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Das Urgências aos Cuidados Primários – Sempre o Calvário!

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O problema do afluxo de doentes aos serviços de urgência hospitalares merece reflexão. E os tempos de gripe só servem para reforçar tal necessidade!

E nem se invoca aqui o peso ou o contexto da procura de serviços idênticos na esfera da oferta hospitalar privada, na qual naturalmente o impacto das seguradoras e da dimensão dos utentes de sub-sistemas, com a ADSE à cabeça, será relevante.

De facto a discussão e análise do padrão de utilização dos serviços de urgência hospitalares justificaria detalhada abordagem, tanto mais que sem esse esforço, estou convencido firmemente que não haverá políticas bem sucedidas.

O primeiro ponto que me intriga é como, pese embora o profundo trabalho de reorganização dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) e até o alargamento da sua resposta em número de médicos de família, em percentagem de utentes com médico atribuído, em número de unidades com estruturas físicas mais modernas e apetrechadas, disponibilização de consultas abertas e serviços de resposta permanente ou a situações agudas, o afluxo de doentes às urgências hospitalares não sofreu alteração!

Pretender que as unidades hospitalares mantenham capacidade de resposta no cenário em curso, com envelhecimento populacional, crescendo de doenças crónicas e complicações associadas e ainda as co-morbilidades, torna-se mais do que um exercício um martírio…

Salvaguardando os períodos sazonais associados a condições ambientais e térmicas mais extremas, o quociente de procura de urgências por situações clínicas de justificação e gravidade muito relativas ou mínimas é muito elevado. A atracção por capacidades de realização de exames complementares de diagnóstico ou eventualmente a noção de atendimento multi-disciplinar constituirá vector mais determinante do que o da conveniência duma porta sempre aberta, em qualquer dia e em qualquer horário?

E em que medida em que esta conveniência ou jeito deve continuar a ser paga por todos nós, nomeadamente pelos outros doentes que, verdadeiramente num serviço de urgência deverão ser atendidos nas melhores condições possíveis?

Para não nos questionarmos aqui e neste momento sobre o facto – muito relevante – do horário e calendário dessa procura, uma vez que no horário de funcionamento efectivo dos CSP, era para aí que essa procura deveria ser dirigida…

Nesta medida e eis uma segunda questão para análise, a Reforma dos CSP falhou.

E falhou porque, na realidade, os cidadãos não alteraram o seu comportamento e continuam a procurar nas situações agudas os hospitais e não as unidades em que livremente se inscreveram!

Falhou principalmente porque todos os Governos se “marimbaram” para a educação e literacia para a saúde!

Obviamente num contexto bem mais global de que somos um país em que ninguém quer prevenir, na saúde, como nos fogos florestais!

E falhou igualmente porque, sendo aos CSP que em termos legislativos e consensuais cabe ou compete uma resposta a situações agudas e não urgentes, o tal período de até 24 horas, nada em matéria estratégica tem sido feita para o seu cumprimento e observância, em particular, pelos utentes que se furtam a este procedimento.

E esta discussão deverá prolongar-se numa outra vertente, a das Unidades Locais de Saúde (ULS), sobre as quais parece haver tantos defensores e seguidores, sem preocupações ou prioridades sobre a questão do seu modelo de financiamento.

Que qualidades se reconhece a este modelo, designadamente em termos capitacionais, quando não discutimos nem as respectivas necessidades em saúde, nem os desempenhos, nem os ganhos em saúde?

E quando, claramente, não se conhece nenhum inquestionável estudo da qualidade de integração de cuidados ou dos movimentos da procura das urgências hospitalares neste ambiente…

Não vale a pena escamotear a grande verdade. Todos e incluo os órgão do poder e administração central, conhecem estas realidades. Toda a gente e os programas eleitorais também, assinalam os CSP como a porta de entrada no SNS. Mas, infelizmente, insistem na entrada pelos serviços de urgência…

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