14 Nov, 2016

Há quem pense que só as mulheres atraentes são vítimas de assédio sexual?

Na mente de muitas pessoas, está associado ao comportamento da vítima, ou mesmo que é provocado pela vítima. Há até quem pense que pessoas pouco atraentes não são vítimas desse tipo de agressão, revela estudo da Universidade de Granada

Há algumas semanas atrás, o presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, descreveu uma mulher que veio a público acusá-lo de assédio sexual como sendo “pouco atraentes e horrível”. As declarações do controverso líder político fizeram ecoar os resultados de pesquisas levadas a cabo na Universidade de Granada (UGR), cujas conclusões preliminares foram publicadas no prestigiado International Journal of Social Psychology.

Investigadores da universidade espanhola afirmam que existem mitos que contribuem para que o assédio sexual seja visto como alvo provocado pela vítima e que um incidente de assédio assume maior relevância se a vítima for atraente.

Segundo os investigadores, o assédio sexual é um dos comportamentos mais difíceis de perceber e, portanto, de provar. Na mente de muitas pessoas, está associado ao comportamento da vítima, ou mesmo que é provocado pela vítima. Há até quem pense que pessoas pouco atraentes não são vítimas desse tipo de agressão.

Três investigadores da UGR realizaram um estudo para avaliar se a atratividade física da vítima afeta a perceção social do assédio sexual. Os cientistas estudaram também como a idiossincrasia do observador influencia o modo como este identifica este tipo de incidentes.

Apresentaram uma situação hipotética a 205 universitários (19% homens, 81% mulheres).

Neste cenário fictício, “Sérgio” surgia como trabalhador de uma empresa que foi apresentado de duas maneiras: fisicamente atraente e não atraente. Sérgio assediou sexualmente uma colega de trabalho, “Laura” que, da mesma forma, foi apresentada como fisicamente atraente e como não atraente. Em concreto, “Sergio” submeteu Laura a assédio sexual baseado no género, uma das formas mais subtis de assédio.

Depois de ouvirem a história de “Sérgio e Laura”, os participantes tiveram que preencher um questionário que teve como objetivo determinar de que forma tinham percebido o assédio; a quem atribuíam a responsabilidade pelo incidente e o qual a motivação que consideravam ter induzido o agressor. O questionário também inclui informações sobre as variáveis ideológicas em torno do sexismo e da aceitação dos mitos que rodeiam o assédio sexual.

“Quando confrontados com o relato de um incidente de assédio sexual contra uma mulher atraente, os participantes foram mais propensos a percebê-lo como assédio sexual do que quando a vítima não era atraente. Já quando o agressor era atraente, os participantes tenderam a afirmar que o seu comportamento era justificado como uma forma de afirmar o seu domínio e não por razões sexuais” revela Antonio Herrera, um dos investigadores e coautor do estudo publicado no International Journal of Social Psychology.

“Os resultados deste estudo mostram como certas características das pessoas envolvidas em casos de assédio sexual adquirem tal importância que mascaram outras variáveis relevantes no processo de tomada de decisão. Com consequências para o agressor, para a vítima e para a perceção social do facto”, acrescenta o pesquisador.

Nos casos em que o agressor não era atraente, mas a vítima era, os voluntários tenderam a culpabilizar mais o agressor. Uma atitude que se encaixa com um dos grandes mitos que envolvem o assédio: a crença de que é praticado contra pessoas atraentes por aqueles que não são.
A idiossincrasia do agressor também afeta a sua perceção. Quanto maior é a aceitação dos mitos em torno do assédio sexual, maior é a responsabilidade atribuída à vítima. Nestes casos os preconceitos tendem mesmo a levar a que muitos acreditem que o assédio sexual poderia ter sido provocado pela mulher para algum fim “malévolo”.

“Isto é particularmente importante no plano jurídico, laboral e social, uma vez faz sobressair a necessidade de se eliminarem as ideias preconcebidas que rodeiam o fenómeno e que influenciam tanto homens como mulheres, como demostra este estudo”, conclui o investigador.

Bibliografia:
Antonio Herrera, M. Carmen Herrera y Francisca Expósito, “Is the beautiful always so good? Influence of physical attractiveness on the social perception of sexual harassment/ ¿Es lo bello siempre tan bueno? Influencia del atractivo físico en la percepción social del acoso sexual”,
Revista de Psicología Social / International Journal of Social Psychology

http://dx.doi.org/10.1080/02134748.2016.1143179

 

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