestinal como um órgão metabólico, endócrino e neuroendócrino importante na manutenção da saúde metabólica e imunológica. Temos mais genes e células de origem microbiana do que de origem humana. Os genes humanos não mudam ao longo da vida, já os genes de origem microbiana mudam ao longo da nossa vida. A espécie humana evoluiu o que estes microorganismos nos permitiram evoluir como espécie. A evolução deste conhecimento científico e médico, com aplicação clínica, vem colocar de parte a visão de patogenicidade associada às bactérias (noção de que todo o ‘bicho’ é mau).

O microbiota em 3 esferas: é responsável pela síntese de vitaminas, como vitamina K, folato, vitamina D, entre outras; exerce funções digestivas, resultando uma sintonia entre as funções das enzimas digestivas que são produzidas pelas células do aparelho digestivo, humanas, e as enzimas que são de origem bacteriana. Aqui fica já muito claro que alterações na composição deste ecossistema microbiano provavelmente terá impacto no processo digestivo, com falhas, o que pode levar a processos. E ainda exerce funções de regulação da expressão de genes, como por exemplo estimulam que células do intestino produzam GLP1 ou mesmo genes relacionados com a permeabilidade intestinal e ainda função do sistema imunitário. A imunotolerância que deve ser desenvolvida nos primeiros anos de vida desenvolve-se muito à custa de um microbiota intestinal competente: sistema imunológico, para a nossa defesa, deve saber reconhecer o que ‘é do próprio’, o que ‘não é do próprio’, e deste, o que é uma ameaça, e o que não é uma ameaça. Aliás, se há compromisso do desenvolvimento desta imunotolerância, podemos ter aqui uma relação com asma, dermatite atópica ou mesmo doenças autoimunes da vida adulta.

É particularmente fascinante o papel do microbiota intestinal na regulação do peso. Seja ao nível do controlo do apetite, atingir ou não a saciedade, como também se deve ao microbiota intestinal muitas das ‘decisões’ de prioridade metabólica, ou seja, se teremos mais ou menos estimulada a acumulação de gordura.

Desde o nosso nascimento, até à fase em que começamos a fazer diversificação alimentar, o microbiota vai passando por transições, muito dependentes da idade gestacional da nossa mãe, do tipo de parto (cesariana ou vaginal) e se alimentados com leite materno ou de fórmula. Nesta fase as diferenças interindividuais são grandes, mas aos 2-3 anos de vida, o microbiota atinge a sua composição de base, e as diferenças são menores. Ainda na infância, a vida urbana ou rural, com ou sem animais domésticos, com ou sem exposição a antibióticos e o tipo de alimentação praticada, têm impacto na forma como o microbiota é moldado. Outros fatores que se fazem sentir ao longo da vida, como o exercício físico (ou a falta dele), a alimentação, o stresse e alguma da medicação que tomamos, também têm impacto no nosso microbiota. Todo este conhecimento sublinha a importância do papel modulador que a dieta, e em particular os prebióticos (ingredientes ou alimentos que estimulam o crescimento e atividade das bactérias boas) e os probióticos (microrganismos que auxiliam na digestão e protegem o organismo contra as bactérias nocivas) podem exercer de benéfico neste contexto.

A disbiose é um desequilíbrio do microbiota intestinal em que existe alteração na quantidade e na distribuição de bactérias no intestino, que por sua vez pode provocar doenças como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares ou autismo.

Em suma, alterando a comunidade do nosso microbiota intestinal, através de prebióticos, probióticos, antibióticos ou, mesmo, o transplante de microbiota fecal, poderá vir a ser uma esperança no tratamento de diversas doenças. Importa, assim, fazer o diagnóstico correto. Tudo se relaciona e nos faz refletir como muitas vezes o microbiota intestinal é negligenciado. Relacionar o microbioma com os mecanismos das doenças, numa visão mais holística, poderá ajudar na prevenção ou tratamento das principais causas de morte da atualidade.

