21 Jun, 2017

Conhecimento sobre infeção por VIH não previne comportamentos de risco

Para os investigadores, os fatores conhecidos que melhor conseguem explicar as atitudes de risco são o “otimismo face às terapias e medicamentos disponíveis e a forma como se vivencia a noção de responsabilidade individual”

Um estudo divulgado ontem concluiu que o conhecimento sobre a infeção por VIH e a escolarização não evita comportamentos de risco nos homens que praticam sexo com homens e a confiança relativamente ao progresso médicos conduziu a menos prevenção.

“Ainda é expressivo o uso irregular do preservativo e não foram sinalizadas diferenças significativas entre o conhecimento e as práticas de risco”, revela a investigação “Infeção por VIH entre homens que fazem sexo com homens [HSH]: Fatores de risco e novas trajetórias de seropositividade”, coordenada por Isabel Dias, do Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) e feita a pedido da Direção Geral de Saúde (DGS) devido ao recrudescimento da infeção por VIH entre HSH, sobretudo entre os mais jovens.

Para a investigadora, na base “de um certo relaxamento dos comportamentos preventivos” está a “sensação de confiança no futuro clínico e nos progressos médicos”, que conferiu à infeção por VIH uma representação de “cronicidade”, retirando-lhe “a carga negativa associada a doenças terminais”.

O estudo, feito em parceria do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa e apresentado ontem na FLUP, trabalhou com uma amostra de 671 homens seguidos nos principais hospitais do país, 64,1% dos quais têm “idades entre os 18 e os 44 anos”.

Entre os inquiridos, 26,1% não usa preservativo, 39,7% usa, mas “de forma irregular” quando se relaciona com parceiros estáveis, ao passo que 25,6% tem a mesma atitude com parceiros ocasionais. Isabel Dias destacou a “resiliente proporção de indivíduos que não usa sempre preservativo”, algo que “é mais prevalente nos casos de relações sexuais anais entre parceiros estáveis”.

Para os investigadores, os fatores conhecidos que melhor conseguem explicar as atitudes de risco são o “otimismo face às terapias e medicamentos disponíveis e a forma como se vivencia a noção de responsabilidade individual”.

A coordenadora da investigação notou ainda que o nível de conhecimento sobre o risco de transmissão e sobre os comportamentos preventivos dos inquiridos é “genericamente elevado” e que isso não se traduz em “diferenças relativamente aos comportamentos de risco”. Entre os inquiridos, 33,4% tinham o ensino superior e 38,7% o ensino secundário, sendo que 45% se manifestou “muito bem informado” sobre o risco de infeção e atitudes preventivas, ao passo que 28% indicou estar “razoavelmente informado”.

Para a esmagadora maioria (92%) dos infetados, a transmissão deu-se por via sexual e mais de metade (53%) fez o teste de deteção do VIH “por iniciativa própria”. Entre estes, “mais de um em cada três” (cerca de 36%) decidiu fazer o teste “por ter tido um comportamento de risco.

O estudo permitiu identificar “três perfis”: 20% declaram-se “inativos sexualmente” nos últimos seis meses, 38% dizem que, nesse período, se relacionaram “apenas com um parceiro estável” e a maioria (42%) reconhece manter “relações com pelo menos um parceiro ocasional, independentemente de estar ou não numa relação estável”.

A investigação concluiu que “um em cada três inquiridos se envolve com parceiros” sem conhecer o seu estatuto serológico (estado da infeção por VIH). Quando está em causa um parceiro ocasional, o desconhecimento sobe para “três em cada quatro” inquiridos. Por outro lado, 74% dizem que não revelam o seu estatuto serológico a parceiros ocasionais e 16% não o fazem com parceiros estáveis.

Mais de 34% dos inquiridos vivem sozinhos e 29,8% vivem “com o marido/companheiro”.

“O estado civil dominante é solteiro [78,7%], mas existem indivíduos que vivem sós, que vivem com a companheira, com familiares ou com o companheiro, numa multiplicidade de situações que coloca verdadeiros desafios”, observou Isabel Dias.

As redes sociais foram usadas por cerca de metade dos inquiridos (46%) para encontrar um parceiro sexual, sendo que 60% dizem fazê-lo para “encontrar um parceiro ocasional”. Para “praticamente um em cada três inquiridos”, a Internet foi “a via de recrutamento do primeiro parceiro sexual”.

LUSA/SO/SF

 

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