Opinião - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/opiniao/ Notícias sobre saúde Thu, 16 Jul 2026 09:09:24 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Opinião - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/opiniao/ 32 32 Canábis medicinal e saúde mental https://saudeonline.pt/canabis-medicinal-e-saude-mental/ https://saudeonline.pt/canabis-medicinal-e-saude-mental/#respond Thu, 16 Jul 2026 09:08:37 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188510 Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde, em Psicoterapia e em Coaching Psicológico, pela Ordem dos Psicólogos Portugueses; Diretora Clínica do Espaço CAlmaMente, Clínica Privada em Coimbra;
Professora Auxiliar no Instituto Superior Miguel Torga; Membro do Conselho Consultivo Científico do Observatório Português de Canábis Medicinal

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A vertente clínica da canábis medicinal baseia-se na utilização terapêutica e rigorosamente monitorizada de compostos químicos designados por fitocanabinoides extraídos da planta Cannabis sativa, com particular enfoque no Canabidiol (CBD) e no Tetra-hidrocanabinol (THC). O CBD é um composto não psicoativo, sendo o mais estudado no âmbito psiquiátrico devido às suas propriedades potencialmente ansiolíticas e neuroprotetoras. Em contrapartida, o THC é o princípio ativo responsável pelos efeitos psicoativos e pela sensação de euforia.

Estes compostos exógenos interagem diretamente com o sistema endocanabinoide, um sistema neuromodulador intrínseco do organismo humano que desempenha um papel fulcral na regulação de funções homeostáticas essenciais, tais como: humor e processamento emocional, sono e vigília, apetite e comportamento alimentar, resposta biológica ao stress, e modulação da dor e processos inflamatórios.

A relação entre a canábis medicinal e a saúde mental é um tema complexo, amplamente debatido na comunidade científica. Embora alguns doentes relatem melhoria subjetiva de sintomas, os dados clínicos não sustentam, de forma robusta, a sua eficácia em perturbações psiquiátricas. Assim, as evidências científicas disponíveis sobre o potencial terapêutico da canábis medicinal em contexto de saúde mental apresentam um quadro ainda inconclusivo, variando bastante consoante a patologia. E, enquanto a comunidade científica reconhece potencial terapêutico em contextos muito específicos, simultaneamente confronta-se com lacunas metodológicas substanciais e ausência de consenso.

Potencial Clínico da Canábis Medicinal

Uma metanálise de grande dimensão publicada em The Lancet Psychiatry (2026) consolidou 48 ensaios clínicos controlados para avaliar a eficácia e a segurança do uso de canabinoides em perturbações mentais. Os resultados revelam um panorama complexo, concluindo não existir evidência suficientemente sólida de que os canabinoides THC e CBD produzam benefício terapêutico significativo em quadros como perturbações de ansiedade, depressão ou perturbação de stresse pós-traumático. Esta metanálise tira conclusões com cautela, o que não invalida os achados promissores, mas sublinha a necessidade de investigação mais consistente e o reconhecimento de que diferentes populações, formulações e contextos clínicos podem produzir resultados distintos.

Ainda que os dados sobre o potencial terapêutico da canábis medicinal em saúde mental se revelem inconsistentes, partilham-se as conclusões de alguns estudos relevantes, que exigem uma interpretação prudente e contextualizada.

O uso do CBD isolado evidenciou benefícios terapêuticos na perturbação de ansiedade social e na perturbação de stresse pós-traumático, justificados pelos seus mecanismos neurofarmacológicos. Destaca-se em particular a sua capacidade de modular recetores serotoninérgicos e gabaérgicos que produzem redução da hiperativação da amígdala, característica destas perturbações. Alguns estudos isolados exploram igualmente o papel específico do CBD na redução de sintomas ansiosos e do burnout. De forma particularmente interessante, documentam-se melhorias no desempenho cognitivo, em domínios específicos como memória de trabalho e velocidade de processamento. Ao reduzir a sintomatologia ansiosa aguda, é facilitado o envolvimento mais efetivo em tarefas que exigem concentração, memória de trabalho e funções executivas, criando assim uma possibilidade de melhoria funcional global.

Neste sentido, estes resultados sugerem que, em determinados contextos e com formulações específicas, a canábis medicinal pode facilitar a redução de sintomatologia ansiosa e a melhoria de capacidades cognitivas que frequentemente se encontram prejudicadas em quadros ansiosos, afetando o desempenho ocupacional, académico e a qualidade de vida.

