Em-Destaque - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/em-foco/ Notícias sobre saúde Tue, 23 Jun 2026 14:29:10 +0000 pt-PT hourly 1 https://saudeonline.pt/wp-content/uploads/2018/12/cropped-indentity-32x32.png Em-Destaque - Saúde Online https://saudeonline.pt/noticias/em-foco/ 32 32 Imigração aumenta pressão sobre o SNS, mas falta de médicos é mais complexa, afirmam administradores https://saudeonline.pt/imigracao-aumenta-pressao-sobre-o-sns-mas-falta-de-medicos-e-mais-complexa-afirmam-administradores/ https://saudeonline.pt/imigracao-aumenta-pressao-sobre-o-sns-mas-falta-de-medicos-e-mais-complexa-afirmam-administradores/#respond Mon, 22 Jun 2026 16:54:17 +0000 https://saudeonline.pt/?p=187798 Da parte dos administradores hospitalares, Xavier Barreto ressalvou, por um lado, que a imigração ilegal representa “uma parte muito residual” dessa pressão acrescida sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e acrescentou, por outro lado, que a explicação para a falta de médicos é bem mais complexa.

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 O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) reconheceu hoje que o aumento do número de utentes, devido à imigração, coloca sobre o SNS uma pressão acrescida, mas não justifica, por si, a falta de médicos de família. “É muito difícil imputar a responsabilidade da situação em que estamos a um único fator”, começou por dizer Xavier Barreto, em declarações à Lusa, reconhecendo o “aumento enorme da população, via imigração”, que a ministra da Saúde apontou, no sábado, como contrapeso ao reforço dos médicos de família.

“As circunstâncias que vivemos, com o aumento populacional brusco – causado pelo acolhimento de imigrantes que entraram no país sem regras e sem humanismo, a que acresce a existência de redes organizadas que se aproveitam da bondade da democracia e de negócios ilegais assentes nas ineficiências dos sistemas de saúde de outros países -, fazem com que o esforço e o sucesso que temos tido no aumento do número de médicos de família pareça não existir”, afirmou Ana Paula Martins, durante uma intervenção no congresso do PSD.

Da parte dos administradores hospitalares, Xavier Barreto ressalvou, por um lado, que a imigração ilegal representa “uma parte muito residual” dessa pressão acrescida sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e acrescentou, por outro lado, que a explicação para a falta de médicos é bem mais complexa. “Se a população aumenta e se essa população tem necessidade de ter acesso ao SNS, o que nós temos que fazer – partindo do pressuposto de que essa população faz falta e que está cá a trabalhar – é capacitar o SNS”, defendeu.

Para o responsável, capacitar o SNS passa, sobretudo, por melhorar a capacidade infraestrutural das unidades de saúde e reter mais médicos no setor público, mas também repensar a organização dos profissionais e dos cuidados. “Se tivéssemos, por exemplo, novas profissões ou profissões que já existem, mas adquirem novas competências, a ter um outro papel na prestação de cuidados, provavelmente o número de médicos que temos já seria suficiente porque poderiam concentrar-se, por exemplo, a fazer novas consultas e novos diagnósticos”, explicou.

Na prática, essa reorganização poderia passar pela atribuição da gestão de doentes crónicos a enfermeiros, ou pelo reforço dos rastreios e vacinação nas farmácias, cenários que Xavier Barreto disse já existirem noutros países. “Não podemos olhar para isto de uma forma simplista. Não podemos dizer que são só os imigrantes ou que é só a retenção de profissionais ou que é só a organização. São várias coisas e todas têm que estar alinhadas”, concluiu.

O Instituto Nacional de Estatística atualizou hoje o número de residentes em Portugal para 11.424.031 pessoas, graças à contabilização de 1.597.539 pessoas estrangeiras. De acordo com o INE, os dados anteriormente divulgados foram atualizados, concluindo que, “entre 2021 e 2025, a população residente aumentou 824.914 pessoas, destacando-se os anos de 2022, 2023 e 2024, nos quais se verificaram fluxos migratórios excecionalmente elevados, traduzindo-se em acréscimos populacionais”, respetivamente, de 330 mil, 275 mil e 183 mil pessoas.

SO/LUSA

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O que é que sente perante este novo desafio de ser o presidente da Sociedade Europeia de Glaucoma?

Por um lado, a pessoa fica sempre contente com estas distinções, mas, por outro, eu já sabia com 2 anos de avanço. Há sempre aquela noção de que somos o presidente eleito, o que permite alguma continuidade, nomeadamente na passagem de pastas. É verdade que a tomada de posse é sempre um momento de novo empenho e de uma nova responsabilidade e sente-se alguma alegria pelo trabalho reconhecido.

Já há um trabalho de fundo como vice-presidente, cargo que exerci durante o último biénio. É muito confortante sentir que a sociedade confia em mim para os desafios dos próximos dois anos. É gratificante saber que os melhores da área, os gigantes desta sociedade – que eu creio ter os melhores da Europa -, confiam em mim para liderar as decisões, sempre em equipa. Ter este mérito reconhecido é muito gratificante.

E quais são os seus objetivos para este mandato?

Temos vindo a implementar várias estratégias e há aqui uma continuidade de projetos que têm sido fantásticos. Acabámos de lançar a 7.ª edição das guidelines do glaucoma, que já aborda temas como a inteligência artificial (IA) e define diretrizes para cirurgias, solidificando o raciocínio clínico sobre os vários tipos de glaucoma. Agora, o trabalho é de implementação: fazer chegar ao oftalmologista no terreno, e às sociedades científicas, que mudou o paradigma destas guidelines.