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Microbiota poderá ter “papel relevante” na redução da gordura corporal

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“Temos cada vez mais evidências de que os desajustes da flora intestinal se relacionam com várias doenças” https://saudeonline.pt/temos-cada-vez-mais-evidencias-de-que-os-desajustes-da-flora-intestinal-se-relacionam-com-varias-doencas-2/ https://saudeonline.pt/temos-cada-vez-mais-evidencias-de-que-os-desajustes-da-flora-intestinal-se-relacionam-com-varias-doencas-2/#respond Fri, 29 Mar 2024 10:00:49 +0000 https://saudeonline.pt/?p=157234 De acordo com Conceição Calhau, os casos em que existe sintomatologia que remete para desequilíbrios na flora intestinal devem ser tratados, de modo a apoiar o tratamento de qualquer outra doença que possa coexistir. Em entrevista, a professora catedrática da NOVA Medical School e nutricionista especialista em Nutrição Clínica, explica a relação da alimentação com a saúde do intestino e refere em que casos deve ser feita suplementação de pre e/ou probióticos.

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Como funciona a microbiota intestinal?
A microbiota intestinal funciona como um órgão endócrino e neuroendócrino. É composta por microrganismos que interagem com as nossas células e com o organismo e que são importantes, por exemplo, para o processo digestivo. Enquanto espécie humana evoluímos porque sempre tivemos ajuda destes microrganismos para extrair nutrientes dos alimentos.

Muitas vezes ouvimos dizer que o intestino é um segundo cérebro, mas não é um segundo. Ambos são o mesmo cérebro devido à comunicação premium entre cérebro e intestino. O intestino é responsável por comandar a informação que vai ser enviada para todo o organismo. Se a pessoa estiver em jejum, os primeiros a sentir são estes microrganismos. O microbiota intestinal percebe que não existe a entrada de alimentos e vai comunicar com o intestino, que, por sua vez, produz uma proteína que vai até ao tecido adiposo e que faz com que a gordura que se encontre em circulação no sangue não tenha como prioridade ser acumulada no tecido adiposo, uma vez que não existe comida.

Em casos em que as pessoas referem engordar mesmo não comendo, a prioridade metabólica está centrada em acumular gordura no tecido adiposo, uma vez que falta a comunicação da informação dos microrganismos.

“Quando apresentamos alterações na microbiota intestinal o processo digestivo fica comprometido.”

 

Qual é a relação da alimentação saudável com a saúde do intestino?
Existem diversas variáveis capazes de influenciar a saúde do intestino, entre elas os medicamentos, o stress, a atividade física e a alimentação. Esta última é o fator mais importante, uma vez que o nosso padrão alimentar é também o alimento dos microrganismos presentes no intestino.

Em casos de alimentação pobre em hortofrutícolas e leguminosas, rica em hidratos de carbono, açúcar e proteína animal, existe uma seleção de microrganismos que se alimentam com este tipo de produtos. Assim, a alimentação é capaz de influenciar a qualidade e quantidade de microrganismos, que são muito diversos. Hoje em dia conseguimos perceber que a população foi perdendo diversidade, porque vamos dando de comer quase sempre aos mesmos microrganismos, e os que não têm nutrientes com que se alimentar vão-se perdendo.

Se existe um padrão alimentar diversificado e adesão à dieta mediterrânica a probabilidade de existir um microbiota saudável, em pleno funcionamento e equilibrado, é muito maior do que se o padrão alimentar for mais típico da dieta ocidental, rica em gordura saturada e açúcar.

Um outro ingrediente importante, e que deveria ser ingerido duas a três vezes por dia, são os alimentos fermentados, seja kombucha, iorgurte ou kefir. No fundo, alimentos probióticos, que estão associados à saúde. Com isto, a par de uma dieta mediterrânica, as pessoas conseguem introduzir bons microrganismos e ao mesmo tempo, diariamente, garantir que estes vivem e que se estabilizam no intestino. Em síntese, existem dois ingredientes importantes: o pre e o probiótico. O prebiótico diz respeito à fibra e o probiótico aos alimentos fermentados.

 

Quais são as consequências de um desequilíbrio da flora intestinal para o resto do organismo?
Atualmente, temos cerca de 15 anos de maior investigação nesta área. Neste momento sabemos que os desequilíbrios da microbiota intestinal, ou seja, a disbiose, está associada a muitas patologias, desde obesidade, resistência à insulina (e por consequência diabetes), cancro, quer seja do cólon, ou até mesmo cancro da mama ou da próstata. Está ainda associado a doença cardiovascular, doença mental (desde a depressão até ao espetro do autismo), não esquecendo as doenças autoimunes, como artrite reumatoide e psoríase.