Ainda que os resultados não sejam consensuais, o CBD isolado tem demonstrado um papel promissor enquanto tratamento adjuvante na psicose e na esquizofrenia, devido à sua capacidade de reduzir sintomas psicóticos, tais como alucinações. Em contrapartida, salienta-se que o consumo de canábis comum ou de canábis medicinal com elevadas concentrações de THC mantêm uma forte correlação com o desencadeamento de surtos psicóticos.

Por seu lado, têm sido reportados apenas benefícios modestos e um nível de evidência reduzido no que concerne à mitigação da sintomatologia associada a perturbações do sono, controlo de tiques na síndrome de Gilles de la Tourette, atenuação de determinados sintomas disruptivos associados ao espectro do autismo, tais como quadros marcados por irritabilidade severa e crises de agressividade, bem como gestão de sintomas de abstinência em doentes com dependência da própria canábis.

Por fim, outros estudos não demonstram a eficácia da canábis medicinal na depressão major, podendo mesmo agravar a sintomatologia depressiva em certos perfis de doentes, particularmente naqueles com vulnerabilidade genética para episódios depressivos.

Prescrição Médica Especializada: Formação, Sensibilidade Clínica e Conformidade Legal

As principais associações médicas internacionais reiteram a necessidade de uma extrema prudência na recomendação destas substâncias. Em Portugal, a utilização de canábis para fins terapêuticos encontra-se legalmente enquadrada e regulada pelo Infarmed, sendo a sua prescrição restrita a indicações específicas e obrigatoriamente realizada por médico.

A prescrição adequada de canábis medicinal exige o recurso a médico com formação específica em farmacologia de canabinoides, compreensão detalhada de mecanismos de ação diferenciais entre CBD e THC e sensibilidade clínica para individualizar a prescrição conforme o perfil psicopatológico de cada doente. Cada situação clínica exige uma avaliação individualizada e minuciosa, sendo imperativo ponderar rigorosamente variáveis como a idade do doente, o diagnóstico, o regime farmacológico em curso e o historial clínico global.

Em Portugal, a prescrição de canábis medicinal segue um enquadramento regulatório rigoroso estabelecido pelo Infarmed através da Lei nº 33 de 2018 e Decreto-Lei nº 8 de 2019. Deste modo, os medicamentos e preparações à base de canábis disponibilizados em farmácia português encontram-se sujeitos a avaliação técnico-científica, garantindo qualidade, segurança e rastreabilidade. Qualquer médico pode prescrever, mas apenas em conformidade com sete indicações terapêuticas aprovadas e apenas quando tratamentos convencionais se revelem ineficazes ou provocarem efeitos adversos relevantes.

As indicações terapêuticas aprovadas são: espasticidade associada à esclerose múltipla ou lesões da espinal medula; náuseas e vómitos resultantes de quimioterapia, radioterapia e terapia combinada de HIV e medicação para hepatite C; estimulação do apetite nos cuidados paliativos de doentes sujeitos a tratamentos oncológicos ou com SIDA; dor crónica associada a doenças oncológicas ou ao sistema nervoso; síndrome de Gilles de la Tourette; epilepsia e tratamento de transtornos convulsivos graves na infância; e glaucoma resistente à terapêutica. Como se nota, estas indicações terapêuticas reportam para condições neurológicas, oncológicas ou oftalmológicas, pelo que a utilização em saúde mental permanece fora das indicações oficiais em Portugal.

A utilização terapêutica de canabinoides encontra-se estritamente contraindicada em pacientes com histórico clínico de esquizofrenia, quadros psicóticos ou perturbação bipolar. Esta restrição fundamenta-se nas propriedades psicomiméticas do THC, capaz de potenciar o risco de descompensação psiquiátrica. Salvo indicações muito específicas, devem também ser excluídos da prescrição: adolescentes e adultos jovens, cujo desenvolvimento neurológico se prolonga até aos 25 anos; mulheres grávidas ou em período de amamentação. Acrescente-se que se encontra absolutamente contraindicado para indivíduos com dependência ativa de substâncias, onde existe risco de transferência de dependência ou exacerbação de comportamentos aditivos. Por fim, ressalve-se que a intervenção terapêutica com recursos a canabinoides requer indicações clínicas estritas e solidamente fundamentadas, exigindo uma precaução acrescida na população pediátrica.

