13 Dez, 2017

Perguntas e respostas: Saiba tudo sobre o AVC

Os números são Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC) e a prevenção é a sua melhor defesa. Alguns elementos da SPAVC respondem-lhe àquilo que tem de fazer.

  • O que provoca um AVC?

Os principais mecanismos que causam AVC isquémicos são: a deposição de placas de aterosclerose (que é mais acentuada em fumadores, diabéticos, hipertensos e indivíduos com dislipidemia) nas artérias responsáveis pela circulação cerebral causando diminuição do fluxo sanguíneo para determinadas regiões cerebrais; a oclusão de artérias de menor calibre nas regiões mais profundas do cérebro (que ocorre mais frequentemente em doentes hipertensos e diabéticos) e doenças cardíacas (como a fibrilhação auricular) que podem levar à formação de trombos no coração que se podem soltar e ocluir as artérias cerebrais.
Quanto às causas dos AVC hemorrágicos, destacam-se a hemorragia subaracnoideia que ocorre por rutura de um aneurisma cerebral (uma dilatação num segmento de uma artéria cerebral) e a hemorragia intracerebral que pode ocorrer por diversos motivos, nomeadamente hipertensão.

Dr.ª Mariana Carvalho Dias, interna de Neurologia do Hospital de Santa Maria e membro da Sociedade Portuguesa de AVC

  • Como reagir em caso de AVC?

Na suspeita de AVC, o primeiro passo, como em qualquer emergência médica, é chamar logo ajuda. O contacto com os serviços de emergência (112) deve ser imediato, para assegurar rapidamente o transporte ao hospital em ambulância. Todos os minutos contam no AVC e é importante agir rapidamente a partir do momento que são detectados os sintomas de alteração da fala, boca ao lado ou perda de força num braço/perna. Deve ser anotada a hora a que começaram os sintomas ou a última vez que a pessoa foi vista bem, assim como toda a medicação da pessoa. A pessoa deve ser deitada de lado, com a cabeça ligeiramente elevada. Não deve ser dado nenhum alimento ou medicamento, incluindo aspirina. Também não devem ser colocados dedos ou qualquer outro material na boca.

Dr. Ricardo Soares dos Reis, interno de Neurologia do Centro Hospitalar de São João e membro da SPAVC

  • Como ajudar alguém que esteja a ter um AVC?

O crucial é mesmo agir com rapidez e realizar o contacto imediato com o 112. Deve-se manter a calma e conversar com a pessoa afetada num tom de voz suave e reconfortante, já que é natural que ela esteja assustada. Nunca se deve deixar a pessoa sozinha até à chegada da ambulância. Desta forma, podem ser vigiados os sintomas e evitadas quedas ou outras lesões. Se a pessoa parecer ter dificuldade em respirar, deve ser removida/desapertada qualquer peça de roupa que esteja a interferir. Se a pessoa não estiver a respirar, deverão ser iniciadas manobras de suporte básico de vida (SBV), se existirem condições para tal. Pode ser colocado um cobertor para o conforto da pessoa e para minimizar as perdas de calor.

Dr. Ricardo Soares dos Reis, interno de Neurologia do Centro Hospitalar de São João e membro da SPAVC

  • Quais os tipos de tratamento existentes?

As opções terapêuticas para AVC isquémico têm evoluído de forma muito significativa, tendo obrigado a uma reorganização de todos os cuidados de saúde. De uma forma simplista poder-se-ão resumir os tratamentos para AVC em fase aguda e de prevenção vascular.
Relativamente à fase aguda surge como objetivo essencial resolver a oclusão arterial. Este processo poderá ser realizado através da administração numa veia de um químico (alteplase) e/ou da trombectomia mecânica, utilizando dispositivos que através de cateteres navegam dentro das artérias para remover o trombo.
Para a prevenção vascular importa controlar todos os fatores de risco vascular (como hipertensão, diabetes…), além de realizar investigação complementar de modo a identificar condições que necessitem de tratamento específico.

Dr. João Sargento Freitas, neurologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra e membro da Sociedade Portuguesa do AVC

  • Quais os principais fatores de risco para um AVC?

Uma dieta descuidada poderá contribuir para o aparecimento de vários fatores de risco de AVC: excesso de sal aumenta a probabilidade de desenvolver hipertensão arterial; dieta rica em açúcares aumenta o risco de desenvolver diabetes mellitus; dieta rica em gorduras (sobretudo saturadas) aumenta o risco de desenvolver dislipidémia. Em conjunto, estes fatores de risco potenciam-se, e associam-se ao aparecimento de obesidade. A falta de exercício físico, o sedentarismo, também contribui para o aparecimento dos fatores de risco acima referidos, conferindo assim mais um fator de risco para a ocorrência de um AVC.

O tabagismo e o consumo de bebidas alcoólicas também se associam a maior risco AVC. No caso do consumo de tabaco, no presente ou passado, tal como ativo ou passivo, são considerados relevantes. No caso de consumo de bebidas alcoólicas, o consumo superior a 1 copo de vinho/dia nas mulheres e 2 copos de vinho/dia nos homens poderá contribuir como fator de risco.