As doenças autoimunes são um exemplo da importância das bactérias no nosso sistema imunitário. O ser humano apresenta muitas áreas de contacto no seu corpo com o meio exterior, sendo que o intestino apresenta uma grande presença do sistema imunitário e as bactérias comunicam com este. Se a comunicação começar a não ser a melhor o sistema imunitário começa a degradar-se. Assim, tem de aprender o que é e o que não é uma ameaça, o que é do próprio e o que não é. O que o sistema imunitário começa a reconhecer como não sendo seu é o que está mais envolvido com as doenças autoimunes, uma vez que o organismo começa a produzir anticorpos relativamente ao mesmo. Além disso, o intestino pode também começar a falhar no sentido em que não deteta células diferentes, como as de um cancro. Temos cada vez mais evidências científicas de que quando existe um desajuste da flora intestinal isto se relaciona com várias doenças.

Outro exemplo que tem alguma prevalência e muita atualidade é a questão da endometriose na mulher. Muitas vezes estas situações apresentam sintomas intestinais, mas estes vão-se negligenciando e o foco da atenção é apenas na endometriose em si. Temos, cada vez mais, de adotar uma abordagem mais complexa. Não tratamos doenças, tratamos o doente.

“Quando existe sintomatologia claramente identificada é importante tratar o intestino para ajudar no tratamento final de todas as restantes doenças.”

Em que casos deve ser feita a suplementação de pre ou probióticos?

Cada vez mais é necessário fazer a distinção de o que é um probiótico, pois no mercado atual existem vários muito diferentes. Tanto existem probióticos sobre os quais existe muita investigação clínica e evidência científica, como probióticos que mal sabemos o que contêm. A investigação clínica tem permitido que hajam probióticos direcionados para determinados quadros, seja para o síndrome de intestino irritável, obesidade, risco cardiovascular, etc. Cada vez temos mais informação de que, em determinada situação, x ou y probiótico é o mais adequado.

Quando falamos em suplementação, seja em que contexto for, significa que existe uma deficiência que precisamos de colmatar. Sou plenamente a favor da suplementação em situações diagnosticadas e justificadas. Sou contra à toma de probióticos injustificada, sem fundamento, apenas na lógica do princípio de que ‘se um faz bem, 10 faz melhor’. Se o meu ecossistema intestinal estiver em equilíbrio e eu introduzir mais microrganismos desnecessários posso correr o risco de não ter um efeito benéfico. Passo a citar Paracelsus, o pai da Toxicologia, que dizia que “a dose faz o veneno”.

Quanto aos prebióticos, depende muito daquilo que é a situação clínica da pessoa. Se ingerir 25 a 30 gramas de fibra por dia na forma de hortofrutícolas ou leguminosas, se o trânsito intestinal é regular, se tem fezes na escala de Bristol de tipo 4, eventualmente não há necessidade. Por outro lado, se não existe consumo de fibra e se estamos a falar de uma pessoa obstipada, aí devemos falar numa intervenção aguda em que é necessário suplementar fibra, sendo que também precisamos de saber de que tipo. Pode ser uma fibra parcialmente hidrolisada que não fermenta, solúvel, insolúvel, não é tudo o mesmo.

“É importante existir uma intervenção direcionada e com conhecimento científico associado.”

 

CG

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“Existe crescente evidência de que alterações no microbioma podem estar associadas à endometriose”

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Como funciona a microbiota intestinal?
A microbiota intestinal funciona como um órgão endócrino e neuroendócrino. É composta por microrganismos que interagem com as nossas células e com o organismo e que são importantes, por exemplo, para o processo digestivo. Enquanto espécie humana evoluímos porque sempre tivemos ajuda destes microrganismos para extrair nutrientes dos alimentos.

Muitas vezes ouvimos dizer que o intestino é um segundo cérebro, mas não é um segundo. Ambos são o mesmo cérebro devido à comunicação premium entre cérebro e intestino. O intestino é responsável por comandar a informação que vai ser enviada para todo o organismo. Se a pessoa estiver em jejum, os primeiros a sentir são estes microrganismos. O microbiota intestinal percebe que não existe a entrada de alimentos e vai comunicar com o intestino, que, por sua vez, produz uma proteína que vai até ao tecido adiposo e que faz com que a gordura que se encontre em circulação no sangue não tenha como prioridade ser acumulada no tecido adiposo, uma vez que não existe comida.