Note-se que a proporção de componentes CBD e THC é absolutamente crítica na determinação de segurança e eficácia. O THC tem demonstrado efeitos bifásicos: em doses reduzidas pode aliviar a ansiedade, mas em doses elevadas está associado ao desenvolvimento ou agravamento de perturbações psiquiátricas graves, incluindo episódios psicóticos e esquizofrenia, bem como ao desencadeamento de quadros de ansiedade, especialmente em indivíduos geneticamente predispostos. Por exemplo, a combinação de THC com dose elevada de CBD pode produzir paradoxalmente o aumento de sintomas paranoides e ansiosos. Assim, quando administrado em doses inadequadas ou em indivíduos com predisposição clínica, o THC pode agravar significativamente quadros de ansiedade e de psicose. Isto demonstra que a prescrição não deve ser genérica mas específica, requerendo conhecimento profundo sobre composição, dosagem e ajuste individualizado.

Igualmente, urge acautelar o risco severo de interações medicamentosas, dado que os canabinoides alteram o metabolismo hepático de outros fármacos, comprometendo diretamente a eficácia e a segurança de antidepressivos e ansiolíticos de uso corrente.

Este enquadramento oferece segurança legal e profissional tanto ao médico prescritor como ao doente, permitindo acesso a produtos certificados e regulados. Contudo, reconhece-se uma realidade incómoda: mesmo com formação especializada, a prescrição individualizada comporta variabilidade inerente. Cada pessoa apresenta farmacocinética distinta, sensibilidade idiossincrática, polimorfismos genéticos não testáveis em rotina clínica, e dinâmica psicossocial complexa. Logo, nenhum clínico consegue eliminar completamente esta variabilidade. A promessa de “encontrar dose e composição certas para aquela pessoa específica” é aspiracional, não garantida, pelo que existem riscos inerentes a qualquer prescrição sem garantias de resposta ou segurança.

Integração com Psicoterapia, Bem-Estar e Qualidade de Vida

O potencial máximo da canábis medicinal reside na sua utilização como ferramenta adjuvante integrada num plano terapêutico multimodal, não substituindo intervenção psiquiátrica e/ou psicológica. Por exemplo, se a prescrição adequada de CBD permitir reduzir a sintomatologia ansiosa aguda (hipervigilância, ruminação, ativação fisiológica excessiva), cria-se espaço psicológico para que o paciente se envolva de forma mais efetiva em processos de exposição terapêutica e mantenha a concentração ao longo das sessões de psicoterapia.

A literatura sobre este domínio permanece limitada, mas relatos clínicos sugerem que a integração da canábis medicinal com psicoterapia produz resultados positivos. Relatos clínicos de doentes que recorreram ao seu uso documentam melhoria na qualidade de vida, designadamente melhoria da qualidade do sono, maior capacidade de concentração, redução significativa dos níveis de ansiedade e de stress, melhor tolerância a situações sociais, redução de evitamento comportamental e restauro de funções ocupacionais e relacionais previamente comprometidas.

Um aspeto frequentemente negligenciado é precisamente este impacto na qualidade de vida global – não apenas a redução sintomática, mas a reconquista da capacidade funcional e do bem-estar psicológico. Deste modo, quando ocorre uma resposta terapêutica positiva, torna-se evidente o impacto direto no funcionamento global do indivíduo. Esta melhoria substancial reflete-se de forma clara na retoma gradual e sustentada das atividades da vida diária, na otimização das dinâmicas e relações interpessoais, bem como na recuperação da autonomia funcional.

Contudo, a vigilância clínica é essencial. O psicólogo clínico e o médico prescritor devem comunicar regularmente, avaliando os efeitos adversos potenciais (e.g., fadiga, alterações cognitivas, interações farmacológicas, tolerância comportamental) e garantindo que a prescrição não substitui, mas complementa, a psicoterapia estruturada e continuada. Também a descontinuação deve ser planeada e gradual, com apoio psicoterapêutico contínuo.

O papel do psicólogo clínico traduz-se sobretudo na monitorização contínua: identificar indicações, contraindicações ou fatores de risco que exigem cautela; acompanhar a resposta terapêutica ao longo do tempo; e manter comunicação regular com o médico prescritor sobre eventuais sinais de alerta. Isto exige formação contínua, abertura a possibilidades terapêuticas emergentes e vigilância crítica sobre os limites e incertezas que ainda caracterizam este campo.

Abertura Profissional, Responsabilidade Ética e Literacia em Saúde

A comunidade de profissionais de saúde mental – psicólogos, psiquiatras, médicos em geral – enfrenta uma responsabilidade dupla e simultaneamente delicada. Por um lado, décadas de proibição geraram um estigma que persiste, dificultando uma discussão informada sobre o potencial terapêutico da canábis medicinal. Por outro lado, existe o risco de entusiasmo infundado que promete benefícios sem sustentação científica adequada.

