Carina Peixoto Ferreira - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/carina-peixoto-ferreira/ Notícias sobre saúde Thu, 02 Jul 2026 13:10:16 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Carina Peixoto Ferreira - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/carina-peixoto-ferreira/ 32 32 Quando a resiliência deixa de ser suficiente https://saudeonline.pt/quando-a-resiliencia-deixa-de-ser-suficiente/ https://saudeonline.pt/quando-a-resiliencia-deixa-de-ser-suficiente/#respond Fri, 03 Jul 2026 08:30:09 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188135 Médica Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Maria da Fonte - ULS Braga

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Nos cuidados de saúde primários habituámo-nos a resolver problemas. Quando faltam médicos, redistribuímos listas. Quando aumentam as necessidades da população, reorganizamos agendas. Quando surgem novas exigências administrativas, absorvemo-las entre consultas, telefonemas e visitas domiciliárias.

A capacidade de adaptação e plasticidade sempre foram das maiores forças motrizes da Medicina Geral e Familiar. Mas quando um sistema depende continuamente da capacidade de adaptação dos seus profissionais para conseguir funcionar, talvez o problema já não seja a capacidade de adaptação. Talvez seja o próprio sistema. Enquanto coordenadora de uma unidade de saúde experienciei, durante largos meses, a realidade de gerir uma equipa deficitária em vários médicos, tentando garantir a continuidade de cuidados, proteger os profissionais remanescentes e responder às necessidades de uma população que legitimamente continuava a exigir cuidados de saúde.

Paralelamente a este desafio profissional contínuo, fora da unidade, existia outra realidade pessoal igualmente exigente: a de ser mãe e cuidadora de uma criança com doença crónica. Estas experiências recordaram-me uma evidência tantas vezes esquecida: os profissionais de saúde não deixam de ser pais, mães, filhos ou cuidadores quando entram ao serviço.

Apesar disso, continua a existir uma cultura silenciosa que valoriza a disponibilidade permanente e encara o reconhecimento dos próprios limites como um sinal de menor compromisso profissional. Mas cuidar nunca deveria implicar o deixar de cuidar de si. A conciliação entre vida profissional, familiar e pessoal não constitui um privilégio nem uma concessão organizacional. Constitui sim um alicerce fundamental e inequívoco para a sustentabilidade dos profissionais e das equipas nas suas mais variadas facetas.

Da mesma forma, as ausências médicas não devem ser encaradas exclusivamente como um problema de acesso ou de gestão de agendas, pois, muitas vezes, essas ausências são simplesmente o resultado previsível de equipas sujeitas, durante demasiado tempo, a sobrecarga assistencial, pressão organizacional e desgaste emocional acumulado. Durante anos elogiámos a resiliência dos profissionais. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que nenhuma organização pode assentar, indefinidamente, na capacidade individual de suportar o insustentável.

A humanização dos cuidados de saúde começa inevitavelmente dentro das organizações. Não é possível exigir empatia, disponibilidade, escuta ativa e capacidade de cuidar a profissionais que trabalham continuamente no limite. É fundamental a discussão acerca das condições necessárias para que aqueles que permanecem possam continuar a exercer Medicina com qualidade e humanidade. Porque cuidar dos profissionais não é um benefício laboral, é uma estratégia de fixação de recursos humanos, é um requisito de qualidade e é, provavelmente, uma das condições essenciais e determinantes para garantir o futuro dos cuidados de saúde primários em Portugal.

Um SNS verdadeiramente humanizado mede-se não apenas pela forma como acolhe, cuida e trata dos seus utentes, mas igualmente pela forma como também cuida daqueles que todos os dias cuidam dos outros.

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