Em casos em que as pessoas referem engordar mesmo não comendo, a prioridade metabólica está centrada em acumular gordura no tecido adiposo, uma vez que falta a comunicação da informação dos microrganismos.

“Quando apresentamos alterações na microbiota intestinal o processo digestivo fica comprometido.”

 

Qual é a relação da alimentação saudável com a saúde do intestino?
Existem diversas variáveis capazes de influenciar a saúde do intestino, entre elas os medicamentos, o stress, a atividade física e a alimentação. Esta última é o fator mais importante, uma vez que o nosso padrão alimentar é também o alimento dos microrganismos presentes no intestino.

Em casos de alimentação pobre em hortofrutícolas e leguminosas, rica em hidratos de carbono, açúcar e proteína animal, existe uma seleção de microrganismos que se alimentam com este tipo de produtos. Assim, a alimentação é capaz de influenciar a qualidade e quantidade de microrganismos, que são muito diversos. Hoje em dia conseguimos perceber que a população foi perdendo diversidade, porque vamos dando de comer quase sempre aos mesmos microrganismos, e os que não têm nutrientes com que se alimentar vão-se perdendo.

Se existe um padrão alimentar diversificado e adesão à dieta mediterrânica a probabilidade de existir um microbiota saudável, em pleno funcionamento e equilibrado, é muito maior do que se o padrão alimentar for mais típico da dieta ocidental, rica em gordura saturada e açúcar.

Um outro ingrediente importante, e que deveria ser ingerido duas a três vezes por dia, são os alimentos fermentados, seja kombucha, iorgurte ou kefir. No fundo, alimentos probióticos, que estão associados à saúde. Com isto, a par de uma dieta mediterrânica, as pessoas conseguem introduzir bons microrganismos e ao mesmo tempo, diariamente, garantir que estes vivem e que se estabilizam no intestino. Em síntese, existem dois ingredientes importantes: o pre e o probiótico. O prebiótico diz respeito à fibra e o probiótico aos alimentos fermentados.

 

Quais são as consequências de um desequilíbrio da flora intestinal para o resto do organismo?
Atualmente, temos cerca de 15 anos de maior investigação nesta área. Neste momento sabemos que os desequilíbrios da microbiota intestinal, ou seja, a disbiose, está associada a muitas patologias, desde obesidade, resistência à insulina (e por consequência diabetes), cancro, quer seja do cólon, ou até mesmo cancro da mama ou da próstata. Está ainda associado a doença cardiovascular, doença mental (desde a depressão até ao espetro do autismo), não esquecendo as doenças autoimunes, como artrite reumatoide e psoríase.

As doenças autoimunes são um exemplo da importância das bactérias no nosso sistema imunitário. O ser humano apresenta muitas áreas de contacto no seu corpo com o meio exterior, sendo que o intestino apresenta uma grande presença do sistema imunitário e as bactérias comunicam com este. Se a comunicação começar a não ser a melhor o sistema imunitário começa a degradar-se. Assim, tem de aprender o que é e o que não é uma ameaça, o que é do próprio e o que não é. O que o sistema imunitário começa a reconhecer como não sendo seu é o que está mais envolvido com as doenças autoimunes, uma vez que o organismo começa a produzir anticorpos relativamente ao mesmo. Além disso, o intestino pode também começar a falhar no sentido em que não deteta células diferentes, como as de um cancro. Temos cada vez mais evidências científicas de que quando existe um desajuste da flora intestinal isto se relaciona com várias doenças.

Outro exemplo que tem alguma prevalência e muita atualidade é a questão da endometriose na mulher. Muitas vezes estas situações apresentam sintomas intestinais, mas estes vão-se negligenciando e o foco da atenção é apenas na endometriose em si. Temos, cada vez mais, de adotar uma abordagem mais complexa. Não tratamos doenças, tratamos o doente.

“Quando existe sintomatologia claramente identificada é importante tratar o intestino para ajudar no tratamento final de todas as restantes doenças.”

Em que casos deve ser feita a suplementação de pre ou probióticos?

Cada vez mais é necessário fazer a distinção de o que é um probiótico, pois no mercado atual existem vários muito diferentes. Tanto existem probióticos sobre os quais existe muita investigação clínica e evidência científica, como probióticos que mal sabemos o que contêm. A investigação clínica tem permitido que hajam probióticos direcionados para determinados quadros, seja para o síndrome de intestino irritável, obesidade, risco cardiovascular, etc. Cada vez temos mais informação de que, em determinada situação, x ou y probiótico é o mais adequado.