A posição responsável será aquela que combina uma abertura dialogante com ceticismo informado. Reconhecer que a canábis medicinal não é panaceia, mas pode constituir uma ferramenta terapêutica legítima em contextos muito específicos, quando prescrita adequadamente por médico habilitado para o efeito, integrada em plano multimodal e monitorizada com cuidado. Simultaneamente, é essencial manter humildade científica: reconhecer que muito permanece desconhecido e que as lacunas metodológicas são substanciais.

A desmistificação beneficia também de investimento em literacia em saúde junto da população geral, que contribui para reforçar a capacidade de decisão autonomizada e fundamentada. Campanhas educacionais de organizações profissionais podem ajudar a clarificar diferenças entre canábis recreativa e medicinal, a explicar os mecanismos de ação dos canabinoides, a estabelecer expectativas realistas, e a facilitar conversas informadas entre doentes e clínicos.

Em conclusão, a canábis medicinal representa possibilidade terapêutica emergente em saúde mental, com dados promissores em algumas situações. Contudo, a literatura não é consensual e a responsabilidade ética exige reconhecimento de limitações, riscos, e incertezas.

A prática de uma prescrição adequada e segura pressupõe o recurso a um médico especializado a par de uma formação contínua, de sensibilidade clínica e do cumprimento do enquadramento legal e regulamentar português. Adicionalmente, a identificação e a monitorização de potenciais contraindicações constituem uma responsabilidade inteiramente partilhada entre os diferentes clínicos envolvidos no plano terapêutico do doente.

Uma postura de abertura profissional, pautada por uma atitude dialogante e rigorosamente criteriosa, revela-se fundamental para promover a otimização da qualidade de vida dos doentes e impulsionar o avanço do conhecimento científico. Por fim, sublinha-se como diretriz essencial que a integração e a articulação desta abordagem com o acompanhamento em psicoterapia são fundamentais para o sucesso e a eficácia clínica global do tratamento na área da saúde mental.

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O que os profissionais de saúde precisam de saber ao avaliar se um bebé está bem alimentado https://saudeonline.pt/o-que-os-profissionais-de-saude-precisam-de-saber-ao-avaliar-se-um-bebe-esta-bem-alimentado/ https://saudeonline.pt/o-que-os-profissionais-de-saude-precisam-de-saber-ao-avaliar-se-um-bebe-esta-bem-alimentado/#respond Tue, 14 Jul 2026 08:05:25 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188449 Especialista em MGF; IBCLC - Fundadora da Academia de Lactação

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Avaliar se o recém-nascido está a ser adequadamente alimentado nos primeiros dias de vida pode ser uma tarefa desafiante na prática do médico de família. Habituamo-nos a valorizar o peso do bebé já que é um indicador objetivo e rápido de obter. No entanto, a decisão de tranquilizar ou intervir depende de uma observação clínica cuidadosa, que integra três eixos: o estado geral do bebé, a observação da mamada e o registo das dejeções e micções.

Estado geral do bebé

O primeiro passo é observar o comportamento espontâneo do recém-nascido. Um bebé bem nutrido apresenta ciclos de sono e vigília adequados, mostra-se alerta quando acordado, tem tónus e reatividade normais e consegue despertar para mamar. É importante recordar que os bebés não precisam de estar acordados e alerta para conseguir mamar eficazmente — apenas em sono profundo é que isso não é possível. Devemos estar atentos a sinais de alarme como letargia, hipotonia, dificuldade em despertar mesmo com estímulo, choro fraco ou ausente (ou, pelo contrário, inconsolável), instabilidade térmica e icterícia que se agrava ou se prolonga para além do esperado, pois sugerem frequentemente ingestão insuficiente.

Observação da mamada

A frequência e padrão da mamada são altamente variáveis entre os bebés, no entanto, apesar dessa variabilidade, a quantidade total de leite ingerido por dia tende a ser semelhante quando existe livre demanda. Por isso, o que importa clinicamente é garantir a amamentação em livre demanda, garantindo 8 a 12 mamadas por dia e evitar outras formas de sucção do bebé que possam interferir com a ingestão de leite. Se imaginarmos que, a um bebé com sinais de fome, é oferecida uma chupeta e que isso atrasa cada mamada em média 5-10 minutos, ao final do dia vamos perder uma mamada. Se para alguns bebés isto não é significativo, para outros faz toda a diferença.

A observação direta da mamada vai permitir observar a eficácia da transferência de leite e observar o comportamento do bebé durante a mamada. Queremos bebés com um padrão de sucção mais ativo no início e que vão relaxando ao longo da mamada, com uma eficaz transferência de leite, passando progressivamente de uma posição de flexão dos braços e pernas para extensão e relaxamento. Pelo contrário, devem alertar-nos mamadas muito curtas e passivas, sem sucção nutritiva audível nem deglutição percetível, uma pega dolorosa ou ineficaz que a mãe não consegue corrigir, ou um bebé que adormece durante a mamada quase de imediato sem sinais de saciedade.

