Reduzir o Risco de Cancro
Excelente Resolução de Ano Novo!…

Luís Gouveia Andrade

Luís Gouveia Andrade

Médico Oftalmologista

Hospital CUF Infante Santo

As doenças cancerosas são, e continuarão a ser, uma causa importante de morbilidade e mortalidade em todo o Mundo. Não se trata de uma previsão mas de um facto, intrinsecamente associado ao aumento de esperança de vida das populações e à crescente exposição a substâncias com potencial cancerígeno.

Em função da geografia, da idade, do género, do estilo de vida, da genética e de outras variáveis, o tipo de cancro tenderá a ser diferente mas a verdade é que cerca de  512 pessoas em 100.000 no género masculino e 382 em 100.000 no género feminino poderão desenvolver alguma forma desta doença, cujo impacto na nossa vida e na dos que não são próximos é sempre devastador (dados nacionais da Direcção Geral da Saúde, 2015). E estes números eram bem menores há uns anos…

É, portanto, uma doença do presente e do futuro.

Numa perspectiva de prevenção, e considerando esta época de início de um Novo Ano, vale a penas rever algumas estratégias simples e do mais elementar bom senso que, para lá de nos proporcionarem uma vida mais saudável e, ainda mais longa, têm demonstrado estar associadas a uma redução do risco de desenvolvimento de diversos tipos de cancro.

De facto, os estudos já realizados permitem afirmar que uma dieta saudável, a prática regular de exercício físico e não fumar permitem, só por si, reduzir em mais de metade o número de mortes por cancro, o que é de assinalar e nunca esquecer.

No que se refere à alimentação, sabe-se que o excesso de peso aumenta de forma significativa o risco de cancro da mama, do colon, do recto, do útero, do esófago, do pâncreas e do rim. Controlar as quantidades de alimento ingeridas, restringir a ingestão de alimentos muito calóricos, carnes processadas e carne vermelha, ingerir fruta e vegetais numa base diária e limitar o consumo de álcool são recomendações clássicas que vale a pena manter sempre bem presentes.

A actividade física recomendada pela Sociedade Americana do Cancro é de, pelo menos, 150 minutos de exercício moderado ou 75 minutos de exercício intenso por semana. Pode parecer pouco mas este nível de exercício reduz o risco de doença cardiovascular, diabetes, melhora a função hormonal e o sistema imune. Como tal, é essencial nesta prevenção contra o cancro.

Já aqui falei sobre o tabaco, associado a tipos de cancro tão diversos como o do pulmão, esófago, laringe, boca, faringe, rim, bexiga, fígado, pâncreas, estômago, colo do útero, colon e recto. Este risco é proporcional ao número de cigarros fumados e à duração deste hábito. Não fumar ou deixar de o fazer é, pois, uma decisão acertada e plenamente recompensadora…

Sendo o cancro da pele uma das formas mais comuns, a protecção solar assume um papel importante nesta estratégia preventiva. O uso de camisolas de manga comprida e de calças, um chapéu e óculos de sol ajudarão muito. O uso de protectores solares com factor de protecção igual ou superior a 15 e evitar a exposição solar entre as 10,00 e as 16,00 farão o resto. Essencial evitar solários…

Os rastreios, como também já escrevi, são úteis desde que devidamente contextualizados e nunca massificados.

Este conjunto de medidas, que todos nós bem conhecemos, constituem um pilar único da nossa saúde. A sua implementação, embora em teoria simples, encontra diariamente os mais diversos escolhos. Muitos de nós comemos mal, temos uma vida sedentária, fumamos e estamos demasiado expostos ao sol. E é, de facto, difícil alterar estas realidades o que nos deve fazer reflectir. Porquê comer mal? Porque não praticar algum tipo de exercício, nem que seja uma caminhada ocasional? Porquê fumar? Porque estamos expostos ao sol nas piores horas e com uma protecção inadequada?

Acredito que a falta de informação não pode ser desculpa porque ela é divulgada, está disponível, é repetida e a internet ainda a tornou mais acessível. Fica, pois, uma enorme dificuldade em entender toda esta relutância na adopção de um estilo de vida mais saudável. Podemos admitir a pressão da publicidade e do consumo, podemos considerar que existe em cada um de nós uma crença na nossa invulnerabilidade, podemos queixarmo-nos da falta de tempo, podemos, até, argumentar contra a veracidade científica destas constatações. E, em muitos casos, mesmo perante a doença manifesta, esses comportamentos não se alteram, por já não valer a pena, por se querer aproveitar a vida o melhor possível, por não existir disposição a qualquer tipo de concessão.

As opções individuais devem ser sempre respeitadas e nunca julgadas, mesmo quando a Ciência demonstra que elas não são as melhores. O que cabe a cada um de nós, médicos e cidadãos, é, no plano individual, saber ajudar, divulgar a informação disponível e apoiar o processo de mudança, quando ela é desejada. E, no plano colectivo, contribuir para mudar paradigmas, quebrar hábitos milenares e fazer nascer uma cultura que, sendo diferente, não é mais restritiva ou penalizadora de uma vida plenamente vivida. Pelo contrário…

Não compete a ninguém impor novos hábitos. Como regra, essa imposição gera um movimento de sentido contrário. O caminho será sempre o do exemplo, o da sensibilização e o da educação. É um caminho longo e penoso, com inúmeros retrocessos, mas muito recompensador.

O cancro, como tantas outras doenças, destrói vidas, gera sofrimento, amputa projectos, arrasa famílias. Saber que temos nas nossas mãos medidas simples para reduzir a probabilidade do seu desenvolvimento em cerca de 50% é, ou deveria ser, razão mais do que suficiente para as implementar e incorporá-las na nossa rotina.

Fica, pois, este recordar de um conjunto de banalidades e de lugares-comuns que, apesar disso, podem fazer uma enorme diferença no nosso presente e no nosso futuro.

Que tal como resolução para 2017?…

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