Ana Sofia Marafona - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/ana-sofia-marafona/ Notícias sobre saúde Mon, 01 Jun 2026 09:50:07 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Ana Sofia Marafona - Saúde Online https://saudeonline.pt/tag/ana-sofia-marafona/ 32 32 Contraceção reversível de longa duração: benefícios, desafios e oportunidades em Medicina Geral e Familiar https://saudeonline.pt/contracecao-reversivel-de-longa-duracao-beneficios-desafios-e-oportunidades-em-medicina-geral-e-familiar/ https://saudeonline.pt/contracecao-reversivel-de-longa-duracao-beneficios-desafios-e-oportunidades-em-medicina-geral-e-familiar/#respond Mon, 01 Jun 2026 09:50:07 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187460 Mestrado em Medicina; Especialista em Medicina Geral e Familiar; Médica Assistente em Medicina Geral e Familiar na ULS de São João; Co-Coordenadora do Grupo de Estudos da Saúde da Mulher da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar

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A contraceção reversível de longa duração (Long-Acting Reversible Contraception, LARC) estabelece-se, neste momento, como uma das estratégias mais eficazes na redução das gravidezes não planeadas (<0,1-0,8% de falha anual com uso típico vs cerca 7% na contraceção oral combinada), na promoção do planeamento da família e na otimização dos indicadores de saúde sexual e reprodutiva, auxiliando os casais na vivência da sua sexualidade de forma consciente e segura.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2026, mantém a recomendação de expansão do acesso universal aos métodos LARC, sobretudo dispositivos intrauterinos e implantes subcutâneos. Neste sentido, reforça a necessidade de eliminar as barreiras à sua utilização e da capacitação dos profissionais de saúde.

De facto, estes métodos contrapõem as maiores desvantagens dos demais. Têm uma elevada eficácia contracetiva independente da adesão diária da utilizadora, permite o rápido retorno à fertilidade e são apropriados para a maioria das mulheres, incluindo adolescentes, nulíparas e mulheres no pós-parto desde que avaliadas segundo os critérios de elegibilidade clínica.

Em prol desta otimização no acesso aos LARC, a OMS reitera o foco no “same-day access”, ou seja, com inserção no próprio dia sempre que clinicamente seguro. Reforça, ainda, a introdução imediata da contraceção nos cuidados pós interrupção voluntária da gravidez (IVG), pós-parto e consultas de saúde sexual. Adicionalmente, o documento salienta a utilização em adolescentes com excelente perfil risco-benefício. De facto, traduz-se em menos gravidezes não planeadas, maior adesão, maior continuidade na utilização e ausência comprovada de impacto negativo no retorno à fertilidade.

No relatório nacional de IVG de Portugal (dados de 2024) é evidente o uso crescente dos LARC, sendo que 90,4% das mulheres aceitam contraceção após IVG, sendo que 36% optaram por estes métodos (estes dados incluem laqueação tubar). Os dados portugueses publicados sugerem um crescimento sustentado do uso do implante subcutâneo em mulheres jovens, adolescentes, pós-IVG e em populações vulneráveis. Não obstante, o DIU de Levonorgestrel tem ganho importância, não apenas pela contraceção, mas também por indicação ginecológica (menorragia, adenomiose, dismenorreia e endometriose).

Apesar das recomendações da OMS, vários obstáculos continuam presentes, destacam-se:

– A formação desigual dos profissionais de saúde nos CSP na colocação de DIU/implantes subcutâneos e aconselhamento estruturado em LARCs;

– A existência de mitos relativamente à infertilidade futura, risco de doença inflamatória pélvica, contra-indicação em nulíparas, aumento de peso, impacto negativo na adolescência;

– Os tempos de colocação, particularmente, atrasos na colocação, referenciação hospitalar excessiva e dependência da disponibilidade local.

Segundo as recomendações da OMS, parece haver uma necessidade na uniformização dos pontos a serem abordados em consulta de apresentação de LARC. A comunicação deve ser simples, objetiva e reprodutível entre profissionais de saúde e devem ser abordados:

– Eficácia do método;

– Perfil hemorrágico expectável;

– Retorno da fertilidade;

– Efeitos adversos;

– Ausência de proteção em relação a doenças sexualmente transmissíveis.

Em suma, o aconselhamento deve ser centrado na pessoa, privilegiando-se a transmissão de informação baseada na evidência, a promoção da decisão partilhada, a autonomia reprodutiva e a escolha individualizada.

 

Referências:

 

World Health Organization. (n.d.). Providing clinical guidance. WHO. Recuperado em 19 de maio de 2026, de https://www.who.int/activities/providing-clinical-guidance

– Direção-Geral da Saúde. (2024). Relatório IVG 2024. DGS. https://www.dgs.pt/Relatorios_IVG/relatorio_ivg_site_dgs/relatorio_ivg_para_site_dgs_20260424_1603.html

– World Health Organization. (2018, February 13). Updated and expanded guidance for family planning providers worldwide. WHO. https://www.who.int/news/item/13-02-2018-updated-and-expanded-guidance-for-family-planning-providers-worldwide

Sociedade Portuguesa da Contraceção, Sociedade Portuguesa de Ginecologia, & Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução. (2020). Consenso sobre contraceção 2020. https://www.spdc.pt/images/CONSENSOS_FINAL.pdf

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