Dejeções e micções

A frequência das dejecções e das micções é um dos indicadores mais objetivos da eficácia da amamentação e deve ser sistematicamente questionada e registada em cada consulta. A associação entre mamadas muito frequentes e poucas dejeções deve alertar o profissional para a necessidade de reavaliar o peso do bebé, a produção de leite materno e a eficácia da extração durante a mamada. Um bebé durante o primeiro mês de vida em aleitamento materno exclusivo que não tenha 2 a 3 dejecções por dia pode não estar a comer o suficiente e deve ser avaliado. É igualmente relevante questionar o atraso na eliminação do mecónio para além das primeiras 48 horas, a ausência de transição para fezes amareladas depois do 4º dia, menos de 6 fraldas molhadas por dia a partir do 5º-6º dia de vida, ou urina escura e concentrada, por vezes com cristais de urato, persistente além dos primeiros dias.

Peso e sinais de desidratação

Uma perda de peso superior a 7-10% do peso ao nascer, ou a ausência de recuperação do peso até aos 10-14 dias de vida, deve ser sempre investigada. O mesmo se aplica a sinais de desidratação, como fontanela deprimida, mucosas secas ou diminuição do turgor cutâneo, e a hipoglicemia, particularmente em filhos de mães diabéticas ou em pré-termos tardios.

 Avaliar se um recém-nascido está bem alimentado é uma competência clínica que vai muito além do peso e que pode ser desenvolvida através de formação estruturada e baseada na evidência. A Academia de Lactação acredita que investir neste conhecimento permite aos profissionais atuar com maior confiança, tomar decisões mais seguras e reduzir os riscos na prática clínica quando o tema é a amamentação.

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Gestão de situações de violência contra profissionais de saúde na USF Serpa Pinto no Porto https://saudeonline.pt/gestao-de-situacoes-de-violencia-contra-profissionais-de-saude-na-usf-serpa-pinto-no-porto/ https://saudeonline.pt/gestao-de-situacoes-de-violencia-contra-profissionais-de-saude-na-usf-serpa-pinto-no-porto/#respond Mon, 13 Jul 2026 10:50:17 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188432 Médicas Internas de Medicina Geral e Familiar da USF Serpa Pinto

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A violência compromete o respeito mútuo, a confiança e a qualidade das relações humanas. Por essa razão, não deve ser ignorada, banalizada ou tolerada. Gandhi lembrava que “a arma mais perigosa da violência é o silêncio que a tolera”, sublinhando a responsabilidade de denunciar e reportar comportamentos violentos. Na mesma linha, João Paulo II afirmava que “a violência destrói o que ela pretende defender: a dignidade da vida, a liberdade do ser humano”. Este princípio encontra-se igualmente expresso no Código Penal Português.

Nos cuidados de saúde, a ocorrência de comportamentos violentos constitui um obstáculo à prestação de cuidados em condições de segurança e qualidade. A violência contra os profissionais de saúde deixou de ser um fenómeno isolado, afetando o bem-estar das equipas e a qualidade dos cuidados prestados. Entende-se por violência no setor da saúde qualquer situação em que o profissional é exposto a comportamentos agressivos físicos ou psicológicos relacionados com o seu trabalho, colocando em risco a sua saúde ou a de terceiros.

Neste contexto, foi desenvolvido, na USF Serpa Pinto, no Porto, um projeto de intervenção conduzido por médicas internas de Formação Específica em MGF, com o objetivo de capacitar os profissionais para a gestão de situações de violência.

A intervenção iniciou-se com uma sessão de apresentação do protocolo do projeto e sensibilização da equipa para a relevância do tema. Seguiu-se a aplicação de um questionário de 16 itens de escolha múltipla, destinado a avaliar conhecimentos sobre gestão de situações de violência e da escala Healthcare-workers’ Aggressive Behaviour Scale – Users (avalia a perceção dos profissionais face ao comportamento agressivo dos utentes nos CSP). Posteriormente, foram dinamizadas sessões formativas, permitindo aos participantes aprofundar os seus conhecimentos acerca de estratégias e protocolos delineados para estas situações. Em paralelo, foram disponibilizados folhetos e procedeu-se à atualização do protocolo de atuação existente.