Quando falamos em suplementação, seja em que contexto for, significa que existe uma deficiência que precisamos de colmatar. Sou plenamente a favor da suplementação em situações diagnosticadas e justificadas. Sou contra à toma de probióticos injustificada, sem fundamento, apenas na lógica do princípio de que ‘se um faz bem, 10 faz melhor’. Se o meu ecossistema intestinal estiver em equilíbrio e eu introduzir mais microrganismos desnecessários posso correr o risco de não ter um efeito benéfico. Passo a citar Paracelsus, o pai da Toxicologia, que dizia que “a dose faz o veneno”.

Quanto aos prebióticos, depende muito daquilo que é a situação clínica da pessoa. Se ingerir 25 a 30 gramas de fibra por dia na forma de hortofrutícolas ou leguminosas, se o trânsito intestinal é regular, se tem fezes na escala de Bristol de tipo 4, eventualmente não há necessidade. Por outro lado, se não existe consumo de fibra e se estamos a falar de uma pessoa obstipada, aí devemos falar numa intervenção aguda em que é necessário suplementar fibra, sendo que também precisamos de saber de que tipo. Pode ser uma fibra parcialmente hidrolisada que não fermenta, solúvel, insolúvel, não é tudo o mesmo.

“É importante existir uma intervenção direcionada e com conhecimento científico associado.”

 

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“Existe crescente evidência de que alterações no microbioma podem estar associadas à endometriose”

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“O acesso a Consultas de Nutrição no SNS é manifestamente insuficiente” https://saudeonline.pt/o-acesso-a-consultas-de-nutricao-no-sns-e-manifestamente-insuficiente/ https://saudeonline.pt/o-acesso-a-consultas-de-nutricao-no-sns-e-manifestamente-insuficiente/#respond Thu, 25 Aug 2022 07:02:58 +0000 https://saudeonline.pt/?p=133782 Em entrevista, a coordenadora da Licenciatura em Ciências da Nutrição da NOVA Medical School considera que o acesso no SNS ainda é limitado, "não só por a procura ser maior que a oferta, como também pelo facto de a procura ser ainda inferior à real necessidade".

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microbiota

Qual a dimensão do excesso de peso e obesidade em Portugal? Como têm estes indicadores vindo a evoluir e como nos comparamos com os países europeus?

Em Portugal, os dados do último Inquérito Nacional de Saúde (2019), divulgados pelo INE, indicam que 53,6% da população adulta portuguesa apresenta excesso de peso (pré-obesidade ou obesidade), sendo que a obesidade afeta 1,5 milhões de pessoas (16,9%). A evolução do excesso de peso e da obesidade em Portugal entre 2005 e 2019 mantém uma tendência crescente, sendo a pré-obesidade mais prevalente no sexo masculino (42,2% vs 31,9%) e a obesidade no sexo feminino (17,4% vs 16,4%).

A estimativa padronizada para a idade, que permite uma comparação mais rigorosa entre países, apresentada no relatório da OMS “WHO European Regional Obesity Report 2022”, mostra que a prevalência de excesso de peso e de obesidade na população adulta portuguesa é inferior à média da Europa dos 13, Europa dos 14 e à média dos países da região Europeia da OMS.

Em Portugal dados de 2019 do COSI indicam que das crianças entre os 6 e os 8 anos apresentavam 29,7% apresentavam excesso de peso e 11,9% obesidade. Nos últimos 11 anos, o estudo COSI Portugal (2008 a 2019) tem vindo a demonstrar uma tendência ligeiramente invertida na prevalência de excesso de peso (incluindo obesidade). De 2008 para 2019 verificou-se uma redução de 8,2 pontos percentuais na prevalência de excesso de peso infantil (37,9% para 29,7%). Relativamente à prevalência de obesidade, verificou-se igualmente uma diminuição, de 15,3% em 2008 para 11,9% em 2019.

“A prevalência de excesso de peso e de obesidade na população adulta portuguesa é inferior à média da Europa”

A nível europeu, e de acordo com o relatório da OMS “WHO European Regional Obesity Report 2022” entre 1975 e 2016, a prevalência de excesso de peso e obesidade nas crianças dos 5 aos 19 anos de idade aumentou quase três vezes nos rapazes, e mais do que duplicou nas raparigas. O estudo COSI, demonstrou que 29% dos rapazes e 27% das raparigas entre os 7-9 anos vivem com excesso de peso ou obesidade.