Por fim, o uso de drogas recreativas como os canabinóides (haxixe/ marijuana) e cocaína, também se encontra associado à ocorrência de AVC, sobretudo no subgrupo dos jovens.

Dr. João Pedro Marto, interno de Neurologia do Hospital de Egas Moniz e membro da Sociedade Portuguesa do AVC

  • A prevenção é o melhor remédio?

Sim. A mortalidade provocada pelo AVC tem vindo a diminuir, mas o número de pessoas afetadas pela doença, e as suas consequências, continuam a aumentar. Prevenir a ocorrência de AVC é prevenir a incapacidade futura, com perda de qualidade de vida, capacidade laboral e participação familiar.

E prevenir é fácil. Nove em cada dez AVC podiam ser evitados, ao controlar os seguintes fatores de risco modificáveis: hipertensão arterial, sedentarismo, dislipidemia, maus hábitos alimentares, obesidade, tabagismo, doenças cardíacas, consumo de álcool, stress e diabetes mellitus. Para reduzir em 75% as consequências do AVC bastaria ter uma dieta equilibrada, não fumar e praticar exercício físico.

Assim, prevenir o AVC é a melhor estratégia para viver mais anos com qualidade.

Dr. Miguel Rodrigues, neurologista do Hospital de Garcia de Orta e membro da direção da SPAVC

  • Ligar para o 112 é a “melhor jogada”? O tempo de espera entre um AVC e a chegada do INEM pode influenciar as “mazelas” futuras?

O AVC ocorre subitamente: a maioria dos AVC parece um “ataque” imediato, com sintomas e incapacidade súbita. Em média quase 30% dos sobreviventes sofrerá de incapacidade permanente e quase 30% das pessoas com AVC acaba por morrer na sequência desta doença.

No entanto, hoje em dia o AVC é tratável, pois o tratamento adequado na fase aguda pode reduzir as taxas de morte e incapacidade em 50%. Como após uma artéria cerebral ocluir com um trombo o cérebro afetado morre em poucas horas, temos poucas horas desde o início dos sintomas para tentar reabrir a artéria que ocluiu, com injeção de medicamento ou com cateterismo arterial, e permitir uma recuperação parcial ou mesmo completa dos sintomas. Portanto é crucial que o doente chegue a tempo a um hospital que possa disponibilizar esses tratamentos rapidamente. Após se suspeitar de um AVC ligar para o 112 é sem dúvida a “melhor jogada”! Ao ligar para o 112 e se referir o início súbito de um dos 3 Fs – FACE desviada, FORÇA diminuída num braço, FALA alterada, é ativada a Via Verde do AVC e uma ambulância irá buscar o doente e levá-lo para ao hospital mais próximo e adequado (que tenha os cuidados necessários). Além de pelo caminho o doente ir sendo avaliado, o hospital é avisado, entra na Urgência do hospital com prioridade, e é logo visto pela equipa médica de AVC. A vinda do doente através da ligação ao 112-INEM reduz assim muito o tempo entre o inicio dos sintomas e o tratamento, facilitando a recuperação. Enquanto cerca de metade dos doentes levados por ambulância acionada pelo 112 conseguem fazer tratamentos mais eficazes, apenas menos de um décimo dos doentes levados à Urgência particularmente conseguem chegar a tempo! No entanto, infelizmente, em menos de 20% dos AVC é acionado o 112… Se suspeitar de AVC não hesite em chamar o 112 porque isso pode influenciar muito as “mazelas” do AVC!

Prof.ª Doutora Elsa Azevedo, neurologista do Centro Hospitalar de São João, membro da direção da SPAVC e da Portugal AVC

  • Que tipo de dicas úteis podemos dar aos nossos leitores para agirem da melhor forma perante uma situação de AVC?

A cada minuto que passa, a pessoa que sofre um AVC perde 1,9 milhões de neurónios. A ação rápida permite salvar cérebro, o que reduz as probabilidades de ficar incapacitado.

Ao detetar sintomas de AVC, o próprio ou quem o assiste, deve ligar imediatamente o 112 e transmitir os sintomas notados e a hora a que estes começaram. Se tiverem decorrido menos de 6 horas desde o início dos sintomas, esta informação permitirá aos serviços de emergência ativar a Via Verde do AVC e encaminhar o doente ao hospital mais próximo preparado para tratar o AVC agudo.

Mesmo que tenham passado mais de 6 horas é conveniente dirigir-se ao hospital, pois os sintomas podem agravar nos primeiros dias e necessitar de outros tratamentos.

Em todos os casos, no hospital, ou depois no centro de saúde, devem ser feitos exames para procurar a causa do AVC. Só assim o médico poderá dar a medicação mais adequada à prevenção de futuros AVC.

Dr.ª Liliana Pereira, Assistente Hospitalar de Neurologia no Hospital Garcia de Orta e membro da Sociedade Portuguesa de AVC

 

 

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