Um mês após a intervenção, foi realizada nova avaliação com os mesmos instrumentos. Verificou-se um aumento da pontuação no questionário de conhecimentos (de 13,71 para 14,67 em 16 valores), ainda que sem significância estatística. Relativamente à perceção de violência, registou-se uma diminuição do valor médio (de 10,76 para 9,10), com redução estatisticamente significativa em duas questões específicas da escala.

Apesar de os resultados não demonstrarem diferenças estatisticamente significativas globais, sugerem uma variação no sentido esperado, quer ao nível do conhecimento, quer da percepção da violência. Estes dados apontam para a necessidade de intervenções mais prolongadas e sistemáticas, capazes de consolidar competências e promover maior confiança na gestão.

A violência no setor da saúde é um fenômeno multifatorial, cuja abordagem exige mais do que formação pontual. Exige uma resposta clara, estruturada e consistente, assente em políticas de tolerância zero. Estas políticas só são eficazes quando acompanhadas de uma cultura organizacional que valorize a segurança e o respeito dos profissionais. Isso implica a existência de normas, procedimentos formais e o reforço da confiança para reportar incidentes sem medo de represálias.

Para concluir, a prevenção da violência deve ser entendida como uma responsabilidade compartilhada entre instituições, profissionais e sociedade, com o objetivo de garantir ambientes seguros, dignos e respeitadores.

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Fusão Multimodal via State-Space Models na Predição de Sobrevivência no Cancro Colorretal https://saudeonline.pt/fusao-multimodal-via-state-space-models-na-predicao-de-sobrevivencia-no-cancro-colorretal/ https://saudeonline.pt/fusao-multimodal-via-state-space-models-na-predicao-de-sobrevivencia-no-cancro-colorretal/#respond Thu, 09 Jul 2026 08:37:21 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188384 Docente Universitário, Doutorado em Bioengenharia e Aluno de Medicina

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A avaliação pré-operatória do cancro colorretal exige uma síntese complexa entre a morfologia endoscópica e a estadiometria radiológica, ferramentas que, embora complementares, operam em escalas espaciais e resoluções clínicas díspares. A incapacidade de fundir estes fluxos de dados de forma automatizada tem limitado a precisão dos modelos prognósticos tradicionais, que frequentemente negligenciam a correlação entre a superfície tumoral visível e a invasão tecidular profunda.

Para resolver esta lacuna, Wang et al.1 desenvolveram a HydraMamba, uma estrutura de fusão baseada em modelos de estados seletivos (SSM, State-Space Models) que unifica a deteção de lesões, a segmentação e a predição de sobrevivência numa arquitetura única e coerente.

Ao contrário dos modelos baseados em Transformers, que sofrem com a complexidade quadrática em sequências longas de imagens, a HydraMamba utiliza a eficiência linear das redes Mamba para processar volumes de TC e fluxos de vídeo endoscópico, permitindo uma representação latente mais rica da heterogeneidade tumoral, sem o custo computacional proibitivo.

O desempenho técnico da HydraMamba estabelece um novo estado da arte na análise de lesões colorretais. Nos dados endoscópicos, o modelo alcançou um Dice Similarity Coefficient (DSC) de 0,856 e um F1-score de 0,918, demonstrando uma robustez notável na delimitação das margens tumorais, mesmo em condições de iluminação variável. Na componente de Tomografia Computadorizada, a precisão manteve-se elevada, com DSC de 0,812 e F1 de 0,888.

No entanto, o valor clínico mais expressivo reside na capacidade de modelar a sobrevivência. O modelo entregou um índice C de Harrell de 0,832 e um C@1y de Uno de 0,853, superando significativamente as abordagens baseadas apenas em dados clínicos ou em dados radiométricos isolados. Além da capacidade discriminativa, a calibração do modelo foi excecional, apresentando um Integrated Brier Score de 0,161 e uma inclinação de calibração de aproximadamente 1,01, o que indica que as probabilidades de sobrevivência previstas pelo algoritmo correspondem fielmente aos resultados observados na coorte real.

A relevância desta ferramenta para o oncologista e para o cirurgião reside na capacidade de mitigar o erro heurístico na estratificação de risco individual. Ao fundir pistas superficiais da colonoscopia, como o padrão vascular e a morfologia da mucosa, com indicadores de invasão linfonodal e profundidade extramural da TC pélvica, a HydraMamba permite uma identificação mais precisa de doentes com fenótipos agressivos. Estes indivíduos podem beneficiar de regimes neoadjuvantes mais intensivos ou de uma vigilância pós-operatória mais rigorosa.