Em crianças com menos de 5 anos de idade, 8% vivem com excesso de peso (incluindo obesidade). A prevalência é maior entre os 5 e os 9 anos, com 30% das crianças a viver com excesso de peso (incluindo obesidade). A prevalência diminui transitoriamente nos adolescentes, nos quais um quarto vive com excesso de peso (incluindo obesidade).

É preciso continuar o trabalho de sensibilização que tem vindo a ser feito no sentido de promover uma alimentação saudável e um estilo de vida mais ativo? Para além disso, que outras ações são necessárias de modo a combater a obesidade?

Estaremos a falar de estratégias de prevenção das doenças mais associadas aos estilos de vida adotados nos últimos 50 anos, além da obesidade, a diabetes, as doenças cardiovasculares, o cancro, entre muitas outras. É emergente intervir ao nível da literacia em saúde e muito particularmente em alimentação. Dar ao cidadão competências de modo que, de forma consciente, tome decisões, faça escolhas. Mais do que explicar o que é alimentação saudável, o cidadão deve compreender que escolhas de hoje, estilo de vida de hoje, tem necessariamente implicações na saúde de amanhã. E, sobretudo, de acordo com as suas vulnerabilidades, poder prevenir e adotar medidas que potenciam a sua saúde. Na verdade, somos um país onde vivemos mais anos, mas ainda não com saúde.

Para isto seria necessário ter os licenciados em Ciências da Nutrição em vários setores, desde influenciadores de políticas na área da produção primária, da indústria alimentar, da restauração coletiva, a mais licenciados a exercer nutrição clínica, tanto ao nível da prevenção, nos cuidados primários, como ao nível da intervenção nutricional nos doentes em internamento hospitalar ou em ambulatório, e ainda ao nível do desporto.

O mind set da população ainda não está centrado no cuidado e na prevenção”

 

A DGS identificou a alimentação como prioridade quando criou um dos programas prioritários, o PNPAS (Programa Nacional Promoção de Alimentação Saudável) e mais recentemente um outro para o exercício físico. Este esforço deve ser acompanhado de um alinhamento em vários setores.

 

 Como avalia o acesso a consultas de nutrição em Portugal? O que se poderia fazer para melhorar este aspeto?

Este ponto é crítico. O acesso a Consultas de Nutrição no Serviço Nacional de Saúde é manifestamente insuficiente. Não só por a procura ser maior que a oferta, como também pelo facto de a procura ser ainda inferior à real necessidade.

O mind set da população ainda não está centrado no cuidado e na prevenção. A sociedade funciona com o recurso aos cuidados de saúde num registo de ‘direito’ à saúde e menos num registo de dever do cuidado da saúde. Idealmente uma Consulta de Nutrição devia permitir estudar de forma precisa e individual as condições de cada indivíduo para que este seja capaz, com as competências necessárias, de adotar um estilo de vida condizente com os seus padrões de saúde… Estaremos no caminho, mas ainda distantes de lá chegar!

As Consultas de Nutrição fora do Serviço Nacional de Saúde são uma opção. Falta fazer ainda muito no acesso, por disponibilidade de nutricionistas, mas também, ou sobretudo, pela necessidade de reconhecimento por seguradoras da importância dos serviços prestados e respetivo impacto em índices de saúde. O que até pouparia muito a seguradoras! Sobre este tema, dois tópicos a reforçar: a necessidade de identificar o nutricionista pelo seu registo na Ordem dos Nutricionistas, identificado sempre com um número da Ordem; a elevada expectativa que todos temos com a recente criação da especialidade de Nutrição Clínica dentro da Ordem dos Nutricionistas e da recente eleição do colégio de especialidade. A criação da Licenciatura de Ciências da Nutrição numa escola médica, NOVA Medical School, em 2018, está alinhada com uma visão de formação de profissionais de saúde preparados para tratar e prevenir os principais problemas de saúde da atualidade. Para trabalharem em equipa, para articularem e discutirem ideias. Muito importante poder intervir quer com terapêutica farmacológica (médico), quer com terapêutica não farmacológica, como é a nutricional (nutricionista).

Considera que é necessário formar um maior número de nutricionistas em Portugal e melhorar a qualidade da formação destes profissionais?

