23 Jun, 2017

Estudo revela que analgésico ideal para prevenção da dor da criança sujeita a punção venosa é o menos utilizado

O cloreto de etilo em spray representaria uma poupança de 60% nos custos, em comparação com o método farmacológico mais comum, é de ação rápida e não requer penso oclusivo

Um estudo liderado por um investigador da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra (ESEnfC) e por uma enfermeira especialista em saúde infantil e pediatria do serviço de Ambulatório do Hospital Pediátrico de Coimbra vem demonstrar que o cloreto de etilo em spray poderá ser o método analgésico ideal para prevenir a dor associada à punção com uso de agulha em crianças.

De acordo com os resultados do estudo, da responsabilidade do professor Luís Manuel da Cunha Batalha e da enfermeira Maria Matilde Marques Correia, de entre um conjunto de anestésicos analisados, o cloreto de etilo em spray, que é muito pouco utilizado em Portugal neste cenário clínico, revelou ser “o único que não requer tempo de espera entre a aplicação e a punção”, que “não exige penso oclusivo” e que tem a vantagem de ser “consideravelmente mais barato”.

O estudo “Intervenção farmacológica na prevenção da dor da punção venosa na criança”, que comparou cinco analgésicos de aplicação tópica para prevenir este tipo de dor – também a lidocaína a 10% em spray, o cloridrato de lidocaína a 2% em gel, o EMLA em creme (composto de lidocaína a 2,5% e prilocaína a 2,5%) e a lidocaína a 4% em creme –, mostra que “nenhum dos anestésicos tópicos apresentou superioridade na prevenção da dor” e que “todos se revelaram eficazes, com uma intensidade de dor em mediana abaixo de dois pontos, o que é considerado um bom indicador de qualidade de cuidados na prevenção da dor”.

Ainda segundo resultados do estudo, também “a facilidade da punção, visibilidade e/ou palpação da veia, número de tentativas para sucesso na punção e a cooperação da criança no procedimento foram semelhantes entre os grupos”.

As principais diferenças entre os analgésicos tópicos estudados situam-se, pois, ao nível dos procedimentos requeridos aquando da respetiva aplicação e no tocante aos custos. A utilização do cloreto de etilo em spray representa 40% dos gastos com o método mais dispendioso e, por sinal, mais utilizado: o EMLA.

Este estudo randomizado controlado foi desenvolvido ao longo de três anos (entre 2014 e 2016) e envolveu 350 crianças, com idades compreendidas entre os 6 e os 17 anos, com necessidade de punção venosa, acompanhadas pelos pais.

Afirmam o professor Luís Batalha e a enfermeira Maria Correia que “o uso do cloreto de etilo num departamento de ambulatório pediátrico revela vantagens na relação custo-benefício”, seja “de forma direta (custos financeiros)”, seja “indiretamente, no menor tempo de ausência dos pais no local de trabalho e das crianças na escola”, mas também ao nível dos “custos com os materiais necessários para a aplicação do penso oclusivo e com o trabalho do enfermeiro”. E, ainda, no que toca aos “potenciais benefícios na redução da ansiedade da criança, pela ausência de tempo de espera entre a aplicação do anestésico tópico e a punção”.

“Sem prejuízo para o estudo de outras formas de analgesia farmacológica e não farmacológica para prevenção da dor provocada pela punção venosa nas crianças, o uso do cloreto de etilo deve ser repensado e mesmo recomendado, principalmente num departamento ambulatório pediátrico”, concluem os investigadores.

Falta de evidência científica (estudos com resultados díspares), medo de efeitos secundários, como o de queimadura, efeito vasoconstritor do cloreto, aumentando a probabilidade de insucesso na punção venosa, maior possibilidade de desconforto para a criança, ou maior divulgação de outros fármacos pela indústria, eram razões apontadas para a pouca utilização do cloreto de etilo para alívio da dor associada à punção venosa. Mas que este estudo vem, agora, desmontar.

 

Comunicado de Imprensa

 

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