Doença respiratória ocupacional: Especialistas identificam profissões de risco

Às profissões tradicionalmente associadas a risco de doença respiratória associam-se na atualidade novas profissões, como por exemplo os trabalhadores de conglomerados artificiais de quartzo ou técnicos de medicina dentária

No âmbito do XXXII Congresso de Pneumologia, uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Pneumologia que terminou no sábado, as doenças ocupacionais estiveram em destaque em vários painéis de debate, bem como em comunicações orais e posteres apresentados no evento.

Em nota enviada às redações, a organização da reunião magna da Pneumologia nacional explica que “há profissões classicamente associadas ao risco de doenças respiratórias ocupacionais. Trabalhadores em minas, pedreiras, fundições, trabalhadores que utilizam jato de areia, metalúrgicos ou profissionais da indústria naval, acabam por ser profissões de risco”. A todas estas profissões juntam-se na atualidade novas áreas de atividade igualmente associadas a risco de desenvolvimento de pneumoconioses, como por exemplo os trabalhadores de conglomerados artificiais de quartzo ou técnicos de medicina dentária.

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Segundo Aurora Carvalho, Diretora do Serviço de Pneumologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia “em Portugal, particularmente no norte do país, a silicose é a uma das doenças respiratórias ocupacionais mais prevalente e atualmente está associada fundamentalmente profissões relacionadas com a extração de pedra”. Segundo a especialista, que no XXXII participou num painel organizado pela Comissão de Trabalho de Doenças do Interstício e Doenças Ocupacionais da SPP a silicose é uma das doenças pulmonares ocupacionais mais antigas que continua a causar morbilidade e mortalidade significativas em todo o mundo.

A incidência de doenças respiratórias ocupacionais nos últimos anos tem vindo a diminuir em países desenvolvidos mas, mesmo nesses países, continua a ser responsável por morbilidade e mortalidade significativa no contexto de patologia ocupacional, o que de acordo com os especialistas se deve em parte, ao aparecimento de novas profissões de risco para pneumoconiose.

Sobre prevenção e tratamento Aurora Carvalho sublinha “grande parte destas doenças são preveníveis mas não há tratamento dirigido à doença. Podemos aliviar sintomas, tratar complicações, administrar oxigénio se o doente desenvolve insuficiência respiratória. Nas fases avançadas da doença o transplante pulmonar acaba por ser uma alternativa para estes doentes”.

Para António Jorge Ferreira, do Serviço de Pneumologia do Hospital Universitário de Coimbra, que participou num dos painéis subordinados ao tema “Ano Pneumológico em Revisão” com a abordagem das doenças respiratórias ocupacionais, apesar de estas possuírem uma elevada repercussão na qualidade de vida dos trabalhadores, a verdade é que “estamos perante um grupo de doenças respiratórias que se encontram subavaliadas”, aponta.

Com maior foco na asma ocupacional, António Jorge Ferreira salienta que esta é uma patologia cada vez mais reconhecida como uma importante causa de doença profissional e de incapacidade para o trabalho. “Os seus números têm vindo a aumentar a nível internacional, com particular impacto nos países mais industrializados. Trata-¬se de uma doença caracterizada por limitação variável do fluxo aéreo ou hiperatividade brônquica que tem origem nas condições de trabalho não favoráveis”.

A asma ocupacional pode persistir até mesmo vários anos após a remoção da exposição ao agente causal, principalmente quando o paciente teve sintomas por um longo período antes da cessação da exposição. «Face a esta realidade é fundamental que exista um sistema de vigilância nos locais de trabalho, assegurado por médicos do trabalho e por técnicos de higiene e segurança, de modo a promover a melhoria das condições de trabalho pela eliminação de substâncias nocivas e pela implementação de sistemas de ventilação que permitam aumentar a qualidade do ar”, acrescenta o médico pneumologista.

Segundo o especialista em doenças respiratórias ocupacionais “apesar do esforço que tem vindo a ser desenvolvido no sentido de identificar determinadas patologias, nem sempre existe uma associação direta da causa/efeito. Em termos futuros, preconiza-se um esforço global de melhoria contínua das condições de saúde e segurança no trabalho de forma a minimizar o risco e impacto das doenças profissionais em Portugal, nomeadamente na sua vertente respiratória”.

Pneumologistas de todo o país estiveram reunidos de 10 a 12 de novembro no Algarve para debater os principais desafios profissionais e técnico-científicos desta especialidade médica. Com um novo recorde em termos de participação científica, Venceslau Hespanhol refere que “a Pneumologia é uma especialidade em que a inovação se está a generalizar, ao nível técnico-científico, nomeadamente no que concerne ao conhecimento mais profundo das doenças e à nossa capacidade de identificar e interferir nos mecanismos subjacentes à doença, sempre tendo em vista à melhoria do prognóstico global dos doentes”.

SO/MMM

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