Por outro lado, estamos focados no potencial da inteligência artificial. Pessoalmente, sou um adepto das novas tecnologias, mas são ferramentas que têm de ser bem usadas. Temos um conjunto de task forces na sociedade que tentam explicar, por exemplo, se os rastreios passam a ser possíveis com estas tecnologias e se a forma como trabalhamos as imagens e os diagnósticos pode ser otimizada. Esse é um dos nossos esforços: como sociedade científica, temos de dar resposta ao que se sabe, ao que ainda é experimental e ao que já está validado.

Do ponto de vista institucional, estamos a reforçar a ligação à Europa. É espantoso como as pessoas se voltam cada vez mais para este continente. No nosso recente congresso em Bruxelas, um em cada quatro participantes já era extraeuropeu – vindos da América Latina, Ásia e Médio Oriente – , procurando a Europa como fonte de crescimento e colaboração. Os horizontes da ciência não têm limites geográficos e, quando produzimos bons materiais educativos e temos boas reuniões, as pessoas olham para a Europa como líder. Isso aumenta a nossa responsabilidade, mas é muito gratificante.

“Por exemplo, em 2023, realizámos um estudo-piloto em Lisboa com IA para rastreio. Chamámos cerca de 1.000 doentes e, dos que foram positivos, um terço já apresentava glaucoma moderado a grave”

Relativamente ao glaucoma, o que é que o preocupa mais hoje em dia?

O que é crítico, e que discutimos em todas as reuniões, é o facto de ser o “ladrão silencioso da visão”. Não tem sintomas e tem a perversidade de que 50% das pessoas que têm a doença não sabem que a têm. É preciso ir ao oftalmologista, mas se a doença é silenciosa, porque é que a pessoa há de ir? Quando nos procuram, muitas vezes é porque já não veem, e como a doença é irreversível, já só conseguimos gerir o dano. O glaucoma é o exemplo paradigmático do que devia ser uma doença preventiva: deveríamos ir à procura dela antes de causar problemas.

Por isso, estamos muito preocupados com os rastreios. Trabalhamos com organizações de doentes – que são key stakeholders – para perceber as suas necessidades. Por exemplo, em 2023, realizámos um estudo-piloto em Lisboa com IA para rastreio. Chamámos cerca de 1.000 doentes e, dos que foram positivos, um terço já apresentava glaucoma moderado a grave. Mesmo em Lisboa, quando vamos à procura da doença em assintomáticos, percebemos que o sistema não está a funcionar bem. O objetivo do meu mandato é deixar de olhar para o glaucoma como um problema inultrapassável. Já temos ferramentas; agora temos de escolher a melhor solução, não apenas identificar o problema.

Não deveria haver uma maior interligação com a Medicina Geral e Familiar?

Essa é uma boa observação. Portugal é um dos países que faz rastreios nos cuidados primários para a retinopatia diabética, a segunda causa de cegueira, com retinógrafos e sistemas de gestão de doentes. O que propomos, e já temos um centro pioneiro no Hospital de Santa Maria, é: se já temos o setup montado para a segunda causa de cegueira, porque não rastrear a causa principal, que é o glaucoma? Antes, não era possível fazer isto com humanos, mas agora temos a IA. Estamos anos-luz à frente de muitos países que se consideram líderes, mas que não têm isto de forma estruturada.

Considerando o seu trabalho com a inteligência artificial, acha que deveria haver mais legislação?

O problema não é a legislação. Portugal é, aliás, o único país da Europa que prevê que se deveriam fazer rastreios ao glaucoma. O problema é tecnológico e de eficiência. Imagine, temos X oftalmologistas; se a doença atinge 4% da população, teríamos de rastrear 100 pessoas para encontrar 4 casos. Isso não é eficaz, porque não temos tempo médico para isso.

A IA ajuda porque pode fazer este primeiro passo de forma contínua, sem fadiga. Se a máquina triar essas 100 pessoas e me enviar 8 casos suspeitos, eu já consigo absorver esse volume. O que torna o processo exequível é a IA conseguir filtrar a população.

“Há subtilezas, como as diferenças anatómicas entre populações (asiáticos, africanos, europeus), que podem levar a erros se a máquina não tiver sido treinada com uma base de dados diversa”

E quanto à formação dos profissionais de saúde nesta área?

Esse é um problema transversal. Como as pessoas muitas vezes não sabem como os algoritmos são feitos, confiam cegamente no resultado. O risco na saúde é saber até que ponto estas ferramentas estão validadas. É aí que as sociedades científicas entram: temos de explicar que a IA será tão forte quanto o treino que foi dado à máquina. No glaucoma, é um reconhecimento de padrões complexo.

Há subtilezas, como as diferenças anatómicas entre populações (asiáticos, africanos, europeus), que podem levar a erros se a máquina não tiver sido treinada com uma base de dados diversa. Garantir a segurança é fundamental para, primeiramente, “não lesar”. Mas o copo está meio cheio: só estamos a discutir os desafios da implementação do rastreio com IA, porque já o conseguimos realizar.

Estar à frente da Sociedade Europeia do Glaucoma será uma forma de dar ainda maior destaque ao que se faz em Portugal?

É prestigiante ter sido o primeiro português a liderar esta sociedade, mas sou o último de uma longa linhagem de oftalmologistas portugueses com lugares de soberania na oftalmologia internacional, como a professora Filomena Ribeiro ou o professor Cunha Vaz. Somos um país pequeno, mas com uma educação médica muito boa e uma mentalidade de resolver problemas. Lá fora, reconhece-se essa atitude proativa. Não é um caso isolado; é o resultado de décadas de trabalho da Oftalmologia portuguesa.

Maria João Garcia

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