A integração de um módulo de fusão Hydra, que utiliza mecanismos de atenção para ponderar a importância relativa de cada modalidade, assegura que o modelo extrai o máximo valor informativo dos exames frequentemente analisados de forma estanque na prática hospitalar corrente. Esta arquitetura permite ainda maior interpretabilidade, ajudando o clínico a compreender quais foram as características de imagem que mais contribuíram para o score de risco atribuído.

Não obstante o sucesso técnico, a implementação clínica sistemática enfrenta os desafios habituais da variabilidade interinstitucional. O modelo foi treinado e validado em coortes específicas, e sua generalização para protocolos de aquisição de imagem distintos ou para populações com perfis epidemiológicos distintos requer validação externa adicional. Contudo, a robustez demonstrada nos testes de calibração sugere que a estrutura SSM é menos sensível ao ruído do que as arquiteturas convolucionais clássicas.

Em conclusão, a HydraMamba representa um avanço significativo na aplicação de modelos de estados seletivos à medicina oncológica. Ao unificar a deteção e o prognóstico em uma arquitetura matematicamente elegante e clinicamente calibrada, este trabalho demonstra que a fusão multimodal é o caminho para uma medicina personalizada mais rigorosa.

A transição de diagnósticos puramente descritivos para predições quantitativas e multiescala de sobrevivência posiciona-se como um pilar fundamental para a otimização dos desfechos clínicos no cancro colorretal, oferecendo uma base sólida para a tomada de decisão terapêutica baseada em evidência algorítmica.

 

1 Wang, N., Lin, J., Li, W. et al. Deep multimodal state-space fusion of endoscopic-radiomic and clinical data for survival prediction in colorectal cancer. npj Digit. Med.

 

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O papel da nutrição no cuidado da pessoa com ostomia: mais do que alimentação, uma estratégia terapêutica https://saudeonline.pt/o-papel-da-nutricao-no-cuidado-da-pessoa-com-ostomia-mais-do-que-alimentacao-uma-estrategia-terapeutica/ https://saudeonline.pt/o-papel-da-nutricao-no-cuidado-da-pessoa-com-ostomia-mais-do-que-alimentacao-uma-estrategia-terapeutica/#respond Thu, 09 Jul 2026 08:30:51 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188380 Diana Pereira Alexandre, 0396N, e Ana Raimundo Costa, 0451N - Nutricionistas especialistas em nutrição clínica, Fundação Champalimaud

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Uma ostomia derivativa ou de eliminação é uma abertura cirúrgica no abdómen que exterioriza uma parte do intestino, permitindo a recolha das fezes num saco coletor fixado à parede abdominal. As causas mais comuns que levam à necessidade de uma ostomia desta natureza são o cancro colorretal, as doenças inflamatórias intestinais como a Doença de Crohn, e a doença diverticular.

A presença de uma ostomia derivativa tem implicações na alimentação, sobretudo na fase inicial, para evitar a obstrução do estoma e para que o intestino tenha tempo de curar e de ser restabelecido o trânsito intestinal. A dieta deve ser restrita em resíduo, fracionada em refeições de pequeno volume e com hidratação adequada. adequada.

Embora não exista uma dieta única para as pessoas com ostomias, como cada organismo reage de forma diferente, existem cuidados alimentares específicos que devem ser individualizados de acordo com o tipo de ostomia, os sintomas gastrointestinais e a tolerância alimentar de cada um.

Para quem tem uma ileostomia (a derivação é feita no intestino delgado — íleo) a alimentação pode tornar-se mais complexa e diferente do habitual, com restrições impostas pela ocorrência frequente de diarreia e pelos movimentos e ruídos involuntários do intestino, causando desconforto e algum constrangimento, sobretudo no início.

Nas primeiras semanas após a cirurgia, a alimentação deve ser restrita em resíduos, isto é, nos alimentos que contêm fibra insolúvel (não solúvel em água e que passa no trato gastrointestinal sem ser digerida, acelerando o trânsito intestinal), como é o caso dos cereais integrais, cascas e sementes das frutas, vegetais de folha verde escura, vegetais crus, frutos oleaginosos e sementes. Outros alimentos ricos em fibra e cuja fermentação no intestino pode formar gases, distensão abdominal e cólicas são os brócolos, couves, leguminosas, a evitar consoante o seu efeito.

A digestão da lactose (açúcar do leite e derivados) também pode causar sintomas gastrointestinais adversos e ser necessário restringir. A ingestão de água e de infusões em quantidade adequada ao longo do dia é fundamental para prevenir a desidratação, já que é comum ocorrer diarreia. Comer devagar e mastigar ativamente os alimentos facilita a sua digestão.

Passado o período inicial, os alimentos retirados e que sejam fundamentais para uma alimentação saudável, devem ser introduzidos gradualmente, um a um, para testar a tolerância.

