Maior inteligência na infância relacionada com menor mortalidade

De acordo com resultados de um estudo prospetivo publicado no British Medical Journal, um maior grau de inteligência aos 11 anos de idade está relacionado com menor risco para a maioria das causas de morte aos 79 anos

“Em geral, o efeito foi semelhante entre homens e mulheres (embora marginalmente maiores entre as mulheres), com exceção da morte por suicídio, que teve uma associação inversa com a inteligência na infância entre os homens, mas não entre as mulheres”, assinala Catherine M. Calvin, assistente de investigação de pós-doutoramento e seus colaboradores, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido.

“Em um subconjunto representativo com outras informações sobre o contexto dos pacientes, houve evidências de que o status socioeconómico na infância e os indicadores da condição física não tiveram mais do que um impacto confuso moderado nas associações observadas”.

Os investigadores acompanharam uma coorte de 33.536 homens e 32.229 mulheres, todos nascidos em 1936 na Escócia e todos os participantes do Scottish Mental Survey de 1947, ao longo de 68 anos, até dezembro de 2015.

Os autores analisaram a relação entre a inteligência, com base no Scottish Mental Survey de 1947, e as causas específicas de morte, como doença coronária, acidente vascular cerebral, determinados tipos de cancro, doenças respiratórias, doenças do sistema digestivo, causas externas e demência. Os investigadores realizaram também análises de sensibilidade para abordar o potencial das variáveis ​​de confusão.

Os investigadores usaram a escola frequentada como medida indireta para o ajuste da potencial confusão por status socioeconómico. Da análise efetuada, foi possível concluir pela possibilidade de excesso de ajustes, já que algumas escolas exigem comprovação prévia de capacidade cognitiva, escrevem os autores.

“Nos modelos ajustados por fatores de confusão que incluíram três indicadores do status socioeconómico na infância, a relação entre a inteligência e a mortalidade ou a mortalidade por doenças cardiovasculares, qualquer tipo de cancro, cancro relacionado com o tabagismo, doença respiratória ou doença digestiva foi atenuada de 7% a 26%”, informa o estudo. O acréscimo das condições físicas ao modelo teve uma repercussão pequena (faixa de atenuação de 10 a 26%).

Causas de morte  e QI na infância

Todas as causas da morte foram inversamente relacionadas com o quociente de inteligência (QI) na infância. Após o ajuste por idade e sexo no momento do teste, cada desvio-padrão (DP) adicional de maior pontuação de inteligência (aproximadamente 15 pontos) foi associado a redução de 20% do risco de morte em geral (hazard ratio = 0,80).

Uma unidade de desvio-padrão maior da pontuação foi relacionada com redução de 24% do risco de morte cardiovascular e de morte por acidente vascular cerebral. Outras causas de morte associadas ao quociente de inteligência foram: redução de 25% do risco de doença coronária, redução de 28% do risco de doença respiratória, redução de 18% do risco de doença digestiva, redução de 19% do risco de lesão, e redução de 16% do risco de demência.

Além disso, cada aumento da pontuação do desvio-padrão foi associado a um risco 18% menor de cancro relacionado com o consumo de tabaco e 14% menor para todos os tipos de cancro. A redução de 4% do risco de cancro não relacionado com o tabagismo, entretanto, não atingiu significância estatística. Não houve associação significativa entre o suicídio e a inteligência na amostra completa.

As conclusões agora divulgadas, corroboram as de vários outros estudos, com a força adicional de que este estudo abrangeu uma população total, em vez de apenas homens, escreveram Daniel Falkstedt, PhD, do Karolinska Institutet e Anton Lager, PhD, do Centre for Epidemiology and Community Medicine, ambos em Estocolmo (Suécia), no editorial que acompanha o estudo, estes especialistas dizem que o estudo agora apresentado confirma a associação significativa entre a mortalidade e a inteligência infantil.

“A novidade deste estudo é o acompanhamento excecionalmente abrangente das principais causas de morte até uma idade na qual quase metade dos participantes já morreu, escrevem os investigadores. Ao ir além dos estudos sobre todas as causas de mortalidade, esses autores conseguem esclarecer uma relação de difícil interpretação entre a inteligência inicial e o risco subsequente de morte.

QI, “integridade do sistema” e resiliência

Estimular o quanto da associação é atribuível à hereditariedade em comparação ao estilo de vida ou ao acesso a vantagens socioeconómicas maiores, no entanto, continua a constituir um desafio, sublinham os editorialistas.

A atribuição primária desta relação com a genética difere “da perceção, comum entre os epidemiologistas sociais, de que a inteligência superior está associada ao sucesso no sistema educacional, e a condições ambientais ​​e estilos de vida favoráveis (uma cultura antitabágica, por exemplo) ligados a uma melhor educação, trabalho e rendimento e, além disso, de que uma maior inteligência pode ajudar as pessoas a reconhecer e a lidar melhor com riscos diários, como o trânsito, explicam.

Falkstedt e Lager recomendam a análise dos resultados do estudo no contexto dessa ideia genética, segundo a qual o quociente de inteligência de um indivíduo pode sinalizar diferenças individuais de “integridade do sistema” e de resiliência e, em última análise, diferenças individuais de longevidade.

Os exemplos mais claros de relações de dose-resposta ocorreram nos óbitos causados ​​por doença cardiovascular, doença coronária, acidente vascular cerebral, cancro relacionado com tabagismo e doença respiratória, escrevem. As associações ainda revelam a influência de fatores de estilo de vida, como o tabagismo, na relação entre a inteligência e o risco de mortalidade, e a distribuição do tabagismo ao longo do contínuo socioeconómico “pode ser de particular importância aqui”, explicam.

De forma importante, o estudo mostra que o quociente de inteligência na infância está fortemente associado às causas de morte que são, em grande medida, dependentes de fatores de risco já conhecidos. Resta saber se esta é a história completa ou se o quociente de inteligência sinaliza algo mais profundo, e possivelmente genético, em sua relação com a longevidade.

BMJ. 2017; 357: j2708, j2932. Artigo, Editorial

 

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