Miguel Guimarães: Não existem condições para novos cursos de Medicina

Para os defensores da rotatividade regional, Miguel Guimarães surge como o candidato melhor posicionado, porque há mais de seis décadas que o Norte não elege um bastonário. Em entrevista, o candidato revela as medidas que irá implementar se for eleito

Denuncia pressões dos poderes político e económico para que o médico tenha um papel cada vez menos humanista e crescentemente utilitário. Em que se traduzem essas pressões?
Em questões muito concretas como, por exemplo, a diminuição excessiva dos tempos de consulta, os critérios cada vez mais ambiciosos para a produção cirúrgica ou a enorme burocratização de todo o processo clínico.

Conhece alguma situação em que essas pressões tenham prejudicado a saúde dos utentes ou posto em causa a relação médico-doente?
Não me vou referir a nenhum episódio concreto, até por dever de lealdade profissional para com os colegas, mas esta pressão pela produtividade e pelos resultados está a abalar todo o sistema, com sérios riscos para a saúde dos doentes e dos próprios médicos. Exemplo disso são as escalas de urgência superiores às 12 horas de trabalho consecutivo recomendado. O burnout na classe médica é uma realidade efetiva. E, nesta medida, a probabilidade do erro em saúde aumenta.

O tempo é um bem cada vez mais escasso no contacto entre médicos e doentes. Com os sistemas informáticos de premeio e a fixação de tempos mínimos de consulta é possível melhorar?
É possível resolver o problema dos processos informáticos e isso vai representar ganhos no tempo para os doentes. Basta que haja maior investimento na manutenção dos equipamentos – neste momento bastante obsoletos – e que seja melhorada a articulação entre as diversas aplicações dedicadas à prescrição e ao processo clínico. E claro minimizar a burocracia.

Tendo em conta a aposentação de especialistas nos próximos dois a três anos, é exequível a redução faseada e rápida das listas de utentes dos médicos de família?
A redução das listas de utentes terá de ser sempre faseada. No entanto, ao ritmo a que estamos a formar novos médicos de família – e estão a entrar anualmente cerca de 470 internos para a especialidade – vamos ter um número mais do que suficiente para acomodar essa alteração e garantir que todos os cidadãos portugueses tenham um médico de família e, sobretudo, tenham mais tempo com o seu médico de família.

Defende a contratação de mais especialistas em medicina geral e familiar. O que propõe?
Defendo a contratação de todos os especialistas em medicina geral e familiar formados em Portugal, o que não está a acontecer. É justo dizer que o ministério [da Saúde] fez algum esforço nesse sentido mas, ainda assim, claramente insuficiente. Os concursos têm sido lentos, pouco transparentes e muitas vezes não adequados às necessidades das unidades funcionais. Por outro lado, não tem sido feito o esforço necessário para travar o fenómeno da aposentação precoce, da emigração e da opção exclusiva pelo sector privado.

A manterem-se os atuais volumes de recursos saídos das universidades, o desemprego médico é um cenário que se perspetiva a prazo?
Não é um cenário que esteja no horizonte, mas isso não nos deve desviar do problema estrutural nesta matéria: o número excessivo de estudantes de Medicina que existe em Portugal.
O contingente especial de 15% para licenciados deve ser substancialmente reduzido e deve ser repensada a totalidade do numerus clausus, adaptando-o à capacidade formativa do sistema. De resto, não são necessários nem existem condições para novos cursos de Medicina, sejam públicos ou privados.

A compatibilização entre a inovação e a sustentabilidade é uma falsa questão?
Não. É uma questão importante e para a qual a Ordem dos Médicos deve estar atenta. No meu programa, coloco a incorporação da verdadeira inovação diagnóstica e terapêutica na atividade clínica como uma prioridade. E digo verdadeira inovação porque deve haver uma distinção clara entre o que é verdadeiramente inovador e o que é propaganda da indústria. Nesse sentido, e sem comprometer a sustentabilidade dos diversos sectores da saúde, é fundamental acolher as novas soluções terapêuticas e fazer com que os médicos participem mais nas actividades de investigação.

A que se refere quando fala em “defender a medicina e os doentes de práticas que não têm validade científica comprovada”?
Refiro-me às ditas terapêuticas não convencionais, às quais muito recentemente o poder político reconheceu um estatuto idêntico ao da Medicina, isentando-as de IVA. Para mim, é chocante e ofende a evolução que se registou na ciência médica. Os doentes devem saber que a maior parte deste tipo de práticas, se não todas, não têm qualquer evidência científica comprovada e, nesse sentido, não fazem bem à saúde, contrariamente ao que é amplamente publicitado.

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