Médico Oftalmologista

Ser Médico Antes de Ser Especialista
E Nunca Deixar de o Ser…

Existem aquelas frases que nos marcam e das quais não nos conseguimos esquecer, por boas ou más razões. Neste caso, as razões são, claramente as melhores e esta frase, proferida pelo meu primeiro mestre, Professor Doutor João Ribeiro da Silva, nunca me saiu da mente, marcando e norteando o meu percurso clínico.

Disse-me o Professor Ribeiro da Silva: “Antes de sermos oftalmologistas somos médicos“.

Nestas palavras encerram-se duas verdades, uma óbvia, a outra nem tanto. Se é inevitável que só pode ser especialista em Oftalmologia (ou noutra área) quem concluir a licenciatura em Medicina, já não é tão seguro que um especialista, depois de o ser, não vá perdendo a sua visão holística da Medicina e do paciente para se centrar, cada vez mais, na matéria que define a sua especialidade.

O facto é que o conhecimento médico é tão vasto, tão denso e tão dinâmico que um especialista, mesmo que se dedique apenas à sua área ou a uma parte dela (as sub-especialidades), não conseguirá nunca dominar toda a informação disponível. E a prestação de cuidados médicos de excelência requer a existência de profissionais altamente qualificados, capazes de executar gestos técnicos e cirúrgicos complexos com a máxima segurança e com o mínimo risco.

A criação de centros de referência, dedicados quase em exclusivo a determinadas técnicas cirúrgicas, é um bom exemplo do que acabo de referir e a sua existência proporciona resultados mais reprodutíveis e reduz a taxa de complicações.

O problema, portanto, coloca-se na evolução dos especialistas, no que se refere à sua capacidade (e disponibilidade) para ver o paciente como um todo, para integrar o que ele diz e sente num plano mais global e, também, no que se refere à sua capacidade de retenção e de actualização do conhecimento médico essencial (gosto muito da expressão “common medical knowledge”).

No fundo, dedicamos 6 a 8 anos da nossa vida na licenciatura e nos estágios (agora já será diferente…), percorremos as ciências básicas e as clínicas, acumulamos um vasto volume de conhecimento que nos permite entender a saúde e a doença e, sobretudo, avaliar a pessoa doente, e, depois, afunilamos o nosso estudo e a nossa prática num campo muito reduzido de intervenção que nos torna excelentes nesse campo mas limitados em tudo o resto.

A especialização e a sub-especialização são vias essenciais para a prestação de cuidados de saúde de excelência e existirão sempre internistas e generalistas capazes de funcionar como elementos de ligação e de referenciação, cuidando da saúde do paciente como um todo e apoiando-se nas diferentes especialidades sempre que necessário. Este é o modelo médico actual e tem vantagens incontestáveis.

A razão de ser desta minha reflexão resulta de pensar nos milhares de especialistas que, sendo médicos de formação, acabam por perder a capacidade de analisar globalmente um doente e de nele pensar para lá do estrito âmbito da sua competência.

Para lá do desperdício que daqui resulta, existem alguns riscos potenciais que importa não descurar. Um doente que recorra a dois especialistas de áreas médicas distintas com determinada queixa será avaliado por cada um deles de forma bem diferente, realizando exames que visam identificar um problema que se enquadre dentro do seu campo de intervenção. Ou seja, uma limitação na marcha será avaliada de modo diferente por um ortopedista, um neurologista ou um reumatologista porque cada um deles irá, em primeiro lugar, tentar identificar uma causa ortopédica, neurológica ou reumatológica e, apenas depois, serão colocadas outras possibilidades de diagnóstico. E, neste processo, consomem-se recursos e perde-se tempo que, em alguns casos, pode ser decisivo para o prognóstico do paciente.

Recordando as palavras do meu mestre, e também por opção própria, procuro manter a minha “reserva” de conhecimento médico o mais completa possível, lendo alguns artigos de revisão, falando com colegas de outras especialidades e, sobretudo, avaliando em cada doente tudo o que possa avaliar. A Oftalmologia, como tantas outras especialidades, não vive isolada da restante Medicina e muitas das doenças que estuda e trata podem ser o reflexo de perturbações de outros órgãos ou sistemas.

Como tal, um conhecimento aprofundado desta especialidade não pode nunca substituir a prática sistemática de um raciocínio médico alargado que enquadre as queixas do paciente nos seus antecedentes pessoais e familiares, na terapêutica em curso e na restante sintomatologia.

Como referi, será sempre impossível tudo abarcar e tudo saber, por mais que segmentemos a actividade médica. Caminhar no sentido da especialização tornará o domínio de cada matéria mais completo mas tenderá a criar profissionais menos preparados para “ver para lá da sua especialidade”.

Tratar-se-á sempre de uma opção pessoal de cada profissional decidir como deseja potenciar a sua formação de base e servir os seus pacientes. Fica aqui este apelo para que, mesmo que se opte pela especialização, nunca se perca o interesse pelo doente como um ser humano completo que merece ser ouvido e tratado na sua plenitude.

Não sendo este um equilíbrio fácil de alcançar, nele reside, em minha opinião, toda a essência da Arte Médica: tratar pessoas e não doenças.

Alguém dizia, com graça, o seguinte (perdoem o inglês, mas aqui resulta melhor): “Endoscopists tend to see the hole of the patient instead of the patient as a whole”

E, concordarão, este não é o caminho a seguir…

 

ler mais

RECENTES

ler mais