Para esta pergunta existem duas respostas. Considerando as vagas, podemos não ter de licenciar mais, mas claramente melhor. Por outro lado, onde o nutricionista acrescenta valor é nas necessidades que não estão ainda reconhecidas nas mais diferentes áreas da sociedade. Assim, considero que são necessários mais e melhores profissionais, capazes de criar valor, diferencial e com isso, e de forma natural, criar as oportunidades que acontecerão por imposição da própria sociedade ou por conquista dos que já são ou dos que serão nutricionistas.

“Considero que são necessários mais e melhores profissionais”

Recordo que o mercado de trabalho que temos hoje era ainda uma quimera há uns poucos anos atrás. São os nutricionistas que já têm colocação no mercado de trabalho e académico que muito podem e devem contribuir para a responsabilidade de criar mais oportunidades, e não o contrário. A formação universitária dos nutricionistas deve ser cada vez mais exigente. Seja em ambiente público, seja privado. A qualidade das licenciaturas deve ser pautada por uma maior exigência. Como? Criando ambientes de investigação, de saber pensar e de saber fazer, com as oportunidades de treino em ambiente clínico, de indústria, de saúde pública ou comunitária, de restauração coletiva, de desporto, e de muitas outras que vão surgindo. As necessidades da sociedade de hoje podem não ser as de amanhã. Os nutricionistas que terminam a licenciatura em Ciências da Nutrição devem também ter competências na área do empreendedorismo e ainda da sustentabilidade. Precisamos sobretudo de formar os próximos de líderes de opinião.

De que forma a Nutrição enquanto ciência pode ajudar a criar uma sociedade mais saudável?

Se pensarmos nas prioridades identificadas nos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas, conseguimos compreender de forma objetiva e clara o quanto as Ciências da Nutrição são parte da solução.

Acabaram recentemente a formação os primeiros alunos do curso de Nutrição da Nova Medical School. Quais os motivos/razões que levaram a NOVA criar uma licenciatura nesta área, que a Prof.ª coordena? que necessidades se pretendem colmatar?

Houve razões institucionais e razões pessoais. No que se refere às institucionais, enquanto escola de Ciências Médicas, era estratégico alargar a oferta formativa, não só a médicos, mas também a nutricionistas. Assim, a NOVA Medical School abraçou a inovação ao criar a oportunidade de formar dois profissionais em paralelo, que falam a mesma linguagem, que são capazes de no mesmo doente trabalhar de forma sinérgica através de fazer uma intervenção médica farmacológica e de uma intervenção no estilo de vida..

Na expectativa de que este ambiente de colaboração, desde o ensino, proporcione aos futuros médicos o reconhecimento das competências do nutricionista e permita a estes últimos sentirem-se mais capacitados a implementar diariamente cuidados integrados, prestados em equipa. Paralelamente, esta presença visa aumentar os conhecimentos médicos em alimentação e em nutrição. Esta tem sido a minha área de investimento desde que fiz a agregação na faculdade de medicina do Porto em 2010. Nos Estados Unidos da América este tema foi explorado nos anos 80 do século passado. No entanto, a discussão na Europa chegou só neste século. Em Portugal, ainda não temos um claro investimento na formação dos médicos na área da nutrição. Não é que devam fazer intervenção. Mas devem conhecê-la e estarem mais bem preparados para identificar a necessidade e o impacto que poderá ter. Da mesma forma, os estudantes de Ciências da Nutrição estudam farmacologia. Não para fazerem a prescrição de fármacos, mas para servirem adequadamente as pessoas a que prestam cuidado, conhecendo as interações alimento-medicamento e compreendendo o quadro clínico na sua totalidade. No que diz respeito a razões pessoais, quando em 2016 decidi abraçar o desafio de vir para a NMS ensinar Nutrição, não vim apenas leccionar no mestrado integrado de medicina (o que já fazia desde 1995 na Faculdade de Medicina do Porto). Vim, acima de tudo atrás de uma visão estratégica de futuro no ensino da saúde, na qual acredito e que é corporizado no projeto de desenvolvimento da NMS.