Para quem tem colostomia (a derivação é feita no cólon), são menos as restrições alimentares e o risco de desidratação ou de perdas nutricionais é menor, uma vez que parte do cólon permanece funcional, permitindo absorção de água e de sais minerais e uma consistência fecal mais formada.

Embora seja mais rápido retomar uma alimentação igual ou próxima do padrão habitual do que no caso da ileostomia, é à mesma necessário identificar a tolerância individual aos alimentos que provocam gases, ou que alteram a consistência das fezes.

A alimentação pode ter, também, um impacto psicológico para a pessoa com ostomia. O receio de complicações, fugas ou desconforto pode levar a restrições alimentares excessivas, resultando em perda de peso e de massa muscular e comprometendo o estado nutricional, particularmente em pessoas já vulneráveis.

Neste contexto, o acompanhamento nutricional especializado deve integrar os cuidados multidisciplinares à pessoa com ostomia, promovendo autonomia alimentar e otimizando o estado nutricional e a qualidade de vida.

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Quando a resiliência deixa de ser suficiente https://saudeonline.pt/quando-a-resiliencia-deixa-de-ser-suficiente/ https://saudeonline.pt/quando-a-resiliencia-deixa-de-ser-suficiente/#respond Fri, 03 Jul 2026 08:30:09 +0000 https://saudeonline.pt/?p=188135 Médica Assistente de Medicina Geral e Familiar, USF Maria da Fonte - ULS Braga

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Nos cuidados de saúde primários habituámo-nos a resolver problemas. Quando faltam médicos, redistribuímos listas. Quando aumentam as necessidades da população, reorganizamos agendas. Quando surgem novas exigências administrativas, absorvemo-las entre consultas, telefonemas e visitas domiciliárias.

A capacidade de adaptação e plasticidade sempre foram das maiores forças motrizes da Medicina Geral e Familiar. Mas quando um sistema depende continuamente da capacidade de adaptação dos seus profissionais para conseguir funcionar, talvez o problema já não seja a capacidade de adaptação. Talvez seja o próprio sistema. Enquanto coordenadora de uma unidade de saúde experienciei, durante largos meses, a realidade de gerir uma equipa deficitária em vários médicos, tentando garantir a continuidade de cuidados, proteger os profissionais remanescentes e responder às necessidades de uma população que legitimamente continuava a exigir cuidados de saúde.

Paralelamente a este desafio profissional contínuo, fora da unidade, existia outra realidade pessoal igualmente exigente: a de ser mãe e cuidadora de uma criança com doença crónica. Estas experiências recordaram-me uma evidência tantas vezes esquecida: os profissionais de saúde não deixam de ser pais, mães, filhos ou cuidadores quando entram ao serviço.

Apesar disso, continua a existir uma cultura silenciosa que valoriza a disponibilidade permanente e encara o reconhecimento dos próprios limites como um sinal de menor compromisso profissional. Mas cuidar nunca deveria implicar o deixar de cuidar de si. A conciliação entre vida profissional, familiar e pessoal não constitui um privilégio nem uma concessão organizacional. Constitui sim um alicerce fundamental e inequívoco para a sustentabilidade dos profissionais e das equipas nas suas mais variadas facetas.

Da mesma forma, as ausências médicas não devem ser encaradas exclusivamente como um problema de acesso ou de gestão de agendas, pois, muitas vezes, essas ausências são simplesmente o resultado previsível de equipas sujeitas, durante demasiado tempo, a sobrecarga assistencial, pressão organizacional e desgaste emocional acumulado. Durante anos elogiámos a resiliência dos profissionais. Talvez tenha chegado o momento de reconhecer que nenhuma organização pode assentar, indefinidamente, na capacidade individual de suportar o insustentável.

A humanização dos cuidados de saúde começa inevitavelmente dentro das organizações. Não é possível exigir empatia, disponibilidade, escuta ativa e capacidade de cuidar a profissionais que trabalham continuamente no limite. É fundamental a discussão acerca das condições necessárias para que aqueles que permanecem possam continuar a exercer Medicina com qualidade e humanidade. Porque cuidar dos profissionais não é um benefício laboral, é uma estratégia de fixação de recursos humanos, é um requisito de qualidade e é, provavelmente, uma das condições essenciais e determinantes para garantir o futuro dos cuidados de saúde primários em Portugal.

Um SNS verdadeiramente humanizado mede-se não apenas pela forma como acolhe, cuida e trata dos seus utentes, mas igualmente pela forma como também cuida daqueles que todos os dias cuidam dos outros.

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