SO

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“Culinary Medicine”. Médicos na cozinha para ajudar doentes a travar doenças crónicas https://saudeonline.pt/culinary-medicine-medicos-na-cozinha-para-ajudar-doentes-a-travar-doencas-cronicas-2/ https://saudeonline.pt/culinary-medicine-medicos-na-cozinha-para-ajudar-doentes-a-travar-doencas-cronicas-2/#respond Mon, 24 Jan 2022 14:29:57 +0000 https://saudeonline.pt/?p=127006 O objetivo do curso é dar aos médicos – internos e de medicina geral e familiar - ferramentas que respondam a um dos grandes desafios: o combate às doenças crónicas.

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A Nova Medical School vai levar os médicos para a cozinha para que possam ensinar aos utentes que a alimentação saudável é mais do que cozidos e grelhados e ajudar a travar a pandemia das doenças crónicas.

“Muitas vezes o doente processa a informação de forma errada. Por exemplo, quando o cardiologista diz que se tem de comer mais peixe, porque a gordura do peixe é específica, as pessoas muitas vezes vão cozer ou grelhar, perdendo a gordura saudável”, explicou à Lusa Conceição Calhau, responsável pela área de Nutrição da Nova Medical School – Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Nova de Lisboa.

Sobre o curso “Culinary Medicine”, que é lançado na quarta-feira, a especialista explica que o objetivo é dar aos médicos – internos e de medicina geral e familiar – ferramentas que respondam a um dos grandes desafios que a sociedade enfrenta: o combate às doenças crónicas.

“As pessoas, por vezes, não sabem sequer qual o peixe que devem comer, como o selecionar e como o cozinhar”, explicou a especialista, acrescentando: “Precisamos de preparar os médicos para a medicina preventiva, que passa pelos estilos de vida”.

“A cada 10 anos fazemos projeções [sobre estas doenças] e não deixamos de ver os números aumentar”, insiste.

A especialista lembra que os médicos “são a primeira linha de acesso ao doente e têm de saber daquilo que é a bioquímica, o metabolismo e os alimentos”, lembrando: “Nada melhor do que uma aula prática na cozinha para saberem preparar os alimentos”.

Explicou que com este curso se pretende também desmistificar a ideia de que só se deve comer cozidos e grelhados: “Quando se fala de dieta mediterrânica não se fala de nada disto, estamos a falar de caldeiradas e ensopados”.

Diz ainda que com esta formação se ensino igualmente “a perceber como se fazem refeições rápidas, mas adequadas”, pois o ‘fast food’ “não tem de ser sempre pouco saudável”.

“Um dos grandes problemas da população é comer fora, é comprar comida já feita e não conseguir, por falta de tempo ou por não saber, preparar as suas próprias refeições”, lembra.

A especialista aponta ainda o peso de doenças crónicas como a obesidade, hipertensão ou colesterol elevado para os serviços de saúde – em exames de diagnóstico, tratamentos e medicamentos – e diz que muitas vezes bastam algumas alterações na alimentação, juntamente com o exercício, para fazer a diferença.

“Não faz sentido ter os doentes não controlados, dependentes da farmacologia e presos de uma forma crónica a colecionar vários grupos de medicamentos”, acrescenta.

Conceição Calhau defende igualmente que a sustentabilidade dos sistemas de saúde só é possível com menos carga de doença e uma “medicina dos 4 pês”, que “é capaz de predizer o risco de cada um, de prevenir e de ser personalizada para poder ser participada”.

“Se as pessoas souberem o que é que para cada um dos casos têm de fazer, ao longo da vida, conseguem participar nesta ação, e não apenas participar no acesso aos serviços de saúde quando já estão doentes”, lembra.

A 1.ª fase desta formação abrange médicos internos e de médicos de medicina geral de familiar, mas no futuro abrangerá associações de doentes, para os ajudar a cozinhar as suas refeições tirando o melhor partido dos alimentos.

“É sempre um mito ir para a cozinha. Quando falamos em ingerir 25 a 30 gramas em fibra não é comprar cereais. Quando perguntamos às pessoas se nas hortofrutícolas consomem fibra dizem que sim, que comem salada, mas aquilo não tem praticamente fibra nenhuma”, exemplifica.

A especialista sublinha ainda a importância da vertente ambiental: “Temos de perceber que se o clima mudou os alimentos também mudaram. O alimento que eu encontro hoje na natureza não é igual ao que comíamos há 50 anos atrás e, por isso, é possível que a pessoa tenha muito mais deficiências nutricionais. Os alimentos são menos ricos em determinadas coisas”.

LUSA

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